segunda-feira, dezembro 31, 2018

Eleven hours and counting




Não bastasse

não bastasse a cama sem a 
mediocridade do sangue,
nem o que me falta 
de encadeamento 
nos olhos quando 
sais ao amanhecer,
nunca faltaria 
nada para que se 
compusesse o cenário 
certo para um romance,...

só que a noite 
nunca dá as duas 
faces da mesma forma,
diz-me o nunca ter 
conhecido arrabaldes de madrugada com 
cheiros de religião,
só paganismo em todos 
os montes consecutivos da solidão,...

e não me apetece politizar 
as escaras da minha segunda pele,
não bastasse agora 
perceber que o tempo já não
 volta para trás,
e tenho de medir os
 pontos nos is da 
degradação,
sem o amparo 
do teu respirar,...

não bastasse,
alisava-me no
 enrugar doce do 
que não me basta 
para comer


domingo, dezembro 30, 2018

E pronto, já se lê a eulogia do Inatingivel 2018

há tanta poesia
melhor que uma inveja,
e o teu desejo que escondes
assim,
no bolso,
de soslaio ao passar dos dias,...

e eu sem saber se te enlevo
no amor que não me deste
a conhecer,
ou se te passo o silêncio,
como quem passa o vício,
num leve aperto de duas
mãos vazias,...

sim,
há tanta poesia
melhor que isto,
e os nossos olhos
que não acasalam
como deviam,
ao frio


sábado, dezembro 29, 2018

O Inatingível 2018 está mesmo, mesmo, quase a morrer

ao menos vimos o sol por
cima do anónimo,
 riscando os olhos,
a vida tornava ventos
 menos fortes,
em mortes mais
cheirosas,...

como o feliz que risca
 o carro só para
ser mau,
e o mau que enfrenta
o atrás de lá do medo,
para dormir em cheiros bons,
e no fim de contas,...

quando já nem do
regresso da noite
 encontramos o dia,
vemos madrugadas
de sufocos com os
laços de presentes de
fim,
e é preciso arranhar
 a parede,
para nos
alisarmos
em confronto
à pele morta


sexta-feira, dezembro 28, 2018

Aznavour e o amor

Era um Aznavour compassado. Quase como se estivesse dentro do teu coração, batendo com tudo que em ti me atraía.
Cantava Paris, e ruas a cheirar a vício. A bebida podre. A mulheres incapazes de rendição ao amor. Pus a tua mão em baixo da minha. Sorrimos, sem sequer falar.
O bar fechava, semelhante ao palco desmontado do circo dos moribundos. Quando o ‘Formidable’ se emudeceu, levaste-me para a rua. Caminhámos sem destino, com as paredes daquele sítio sem nome a cair por sobre os nossos corpos,
quase como os lençóis onde te desvirginei, dando-te a primavera que me sussuravas ao ouvido.
À chuva, escrevemos no vento tudo o quanto havia para tornar supérfluo, desnecessário, concedido ao lado negro do mundo.
E tudo acabou quando nos desvanecemos no rio seco das nossas ausências...


quinta-feira, dezembro 27, 2018

O Inatingível 2018 está a viver os seus últimos dias (Enjoy it while you can)


Semi-cheiros

a única coisa que me falta de ti são
os semi-cheiros,
sim, habituei-me a sentir pela metade,
tudo na esguia forma dos teus seres,
que não consigo,
nem consegui,
nunca escrever na minha pele,
quanto mais agarrar e replicar
em sonhos de fruições que,
talvez,
só existam lá no outro
lado do céu sem estrelas,....

ao menos a forma inaudita ficou,
aí,
onde sei que estás mas não consigo
chegar,
giras num caleidoscópio incontável de
momentos replicados em roda
viva,
de vida


quarta-feira, dezembro 26, 2018

Texto al mente

Teria de ser uma situação bem explicada. Com os prós e contras definidos. Ela tinha que aceitar. Por isso escrevi num papel à pressa, com aquela letra de alfaiate que depois não percebia nada, o que lhe tinha de dizer.
Teria que ser ao amanhecer. Ela ia trabalhar para uma casa cheia de gente. Havia o velhote que dormia sozinho num quarto rústico, com uma janela de caserna militar, coberta por uma cortina velha e rasgada, que esvoaçava sempre que a brisa da serra entrava por ali dentro para limpar a clausura daquele espaço.
Depois eram os filhos do velhote: dois inúteis, barrigas de cerveja, que só toleravam andar com camisas ao xadrez, cheias de nódoas. A ideia de ambos era claramente deixar a morte levar o velhote, talvez para se fazerem à casa. Nunca entendi muito bem, mas isso agora não interessava.
Por fim era o personagem mais estranho daquela mansão decadente. Uma mulher quase muda, que só falava quase por monossílabos. Gostava de beber uma quantidade enorme de chás, sempre sem açúcar, e que deixavam um rasto de chavenas pela casa. Escrevi no papel que ela não teria de se preocupar com isto. Só fazer com que o velhote ficasse vivo o  tempo que fosse possível.
Encontrei-a um pouco séria de mais naquela manhã. Dei-lhe o papel esperando que não se pronunciasse. Disse pouco. Só queria saber quanto ia ganhar. Se teria de usar farda,
E quando iria ter férias.
Agora não me apetece escrever mais, porque fiquei sem perceber...



