3.4.19

Letras de merda

 letras de merda,
solstício de toda esta
 coisada medíocre,
 que nem reluz à sombra
de um projeto de sociedade,...

sem exploradores,
com explorados
aluados de burgueses indisciplinados,
e retirados da vida pela saída airosa
de um respirado traque,....

detesto as perceções indecentes
de sonho,
e as irrefletidas estrofes
de cansaço,
letras de merda,
sim,
convosco sentados a ajuizar
só porque sim,...

e talvez porque ninguém
entende as verdades assim,
meio explicadas,
ajustadas só ao momento,
e nunca à realidade,....

letras de merda,
ainda espero por
pagar o imposto
da estupidez que não tenho


2.4.19

Portugal sem suporte

Um quilo de pão custava pouco mais que o suficiente, para tirar o sono a quatro pessoas. Dois quilos de carne já serviam para esgotar o orçamento. Mais o azeite, as batatas, 2 metros de tecido para fazer roupa, e três pares de alpergatas. A soma do que se comprava, mês sim, mês não, estava feita num pedaço de papel manteiga, esquecido em cima da mesa da sala. Havia uma velhota, de xaile rasgado, com a cara carcomida pelo tempo, e que se preocupava sempre em mastigar pedaços disformes de pão. Um rádio vomitava, em loop, músicas de Amália, quase como se preocupasse em abraçar tamanha incerteza descrita naquele quadro irregular de frustração.
Um pai e uma mãe. Desiludidos. Ansiosos. Com tremores ocasionais, desapegados da realidade. Do amor por darem uma vida ao amor que tinham moldado num rancho de sorrisos nervosos, que davam a alegria possível naquele sítio...


1.4.19

Sem título (73)

não haveria mais se tudo fosse pouco,
as pessoas perdem outras pessoas,
como se eu te conseguisse ver de perto,
de dedos entrelaçados na opção certa do amor,...

e enlameados seguíamos à míngua de caminho para palmilhar,
até à loucura


31.3.19

Absolutamente Maria sem nome

maria,
por equívoco,
refugiada estava
num quebrado mutismo,...

sem parecer,
nem contra senso perto
de qualquer coisa arredondada,
abandonada estava na
lateral infetada da solidão,...

inscrita na escrita,
perecia num qualquer
verso que lhe lembrava o amor,
os braços perdidos de quem
lhe foi guarida em noites sem nome,...

e hoje lá longe a deixa banhada
no esquecimento,
talvez merecido,...

e por fim o abrir
o Novo Testamento da
longa noite que custa
a passar,
recuperando a Maria,
sozinha,
de pleno direito


30.3.19

Sem título (74)

não sabia que ao escrever-te cartas,
deixaria de saber escrever,
que o mundo me seria estranho,
com fios de tempo pendidos dos olhos,
e a cegueira,
na quentura dos momentos,
encaminhando-me para o redondo do não ter
para onde ir,....

prefiro a ilusão,
a feroz carga neutra de nem saber esquecer,
ter de comer o seco do que,
no sexo dos segundos gastos,
perfumar lados frescos de um quadrado
onde não me saberia ter,...

ao lado de tudo isto,
a frase amarga de não ter
o que escrever,
o que viver


29.3.19

Definir um personagem

este personagem não vai falar português,
de uma fome atroz de conhecimento,
reconheco-lhe outras latitudes no olhar,
e a ti,
sem que lhe percebas propósito ou senso comum para os atalhos escuros da vida,
explico-te que na Europa onde nunca estivemos,
talvez haja a neve literária onde se dê melhor,...

com um amor sem pernas para viver,
e o arredondar do tempo naqueles olhos esvaziados,
que se vão dando a conhecer enquanto come sentado numa sala vazia,
com um amor morto a olhar para si,
sem que repare,...

vai dormir a ouvir música este personagem,
e sonhar com muitos livros anónimos escritos sem que as pessoas percebam onde está a poesia,
e só vejam a bestialidade das notas humanas do desprezo,...

