19.12.18

Anonimato

eram somente aforismos,
não podia ser mais que isso,
 já que ninguém se
mostrava disposto a entender
o que estava em causa,
havia uma mulher
irrepreensível,
que recusava
a maternidade,
dois bilhetes de
 lotaria rasgados,
e incobráveis,
e um solo de violino,
naquela viela
escondida da maldade
e
 dos ideais de
sociedade perfeita,...

tudo acabou por
volta da hora em
que os
morcegos morrem,
com a redação
do esboço de um livro de amor trágico,
com uma união
inconsequente
entre duas pessoas que
não se entendiam,
e laivos de poesia mediocre
a voar das carotidas dos cidadãos anónimos,...

às cinco e dezoito desta tarde,
ainda acho que sonhos
destes podem levar ao suicídio


18.12.18

a nossa mãe de todos os dias

a nossa mãe de todos 
os dias saiu de casa,
mal o dia saltou do ovo,...

caminhava 
gastando o 
dentro dos pés,
com os 
sapatos gastos,
a navegarem 
como naus catrinetas 
nas ruas molhadas,...

ficámos em casa 
alinhados na 
cama bamboleante,
sem vivalma a 
limpar-nos as lágrimas,
nem para ouvir os 
desgostos sem cor 
que transpiravam 
como fel da fome,...

a nossa mãe de 
todos os dias 
voltou para 
nos ver quase mortos,
embrulhados no 
papel do amor 
que nos espalmava à vida,
como se por ali tivessem
 passado os natais 
que nunca conhecemos,...

deu-nos de comer 
com as mamas escanzeladas,
e no fim 
resumiu-se tudo 
à lua a aconchegar-nos 
num silêncio sem cor,
capaz de nunca 
mais pedir sol 




17.12.18

Alumiar o som



as linhas surdas do que se devolve, 
intocado pelo som,
com destroços de luz,
em escuros que nunca se conheceram,... 

fazemos assim a limitação inodora de ser humano 

16.12.18

Innuendo

habituei-me a ver as pessoas a
 sorrir devagar, 
quase como se um 
pombo moribundo 
levantasse delas,
asperamente,
deixando-as sem 
consciência a pensar 
num espaço sem tempo,
dentro do saco rasgado 
que é a vida à míngua 
de expetativas,...

ao longo desta 
estrada,
recordo-me 
especialmente 
dos sorrisos 
que assim se perdiam,
dos limites 
ultrapassados 
sem nenhuma explicação,
apenas para que,
e já que falamos 
de sorrisos, 
agora os veja a 
regressar,
procurando a 
morte onde 
mais ninguém 
a encontra 





15.12.18

Redigir a despedida

às vezes penso se deveria ter regressado
a estes cadernos,
os mesmos onde a vida me foi emprestada,
e depois deixada sem trono
pela força do vento,
que destrói a simplicidade,...

o mesmo simples de um
criar sem rebordos,
plano,
inspirado só no bater do vento nos olhos,
que inocentemente nos cega quando
fugimos de qualquer coisa,...

pensei nisso com
a maior força de um desejo,
e o que vejo agora é se
às cores do teu sorriso,
conseguirei precaver o som
de um impulso,
o mesmo que ainda me resta
tanto tempo depois de ti