terça-feira, dezembro 25, 2018

Any other christmas

falavas em Natal,
as mãos seguravam o ar como
se o vento te concordasse,
dizias que o mundo era servido
à mesa como chá,
com restolho de folhas
sob a forma de mortos,...

e passou-se o dia quase
como se o tempo,
nem custasse a pagar à solidão,...

agora falta-nos o resto da vida,
e já amanheceu




segunda-feira, dezembro 24, 2018

Ho ho ho


Interrogação incompleta sobre o não saber

havia aquele menino que dizia não saber ler,
mas mesmo assim ele queria ter livros,
e abraçava-os,
e dizia que os espremia até deles saírem letras,
como sumo de limão,
que ele usava para regar os próprios pés,
sem que soubesse muito bem se
o aquecer de querer que sentia,
vinha daquilo ou de não ter ninguém
com quem partilhar tanta pergunta,...

e era tanta coisa que queria saber,
tirava dos olhos o interrogar sobre o viver,
e mesmo assim sentia-se sozinho,
mais sozinho ainda do que quando ia e vinha
nas ondas do próprio acordar,
e acordava molhado de tanta tristeza
em sentir que queria saber mais,
e não tinha como


domingo, dezembro 23, 2018

um bem querer que não vai

haveria dias em que cozia o teu
não estar lá com o mar,
pedindo que nem as montanhas
invisíveis das lágrimas,
fossem mais alguma vez o
mês de todos os anos,
os tempos do multiverso em que não
nos conhecendo,
arrastámos para lá do amor,
a simples
necessidade de fazer parte,
do sangue um do outro,...

aprendamos agora a pulsão
de qualquer coisa a sós,
ouvindo ao longe a música
que as pessoas fazem a invejar
um bem querer que não vai,
acabar


sábado, dezembro 22, 2018

Escrever o ar no ar

não sei se escrever o que
 foi escrito,
quando aqui estava 
apenas alguém 
imerecido de confiança,
será digno 
de um amanhecer 
contigo,...

não sei dizer 
mais que lugares 
comuns de frio,
menos qualquer 
coisa que uma 
noite sem sentido,
e já que só nos resta 
a pedra seca do ir e vir,
pensei 
que a um poema 
se sucedesse outro,
e depois 
viesse o refresco 
seco da tua pele,
e mais 
qualquer coisa 
para além da 
minha inconsciência do real,..

mas não,
deixa estar,
saberei dizer 
solidão com letra 
grande de acordar sem ti 


sexta-feira, dezembro 21, 2018

Copo choco de cerveja

as maiores soluções 
encontrei-as naqueles 
fins de tarde,
sem filtro,
os mesmos que nunca mais 
recuperei ao longo 
desta estrada sinuosa,...

recordo-me de 
berlindares um 
copo choco de cerveja,
aquecido pelo 
trespasse implacável 
dos raios de sol,
quando eu e tu nos 
sentávamos a beber 
um do outro,
com um carvalho
 de cidade ao lado,
que nos amparava 
a raiva dos mortos 
que sentíamos 
ratar o chão,
no qual 
inutilmente 
sobrevivíamos ao 
desdém do tempo...

sem saber o 
que te dizer,
ouvia como 
respiravas pelas 
memórias de tantas 
pessoas inseguras 
que por ali tinham passado,
e era só assim,
ou foi escrevendo 
isto nas peles gastas 
um do outro,
que vimos o tempo 
a esvoaçar para sul,
na transumância 
livre de ter de dizer 
adeus para sempre 




quinta-feira, dezembro 20, 2018

Coisa sem nome e sem sabor chamada tristeza

achámos que seriam manhãs,
já que de todos os lados 
surgiam as mesmas 
crianças envelhecidas,
gritando pelo mar,
por sangue enlatado 
nas experiências frustradas 
de felicidade,... 

por princípio a fase 
do mundo em que 
estávamos seria a possível,
na mesma reta 
sem fim em que 
sabíamos o tempo estar,
e não bastava 
mais que chuva sem fim,
para percebermos 
que o silêncio era
 a arma certa,
o refúgio 
inequívoco 
para prosseguir 
com qualquer 
coisa sem nome,
e sem sabor,
chamada tristeza 


quarta-feira, dezembro 19, 2018

Anonimato

eram somente aforismos,
não podia ser mais que isso,
 já que ninguém se
mostrava disposto a entender
o que estava em causa,
havia uma mulher
irrepreensível,
que recusava
a maternidade,
dois bilhetes de
 lotaria rasgados,
e incobráveis,
e um solo de violino,
naquela viela
escondida da maldade
e
 dos ideais de
sociedade perfeita,...

tudo acabou por
volta da hora em
que os
morcegos morrem,
com a redação
do esboço de um livro de amor trágico,
com uma união
inconsequente
entre duas pessoas que
não se entendiam,
e laivos de poesia mediocre
a voar das carotidas dos cidadãos anónimos,...

