terça-feira, abril 30, 2019

Café

só no quarto andar havia aquele café, que dissecado parecia zurrapa de um esgoto. Sim, podia trazer a morte, mais depressa do que cimentar a vida. Mas de nada interessava. Ela lembrava-se deste desvario de lesa velhice, quando precisava de chorar. Sentia-se arredondada, porque há aqueles dias em que lá vamos nós a esgueirar pelas frestas de uma janela, ao mesmo tempo que não conseguimos evitar uma dissolução nas gotas de chuva ácida que lamentam o suicídio da terra lá fora.
Todos os dias brincava com a sorte, na escolha de roupa. Umas vezes dava aos olhos esfomeados dos homens a curva de uma perna, nos outros, os que tinham sorte, fixavam as pupilas naqueles montes alentejanos de fim de Setembro que, inocentemente ou não, baloiçavam, no bulício do quotidiano.
Sempre, a confiança iludia uma insegurança inconstante. E restava aquele café. Que se estendia por sobre qualquer chão que se pisasse, qualquer boca lisa que se beijasse,.... sobre tudo


segunda-feira, abril 29, 2019

Parabéns...

...onde quer que estejas!!!



Escondi-me

escondi-me por alguma razão,
sem que o silêncio fosse
o argumento que
desliza por entre os números,
mas antes pelas palavras,....

resignado à folha branca,
ao ter sempre a mesma
coisa para dizer,
os mesmos castelos transparentes
que sustentem as falhas inodoras,
deixei de saber escrever
o suficiente para
que um sorriso brotasse,
flor,
do terreno virgem do teu ser,...

quis esconder-me
porque sim,
porque já não
me resigno a ter nãos
 para que deixe de ter talvez,
só quero voltar a fazer sentido,...

escondi-me,
e tu a brilhares
 como Quasar do meu sofrimento




domingo, abril 28, 2019

Abril dias depois

abril dias depois,
dois homens falam na mais
univoca rua da história,
e um choro constante devassa
as entranhas vindo da terra,
temperado a nuas promessas
de abundância,...

de cima não se luta pelo pão,
nem somente por duas indissociáveis
questões ideológicas,
só com o silêncio se percebe o futuro morto destas farsas 

sábado, abril 27, 2019

Alma



dizendo qualquer coisa sem cor,
para mim era igual,
resolvias sempre o dilema de não ter espaço,
nem frio entre o choro do silêncio

sexta-feira, abril 26, 2019

Portugal leitor

há uns anos o Portugal leitor deitava-se
angelical,
de resto nada sobrava para que o dia
corresse ignoto,
só as suficientes estradas que desabam
de pobreza,
alguns não sei quês de famílias falidas e
que deixaram de ler,
e no meio disto tudo havia escritores irrisórios,
que se esforçavam pelo realismo,
quando do realismo nada mais tiramos
que o espaço entre as metáforas,..

e só resta nada menos que o suficiente,
para que o Portugal leitor renasça
analfabeto


quinta-feira, abril 25, 2019

Sem título (68)

mil sortes sem norte,
razão prestes a dizer,
fazemos assim com
a parte forte,
do lamento que não tem fim,...

e eu a fraquejar,
sem pernas, luz,
ou olhos que praguejam,
se latejar,
será a minha veia que
vocês lamentam,...

saberei o suficiente para rimar,
como poeta sem noz moscada na voz,
sinto-me sem vontade de te dizer,
o que saberei serem rios sem foz,...

tudo acabou sem que te preocupes,
deixa-me a morrer mil mortes de vida,
seguem para a fonte cartas sem nome,
e anónimo morrerei para depois viver

quarta-feira, abril 24, 2019

não poderias ser o que lamentas?

não poderias ser o que lamentas?,
as coisas todas que te fazem chorar
quando perdes o controlo,
e te vês a andar em riscos descontínuos,
nos sítios onde foste infeliz,
e que em circunstâncias normais escolhes evitar,...

tanta interrogação,
tanta coisa que fica por comer
quando a fome descontinua
a loucura,
não poderias ser tudo o que prometes
em contagem regressiva,
e eu te faço ver as luzes
que estão entre os silêncios,
e as sombras das palavras
sem sentido,...

tanto lugar comum,
conversa desconexa levado ao expoente
da arbitrariedade,
e pergunto-te à mesma,
não poderias ser o que lamentas?


terça-feira, abril 23, 2019

And the retarded award of human existence goes to....!!!!



