quarta-feira, 1 de julho de 2026

Julhando a 23 de Outubro de 2025

 Deixava que fosse com damascos,

A pele das pessoas refletia a simplicidade,

E era o entardecer quando se chamava pelo passado,....


Num cesto a fruta disposta,

Um jarro de água com vários copos,

E chamavas me,....


Longas e possíveis formas de me prenderes à tua passividade de sempre,

A tua longa,

E deliciosa calma cativante,....


Comigo num silêncio de cetim,

O meu respirar continuava,...


Parecias assegurar,

Seres o vestido de cetim da jovem que ali tinha vivido décadas antes,

E saia de casa para percorrer os verões intermináveis de então,....


Será que havia também damascos 

                                                                                Tirado daqui

terça-feira, 30 de junho de 2026

Via esse homem despido,...

 lembrou-me o homem de chapéu tirado,

o que acenava a tudo,

e com quase nada recebia a voz,...


 o homem de todas as roupas,

que fez muito quando precisava,

e nadava no nada do silêncio,....


via esse homem despido,

de roupa,

de argumentos,

de palavras que concretizassem,...


o homem que descia a rua,

no sentido descendente,

passava sem falar,

comia o que descansava

                                                                         Tirado daqui

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Especiais

 Antes que seja tarde,

Dizer de forma intensa que um par de lábios envelhecidos,

De tez ressequida,

Que provaram o amor,

Disseram adeus consecutivamente,

Entre estações,....


São espécies ainda vivas,

De proporção desmesurada,

E trazem por arrasto vários pares de olhos raiados a sangue,....


Desnecessários porque anónimos,

Anónimos de dois em dois Desesperos que o anonimato costuma trazer 

                                                                               Tirado daqui

domingo, 28 de junho de 2026

As pessoas tiravam anos de cima,...

 Foi essa árvore, a mesma senhora distinta, de casaco comprido de inverno, plumas ao pescoço, e pés delicados cravados no chao, que ensinava a rir. As pessoas tiravam anos de cima, procurando o prospecto daquela maravilha da criação por todos os lados. Nas estações do ano, nas parangonas dos jornais quando caminhavam para os seus trabalhos. Houve até o caso de uma mulher, atrasada no tempo, e de amores tépidos e sem sabor, que estendeu manta de retalhos na abertura do jardim onde a multidão de pessoas se concentrava, e ali ficou o tempo necessário ate conseguir um pouco de tempo para se confessar defronte de ramagens, folhas, folículos, caules e raízes ocultas. Falou, depois de comprovar a ausência de testemunhas, do que tinha deixado para trás em vários pontos das redondezas. Conversas por acabar. Amores ocasionais e desnecessários. E ate o sitio escolhido onde, num acaso de loucura depreciativa, deveriam deixar as suas cinzas quando morresse. A árvore respondia como sempre. Deixando o vento percorre la em mil acasos de brisa, o que inexplicavelmente despertava nas pessoas a vontade e o estímulo do riso. 

                                                                Tirado daqui

sábado, 27 de junho de 2026

Como um verso bonito,...

 Era preciso. Não se dizia. Nao se sentia. So se achava necessário que a água fosse cantada todas as noites naquele local. O processo era simples. Não restava muita gente por ali, e as pessoas que escolhiam ali acabar os seus dias, viravam se para dentro. Sem desejo, nem expetativas de nenhum tipo. Assim, impunha se que precisassem uns dos outros, através do olhar. A entoação deste laudo inesperado, que todas as noites mudava, para no fundo se manter igual, era monocordica. A água amava se, como se um órgão sexual de mulher se tratasse. Como um verso bonito, antigo de tão contemplativo. Uma cantiga que, junta à alegria esporádica de quem ali a cantava, subia nos céus, com um destino semelhante à condensação da água das chuvas...

Dorothea Lange
'Paul's hands'
(1957)
                                                                          Tirado daqui

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Toma,...

 Os miúdos deitados,

Sopra e deixa ficar o desejo na mesa,....


Há uma comida de corpo a suprimir a de espírito,

Que espera pelo desenrolar do tempo em forma de madrugada nua,....


Toma,

Ofereço te a vontade em forma de poema

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Gritos

 O coração andará perdido,

Enquanto rebenta o ódio em certas ruas deste país,....


As pessoas caminham sem destino,

Roupas gastas,

A espicaçar o sangue,

Do que sobra nas esquinas do tempo,....


Personificado em projeto livresco,

O coração cria um enredo de segundas feiras,

Invisível como o ar de inicio de inverno,

Para assistir à calma que vem depois da violência,....


Gritos,

Desenhos de amanhãs redescobertos,

E um sermão teutónico,

Que não tardará a dissolver se no silêncio comprometido dos que concordando,

Amedrontam se com o Sublinhado a fel das mudanças 

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Tempo breve,...

 Breve,

Breviário,

Aviltado pela ausência,

Gritos despidos,

E números,

Contas mal feitas,

Com roupas de mulher,

Uma e apenas uma nudez de homem,...


Tempo breve,

Já não morando na casa de outras alturas,

Com um desenho a acompanhar,...


E percebo que és quem descreve,

Esta parte,

De loucura mal feita,

De um fim de dia diferente de outros

                                                                              Tirado daqui

terça-feira, 23 de junho de 2026

Era a escritora,...

 -era a escritora. 

Todos a observavam no centro da vila, sem que a mesma percebesse. Era uma mulher assustada. Cabisbaixa. Olhava ocasionalmente para o céu, enquanto levava as mãos ao peito, fingindo estar num transe que so ela percebia. Já tinha sido bela, num passado que optara por esquecer. Era ainda a escritora. As pessoas lembravam se quando passava tardes sentada no único assento público, instalado junto ao coreto da cidade. Olhava muito. Um olhar penetrante, que dissecava a razão das coisas, e as opções que tomavam na vida.

Mas estava agora diferente. E tomava todos preocupados. Ninguém queria deixar de saber como estava a escritora 

Foto tirada em Jacareí, Brasil

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Só Porque Sim....

 


De:Eugénio de Andrade
Primeiros poemas, as mãos, os frutos, os amantes sem dinheiro

A ideia de mudar,...

 Uns cá que gritam impropérios,

Nadam em confiança,

Outros à volta do sol,

Desabridos,

Em ilusão,....


Por ali,

Onde o pombo se perde,

E há passos para contar verdades,

Os daqui razam a proposta,

A ideia de mudar,

E nem sorriem para o ar,....


Amor haverá por aqui,

Até que o ar desinche a razão,

E as coisas deixem de novo,

De ter aquele sentido de odor

domingo, 21 de junho de 2026

A Luísa,...

 A Luísa,

O nome não existe,

Deixa que permaneça escondido na base da janela da sala,

Por onde a chuva vai entrando em fila,

Nas dobras deste inverno que nao desaparece,....


A Luísa fez costura há muito tempo,

E viveu aqui,

Por entre as roupas que o silêncio desenhou,

E longe da chuva que ficava de fora,

Porque o tempo a julgava improcedente,....


A Luísa amanhã voltará,

Basta que deixes a gaveta aberta,

A segunda a contar do fim