às cinco e dezoito desta tarde,
ainda acho que sonhos
destes podem levar ao suicídio


terça-feira, dezembro 18, 2018

a nossa mãe de todos os dias

a nossa mãe de todos 
os dias saiu de casa,
mal o dia saltou do ovo,...

caminhava 
gastando o 
dentro dos pés,
com os 
sapatos gastos,
a navegarem 
como naus catrinetas 
nas ruas molhadas,...

ficámos em casa 
alinhados na 
cama bamboleante,
sem vivalma a 
limpar-nos as lágrimas,
nem para ouvir os 
desgostos sem cor 
que transpiravam 
como fel da fome,...

a nossa mãe de 
todos os dias 
voltou para 
nos ver quase mortos,
embrulhados no 
papel do amor 
que nos espalmava à vida,
como se por ali tivessem
 passado os natais 
que nunca conhecemos,...

deu-nos de comer 
com as mamas escanzeladas,
e no fim 
resumiu-se tudo 
à lua a aconchegar-nos 
num silêncio sem cor,
capaz de nunca 
mais pedir sol 




segunda-feira, dezembro 17, 2018

Alumiar o som



as linhas surdas do que se devolve, 
intocado pelo som,
com destroços de luz,
em escuros que nunca se conheceram,... 

fazemos assim a limitação inodora de ser humano 

domingo, dezembro 16, 2018

Innuendo

habituei-me a ver as pessoas a
 sorrir devagar, 
quase como se um 
pombo moribundo 
levantasse delas,
asperamente,
deixando-as sem 
consciência a pensar 
num espaço sem tempo,
dentro do saco rasgado 
que é a vida à míngua 
de expetativas,...

ao longo desta 
estrada,
recordo-me 
especialmente 
dos sorrisos 
que assim se perdiam,
dos limites 
ultrapassados 
sem nenhuma explicação,
apenas para que,
e já que falamos 
de sorrisos, 
agora os veja a 
regressar,
procurando a 
morte onde 
mais ninguém 
a encontra 





sábado, dezembro 15, 2018

Redigir a despedida

às vezes penso se deveria ter regressado
a estes cadernos,
os mesmos onde a vida me foi emprestada,
e depois deixada sem trono
pela força do vento,
que destrói a simplicidade,...

o mesmo simples de um
criar sem rebordos,
plano,
inspirado só no bater do vento nos olhos,
que inocentemente nos cega quando
fugimos de qualquer coisa,...

pensei nisso com
a maior força de um desejo,
e o que vejo agora é se
às cores do teu sorriso,
conseguirei precaver o som
de um impulso,
o mesmo que ainda me resta
tanto tempo depois de ti


sexta-feira, dezembro 14, 2018

Revolucionário

Ainda me recordo da primeira vez que me ensinaram a ser revolucionário. Tinha ao redor da idade de deixar os cueiros, e estava num café com uma data de velhotes a ouvir relatos de futebol. 
Parecia que toda a gente estava presa ao chão com raízes de eucalipto, e fazia como um eucalipto:
secava o tempo, o espaço, e as emoções.
Era hábito ir aquele sítio, a mando de meus pais. Toda a gente ali já me conhecia como o puto que levava uma mão cheia de tostões para receber em troca várias garrafas cheias de tinto. Entrava mudo e saía calado, coçando o nariz com ranho colado de dias, e que eu só limpava quando a minha mãe me obrigava a tal.
Nesse dia dos relatos de futebol estava frio. Tive de vestir um capote pequeno que eu detestava, e que mais uma vez só usava porque a minha mãe me obrigava.
Mal entrei no café um velhote chamou-me. Normalmente eu não iria. Desde que me lembrava que ouvia dizer para não responder a chamadas de estranhos, porque nunca se sabe onde pode estar a maldade humana. Só que naquele dia fui. O homem vestia um casaco castanho ao xadrez verde, devia ser ou ter sido pescador porque aquilo era roupa de homem do mar. Tinha a barba mal feita, com tufos de palha de aço grisalha espalhados pela cara, a maioria debaixo do queixo. E segurava uma bengala enrolada em fita gomada branca,de cima a baixo. 
-Não sabes que já tens idade para ter vontade própria?
Lançou-me esta pergunta, e eu senti-me como um cão que anda a saltitar nos parques públicos, atrás das bolas que os miúdos chutam de um lado para o outro.
A princípio não quis responder, e dei-lhe as costas para ir em direção ao balcão, e fazer o que fazia sempre ali.
-fiz-te uma pergunta, ou fazes como os macacos e coças a cabeça antes de te ires embora?
Lembro-me de ter sentido qualquer coisa de repúdio, que eu ainda não sabia o que era com aquela idade, por aquilo tudo.
Instintivamente apertei o capote, e respondi-lhe, se calhar sem querer:
-sim eu sei o que quero.
O homem retorquiu em segundos, parecendo ainda menos desconvencido:
-Não acredito. Estou aqui quase todos os dias porque não tenho mais sítio nenhum onde ir, e vejo-te aqui, sempre a fazeres a mesma coisa, de certeza a mando das mesmas pessoas. Sabes que podes dizer não, não podes?
Lembro-me que toda a gente gritou golo naquele momento. Senti-me estranho por não conseguir pensar com tanto barulho. Limitei-me,por isso, a acenar com a cabeça. O velhote, que teria para aí uns largos setentas na altura, sorriu e estendeu a mão para a cadeira ao lado. Pegou num saco de pano, e tirou um livro do interior. Tinha a capa cinzenta, já muito sem tom, e ratada nas pontas. Mostrou-me a capa fugazmente, e só consegui ler O capital.
-Se te der isto tens de me prometer que não dizes que fui eu que to passei, ok?
Voltei a não conseguir responder. Só instintivamente peguei no livro, virei costas, e fui fazer o que tinha a fazer. Sem perceber porquê na altura, virei a capa contra mim para que ninguém visse.
Quando saía daquele sítio, reparei que o velhote que tinha acabado de falar comigo estava rodeado por três homens vestidos de preto, com chapéus, que saíram com ele para a rua, e o puseram num carro, com o homem cabisbaixo, e trôpego no andar.
Na rua todos festejavam. Ouvi dizer que Portugal tinha acabado de derrotar a Inglaterra, na casa deles. Era 1966. Verão...

quinta-feira, dezembro 13, 2018

Retro revolution


Custa tentar escrever bonito...