Por cima e em redor dos tempos

não faço ideia se ter ideias é pensar
como anteriores gerações,
desacreditar o pessoal em detrimento
do fomento do bem coletivo,
dos desígnios que fazem bem aos sorrisos
de circunstância,...

sentia-me há uns dias como daqueles tempos
em que se trocavam livros pelas frestas,
das prateleiras da biblioteca,
pelo medo da polícia do pensamento,
e em que falar não custava nada,
só podia custar a vida,
mas ao mesmo tempo custava saltar por
cima da morte,...

hoje já não ligo ao que falam as
anteriores gerações,
sou só mesmo copista de estilos,
assoberbante razão para falir
todos os meus princípios filosóficos,
e ir marcando,
aqui e ali,
os racismos exógenos de que sou alvo


segunda-feira, abril 22, 2019

Sem Título (69)

e se fosse o que desenhamos nos nossos sonhos,
luz infinda,
apartada pelos ziguezagues de
distância que os olhos nos dão,
com o tempo a passar por entre
as frestas de lá longe,...

não me sinto paz,
nem desnorte por explicar,
ao não me sentir nada,
como se o nada fosse o que resta
no bolso depois da miséria,...

talvez me apeteça deixar a caneta rolar,
e passar pelas Praças todas que conheço,
a chorar sem lágrimas,
encarar de frente a solidão que nunca
me desvaneceu em surdina,....

desenhando nos sonhos,
não me fazemos a mim
nem ninguém,
nem sequer a fome de amor
que não mata de inércia


domingo, abril 21, 2019

Sem título (70)

fala,
dizias ter escrito,
mas reúne a frase certa,
o pensamento incorreto,...

e ao falares,
não deixes nada por dizer,
porque o silêncio riscado na terra,
arredonda as sucessivas
ondas mortas do desejo




sábado, abril 20, 2019

Amor alagado em ódio (Parte final)