por enquanto não te sei explicar melhor este personagem,
achas que lhe chame José?,
português não será,
já to disse,
talvez um mudo que prefere o silêncio à inconsequência da vida furada de sentido,
é uma hipótese


28.3.19

Sem título (75)

quisesse eu um resto assim,
desnorteado de aconchego,
e esperava aqui que os
chapéus da noite se entortassem,
para que a madrugada entrasse de mansinho,
pelos resvalos do teu cabelo,...

e assim adormeceria nos teus
braços,
encostado ao som,
mudo,
que a proximidade do
teu querer me dispõe,
num envelhecer tranquilo,
e conformado 

27.3.19

...desta porra triste

nada nos safa desta porra triste,
de mãos a deslizarem pelo corpo presas,
e condenadas ao degredo da injustiça,...

e de chorar,
e de revoltar quando nem se come,
para nos recusarmos a que a luz
se acenda nesta estrofe rota de vida,...

se souberes como nos safar desta porra triste,
ouvir-te-ei,
acho eu,
caso ainda tenha ouvidos,
e capacidade de um riso atávico só para
provar que me importo,
e dois olhos que brilhem o suficiente
antes de que o fio do tempo os esgane,...

até que haja mar para nos
trazer de volta,
cantaremos logo mais,
antes de dormir de lonjura
na alma



26.3.19

Alto

parecia tudo tão simples,
nos resquícios do frio
do nosso respirar,
sem moribunda lonjura,
na lassidão do afastar do toque,...

que quando nos precisávamos
a nós mesmos,
o tempo parava,
o frio desenhava
o medo no lastro do
caminhar trôpego,...

e tudo pára quando
assim brincam as crianças


25.3.19

Escrita em todas as faces da vida

Quando Joana escrevia, arredondava as letras o melhor que podia. A mão falhava-lhe, os olhos tremeluziam quando lá fora chovia, e a luz entrava, retalhada, pelos vidros foscos da janela da sala, obrigando a que se defendesse das lágrimas que lhe pareciam tapar a clarividência, e impedir que das pontas dos dedos saíssem sentimentos reprimidos. Sabia o que os reprimia. Conhecia o bichinho. Preferia não dizer o nome dele. Quando ele lhe subia pelo peito acima, e parecia querer sair pelos orifícios naturais que todos temos, escolhia sempre escrever. Arredondar os Os, estender os emes para que de uma folha branca nascesse, quem sabe, uma estrada de azulejos amarelos em que só ela pudesse andar. Um dia inventou um parceiro de azedume. Chamava-se João, para que até no nome fosse parecido com ela. Gostava de música clássica ouvida baixinho, de comer sopa de um dia para o outro, e de se sentar descalço à beira mar, esgravatando em busca de qualquer coisa que da água misturada com a areia pudesse sair.
Um dia, com o João até quis casar. O João planeou dar-lhe muitos filhos. Encaracolava os 'efes' de propósito, e misturava-os com 'esses' insinuantes, que se fechasse os olhos com a intensidade certa, lhe davam uma eletrificação nos lábios, dada pelo bem querer de um João que se habituava a sentir cada vez mais seu. Mas o João nunca saiu do papel. Às vezes, quando a calma tepidez do sol vinha lá pelos inícios das tardes, fazendo com que Joana se sentisse una com as folhas brancas que salpicava de redações irregulares, ele parecia quase ganhar forma. Entravam pela porta da cozinha insinuantes nuvens de um pó sem cor, que vistos do prisma certo, se arredondavam nas formas indecorosas de um ser humano cativante.
Nunca passou disso. Joana é hoje amiga do bichinho, porque parou de escrever. Dá-lhe uma tristeza companheira, e a jovem que um dia quase conseguiu fazer sair das folhas brancas uma criação carnal, com lábios reais, e olhos risonhos, e sentimentos carnudos como as faces de uma maçã, é hoje uma velha antes de tempo. Já não tem folhas brancas em casa.


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