Hoje acordaste diferente do habitual. Como se a luz te vestisse de indiferença, e os minutos fossem passando sem que dessemos pelo passar do tempo, nem sequer pelos espaços que a solidão deixa entre as palavras, quando elas teimam em não surgir. Trocámos só o essencial, deixando o imprevisto guardado a sete chaves, entre os cofres invioláveis a que as nossas mãos dão forma, quando não sabem onde devem estar.
Perdi a vontade, subitamente, de achar que os acasos são obra de qualquer coisa desenhada, que não conseguimos ver ou sentir. Sentado, a ver-te desvanecer por entre a passagem entre o nosso mundo idealizado, e a realidade desconstruída, tentei achar na minha pele mapas que me levassem de volta a ti. Ao teu aconchego. Ao despir de alma quente que sublinhava nos teus beijos,…
E no fim de tudo, o silêncio…



quarta-feira, dezembro 12, 2018

Sem título (78)

eu tenho até de tentar escrever
enquanto arranho as paredes,
porque já li isto em qualquer lado,
não aguento mais a treta habitual
da caneta na folha branca,
e os versos certinhos,
que tendem para a rima
à esquadria,...

é tudo tão chato,
que só me resta dizer que
tenho a frase certa para
esperar ao sol pelo iluminismo,...

só que me esqueci dela


terça-feira, dezembro 11, 2018

Sombra sem nome e idade

Lisbon, 2012.
© Sónia Silva
http://ocorpoestremecedesaudade.tumblr.com/

eles sublinhavam as letras todas sem cores,
no transparente dos que se mandavam
para os ratos dos pais,
e a putridez dos sexos das mães,...

encontrei tal desgosto num livro
de folhas ratadas,
que boiava num esgoto,
em dia que copiosamente
se desfazia em chuva para o fim,...

o teu amor,
assim,
parecia vegetal,
sem que o conseguisse ouvir
sabendo que o mundo,
nem espaço tem para arrumar
o razoável,...

descontinuando assim as pessoas,
deixando-as à beira de si mesmas,
sem espaço para
voltar à luz do dia,...

assinado:
sombra sem nome e idade

segunda-feira, dezembro 10, 2018

Ti

e é de ti que eu gosto,
das desnecessárias 
revelações de ti,
de ti indefesa,
comigo sobre ti,
com duas respirações 
unidas num átomo,...

nem saberia de mim se de ti
não tivesse do que já me ri,
porque em ti choro 
menos do que quando suspiro,
e se de ti eu escrever o 
suficiente para 
amar tudo o mais
que ontem o fiz,
a ti volto porque sim,
e porque tem de ser


domingo, dezembro 09, 2018

As portas da percepção

se couber dentro das 
portas da minha 
percepção,
as manhãs 
vão abrir-se até a 
boca rebentar 
pelas costuras,
e de não sei 
quê que as velhas 
ficarem a dizer,
nascer um 
novo tempo,
as mesmas somas 
de olhares para 
dentro do vazio,...

por isso pai,
eu quero matar-me,
não de deixar os miolos 
espalhados por onde os vejas,
mas para cuspir 
novas coisas pelas paredes, 
saber filosofar até 
onde o meu respirar permitir,...

e quando vierem 
as contas de ar para pagar,
eu já estarei numa 
dimensão diferente,
como o teu mijo 
que todas as noites 
parece querer ganhar vida 



sábado, dezembro 08, 2018

Desalmadamente

desalmadamente,
escrevia-te assim porque 
desaprendia,
a cada segundo,
a filosofia inocente 
que me ensinaste 
em todos os momentos,
em todos os 
segundos de só estares ali,
afundada na minha 
espera pela morte da 
comiseração,
pelos horrores indescritíveis 
de não ter nada para dizer 
à música do tempo,...

aprendi-te para te conservar,
como agora te digo,
desalmadamente,
com as reservas postas 
na bolsa de fora do ter 
que dizer,
do falar por falar,
e até de achar que,
sem qualquer suporte 
sociológico,
poderemos aspirar a 
andar por cá mais 
do que alguém,
em algum sítio,
tem escrito num 
papelinho para a nossa vida,...

