quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Havia livros constantes,....

 Vilma insistia em adormecer para o poente. Era um nome que lhe tinham posto, e convencia se que, por ser estranho, fora do comum, a obrigava a seguir um caminho de nao retorno, que a distinguisse da normalidade enfadonha. Nao é que os últimos raios de sol de um dia ainda entrassem, desmamados, pela janela do quarto, quando ia dormir. Mas o propósito era fechar os olhos sempre para o mesmo sitio. Havia livros constantes em cima da mesa de cabeceira de pinho, e poderia dizer se que fossem um obstáculo à luz.  Mas se ja era noite escura, isso nem se colocava. E havia ainda o pormenor de Vilma exigir de si mesma o contacto da pele nua, com a suavidade dos lençóis.  Eventuais companhias não se colocavam. Vilma forçava se a soltos pensamentos de prados acastanhados,  algures no que conhecia da Escandinávia.  Que lhe deixassem os pulmões ficcionalmente cheios de ar, o que providenciava aquele torpor cerebral que conhecia, mas preferia não definir. E o sorriso. O leve esboço de art deco, que a emoldurava como se estivesse perdida em qualquer museu do mundo. O amanhecer fazia terminar o bordar subtil do vestido transparente que Vilma desejava para si.

Man with a movie camera (1929)
De: Dziga Vertov

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

....o recurso do gemido

 Se por trás das flores,

Contas feitas ao lado da terra,

Enegrecida e sem idade,

Se sobrevivesse sem letras,....


O recurso do gemido,

Comprar amor sem o poder do argumento,....


Escolher quem manda à frente de decidir quem parte,....


Se por trás das flores,

Hoje fosse a força que perdemos,

A forma de uma base,

Circular e experiente

Man with a movie camera (1929)
De: Dziga Vertov
                                                                              Tirado daqui

terça-feira, 25 de agosto de 2026

....a honra é algo que não se apregoa

 Dizer que nasci por engano. Com a contribuição do acaso. Que a senhora minha mãe nunca realmente me planeou. Que na sua cabeça apenas pulsava a ideia de um filho:nunca o mais velho nem o mais novo. Apenas um. O que monopolizasse os beijos de inverno, e os copos de refresco açucarado de verão. O que tivesse tudo em tamanho único, roupa, meias, sapatos, discos, livros de colorir. Eu surgi numa madrugada de meio de Outono, com chuva mortiça, e caminhos de rotina na rua semi cheia de um dia semana, porque, defendia e praticava a senhora minha mãe, a honra é algo que não se apregoa, pratica se. Isso não impede que tenha sido um engano. Uma volta ao túmulo da ansiedade e das decisões mal tomadas, que os meus progenitores deram. Juntos, apesar de tudo. A minha pele clareou como um engano, à medida que crescia. O meu esqueleto alargou. A minha voz sumida, vencida pela timidez doentia, rodeava me de noite, na cama, no espelho das manhãs. Na leitura monótona do resumo das novelas. Cantava em surdina ate canções, que faziam de mim um gigantesco ponto de interrogação.  

                                                                                   Tirado daqui

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

...a minha moral

 Eu sabia que era uma vantagem ter bolsos fundos. Não é cativante descrever o que podemos transportar, provavelmente sem sequer precisarmos. Mas, naquele dia, consegui encaixar um papel de desejos, como lhe chamava, num espaço reduzido de uns jeans velhos e rossados.  Escrevia o que me apetecia nestas folhas. Versos de Rima, versos de viagem, prosas curtas e reveladoras, a minha moral quase traduzida em desenhos de esquadria. De tudo um pouco, o que me traduzia como pessoa e ser pensante. Caminhei pela beira mar, num dia cinzento e que me presenteava com chuvas aquecidas e com cheiro a cidade decrépita e envelhecida. Gostava disso. Conseguia, em dias como o de hoje, arranjar ainda espaço para dizer a mim mesmo, em quatro, cinco curtas palavras no máximo, que ainda assim me sentia poucochinho. A precisar de um reforço, que só talvez viesse de um ocaso em silêncio, num dos vértices daquele mundo que eu lutava por manter pequeno e sem importância. 

