quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

E saber de outros,....

 só posso assim,

abeirar-me do que frutifica,

dizer de uma ideia tantos contrários,

do contrário do ar

a noite em branco,

com o sofrimento que

nos vai queimando as extremidades,....


e saber de outros,

de tantos outros,

como nos odeiam,

nos desejam o

pouco mal que sabem

conceber,

e de mim exigem o mesmo

que conseguem dar,....


o pouco,

nada mesmo

que se escreva


                                                                     Tirado daqui

De: On the beach at night alone (2017)

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

É o caminho que se me fez,....

 Desci das palavras sonhadoras,

Havia um peito a doer,

Dois olhos sonhadores e descontrolados,

E o corpo dorido mas experiente,

Capaz de experiências que se explicavam a si próprias,...


A espera,

O que o tempo me dava sem critério,

Tinha pessoas dentro,

Analogias de passados díspares,

E futuros sem nome nem idade,....


E o caminho que se me fez,

Tirava do céu nuvens desfeitas,

Que se me ofereciam como o alimento de uma vida,...


A forma como prosseguir,

Sabendo que no fim de um caminho discrepante,

Estariam os que já tinham estado das outras vezes iguais a estas,

E agora esperavam por mim

                                                                Tirado daqui

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

A eles,...



Vêm os homens,
Esquecidos e permissivos,
Os homens da política,
Dos escândalos descontrolados,....

Os homens sem vínculos,
Que a poesia resolve,
Homens de cor e transparentes,
Choros de décadas traduzidos em hipocrisia,....

A eles,
Os homens de roupa justa e sem preço,
O mundo que se vergue,
Porque um dia o armagedao surgirá,
Nu e de presilhas,
E os homens estarão,
Em sítios e planos que não se conhecem 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Faça sopro sem sol,..


Patchwork - Hannah Streefkerk.

que diga adeus,
sucumba de morte
desejada,
mas nunca morrida,...

tenha pernas,
corpo de mulher
esquecida,
faça sopro sem
sol,
e uma sombra
aquecida com o frio,
restante do princípio
cataclísmico da última manhã,...

que ela saiba esquecer,
envie coleções de noites
ocultas,
pelo ar infundado e
permitido,
porque ela volta
sempre,
o adeus nada faz
dela,
como buraco sem fundo




domingo, 8 de fevereiro de 2026

Tudo se resume a um gesto,...

 A loucura,

Um prato assim de comida fria,
E dizer-te como as verdades se desenham jovens,
Com a recusa violenta que o tempo passe por elas,....

Dize-lo com gritos incendiários,
E sem roupa,
Ou pelo menos com uma nudez encapotada pelo pudor da velhice,
Encastrada e insubmissa,...

Tudo se resume a um gesto,
O toque possível,
O dizer que se conhece e partir sem olhar para trás,..

Isto é loucura,
E digo-o com a virtude a
pulsar nos bolsos
                                                                           Tirado daqui

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Medo....

Estava a ouvir a minha mãe. É difícil, porque ela já nem viva está. Mas juro que sim. A voz arranhada, maltratada pela doença. A  carinhosa com que sempre me acompanhou, e nunca me deixava ficar mal. Sentia-a acariciar-me o rosto, com os dedos de pele mediamente áspera que eu sentia como conforto. Falava-me da ingenuidade. Do sol por entre as cortinas da sala, e de como ele recita poemas, se lhe pedirmos educadamente.

Eu sei que ela já cá não está. Mas ainda me agrada. Ainda me conforta. Ainda me acalenta as saudades, como um bichinho normal que até devemos deixar que nos roa.



A mão resvala,...

 E reincide,

Agnóstico,

Molhado em suor,

Maduro,

O desejo de te desenhar,...


A mão resvala,

A vista falha na confiança,

Mas será um traço tratado,

Firme e musical,....


Com o corpo azulado,

Olhos escuros 

antes da cor surgir,

E alma,

Deitada,

A ler Baudelaire,

A espreitar a madrugada,

Mas lá,....


Ao custo indefeso

 do toque 


                                                                  Tirado daqui

Daniele Huilet e Jean Marie Straub, filmagem de 'Crónicas de Anne Magdalene Bach (1967)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

E o corpo que se afasta,...

 Esperar as melhoras,

Ver um corpo que diz cores,

E a luz a filtrar os despojos do escuro,

A clamar terror,...


E palavras,

Numa alameda de silêncio,

As coisas escritas arredondadas,

Até parece que com esteiras nos extremos,...


E o corpo que se afasta,

Não vai voltar,

Deixou cores póstumas,

Mas acreditamos que vá ficar 

Last ruins of a future
Marvin Brutus

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

...apenas o silêncio total

 Onde, perguntei lhe sem saber a resposta...

O silêncio intrigava me. Olhos insatisfeitos, que diziam histórias sem soluções e sem personagens.ele esforçava se por contrariar isso, dizer das pessoas o que fosse possível, nem a mais nem que as deixassem como menos.

Preferiu, durante muito tempo, nem dizer como se chamava. Apenas que soubessem que não tinha família, entes queridos. Deixara pessoas a quem desejou bem, algures onde o mundo tinha perdido o sentido e a beleza. E continuava sem saber a resposta. Apenas que lhe perguntava desinteressadamente várias coisas.

E em troca tinha apenas o silêncio total, e despido de preconceitos 


                                                                                Tirado daqui

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Mais vale um sumário,...

 correr para onde?,

se é escuro,...


o desenho não se entende,

não há caminho de todo,...


e apenas uma breve música,

um assobio inofensivo,

nos convida para onde ir,....


mais vale um sumário,

e um homem de braços

cruzados,

e esperar,

um inocente vai

agradecer-nos


terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

.....yves montand de estimação

 Ninguém foi ensinado a concentrar um olhar,

Uma decisão,

Um passo para longe da segurança,....


São compras de impulso,

Como levar um pano sem cores de uma banca de uma idosa sem nome,

Ou trocar de alma perante o diabo na rua,... 


Ensinados estamos a mentir,

Como se as horas nos acrescentassem,

Em vez de termos o Yves Montand de estimação,

A impedir-nos de saltar da janela agora,

E pôr a rua a falar de nós uma última vez


Lost in her dreams 
1835
De: friedrich Von amerling 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Tudo desabava,...

 Via onde as coisas enegreciam,

E o céu ficava sujo,....


Estávamos vestidos de malte,

Mas a garganta seca impelia que prosseguissemos,...


Só se viam restos de comida apodrecida,

E o céu escondido atrás de nuvens amarelas,...


Éramos muitos,

Sem pavor de parar,

 nem vontade de ser diferentes,...


Tudo desabava,

Mas a ideia,

A luz do momento e o apetecível da ideia,

Já se viam pra lá

 dos montes envelhecidos 

Beauty im a marble room
1894
De: John William Goodward