desalmadamente,
anda agora arredondar-te 
comigo,
sabes o meu sonho?,
explodir um dia e 
desintegrar-me mais rápido que a velocidade do som,
para ir passar o fim de tarde onde as 
tardes consigam resistir melhor à 
loucura homicida dos dias 

sexta-feira, dezembro 07, 2018

A importância da cor das flores

Percebia-se pela cor das flores que se adivinhava uma mudança de estação, e com ela as pessoas passariam a ficar mais incompreensíveis, e incompreendidas. As rosas ganhavam um encarnado menos vivo, tísico quase, a mesma cor com que me lembrava dos tuberculosos no asilo que ficava mesmo ao lado de minha casa, e fechou um dia que a polícia percebeu que o diretor tirava a candura as crianças, familiares dos doentes, a troco de pirulitos e moedas de um tostão para silenciar a sinceridade da meninice. Os cravos terminavam o dia brancos. Os malmequeres também. E não me lembro de mais nenhuma flor, porque aprendi a detestá-las, já que me lembravam de tanta coisa junta que prefiro nem enumerar.
Mas era matemático perceber o passar do tempo assim. Aí uma semana depois de se começar a notar o sofrimento dos elementos da natureza, desatavam-se as nuvens nas primeiras chuvas. As ruas pareciam o lago do jardim da cidade, e o lago do jardim da cidade ganhava uma capa multicolor de folhas das árvores, derrotadas das lutas com os ventos crescentes de norte, que normalmente dava lugar a uma mortandade de carpas e outros peixes angustiados pela perda das conversas diárias com o sol que o tempo mais quente trazia.
Eu gostava de me ver a mim mesmo como o doutor mais instruído do bairro nestas coisas. Não havia ninguém que eu conhecesse capaz sequer de perceber todas estas vicissitudes que o tempo traz à natureza. Uns não ligavam. Outros detestavam tudo o que era belo, pois só esperavam a morte e a possibilidade, hipotética, de ver tudo isto a partir do lado de dentro. E outros ainda que pensavam perceber tudo, e não percebiam rigorosamente nada .



 

quinta-feira, dezembro 06, 2018

Cansaço de escrita improdutiva

cansado de escrever,
cansado de descrever à porta
da transversalidade dos dias,
à espera de um não que se
pinte à laia de argumento,
enquanto encostado à brisa
da rejeição,
sou um dos que se acomoda nem
que seja para velho,
para desfazer as novidades enraivecidas
das deceções que nunca soubemos lamentar,...

cansado mesmo de escrever,
contigo ao longe a afastares-me,
enquanto te desfazes no ácido inclusivo
das manhãs indecisas,....

não prevejo mais nada de bom
neste resvalo para o fim


quarta-feira, dezembro 05, 2018

Velho de cor neutra

....um velho de cor neutra,
com a pele encrespada e o cabelo
amarelecido do vento nicotinado,
a sombra da companheira de todas
as horas que,
ao desenbainhar da manhã,
um dia,
expirou o sentido adeus e
abriu as portas da solidão,...

o som ronfenho do fado que o tempo
gasta,
dança com o vento que hipnotiza uma
casa de onde a felicidade se esgueirou,
e ficaram as sombras,
retesadas nos estendais da roupa,
no branco da cama por fazer,...

lá fora o sol uiva o chamamento
pela morte,
e um velho de cor neutra,
encostado ao perfil
de cobre dos dias,
que custam a passar


terça-feira, dezembro 04, 2018

Travis 'Fuckin' Bickle

Poema de quem se esforça por evoluir na escrita

...queria desprender-me daqueles poemas que
nem cheiro deitam,
e depois passar a arrastar-me pelas paragens
de transportes,
com um ar de pessoa doente,
irracional,
que observa as rotinas dos outros.
quase como se masturbasse
 com as mãos nos bolsos,...

no dia em que o tentei
saiu-me um escrito sem
sentido,
com letras díspares,
e com interpretações semelhantes
ao sânscrito,
ou seja sem utilidade,...

tentei obter uma reação
de um frustrado,
e ele,
no alto da sua completa
ausência de expetativa de vida,
respondeu-me que gostava,...

mas que preferia continuar a cozinhar
a comiseração,
em lume brando


segunda-feira, dezembro 03, 2018

O amor cheira mal

porque o amor cheira mal,
todas as coisas fazem parte
do húmus de nada,
e o amor continua a cheirar mal,...

disse-to,
e riste-te quase
como se ambos
estivéssemos
a terminar uma vida bem preenchida,
e eu insisti,
o amor não consegue
virar uma esquina,
espirra só coisas sem cor,
e que infetam as pessoas
de bem deixando-as fracas,
inconsequentes,....

ou seja, o amor cheira mal,
retorquiste com silêncio,
 e começaste a desenhar
círculos no meu palato,
com uma arrepiante
 unha de réptil
retocada pela brisa sufocante
de fim de tarde,
que me entrava pelas vias respiratórias,...

refletido no horizonte,
o teu sorriso contrariava-me,
garantindo que se calhar
o amor não tem cheiro,...

só milhentas formas de adeus









Tirado daqui

domingo, dezembro 02, 2018

Só para cumprir a promessa de escrever, escrever sempre (segunda de dezembro)

Chamo-me José Manuel da Silva Hilário, tenho 48 anos, e vivo no topo desta ruela, encravada no bairro de Alfama, desde que me lembro. Nunca levei uma vacina na vida, porque nunca quiseram isso para mim. Também nunca casei , nunca fui å tropa, e não conheço mais ninguém que goste tanto de usar lenços nos bolsos da lapela como eu. Costumo prendê-los com dois alfinetes de ama ferrugentos, um de cada lado. Tenho a mania de que se não o fizer, como moro num alto onde o vento gosta sempre de lutar com as pessoas, ficaria sem eles.
Gosto, em geral, de mim. Acordo sempre com a boa disposição possível. Ajuda deixar sempre o estore por fechar totalmente, e as três filas de orifícios que ficam abertas, são as suficientes para o sol conversar comigo ainda antes de eu acordar. Acho que tenho essa virtude, conseguir comunicar durante o sono. Ouço os pombos que pousam no beiral da minha janela sempre à mesma hora, e sou capaz de jurar que eles já me disseram que eu devia ter vergonha da minha vida ensombrada. Nunca lhes respondi. Não é que pense que ganharia alguma coisa com isso. Mas sinto que não devo. Eles nunca me iriam responder com algo percetível, capaz de mudar a minha vida. Acho que a minha vida não precisa de ser mudada. Acordo sempre da mesma forma. A olhar para uma fotografia de uma paisagem idilica, com cavalos a correrem por um pasto verde, e o sol a pôr-se em fundo. Depois sento-me na cama. Rezo uma algarviada que sei desde miudo, e levanto-me. 
P.s.: foi uma figura sempre abjeta para mim, mas george bush pai que morreu hoje entra neste video