Perdoou-lhe. Não tinha muitas amigas, mas dedicava-se a ouvir as conversas das mulheres mais velhas. E uma coisa fixou. Em casa, a submissão ajuda a passar o tempo. A educar os filhos. Dedicou-se a tentar ajudar mais o seu homem. Esmerava-se no vinco das calças, aos domingos, para irem todos à missa ouvir a homilia do senhor Prior. A marmita do trabalho era arrumada com enlevo. Só com coisas que sabia que Afonso gostava. Um dia até lhe fez uma sanduiche com mortadela italiana. Uma coisa cara. Afonso só lhe deu um sorriso desmaiado, quando lhe perguntou se tinha gostado. Mas o mal não parou. Vinha sempre depois de noites na taberna. Os miúdos dormiam no quarto, e Amélia aguentava os gritos. Arrastava o homem, com os copos, para o alpendre do quintal. Ele não era de muitas palavras. Só lhe dava murro, após murro, após murro. Amélia aguentava tudo, a chorar baixinho. Pensou em fugir. Levar as crianças para fora da aldeia. Esconder-se num sítio tão longe, que ele nunca mais a iria encontrar. Depois falou, ao de leve, aos pais o que se passava. Os dois ficaram tão assustados, que rezaram com a filha, e nem sequer tocaram mais no assunto.
Amélia voltava a casa sem forças. Perdeu peso, não comia. As pessoas da aldeia perguntavam-lhe o que tinha. Apontavam, sem usar as mãos, para o nariz partido de uma jovem que se desvanecia, depois de suspirar beleza durante anos a fio. E tinha os braços pintados de roxo, sem que uma palavra o pudesse justificar.
Afonso andava embeiçado por uma cigana dos arredores. Sabia que a vida poderia esvair-se, um dia qualquer, no cano de um revólver dos irmãos da moça. Mas era mais forte do que ele. Todos os colegas tinham arranjos por fora. E ele não podia ser diferente. Prometeu à rapariga que fugia com ela, mas nunca arranjou coragem. Chegou a casa todas as noites, com um peso na consciência tão grande, que a única coisa que sabia fazer era faltar ao respeito à mãe dos seus filhos.
Comprou uma arma, um dia, sem saber porquê. Levou-a para casa, escondeu-a debaixo de duas pedras, ao pé do canteiro das flores. Estava tão bem embrulhada em panos, que nunca ninguém iria perceber o que ali estava. Os dias passavam, e sabia que queria parar com o que estava a fazer. Ia, de vez em quando, normalmente aos finais de tarde, à Igreja. O mesmo padre que o tinha batizado, que o tinha casado, continuava ali. Envelhecido, doente, capaz de andar agarrado titanicamente a um andarilho. Mas sabia que só sairia dali, um dia, num caixão. Afonso sentiu confiança para falar com o prior. Mas ouviu mais do que disse. O funcionário de Deus, como gostava de se chamar, percebeu que estava prestes a perder um matrimónio na Paróquia. Mas só se podia socorrer das palavras, e dos conselhos que o Evangelho dá. Nada mais.
Um dia, à saída da paróquia, Afonso teve um acidente grave. A mota com que andava há muito tempo foi abalroada por um carro, e deixou-o com um corpo desfeito. Sem uso.
Recuperou, Amélia esteve sempre lá. Adorou-o como sempre tinha feito. Descreveu todos os passos do amor que ainda a unia a ele, como sempre tinha feito. Afonso acalmou, até que um dia, só de humedecer os lábios numa cerveja na taberna da aldeia, no primeiro dia em que conseguiu sair após o acidente que quase o matou, os demónios voltaram.
Mandou Amélia sentar-se na mesa da sala. Foi ao quintal, desenterrou a argamassa de panos que só ele sabia onde estava, e que só ele sabia o que continha, e pegou no que lá estava dentro. Pousou aquele bocado de metal na mesa, e sentia que tinha a mulher que lhe suportara grande parte da sua vida adulta, nas mãos. Os miúdos estavam com os avós. Pensou em acabar com tudo. Pegou naquilo, Amélia sentia o frio do aço encostado à cabeça. Afonso tinha perdido o pai há pouco tempo. Já nada o prendia à razão do passar dos dias. Apertou o gatilho. Amélia estava tranquila, tombada sobre a mesa. O rosto, que um dia lhe prendera a razão e os olhos, repousava no meio de tanto vermelho vivo. Afonso parecia não perceber o que tinha feito. Tremia, com aquele pedaço de metal nas mãos. Sentou-se na cama, a olhar para o chão. Pensou no primeiro beijo. No dia do casamento. Na alegria, minguante, quando conheceu o primeiro, o segundo, e o último filho. Nas andanças porque passou para conseguir ser homem, e responder às exigências de ser chefe de família, e pôr comida na mesa, e ser respeitado por o fazer.
Foi ao quarto dos filhos, que nem ouviram nada. Olhou para a cara de cada um deles, e acariciou as crianças que tinham acabado de perder a mãe, por sua culpa. Encostou a arma à têmpora, e carregou. Nada aconteceu. Tinham-se acabado as balas. Percebeu que não tinha de morrer. Tinha de assumir o que acabara de fazer.
Nos tempos que se seguiram, a aldeia que fora a mesma de tantas outras, esvaziava-se de sentido. De alegria. De vontade de prosseguir a rotina de sempre. Nunca tinha acontecido nada ali, assim, tão sem explicação. Os filhos de Afonso e Emília ficaram com os avós. Tornaram-se os meninos da má sorte. O assassino da mulher ainda está na cadeia, enquanto se escrevem estas palavras tão ficcionais, como o que a realidade permite. E a vida continua…

sexta-feira, abril 19, 2019

Graaaaarkkkkkkkk!!!!

Amor alagado em ódio (parte II)


