maio 31, 2018

Já não preciso de ti

já não preciso de ti,,
agora que por braços tenho
caminhos bravios,
e os meus olhos cegaram para deixar correr a água seca do estio,
sinto-me naquele pó que as tardes de Verão levantam em surdina,
para depois vir o Outono de todos,
e secâ-lo em folhas mudas e que recitam a tristeza de estar vivo,...

sim,
já não preciso de ti porque amar não precisa ser amar,
pode ser esperar-te no desdobrar dos minutos ocos,
sabendo que não mais virás nas nuvens do céu,
que já foi o teto da nossa casa de papel

Image result for i don't need you anymore


Tirado daqui

Frase feita nas nuvens, desdisseste a parte menor de um adeus



maio 30, 2018

Seria fixe!!! I

cool-tattoo-quote-fire-skin

Soft core

velhos descascavam os desejos reprimidos,
uns depilavam-se a água,
outros punham mamas de morangos,
e o tempo a andar de barco nos rios secos,...

quando os velhos se dispuseram ao fim,
voltaram afinal a arrancar as peles aos bocados para as comer

maio 29, 2018

Ele e ela, amontoados


os dois juntos faziam um. Respiravam o mesmo ar, capazes de encher os pulmões com a certeza de que efetivamente dependiam um do outro. O dia desabotoava-se da noite à mesma hora para ambos, e invadia-lhes  o quarto com desenhos de luz capazes de depurar o tempo em pequenas frases mudas, e de contornos inodoros.
Escreviam os mesmos medos. Recitavam verbos alegres, com tons semelhantes, e tudo para pensar que a  vida sabe a morango quando quisermos que ela deixe de saber a morte.


Image result for madalena iglesias

Tirado daqui

Um dia gostava de saber escrever assim

A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer
A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.
A meu favor tenho uma rua em transe
Um alto incêndio em nome de nós todos.

Alexandre O’Neill

And buy some new headlights


Por qualquer coisa a mentir liberdade

não me dizias partes do mar,
só o vento preso na manga
de uma manhã,
comigo a vestir a alma de sair
tranquilo,
mas a chorar pétalas de raios de luz nos olhos cegos,...

e a pisar a areia do sentir bem com a finitude,
com mortos ao pequeno almoço e com o respirar todos os dias,
pelo tubo do medo de perder qualquer segundo por mal gasto,...

fins de sim,
fins de não,
perdíamos farsas de ensinar o medo,
por qualquer coisa a mentir liberdade


maio 28, 2018

Armagedão

espero acocorado,
a olhar o tempo a desnovelar-se em anéis de fogo,
o sol engole o continuo espaço-existência com a certeza de que,
tudo não voltará ao ser,
ao poderá existir,
ao que já foi,...

resto-me na máquina perfeita da continuação,
sentindo a carne a descolar dos ossos,
e no momento em que um clarão de todas as cores me envolve,
a certeza de que voltará tudo ao correr de água da felicidade

maio 27, 2018

Um dia gostava de saber escrever assim

O Teu Amor, Bem Sei

o teu amor, bem sei, é uma palavra musical,
espalha-se por todos nós com a mesma ignorância,
o mesmo ar alheio com que fazes girar, suponho, os epiciclos;
ergues os ombros e dizes, hoje, amanhã, nunca mais,
surpreende o vigor, a plenitude
das coxas masculinas, habituadas ao cansaço,
separamo-nos, à procura de sinais mais fixos,
e o circuito das chamas recomeça.

é um país subtil, o olho franco das mulheres,
há nos passeios garrafas com leite apenas cinzento,
os teus pais disseram: o melhor de tudo é ser engenheiro,
morrer de casaco, com todas as pirâmides acesas,
viajar de navio de buenos aires a montevideu.
esta é a viagem que não faremos nunca, soltos
na minuciosa tarde dos lábios,
ágil pobreza.

permanentemente floresce o horizonte em colinas,
os animais olham por dentro, cheios de vazio,
como um ladrão de pouca perícia a luz
desfaz devagarmente os corpos.
ele exclama: quando me libertarás da tosca voz dormida,
para que seja
alto e altivo o coração da coisas? até quando aguardarei,
no harmonioso beliche, que a tua visão cesse?

António Franco Alexandre, in 'As Moradas 1 & 2' 

copo fones

embebedar o bêbedo mais desconfiado da rua,
tornava-se difícil como dar de beber a colibris,
irrefletido em muitas coisas,
o bêbedo saltava pocinhas como um gato,...

dizia preferir água da chuva a zurrapa igual à que agora lhe queriam dar,
resolveu-se o assunto com duas promessas de uma cama feita,
e um livro de pensamentos filosóficos que refletisse o luar

It’s 1987 ali over again


maio 26, 2018

TOCA A FALAR DISSO: EU FALO DE... ABRIR OS OLHOS ATÉ AO BRANCO

TOCA A FALAR DISSO: EU FALO DE... ABRIR OS OLHOS ATÉ AO BRANCO: Há o breu, a escuridão, a negritude plena, a noite, as sombras, e a loucura semi-obscura na busca sempiterna do raciocínio claro, obje...