sábado, dezembro 01, 2018

Era uma vez todas as vezes

era uma vez, 
gostar tanto de dizer isto 
dói a valer como 
se as rugas,
os engilhamentos 
cá de dentro,
se desfizessem 
à medida que 
vivessemos por entre 
as ruas que os raios de sol 
fazem,
e depois congelamos 
nós porque nem sequer as 
entendemos,...

coitados de nós,
os que assim pesam 
mais que eles mesmos 
sem ossos,
sem espinha,
com o coração redigido
 à mão em letra do 
tempo do Gutenberg,...

era uma vez,
acredito numa 
sociedade com 
aquele poucochinho 
de exploração,
só a mesma desonrada 
sensação de egoísmo 
que nem faz parte do 
mesmo querer,...

termino assim,
com dentes na 
menina triste que 
chora em todas as 
histórias 


sexta-feira, novembro 30, 2018

A não ser que não se escreva

nem com as missangas de
cada palavra,
com as frases escondidas
 na baba solta de um
velho a bater
à porta da morte,
nem assim desfiámos
qualquer coisa de resguardado,
naquele romance que
ninguém entendia,...

batíamos à porta dos
vizinhos da esquerda,
e à direita o sexo
arranhava a parede,
como noite sim,
 noite não,...

e nós como autores sem registo,
sem influência,
só em busca de frases
intermináveis,
sem pontos
finais e vírgulas meladas,....

não se fez livro,
só se descreveu o não
retorno ao início


quinta-feira, novembro 29, 2018

Pes s oa

Pessoa nas rochas,
no vento,
em cima de um mundo
Com tochas,...

Pessoa a arder,
luz fosca num quarto
escuro,
sem que me saibas prometer,...

Pessoa fui tu e eu,
restos de amor,
sem que me lembre do breu,...

Pessoa à noite,
comigo a vaguear,
desunido do que me possas ainda esquartejar,...

Pessoa a polir calçadas,
com Ricardo a ir pros prazeres,
e um mundo desigual,
sem fim,
nem fachadas

quarta-feira, novembro 28, 2018

Breve esboço de amor em fim do mundo

servia para conter a raiva. Dizer a si mesmo que as noites são,quase,sempre menos frutuosas que os dias. E por isso decidira chamar-se todas as coisas, uma por dia. Abdicara da identidade. De sentir que tinha um esqueleto, dois corações, um para a vida e outro apodrecido, para a morte. Preferia sentir o ar queimado a desvanecer-se pelos seios respiratórios a dentro, falseando o sentido de ter um norte. De querer, infrutiferamente, amanhecer uma qualquer ideia quando lá fora nada mais há do que trevas a desenhar olhos que choram no céu.
Tudo estava escrito a seco, nas paredes daquela casa encostada a uma falésia que o mar ia carcomendo. A solidão almoçava com ele, recusava deitar-se consigo na mesma cama, mas passeava de mão dada com ele nos breves momentos que a chuva ácida do fim dos tempos permitia ao sentir nada, à normalidade ...
As coisas mudaram talvez porque tinham de mudar. Um dia, sentado de pernas cruzadas, a meditar sobre o que é certo e incerto, ouviu uma voz que subia pela sua pele acima. Percebeu que era algo sobre o caminho para a civilização, para um sitio onde ainda poderiam haver pessoas que sorrissem, capazes de partilhar uma ideia inocente e dissolvida nas paredes do tempo, chamada amor.
Ela sorria só o suficiente para não chorar, e parecia ter esquecido de como dissecar o choro. Os seus olhos de tez amarelecida, que ao mesmo tempo equilibravam uma existência de séculos, com a juventude eterna do querer bem, perguntavam-lhe todos os enigmas do mundo.
Ele, que se tinha esquecido de falar, de tentar ser feliz....


terça-feira, novembro 27, 2018

Mais uma coisa com cigarros de terra

diz-me que sabes escrever
as pedras,
e por pedras entendo os
chamados rendilhados do
tempo sem uso,
e diz-me que das pedras farás
amores-perfeitos,
daqueles capazes de se dormir em cima,
e dos amores-perfeitos morrerão
pulmões corroídos por cancros,
e dos cancros nascerão crianças,
e das crianças sairão frustrados,
incapazes sem roupa,
e que andam nus pela casa a
desfiar o cordão da vida,
até ele acabar,...

e quando já se te acabarem os pés,
diz-me que preferes ser analfabeto,
e que da felicidade que daí surgir farás
flores de papel,
para distribuir aos indecisos,
que sorvem indecisões em
vez de se contentarem com
copos de água envenenada,
e para terminar com redondéis
como estes,
sem nome,
e que fumam todos os cigarros
de terra do mundo,
diz-me que já sabes escrever outra vez,....