                                                                                  Tirado daqui

domingo, 23 de agosto de 2026

Com paredes sujas,...

 as nossas coisas,

o mesmo de sempre,

embebido em sangue,

em crimes por explicar,....


a razão porque

o dia começa enegrecido,

com paredes sujas,

sem estarem,

com uma música repetitiva,

e que convida à morte,...


as nossas coisas,

as que só vemos,

dispostas em alternância,

no chão enevoado

da casa que não é nossa


                                                                           Thanks so much

sábado, 22 de agosto de 2026

Atrasado na idade,...

 As ondas chegam recuadas,

Como prenúncio de destruição que o mar anuncia,

Encorpado,

Atrasado na idade,

No que diz de insultuoso,...


E desta vez abstendo-se de escrever no areal,

Como toalha estendida à sevícia e ao resumo de um adeus

                                                                              Tirado daqui

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Serei breve,...

 

                                                                                   Tirado daqui


Aconteceu me de poema para poema,
Deixar de saber escrever a luz,
E ouvir a perfeita conjugação do adeus,....

Serei breve,
Tanta coisa ficará por dizer,
Quando me apresentar perante a revolta,
Encarnecido e com a presença da vida nos olhos

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A prova,....

 

E sua,

Sua uma testa,

A roupa rasgada e única que se tem,

E um olhar,

Atrasado,

Sem os ajustes normais,....


Continua difícil dizer que se odeia,

Antes de se amar desesperadamente,

Fingir que se sabe uma página perdida,

E nem ter livro para acalmar,

Sentir o tranquilo desabrochar de uma noite escurecida,....


A prova,

É a luz deseperada do novo dia 

Atypical
(2017)
                                                                     Tirado daqui


quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Chama se a voz,...

 Não é daquele,

Nem da minha raiva,

Não está dentro de nós,...


Tão pouco nos acorda a um qualquer fim de madrugada,

A pedir que balancemos a vida,

A façamos de todos,

Porque assim tem de ser,....


Chama se a voz,

Talvez seja maior de idade,

Constante,...


Dona de um corpo e de uma atratividade,

E é ilusão deste lado do que se descreve em prosa,

Com um titulo desafiador,

E uma única ordem coloquial como vontade,....


E agora,

Para que reparemos na bondade das flores de beira de estrada,

Que ainda restam,

Sentiremos o amor na ponta fria da língua de um felino

                                                                                 Tirado daqui

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Com o ar irresponsável,...

 Estava sempre assombrado,

pela ideia de que este espaço ja não era meu,..


Talvez um dia tenha sido,

Quando me chamavam,

E eu respondia em vazio,....


Com o ar irresponsável,

A fazer perigar um coração velho,

E diatendido,.....


Já não estamos nos tempos que se confiem,

E ha uma volúpia nas mãos que o confirma,....


Porque do dezembro desse encorpado desejo de amor,

Eu quero entender o suficiente,

Para que aqui seja de novo meu

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Este é um poema desatento,...

 À noite contávamos um número infindo de pardais,

Uns atiravam se contra os vidros embaciados das janelas,

Numa mistura opaca de loucura e amor por corresponder,.....


Outros alinhavam se nos beirais das janelas do bairro,

Cabisbaixos,

Sempre atentos às conversas impuras e desordenadas do final de dia,....


Este é um poema desatento,

Inspirado neles,

As criaturas que sem esforço,

Contribuem para a recolha de suspiros,

De uma rotina sem cor,

Mas com sons aperfeiçoados,

E fugidos da rotina,....


Dedico a pássaros de beiral,

Estas letras desordenadas

domingo, 16 de agosto de 2026

Com uma peça de roupa ao sol,..

 Mas a verdade,

E o publico,

As canções que por ali estão a passar,

Sem que a alma doa mesmo às pessoas,.....


Acho que o tempo até pode ter parado,

E um sorriso de um adulto em construção que o prova,....


Com uma peça de roupa antiquada,

Mas intensidade na forma de se relacionar com os outros,

E principalmente atractividade,

Muita mesmo,....


O tempo pára sempre quando assim é