Foram os dois, lado a lado, com vontade domada de dar as mãos, a contornar as poças de água que empapavam o caminho para fora daquele terreiro. Ele acompanhou-a a casa na primeira noite. Prometeram voltar a ver-se. Seis meses depois estavam noivos. Ela tinha dezasseis anos, com os dezassete prometidos para um trabalho no Lar de velhotes da freguesia. Não quis estudar, porque dizia que não tinha cabeça. Ele ajudava o pai numa loja de ferragens, mas queria ser músico. Foi o padre que os tinha batizado a ambos, quando o destino parecia que nada ia fazer para os juntar, que os uniu para todo o sempre. Não demorou para que Amélia cumprisse o destino das mulheres da terra. Ser mãe jovem. Um, dois, três meninos. Todos saudáveis, rosados. Os pais davam uma ajuda a criar. Ela não recusava a maternidade, mas preferia ouvir músicas de amor na rádio, todo o dia. Afonso trabalhava, e à noite cantava para Amélia. As músicas falavam de mundos sem cor. Onde as pessoas eram felizes, e não havia dinheiro. Tudo se pagava com amor, e caminhos mão na mão até à velhice, e ao que viesse depois.
Os meninos foram para a escola, e o dinheiro não esticava. Afonso ainda foi trabalhar para Espanha. Ajudava numa herdade, na apanha da azeitona e mais o que surgisse. Amélia cosia roupa, e tomava conta de velhotes. Sempre os velhotes. As coisas mudaram quando ele voltou. Não tinha o mesmo apego à casa, a deitar-se com ela de noite, e jurar-lhe coisas de amor bordadas a luz, que a deixavam tão feliz. Não explicava porque tinha mudado. Só passava menos e menos tempo em casa. Amélia não conseguia chorar em frente a ninguém. Só olhava para um gato velho que a ia visitar, de quando em vez, às portas da cozinha, e soltava lágrimas que a pareciam deixar pintada de noite, e com os olhos feitos lua em tempo de invernia.
A primeira falta de respeito, como lhe chamava de si para si, veio numa vinda da taberna. Afonso já devia ser um alcoólico, era o que pensava no meio da pouca cultura que ainda lhe restava. Na televisão diziam que tinha de se começar a usar uma nova moeda, que vinha lá da Europa. Ele perguntou-lhe porque é que ela o olhava assim. Ela baixou a guarda para o chão. Foi então que só se apercebeu de um vulto, que baixou sobre a sua cabeça. Doeu-lhe no corpo, e na alma. Caiu indefesa no chão. Não conhecia o homem que destilava fel contra ela. Os miúdos estavam com os avós. Afonso retirou-se, e voltou a chorar. Pediu desculpa. Disse que a amava, e iria amar para todo o sempre. Ajudou-a a levantar-se. Cheirava tanto a álcool, que Amélia quase conseguia contar as cervejas que tinham feito dela, umas horas antes. (segue)

quinta-feira, abril 18, 2019

Amor alagado em ódio (parte I)

O barulho foi ao mesmo tempo assustador, e revelador. O metal da arma desenhou um som agudo, estridente mesmo, quando assentou no vidro do tampo da mesa. Afonso fechava o punho, os olhos estavam semicerrados,… Vestia a roupa com que normalmente sentia sair de si próprio. Um casaco preto, muito ruçado, logo assustadoramente velho. As calças que o pai lhe tinha deixado só há duas semanas, antes de dar o último suspiro, e lhe dizer para perder a ânsia de se deixar dominar por um génio que parecia viver dentro dele. Nos pés, umas botas novas. Castanhas claras, que lhe tapavam os tornozelos negros do trabalho no campo. Ao lado, sentada numa cadeira, de cabeça baixa, Amélia Cristina, menina prendada da aldeia onde os sonhos não entravam porque toda a gente os recusava, pedia que o tempo passasse depressa para que o pesadelo acabasse. O homem que ainda amava pedia-lhe uma razão para que a vida dos dois não acabasse, sorvida pela precipitação das decisões mal pensadas. Amélia chorava silenciosamente.
 Ainda se lembrava de quando o tinha conhecido. Fora na festa de uma aldeia, a meio caminho da casa de ambos,…há tanto tempo que já parecia pouco. Ele era assustadoramente bonito. Se por um lado achava que, um dia, iria dar-se mal por entregar-se nas mãos daquele homem, por outro não hesitou. Ele sorriu-lhe, de uma forma intermitente, tímida, ao longo do que parecia uma eternidade. Ela simplesmente não esboçou reação. Só olhava para o céu, à espera que nas estrelas se desenhasse qualquer coisa que a ensinasse a sair dali, e a voltar para uma existência anónima. A chuva pareceu precipitar tudo. Ela abrigou-se debaixo do telheiro da capela da aldeia. Ele seguiu-a e apresentou-se:
-Afonso, como o primeiro Rei de Portugal!!!
Arrancou-lhe o primeiro sorriso, envergonhado mas sincero. Parecia uma coisa em crescendo que ali se construía. Parou de chover. Veio a mão cavalheiresca para a ajudar a descer do estrado onde se abrigara. Perguntou-lhe o nome. Respondeu, baixinho, Amélia. Estava cheia de frio. Acreditou, ao sair de casa, que o final de Verão do interior ainda continua a ser Verão. Mas, naquela noite, já o Outono se aproximava para desmentir tudo. (segue)