eu vou fingir que nunca te conheci,
para ser melhor assim


segunda-feira, novembro 26, 2018

12 anos :-(



Solitude standing

parecia-me estranho
 que só o amor se
 quisesse sentar ao sol,
num dia frio em
que nem a vida
falava pelos olhos
das pessoas,
atrevi-me a
descascar a pele que me
 sobrava,
estendendo-a nas
 calçadas gastas
da indiferença anormalmente
definida,...

pensei no ar que me
 custava respirar,
no egoísmo
fermentado que me
tinha habituado a  ver
nos finais de vida,
e em ti como contorno
 único dos meus olhos,
quando a noite me estrangula,...

não vejo mais que o
suficiente para agora
 dissertar sobre a solidão,
talvez seja só o que tenha
conhecido até aos ossos


domingo, novembro 25, 2018

Sem título (79)

quando disseste que os sonhos eram mentiras, 
eu estava lá,
lembro-me de teres contornado
 todos os poucochinhos 
que sobravam ao final 
de cada dia,
e apertares a 
madrugada 
entre as pernas,
de tal forma 
que as estrelas 
guinchavam um 
desnorte incompreensível,
alarmante,...

percebeste isto 
tudo como a 
mentira dos sonhos,
não me compete 
a mim contrariar-te 


sábado, novembro 24, 2018

Nova forma de escrita

desenhava-te com letras 
enquanto de soslaio, 
pela ponta do 
nariz mascarrado e 
bexigoso que 
sempre te assustou,
via a escória 
desnatada que 
aprendera a odiar,...

punha um atrás do 
outro,
os cigarros 
de terra que te 
dei e tu 
assoberbaste,
transformados 
na desilusão 
de uma rotina,
a mesma que 
tresandava à 
naftalina do 
passado enterrado
naquele dia de chuva,...

demos que 
passo a passo,
nos acompanhava 
uma nuvem baça,
com todos os 
améns e os ai 
Jesus de quem 
nos amaldiçoou,
lá atrás,
onde ainda 
está a nossa 
capacidade de 
arredondar o real,
e vomitar poemas 


sexta-feira, novembro 23, 2018

Olhos e tudo à volta

diziam que pelo fumo 
se notavam os 
teus olhos a desvirtuarem-se,
como se dentro 
do teu mirar 
estivesse o mar,
amantizado com 
o fim do mundo,
rodeado de 
milhões de almas 
que fugiam ao 
despenhamento no nada,...

só a esperar o 
amansar do dia nascido,
percebi que as 
pessoas estavam 
enganadas,
de tanto trincar 
o engano,
os teus olhos perderam 
toda a vida,... 

hoje moram na 
galáxia mais distante,
onde o universo 
já nem menino 
consegue ser 


quinta-feira, novembro 22, 2018

Frente posta ao sol

há dias em que a morte me arrola,
prestado a testemunha do tempo,
deponho a frase implícita no mar,
ossos decompostos no ar que
brota da servidão,...

da imprevisível descontinuidade
que se apodera das
horas,
recosto-me à espera em que
consigo escrever,
laudos ao soar da voz,
à modorra do silêncio,...

frase posta,
quando o explodir
do sentir,
acabar com o respirar


quarta-feira, novembro 21, 2018

Numa nota menor

como se os meus livros fossem
a volúpia do teu acordar,
espalhados inesteticamente por
 as mesmas estantes
onde os dedilhas,
manuseias,...

fazendo do pó
do saber,
um resgate à música
que sempre aqui esteve

terça-feira, novembro 20, 2018

Um dia gostava de saber escrever assim

Fingir que está tudo bem 

fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer? olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga

José Luís Peixoto, in ‘A Criança em Ruínas’

Sem título (80)

 não importa, na verdade, se eu no décimo primeiro dia de mil novecentos e noventa e três me estava a sentir mal. Nem se estava sozinho, sentindo o avesso de tudo o que já tinha experimentado. Só me recordo de que, naquele momento, e pelo menos nos tempos que se seguiram, o relógio parou. Não havia nem deve, nem haver. As coisas estagnavam à porta do meu ser, porque eu não permitia a sua entrada no registo transversal da minha existência.
Sabia que era um puto sem eira nem beira. Vestia-me mal. A comida sabia-me a lama. Não importava, realmente, se os barulhos que ouvia ao acordar de manhã, e os que tentava afugentar ao adormecer, importavam para alguma coisa. Ao meu lado na cama, estava sempre um buraco enorme, que eu sabia não estar lá, mas que me acompanhava ridiculamente a cada noite.
E sei que me cravei à vida naquele dia.
Não consigo escrever mais que isto.

segunda-feira, novembro 19, 2018

Como quem sempre reescreve a história, sem saber....