14.12.18

Revolucionário

Ainda me recordo da primeira vez que me ensinaram a ser revolucionário. Tinha ao redor da idade de deixar os cueiros, e estava num café com uma data de velhotes a ouvir relatos de futebol. 
Parecia que toda a gente estava presa ao chão com raízes de eucalipto, e fazia como um eucalipto:
secava o tempo, o espaço, e as emoções.
Era hábito ir aquele sítio, a mando de meus pais. Toda a gente ali já me conhecia como o puto que levava uma mão cheia de tostões para receber em troca várias garrafas cheias de tinto. Entrava mudo e saía calado, coçando o nariz com ranho colado de dias, e que eu só limpava quando a minha mãe me obrigava a tal.
Nesse dia dos relatos de futebol estava frio. Tive de vestir um capote pequeno que eu detestava, e que mais uma vez só usava porque a minha mãe me obrigava.
Mal entrei no café um velhote chamou-me. Normalmente eu não iria. Desde que me lembrava que ouvia dizer para não responder a chamadas de estranhos, porque nunca se sabe onde pode estar a maldade humana. Só que naquele dia fui. O homem vestia um casaco castanho ao xadrez verde, devia ser ou ter sido pescador porque aquilo era roupa de homem do mar. Tinha a barba mal feita, com tufos de palha de aço grisalha espalhados pela cara, a maioria debaixo do queixo. E segurava uma bengala enrolada em fita gomada branca,de cima a baixo. 
-Não sabes que já tens idade para ter vontade própria?
Lançou-me esta pergunta, e eu senti-me como um cão que anda a saltitar nos parques públicos, atrás das bolas que os miúdos chutam de um lado para o outro.
A princípio não quis responder, e dei-lhe as costas para ir em direção ao balcão, e fazer o que fazia sempre ali.
-fiz-te uma pergunta, ou fazes como os macacos e coças a cabeça antes de te ires embora?
Lembro-me de ter sentido qualquer coisa de repúdio, que eu ainda não sabia o que era com aquela idade, por aquilo tudo.
Instintivamente apertei o capote, e respondi-lhe, se calhar sem querer:
-sim eu sei o que quero.
O homem retorquiu em segundos, parecendo ainda menos desconvencido:
-Não acredito. Estou aqui quase todos os dias porque não tenho mais sítio nenhum onde ir, e vejo-te aqui, sempre a fazeres a mesma coisa, de certeza a mando das mesmas pessoas. Sabes que podes dizer não, não podes?
Lembro-me que toda a gente gritou golo naquele momento. Senti-me estranho por não conseguir pensar com tanto barulho. Limitei-me,por isso, a acenar com a cabeça. O velhote, que teria para aí uns largos setentas na altura, sorriu e estendeu a mão para a cadeira ao lado. Pegou num saco de pano, e tirou um livro do interior. Tinha a capa cinzenta, já muito sem tom, e ratada nas pontas. Mostrou-me a capa fugazmente, e só consegui ler O capital.
-Se te der isto tens de me prometer que não dizes que fui eu que to passei, ok?
Voltei a não conseguir responder. Só instintivamente peguei no livro, virei costas, e fui fazer o que tinha a fazer. Sem perceber porquê na altura, virei a capa contra mim para que ninguém visse.
Quando saía daquele sítio, reparei que o velhote que tinha acabado de falar comigo estava rodeado por três homens vestidos de preto, com chapéus, que saíram com ele para a rua, e o puseram num carro, com o homem cabisbaixo, e trôpego no andar.
Na rua todos festejavam. Ouvi dizer que Portugal tinha acabado de derrotar a Inglaterra, na casa deles. Era 1966. Verão...

13.12.18

Retro revolution


Custa tentar escrever bonito...


Hoje acordaste diferente do habitual. Como se a luz te vestisse de indiferença, e os minutos fossem passando sem que dessemos pelo passar do tempo, nem sequer pelos espaços que a solidão deixa entre as palavras, quando elas teimam em não surgir. Trocámos só o essencial, deixando o imprevisto guardado a sete chaves, entre os cofres invioláveis a que as nossas mãos dão forma, quando não sabem onde devem estar.
Perdi a vontade, subitamente, de achar que os acasos são obra de qualquer coisa desenhada, que não conseguimos ver ou sentir. Sentado, a ver-te desvanecer por entre a passagem entre o nosso mundo idealizado, e a realidade desconstruída, tentei achar na minha pele mapas que me levassem de volta a ti. Ao teu aconchego. Ao despir de alma quente que sublinhava nos teus beijos,…
E no fim de tudo, o silêncio…



12.12.18

Sem título (78)

eu tenho até de tentar escrever
enquanto arranho as paredes,
porque já li isto em qualquer lado,
não aguento mais a treta habitual
da caneta na folha branca,
e os versos certinhos,
que tendem para a rima
à esquadria,...

é tudo tão chato,
que só me resta dizer que
tenho a frase certa para
esperar ao sol pelo iluminismo,...

só que me esqueci dela


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