O reconhecimento do Inatingível 2018

Esgares

nem que sonhar fosse um rio,
mesmo as frases das margens a amparar-nos a pele curta do sono,
sobreviveriam como certas as pertinências de querer mais,...

céu sim céu não de mãos atadas em círculos,
e isto tudo dito ao ouvido de quem se deixar morrer num sorriso 

maio 25, 2018

Feias torres, com picos, no irresponsável de um suspiro




Um dia gostava de saber escrever assim

Não sou a areia, Lya Luft


Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério
A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.

Sempre que o dia se desdobrasse

pedir pequenino na mesma lengalenga de quem se pensa grande,
com o prepúcio da razão puxado para trás,
era o peito feito do comprar versos ao quilo,
a ágora era o estar só,
e o desafio desvirginar palavras a metro,...

com o seco da garganta e o engilhado dos dedos,
isto tudo a servir de paleta de cores de ideias órfãs,
presumiram-nos os mestres sem rosto,
que nada voltaria a ser como dantes sempre que o dia se desdobrasse,...

mas vieram os equívocos de puxo no cabelo,
as mesmas que meneiam os quadris para assassinar emoções de ponta a ponta,...

com nada pronto para ressuscitar deixado como motivo para um poema


maio 24, 2018

Maldita música, sai-me da cabeça!!!


TOCA A FALAR DISSO: EU FALO DE... DIVULGAÇÃO DE AUTORES PORTUGUESES NO...

TOCA A FALAR DISSO: EU FALO DE... DIVULGAÇÃO DE AUTORES PORTUGUESES NO...: Um dos serviços mais relevantes da In-Finita é, por razões naturais, óbvias e umbilicalmente ligadas ao histórico de trabalhos realiz...

Mais um agradecimento à In-finita Lisboa

eu tanásia

aquela coisa de subir e descer as costelas para seguir em frente,
com os espelhos a gastarem a luz da existência,
devolvendo buracos negros,...

a sentir segundos como espinhos
alegrias ratadas à porta do esgoto,
para o repente parafrasear o fim,...

achou a tangente da coragem,
e acabou,...
——————————————

maio 23, 2018

Um dia gostava de saber escrever assim

No silêncio dos olhos, José Saramago

Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?

Loucura calculada

o sabor metálico da perda,
numa gota de qualquer dia que escorre da parede,
de todos os dias,...

a frase inaudita desta coisa de ser poesia,
o mesmo que as festas no cabelo quando se faz bem em criança,...

e o ouvir a música certa a abrir-te a casca,
como a banana do fim do mundo que nunca será colhida,...

tudo rebordos do limite assumido de uma loucura calculada


maio 22, 2018

Operário despedido

Já sabia como ia ser despedido . O relógio, vagarosamente, ia marcar as três da tarde com três gongos semelhantes ao ko Tecnico de um combate de antigamente do coliseu dos recreios. Vestido com o macacão azul, ruçado, e ratado nas mangas e nos tornozelos, batia na porta de mogno do gabinete do engenheiro, e ouvia uma voz cavernosa, de cinco uísques seguidos:
-entre e depressa.
O dia estava chuvoso, por isso o cubículo, com uma bandeira nacional na parede frontal à porta, e um quadro do menino da lágrima que tremia a cada dois passos no chão de tacos, ia estar pintado de um daqueles cinzentos que daria vontade de chorar.
À ordem para se sentar, respondia com um silêncio de quem já sabia como iria dormir a noite seguinte.
Começava com uma palmadinha nas costas simulada, com um gosto muito do seu trabalho, e já cá está há muitos anos.
E depois vinha a parte do já não precisamos de si. Por essa altura já não devia estar a ouvir nada, só talvez o casal de gaios que gostavam de dar uma pinocada em cima do Salgueiro velho plantado à entrada da empresa, e que faziam sempre uma algazarra enorme.
Ia vir-lhe à memória os cinquenta e tal anos, a mulher desempregada e com a doença malvada a precisar de tratamento, o rapaz sem cabeça para a escola e que ainda não tinha trabalho porque preferia ficar fechado no quarto de manhã à noite a fazer coisas que se calhar será melhor o pai não saber.
-espero que entenda esta nossa decisão . É a bem da empresa.
Estenderia a mão como um manequim da loja de roupas da rua do ouro, e sairia derrotado, acabrunhado, sem cor nas veias, e a fazer as contas para o último dia com o coração a apertar, e a ficar -se debaixo das lágrimas da mulher e da inação do rapaz que ia perceber aí que teria de se transformar no homem que sempre tinha tido medo de ser.

