O homem insistia em dizer que me conhecia. Apanhou-me na rua, enquanto caminhava com dois sacos excessivamente pesados nas mãos, e um saco de pano que equilibrava, dificilmente no ombro esquerdo. Apontava-me insistentemente para o rosto, dizendo que as linhas dos maxilares lhe eram familiares. Sentia-me incomodado. Sabia que era parecido comigo mesmo. Quanto muito com o meu falecido pai. O homem das sobrancelhas fartas, que fumava intermitentemente, e morreu um dia, exaurido pelo abandono a que se tinha votado. Se calhar, esta pessoa tinha-o conhecido. Talvez se lembrasse de um par de sobrancelhas que, reconheço, falavam por si próprias. Mas eu nunca o tinha visto. E, agora, acompanhava-me com persistência, rua fora. Tentei ignorá-lo. Mas passou pelos meus sítios de sempre. O quiosque dos jornais, onde o dono estava tão azafamado, que não ligava a nada nem a ninguém. A seguir a peixaria e o talho, em lados opostos da rua. Estavam ali desde que me lembrava, e sentia que iriam continuar muito para além da minha presença física naquele universo. Subi a rua, visivelmente incomodado. A dado momento, o homem perdeu-me o passo. Mas mantinha-me sempre debaixo de olho.
Inatingíveis 2026
domingo, 26 de abril de 2026
sábado, 25 de abril de 2026
Falando do fim do mundo,...
Quarenta anos,
Sai-me isto como,
Podia estar a reverenciar o teu corpo com a justiça devida,
Apercebendo-me de odores que os livros não trazem,....
Falando do fim do mundo,
Daquela esquina sem retorno,
Cheia de pessoas que deixaram fugir a ousadia,
Na esperança que me ouvisses,...
E fosse de mim que irias falar quando,
A próxima noite chegar,
E eu ainda me vir preso no estático que a fruição das horas tem,....
Quarenta anos,
Talvez o prazo de validade,
que amparar te num altar de amor tenha
sexta-feira, 24 de abril de 2026
Agridoce
até é um pouco agridoce,
o que se faz entre os dedos,e à chuva,....
não desgostamos desta solidão,
desta forma de dizer presente,
de um entardecer colorido e sorridente,...
não desgostamos de ser o cãozinho de serviço,
acariciado pela obediência,
e ignorado pela irracionalidade,...
e fizeram-me mal,
por ter descrito este bem,
poético e mesmo sujo
quinta-feira, 23 de abril de 2026
E sempre to disse...
Diz me qualquer coisa,
quarta-feira, 22 de abril de 2026
Cheirava a húmus,...
o que se celebrava nas tuas ausências,
nos contornos infelizes
de uma boca silenciosa,...
cheirava a húmus,
a terra fecundada
num canto perdido do real,....
e se nos subtraíssemos
ao presente,
funcionaria o tempo como
jóia eterna da presença,
anunciada e desejada,....
o que se celebrava nas
tuas ausências,
confirmava-se agora
ao anoitecer
![]() |
| La chimera (2023) Alice Rohrwacher |
terça-feira, 21 de abril de 2026
Que o tempo se poetize como deve
Quero falar do que vi,
De um tempo de agruras,
Encaixado em poucos minutos de filme de matine,....
Quero falar de ti,
Das tuas expectativas,
Dos desejos impressos em pequenos folhetos sem importância,....
Quero que falemos do óbvio,
De um beijo entre lábios,
Para que as lágrimas de contentamento se desprendam das órbitas,....
Quero ser eu mesmo,
A pessoa sem querer esperar nada,
Que adora só um pedaço de pão seco,
E uma caneca envelhecida de café,...
Esperando assim,
Que o tempo se poetize como deve
Turkey voltares, de: Michael P. Fogdensegunda-feira, 20 de abril de 2026
Três pontos
era um ponto
desvairado,
um borrão de carta
de suicídio,
até de amores
definia o ar,
a respiração travada,
o que me chamavam à noite
quando fugia das coisas,....
reescrevi-me tanto,
tantas vezes,
em sextilha,
em casal a saltar
de falésia,
que me lembrei dos sonos de
criança,....
o fumo de cigarro
do pai no nariz,
a mãe escondida
na sombra livre e
de ficção do quarto,....
e recitei-me
para terminar,
a forma estranha
como a oração se
perdia atrás de mim,
inundava cada novo dia
| De: x-files |
domingo, 19 de abril de 2026
E ao final da noite,....
Os que dizem adeus,
São diferentes dos
que entram na sala,
Amam as verdades
postumas,
Deliciam o mar,
Com flores em bouquet,
Enviadas a boiar
gentilmente até ao outro
lado do oceano,....
Quem fica,
Sabe que tem presente o tempo,
Defende a moral,
Escrita num toalhete
de casa de banho,....
E ao final da noite,
Já experienciou,
Pelo menos uma vez,
A recolha de misteriosos,
Bouquets de flores,
Que dão à costa
![]() |
| Pay nothing until April Acrilico em Tela, 2003, Ed Ruscha |
sábado, 18 de abril de 2026
Admitamos que sim,...
Prometeram nos assim,
Desespero,...
Muitas vezes sem saber o que fazer,
E fazer os possíveis como amor,
Quando sai luzes e luzes adormecidas no inverno,....
Veio uma senhora,
Lembro me dela,
De meia idade e sem inocência,...
Garantir pelo amor da criação onírica,
Que não ia doer,
E acabava em pouco tempo,....
Admitamos que sim,
Mesmo acreditando em pés grandes e diaformes,
Que caminhem sobre a neve
Tirado daquisexta-feira, 17 de abril de 2026
...pequenos bagos de solidão
Porque um ano,
As flores não te
dizem tanto tempo,
E ha nuvens que viajam o amor,
E nunca regressam
nesse passo sem marca,....
De ti sem roupa,
Da ausência de um coração,
Do sorriso de livro prolongado,
Que dizias em quadros
pendurados pelas paredes,
Nada parecia ficar,.....
A chuva ia em pequenos
bagos de solidão,
O sol esperava por mim,
Apoucado pelo quarto vazio,...
E num ano,
Nada mais perfeito que isto,
Te posso descrever,
Sem que cá estejas
Tirado daquiquinta-feira, 16 de abril de 2026
Aquela soma de versos,...
Para dizer a verdade,
Acho que seria suficiente desapegar os olhos de ti,...
Imaginar dois gatos à luta,
Uma vila vazia,
Porque todos partiram de coracao inconsequente,...
Dizer te que este sou eu,
O que diz coisas sem sentido,
Adivinha onde está a verdade,
Sabendo que ela morreu provisoriamente,
Como o mundo sempre nos ensinou,....
E mais logo haverá uma reunião de valores,
Eu a pensar que me arrependo que tenhas saído numa manhã de nevoeiro,....
E aquela música,
Aquela soma de versos,
Aquele presente sem razão,
E pouco sentido,
Que deixaste para trás
Tirado daqui