quarta-feira, abril 17, 2019

História mal contada da felicidade

naquela casa as pessoas apercebiam-se que algo estava mal,
os problemas resolviam-se criando mais problemas,
ninguém sabia escrever por medo de que o conhecimento tirasse aquela vista maravilhosa para o mar,
mas todos eram felizes fingindo que a infelicidade vestia-se de preto,
e deixava a porta de casa aberta quando saía,
depois de se fartar,..

um dia veio a menina sem cor,
que se chamava amor,
e não tinha prioridades,
só gostava de sentar-se sem falar,
a olhar para as esquinas desdobradas que o tempo fazia a passar,...

só por ela as refeições começaram a saber a fraternidade,
e a falar as pessoas voltaram a aprender a conhecer-se,
até que lá muito longe,
o mundo voltou,
em vagas antropocentricas de felicidade,
a ser de novo multicolor,...

hoje moro nesta casa,
sem saber como vim aqui parar,...

mas acho que sou feliz


terça-feira, abril 16, 2019

E porque estou a escrever uma coisa para ser avaliada, e estou a avaliar em paralelo


na terceira noite

na terceira noite nada se acentuava,
a metáfora era o silêncio confrangedor do vento,
e tudo no chão plantado a preceito com filosofia,
e descansares pobres para o sentido da vida,...

tinha passado tempo suficiente para que o mundo não recusasse a planta,
e as flores descompassadas do pensamento,...

sentado debaixo da lua,
só me recolhia de golpes invisíveis da desilusão,
esperando que de mim se recordassem para o lustro indicado da glória


segunda-feira, abril 15, 2019

Poetar com irresponsabilidade

eram apenas pequenos versos e poemas,
estavam acomodados numa pequena insignificância de papel,
dobrada toscamente,
acho que me esqueci no banco de trás do autocarro,
quando vinha para casa sozinho,
como ando sempre,...

e agora sinto-me nu,
quase como se estivesse morto numa maca de hospital,
a ouvir os ais e os choros mais ou menos sinceros ao meu lado,
com uma vontade insuportável de me levantar,
e sem conseguir,...

para mim as inevitabilidades talvez tenham passado a existir desde aquele dia,
não confio mais em relógios,
nem em passagens secretas de livros preferidos


domingo, abril 14, 2019

Sem título (71)

às melhores formas de dizer não,
respondemos talvez a um sorriso,
não à certeza de acordar felizes,.
e quem sabe
apenas quem sabe,
haja presença de espírito de escrever nas paredes de qualquer rua,
os segredos negros da imortalidade 

sábado, abril 13, 2019

Poema surdo

este é um poema que não ouve choros,
nem lamentos,
nem uma venda de quarta de droga a um puto ainda nos cueiros,...

é um poema sem sono,
e sem acordar,
e sem perspetivas de vida,
porque desconhece a morte,...

este poema nunca amou,
nem sentiu a perda,
não ouve,
logo nunca houve,
nem sequer pensará em haver,...

pensarei em fazer com menos,
para que no mais de tudo ouça,...

qualquer dia


sexta-feira, abril 12, 2019

Custa quanto trazer de volta o passado?

de roupas rasgadas,
pernas assustadas com escaras
de embrutecer,
simpatizava com o olhar esqualido que medias,
enfatizada no destino assustador do que se promete,
e nunca se cumpre,...

tinha passado tanto tempo para conseguir fazer sentido,
e mais ainda para que nos encovados dedos que continuavas a conhecer,
existisse algum sentido pronto a disparar e fazer retornar o mesmo amor,
em que nos banhámos com vista para uma eternidade que sempre percebemos não ir existir, ...

resta-me optar por não falar,
escrever,
distender artifícios que não conheço,
e no fim deixar a pergunta,
custa quanto trazer de volta o passado?


quinta-feira, abril 11, 2019

Depressão

se me iam alcatifar as palavras,
rosados com desvanecer maior escapavam os meus silêncios,...

senhor de praça amorfo me tornei,
dos lados bem barbeado,
em cima careca,
refletindo uma luz dissecada,
órfã de escurecidas dissensões,
e tudo com o sentido possivel,...

