21.8.19

Obstetra de si próprio

dispunha-se a ser
o obstetra de si próprio,
com longas e
irremediáveis dúvidas
sobre a consciência,
analisava todos os períodos
em que o feminino de si,
se aninhava no conforto
 do homem dececionado que,
às noites,
se fazia de si próprio,
enchendo-lhe a pele
de forma irregular,....

o amor ficava lá longe,
e as dúvidas de dias
desfiados em sombra
acumulavam-se,
ao canto de um quarto semi-vazio,...

sentado em concha,
de pernas arqueadas sobre o coração,
ponderava acabar
com uma vida irremediavelmente
obcecada


20.8.19

Sem tema

-o caminho é por aqui,...
lembrei-me que fechavas os olhos, mesmo sentada ao volante.
-Tens a certeza?
Não, nunca tive certeza de nada na vida. Talvez só de que não nasci para ter certezas. Mas agradava-me o sol no colo, enquanto sorria ao teu lado. De cabeça ligeiramente inclinada para a frente, o assento do banco do carro a isso o obrigava, arrancava-me um sorriso sem explicação.Conduzias nervosa, mas ao mesmo tempo capaz de falar. De assumir posições políticas irrefletidas, opiniões sobre a arquitetura das ruas onde passávamos,...
- Não me digas, já sei que não tens a certeza de nada.
Por mais qualquer coisa, iríamos dar a lado nenhum... Mas isso pode contar-se noutra altura.


19.8.19

De broa do

esperar por quê,
se o tempo não se
veste para sair daqui morto,
recordado como terra,
esperar sim,
mas na vanguarda
da decisão,
independente do vício,
dos lamentos
dos rios que vacilam
em pranto,
quando tudo na vida
 abana em seco
para o abismo,....

a meu ver nada,
se pinta a ocre
enquanto os olhos
 cegos se adaptam
ao sangue,
nada faz sentido
 ao esperar pela força,...

nada mais presente que o
passado de fome cantado


18.8.19

Precisa medida da necessidade

raízes tão finas
como o choro,
a decisão falsa de
ignorares o tempo,
e o passeio pelas findas
encostas da desilusão,...

resumi assim aquela noite
em que percorri
caminhos obtusos,
onde o esquecimento se perdeu
na raíz iludida da água,...

e ao longe a precisa medida
da necessidade



16.8.19

Dissecar

e eu de alguma forma perco
a voz,
disseco-a como de um coracao
partido tivesse saido,
não me recordo que chorasse,
nem das vezes em que luziu
uma despedida,...

talvez mesmo tu me escrevesses
o silêncio,
a minha normal tendência de ser,
sim só com a mesma cadência de poemas iludidos,
determinantes apostatas,
sem religião,...

só assim alumio a verdade,
perdida assim,
no chão






15.8.19

Nua de expetativas

não precisei de te odiar,
nem da precisão de um adeus,
só me restou caminhar pelos ramos
quebrados do que dissemos,
sem sentir,....

não me acho pronto para
reescrever o nosso caminho,
e o que ficou por dizer assola
o frio do respaldo da saudade,...

abrindo a boca,
e ao selar o coração,
este seria o mundo possível,
agora que no gelo caminhas,
longe de mim,
perto da ideia de nós que
gritavas ser atabalhoada,
mal vestida,
inocente de mais até,...

mas que agora é a única que
existe,
uma ideia que connosco vive
ao longe,
nua de expetativas


14.8.19

História de final indefinido

...só sentia saudades de contar uma história de final indefinido. Por isso sentei-me no degrau de entrada da minha casa, eu que de forma tão marcadamente irresponsável moro no campo, com a frontaria da minha habitação escondida por copas de árvores que de tão velhas, já cruzaram destinos, aguardando a morte de abraços fechados.
Inventei um homem de meia idade. Sozinho, desmazelado, que gostou de ler mas agora perdeu a vontade de impedir os neurónios de morrer. Não lhe dei nome, porque as pessoas sem futuro não têm nome,... perdem-no ao primeiro desgosto forte que os abana tanto até cairem. Não alimenta expetativas sobre nada. É assexuado, por razões que não explica.
Enchi um copo de vinho branco, quando chegou a altura de lhe moldar os pensamentos. Acreditava numa sociedade sem exploradores e explorados, porque o pai lhe tinha dito que isso era bom... Mas nada mais... A política deixava-o deprimido... Um dia conheceu uma mulher perdida. Tinha-se esquecido do caminho para casa, porque não tinha ninguém à espera... Era um dia de Verão menos quente que o habitual....