À Bout de Souffle, Jean-Luc Godard, 1960

Para ela a linguagem tinha acabado

é uma maneira de dizer que tudo
foi diferente,
quando o sol se desfez em pequenos pedaços,
e o dia deixou de obedecer ao racional,...

ela fazia as perguntas que tinha de fazer,
humedecendo os lábios em círculos
com a língua,
quase como se estivesse
a entrar em guerra consigo própria,...

não lhe custou perceber que
tinha de obedecer às frases
feitas da morte,
e que azulava os olhos sempre
que não percebia o que
o mar lhe estava a fazer,
quase como que circunscrevendo
a parte irrisória dos dedos das pessoas,...

deixava tudo de fazer sentido,
já que a terra se engelhava em
pequenos gomos de laranja,
e tudo entorpecidamente se virava
para dentro de si próprio,....

ao final do dia o céu irrompeu
em chamas,
e mais nada houve para ser dito,
para ela a linguagem
tinha acabado


domingo, novembro 18, 2018

Algo sobre uma foto

adoro esta foto,
é como se da terra
tivesses aprendido a fazer
amor,
como uma metáfora que a luz
te tem trazido pegada à pele,...

e é como te virando do avesso,
de ti brotasse o abandono,
o mesmo que faz das coisas o
absinto delas mesmas,
e torna a nossa existência uma
contumácia de pensamentos sem nome,
sem pai,
e com mãe moribunda,...

talvez dizer-te mais uma vez 
que adoro esta foto,
apareces nela,
desaparecendo à luz 
nauseabunda do dia 

sábado, novembro 17, 2018

Gatos

A casa ficava ao nível do mar. Podíamos ver as gaivotas a sobrevoar o telhado, fazendo círculos concêntricos por cima das nossas cabeças. Grasnavam quando pareciam querer que as víssemos, e olhavam para baixo fixamente, atentando a cada pormenor do nosso percurso, sempre que o outono se preparava para espraiar nas falésias que embalavam o sono das ondas que vinham desfazer-se em espuma junto a nós, adivinhando quando queríamos fugir à loucura de tudo aquilo que era igual.
Havia sempre um gato à janela naquela casa.
Foram vários, ao longo dos anos, mas todos juntos pareciam fazer só um. Acompanhavam as nossas presenças de espírito perante tamanha beleza, as nossas depressões quando tínhamos de abrir as portas daquele sonho e regressar ao mundo encrespado que girava, lá longe. Nasci ali, no meio das mantas 'tweed', e dos bules de chá. Das gaivotas que ganhavam coragem de entrar porta dentro, e bicar os bocadinhos de pão torrado que saltavam da torradeira todas as manhãs.
 Mal aprendi a andar, aproximei-me da porta de casa e espraiava a curiosidade com longos olhares nos carros que, lá longe, serpenteavam no horizonte, fazendo-me crer que o real tinha um tamanho descomunal. Do tamanho da imaginação que eu conseguisse, um dia, amealhar por todas as pessoas com quem me viesse a cruzar na vida.
E sempre os gatos. O tal único gato de que já falei. Que quase me parecia sempre que sabia falar. Olhar para mim com olhos raiados de choro alegre. Ouvi miados roucos. Estridentes. Declarações de amor sem sentido, e plasmadas de todas as formas inexistentes que a linguagem proporcionava.
Ainda hoje me lembro de tudo. Como se tivesse acontecido em redor do último minuto.....

sexta-feira, novembro 16, 2018

Mãos desfeitas

todavia as mãos desfeitas,
vidas arrastadas atrás de um momento
encovado na morte,
com um rosto que se esvai,
alocado ao sono dos dias engarrafados,
com água podre,
e choros ao fundo de todas as ruas
que já se desfiou,....

as parcelas inauditas das somas
dos risos,
dos segundos despercebidos,
arrumados em cantos
desconhecidos do viver,...

ainda as mãos desfeitas,
preso à lamúria de noites
insuficientes,
ressurjo adormecido nas
frases longas de
um amor inaudito


quinta-feira, novembro 15, 2018

Sem título (81)

ela não sabia como pedir desculpa,
só sentia que ao abrir a boca,
ninguém a entendia como alguém válido,
capaz de ser levado em conta 
quando surgissem as dúvidas,
e as indecisões 
que sempre existem 
nos minutos que se 
seguem ao ensandecimento 
coletivo,... 

escolheu por isso o silêncio,
e o rosto por entre as 
mãos em face do falhanço,
e o acumular de 
frustrações em 
vez da poesia,...

não queria 
melhorar até que 
um dia abrisse a 
porta de casa,
e o tal Principe,
que nem 
precisava de ser o 
mais belo da história,
lhe perguntasse 
porque é que o 
cabelo dela não 
ficava melhor 
ao sol do entardecer 


quarta-feira, novembro 14, 2018

Só tu me consegues ler

Inatingível 2018 em novo 'crossover' com o blogue 'Páginas Partilhadas'

Não faço os cês suficientemente redondos, eu sei. Os meus emes parecem dois arcos do triunfo prestes a ruir, numa Paris dos adeus e nunca dos encontros . Aprendi a escrever tarde. Antes só respirava para poder partilhar o meu nome, as razões do meu choro, e uma ou outra coisa menos insolvente. Evoluí para os poemas sem sentido. Simples, insonsos, e que normalmente acabavam em longos entardeceres, sem frases sequer para se perceber o que pensavam os intervenientes.
Houve um tempo em que só me preocupei com o real. Os pobres e o transpirar inclusivo do medo nas páginas brancas. Os ricos que levavam a nem querer ter páginas. E os remediados, dos quais já nem me lembro.
Hoje, se calhar, só tu mesmo me sabes ler. Não quero escrever mais do que o necessário. Acho que sou um auto-didata do descritivo. Com longas impressões das coisas que vamos, ocasionalmente, vivendo juntos. E se calhar estou bem assim. 
Ainda aguardo pelo primeiro leitor....


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