ao meu lado plantei uma rosa,
e deixei que me adormecesse o choro
de todos os eternecidos renasceres


quarta-feira, abril 10, 2019

Um dia ainda descubro onde o amor vai morrer

um dia ainda descubro onde o amor
vai morrer,
pelo menos nos recortes das
cidades,
estarão indecisos os cangalheiros
desta imprecisão,...

com as devidas reticências a
ponderar erro nas pausas das frases,
e poemas sem sentido que os homens
sem pronome escrevem,...

talvez o amor nem morra,
não é que me importe,
só me faz espécie 

terça-feira, abril 09, 2019

e o mundo é dos macacos

e o mundo é dos macacos,
dos sem fim,
dos desastrados,
rumo à frase,
ao livro por escrever,
 não sei de mim,
ó estrofe sem pai,....

 renuncio a este poema
sem sabor,
denunciado pela fita,
que do tempo já nem
tem a cor,...

repito,
o mundo é dos
macacos,
parecendo um sonho,
nada disto repassa
para a música,
e agora,
o silêncio


segunda-feira, abril 08, 2019

contas como ar para o estar bem de todos os meus dias

quando me perguntam
quem foram as maiores
 influências da minha vida,
respondo o fim
e o início de todos
os sonhos que não concretizei,
 e as pessoas que nunca invejei
nesse caminho,....

 para soçobrar,
e descartar lamentos,
esta escrita
sem letras não nos
deve tirar o sono,
e fazer perder
o discernimento com
que acordamos,
e a inocência com
que vamos dormir,...

e nós a admirar,
sentados a bordo do
barco que nunca zarpa
 do cais das hesitações,
mais não daríamos ao Sol
que a sombra feita a este quadro,....

nunca me pediste,
talvez mal,
que resumisse tudo
num poema,
e lamentei a frase única
que ainda guardo,
a pender do meu peito,....

contas como ar
para o estar bem de
todos os meus dias


domingo, abril 07, 2019

sangue

dói-me inteiro,
facas no sangue,
e pelo menos achado,
na precisa indecisão
de não ter sangue,...

e como lamento o sol,
eu que me acho em
frente ao luar,
mascarrado de noites e
noites

sábado, abril 06, 2019

A herança como 'gancho'

Tinha-me fartado de explicar as coisas como elas eram. As meninas de cabelos louros penteados, com as tranças assentes simetricamente nas golas de renda. Os meninos silenciosos, que esgrimiam a violência da revolta longe dos olhos triangulares dos tutores. Os idosos que esperavam a morte caminhando em círculos, ao sol, enquanto o Verão arrendondava a curva assimétrica do planeta. Naquele dia, sentei-me, com metade do corpo à chuva. Envolvi uma pequena sebenta num plástico, para não se molhar e, com dificuldade, com o bico da caneta quase a tocar de soslaio no papel, optei por uma escrita diferente.
O 'gancho' era a história de uma herança. Havia uma propriedade pequena, dava-se a volta aquilo depois de um almoço bem composto. À espera da sorte estavam dois irmãos. Não se falavam. Um chamava-se qualquer coisa, o outro assinava sempre com três nomes, e um sufixo com apóstrofo, porque achava que a vida não devia ser mais nada do que reverências e copos meio cheios de champanhe importado. O pai, o mesmo que lhes tinha ensinado que a vida é demasiadamente curta para ser vivida sem nunca se escrever sobre ela, tinha partido...
E ficara aquilo. Uma coisa cheia de silvas. Com um barraco deformado ao meio, onde os dois tinham-se feito homens com meninas de má vida que lhes tinham escapado por entre os dedos, talvez porque tem mesmo de ser assim. Não se falavam, mas respeitavam-se. Um deixava bilhetes em branco, só com pequenas cruzinhas escritas a preto à porta de casa do irmão. Era código para dizer que gostavam um do outro, e tinham vergonha de o admitir. O outro ia, ocasionalmente, mais nos dias em que o sol nascia tímido por entre as nuvens, passear à porta da casa do irmão, tão lentamente quanto pudesse, para que pudesse ser visto a reverenciar a vontade que tinha de reconciliação. Só que o orgulho estúpido, aquela coisa inútil que não tem braços, nem pernas, nem coração, mas tem um fel tão grande que é capaz de matar mais que a maldade, continuava a ser mais forte.
Veio um senhor da cidade grande. Engravatado, parecia que trabalhava com situações daquelas. O terreno estava registado nos calhamaços oleosos da cidade, e tinha de ter proprietário definido. O homem assentou uma pasta grande, preta, na secretária de casa do irmão mais novo. Pediu-lhe que reconsiderasse. Que tinha de haver acordo. Voltou a sair só com acenos de cabeça em troca. No mesmo dia foi à casa do outro irmão. Viu duas lágrimas furtivas, quase como pingas de chuva na terra mais sequiosa do planeta. Mas só isso...
Os anos passaram. O barraco desabou. O mundo continuava a rodar como sempre o tinha feito. O tempo levava vidas, trazia outras. Os animais serão sempre mais fiéis que as pessoas, e mostravam-no todos os dias. No dia em que a morte veio para o primeiro dos irmãos, o outro arrependeu-se. Sentou-se na cama onde jazia o corpo frio do outro, e não chorou. Pelo menos que se visse. Só se limitou a dar dois suspiros, abrir a janela do quarto onde se fechara sozinho com o amor da sua vida, e atirar-se....
Já não chove. A sebenta molhou-se, mas talvez valha a pena continuar a escrever desta forma