13.8.19

Inocência explicada

inocente,
inocentes os dias mal desenhados,
os mesmos com que me oferecendo
verbos por conjugar,
percebias que não sou a tua ilusão,
nem tão pouco as vezes com que
te deitas contigo mesma,
e assim a felicidade te abraça num
desfecho de solidão,...

não sou nem parte mal entendida
deste quadro desbotado,
iludido,
com que apareces ao lume
da minha ausência


12.8.19

Estreiteza de ruas

hoje sei por alto que as ruas não
são tão estreitas como o vento,
a partir de um certo ponto,
o mundo embrutece,
as lágrimas das pessoas
alisam as esquinas,
e a vida perde o rebordo
enlutado dos nossos fracassos,...

passa assim o sentir mal dos
dias menos explicados,
e tudo acaba em silêncio,
como os limitados da criação


11.8.19

Aqui para cair

não faz diferença se a luz ja
não for minha,
nem se por aqui a sorte ainda tiver
caminhos escondidos,
repugna-me estar aqui para cair,
deslizar pela indecência da Terra,...

encontrando-te a meio pela razão
indefinida que a luz nos traz,
e por tudo isso,
ausente me tenho na expetativa de tudo acabar


10.8.19

...tantas coisas

Saiu de casa, e para trás deixou-me com tantas coisas. Uma mala de viagem comprada num daqueles mercados em que, um dia, gostámos de nos perder. Era acastanhada, com um fecho cromado, de fivela. Cabiam lá dentro todas as camisas que ela me comprou, bem dobradas. Não perdiam a goma, e ainda havia espaço para algumas gravatas enroladas, em novelo. As meias ficavam numa bolsa na contracapa da mala, embrulhadas em punho fechado, como todas as mulheres mandam. Ficou para trás o ferro de engomar que tratava das camisas, e ainda vários sapatos já gastos do uso.
Os livros mereciam o meu silêncio, espantado. Estavam concentrados em montes derrubados, quase como aqueles filmes de domingo à tarde, com montanhas arrasadas por caças japoneses que devastavam as ilhas do Pacífico, e depois fugiam em direção ao pôr do sol. Havia uma bíblia, como há em todo o lado. Coisas da escola, com o 'Felizmente há luar', do Sttau, que ambos gostámos de ter sido obrigados a ler, em lugar de destaque.
Havia muito mais. Talvez, escondida, houvesse até uma lista de tudo aquilo com que fiquei.
Não conseguia pensar.
Só me ocorriam os pequenos almoços de fim de semana, na Baixa, tomados em silêncio no meio da estridência dos gritos das famílias com crianças pequenas que nos afogavam, só porque nós sempre deixávamos. E gostávamos.
E os jantares de todos os outros dias, também em silêncio. Uma batata frita de pacote, endurecida porque não havia dinheiro para comprar mais, sabia porventura melhor se os maxilares e a língua só se concentrassem no ato de comer. Nunca no de falar.
Talvez tenha sido esse o silêncio que acelerou aquela saída. E para trás ficaram tantas coisas....


9.8.19

Escrita envaidecida

penso em escrita envaidecida,
sem poeiras,
abalada por tremores de
anuências sem rosto,
avales de indolentes de escritório
que até arrastam o
tempo,
só porque o tempo lhes
ensina versos com verve,....

a minha escrita envaidecida,
será minha se nos versos
assinalares os limites
por onde posso ir,
aquelas ruas em que já passámos
há muito tempo,
e onde o tempo ficou refém
de velhos anónimos,
acalmados pelo sorver que
a morte tira dos ossos,
e cospe de volta nas esquinas
que o tempo vai glosando,....

a minha escrita envaidecida,
sinto,
vai acabar quando tu e eu
nos esforçarmos pelo fim
possível para um desejo,
embrutecido


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