sexta-feira, abril 05, 2019

Simply genious


Sem título (72)

onde estás, quando me tens espalhado nos
intervalos da mesa do tempo, para que infantilmente
joguemos ao diz que disse, na apanhada infinita
de reconhecer a perda, desenhando espaços inflados
de ar,....

ao anotar pequenas razões no passo acelerado para
a ruína, o som, a frase perdida sem que a saibamos
decompor


quinta-feira, abril 04, 2019

Tempo bordado nas mãos

não fazia sentido
entrar com o tempo bordado
nas mãos,
a veres-me,
seria com a latitude
do desconhecido,
e o vento quase
que me a arrancar a carne,...

e eu a sentir desnorte
 na face vulgar do
desaparecer,
como ser pagão,....

não serei a luz,
nem a sombra,
nem as duas coisas
 futilmente desenhadas
nas costas do meu haver,
contigo a ladear questões,
resumir propósitos,
com o intuito de
me teres morto a meio termo,...

concomitante no desejo de nada ser

quarta-feira, abril 03, 2019

Letras de merda

 letras de merda,
solstício de toda esta
 coisada medíocre,
 que nem reluz à sombra
de um projeto de sociedade,...

sem exploradores,
com explorados
aluados de burgueses indisciplinados,
e retirados da vida pela saída airosa
de um respirado traque,....

detesto as perceções indecentes
de sonho,
e as irrefletidas estrofes
de cansaço,
letras de merda,
sim,
convosco sentados a ajuizar
só porque sim,...

e talvez porque ninguém
entende as verdades assim,
meio explicadas,
ajustadas só ao momento,
e nunca à realidade,....

letras de merda,
ainda espero por
pagar o imposto
da estupidez que não tenho


terça-feira, abril 02, 2019

Portugal sem suporte

Um quilo de pão custava pouco mais que o suficiente, para tirar o sono a quatro pessoas. Dois quilos de carne já serviam para esgotar o orçamento. Mais o azeite, as batatas, 2 metros de tecido para fazer roupa, e três pares de alpergatas. A soma do que se comprava, mês sim, mês não, estava feita num pedaço de papel manteiga, esquecido em cima da mesa da sala. Havia uma velhota, de xaile rasgado, com a cara carcomida pelo tempo, e que se preocupava sempre em mastigar pedaços disformes de pão. Um rádio vomitava, em loop, músicas de Amália, quase como se preocupasse em abraçar tamanha incerteza descrita naquele quadro irregular de frustração.
Um pai e uma mãe. Desiludidos. Ansiosos. Com tremores ocasionais, desapegados da realidade. Do amor por darem uma vida ao amor que tinham moldado num rancho de sorrisos nervosos, que davam a alegria possível naquele sítio...


segunda-feira, abril 01, 2019

Sem título (73)

não haveria mais se tudo fosse pouco,
as pessoas perdem outras pessoas,
como se eu te conseguisse ver de perto,
de dedos entrelaçados na opção certa do amor,...

e enlameados seguíamos à míngua de caminho para palmilhar,
até à loucura


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