Esqueci-me do relógio em casa

às oito e um pedaço,
desviei a mão do sol,
enquanto me davas melaço,...

pelas nove e qualquer coisa,
puxei o fio à boneca,
e escreveste com água na lousa,...

lá pelas dez e picos,
já o dia ia alto,
e acusaste-me de futricos,...

só às onze e não sei quê,
recuperei a razão,
e pensei que na canção,
já não há meio dia sem você,...

e agora é uma e tal,
e eu com fome e sem jornal,
olhando para a mesa vazia,
e a julgar que se refletia,
é porque já não tinha bornal


maio 21, 2018

Parte do todo

para o teu medo do raiar de um beijo,
encontrei uma resposta nas margens irregulares de um gostar,
habituei-me à bolina dos passos em cada indecisão tua,...

em todas as chuvas que descrevi ao sol de quando fugias,
dizendo seres como a doença,...

que voltarias quando a noite já não fosse suficiente para me aquecer

Chove em cima do tempo

perceberes que não há um grão de pó fora do sítio no universo,
acordares com tantas peles diferentes que o conceito de vida se torna ilusório,
pé ante pé de desilusão só para fingir que regressar ao som de um dia,
significa pouco mais que o voltar a casa mais sozinho,
do que ignorar o sentido de esteta de um sonho,...

e lá fora chove em cima do tempo


maio 20, 2018

Sol, frase feita do fim



sendo pesa mais que querer

desde a espera pelo não voltar que todos somos diferentes,
passaram milhões e milhões de decisões indecifráveis,
catástrofes usadas como jóias de sedução,
e estar continua a pesar muito mais que querer,...

substituídos à onda que fecunda a praia,
deixamo-nos assim estar pesados como a morte,
e luminosos como os intermináveis sorrisos de um beijo


maio 19, 2018

Escrito às escuras

se for para a imensidão de um raio de não saber decidir,
pensar na versão menos incomoda do acordar,
é o suficiente para lamber o caminho dos dias sem cor,...

a frase curta do não estares aqui,
agora,
sem dois precisos suspiros da sufocada falta de amor,
escreve-se com areia preta da praia,...

sobra-me mesmo um vulcão de dias sem contorno,
para me explicar no picotado da luz de prisioneiro da alma que nunca tive

maio 18, 2018

Um dia gostava de saber escrever assim

nicolás guillén / dois meninos


DOIS meninos, dois ramos de um mesmo arbusto de miséria,
juntos, na noite quente, sob o mesmo portal,
dois meninos, mendigos cheios de pústulas,
comem de um mesmo prato como cães esfomeados
a comida lançada por preia-mar de banquetes.
Dois meninos: um negro, o outro branco.

Suas cabeças unidas, semeadas de piolhos;
seus pés muito juntos e descalços;
as bocas incansáveis num mesmo frenesim de mandíbulas,
e sobre a comida gordurenta, azeda,
duas mãos: uma negra, outra branca.

Que união tão sincera e tão forte!
Estão ligados pelos estômagos e pelas noites foscas,
e pelas tardes melancólicas nos passeios brilhantes,
e pelas manhãs explosivas,
quando o dia desperta com seus olhos alcoólicos.

Estão unidos como dois bons cães…
Juntos assim como dois bons cães,
um negro, o outro branco,
quando chegar a hora de marchar
irão querer marchar como dois homens bons,
um negro, o outro branco?

Dois meninos, dois ramos de um mesmo arbusto de miséria,
Comem, na noite quente, sob o mesmo portal.

De que é que se estão a rir, ahn?!?!?!

Praxis

e risos sóbrios com as linhas tortas dos dedos,
nem fazer o prazer com o estar calado ao amor,
só meias verdades ao orvalho do mal querer após o adeus,...

nomeaste-me assim o que estava à porta de um sonho do qual não se acorda,
sem sequer força para não medir o desejo do não ter para possuir,
por isso adeus,
no talvez do querer ficar,
resumo para bem de não ter mais fogo para servir de almofada


maio 17, 2018

Ganha um pouco do líquido que sou




Mudanças

um poeta mudou-se para aquela rua,
as casas estavam marcadas de forma indelével pelo som,
as paredes tinham frases de amor escritas,
e sobravam as ruínas de um barco sem cor,
como monumento ao esquecimento,...

estavam reunidas as condições para livros que cortassem como cutelos,
até que surgiu ela,
nua de espírito,
e vestida com a invisível pele do pecado,...

o poeta voltou a mudar-se

maio 15, 2018

Fome

Não me disseste da manhã,
As mães que saem para o trabalho nem viram a fome,
Os filhos obrigados a remexer na terra sentem a fome,
E sabendo do neo-realista desejo do sonho,
Esperei pela madrugada para te perguntar pela água,...

Seguiste em silêncio virada para dentro

Gato escondido com rabo de fora






Impressão digital

nunca me lembro de ser a tua
impressão,
o solitário de ver o mundo da ponta suave do dedo que,
sendo o mesmo que muda o mundo na solitude das tuas noites,
foi há muito o que sentia nos meus lábios para parar de chorar,
para dizer o dito de ser o
silêncio por opção,...

a mesma máscara dos dias iguais às noites de meninos tristes,
serve-me agora em ciano oculto,
para saber que não morrerei ainda na ideia oculta dos
teus cabelos,
que me amparam a madrugada sem ar dos choros de esperar por ti

maio 14, 2018

Tale of one kingdom

o rei foi visto a nadar para trás,
o povo achou mal e pensou em
acabar com insultos desnorteados,
quando havia pessoas a morrer de fome,
e crianças que não tinham sequer um
livro para pousar os dedos,...

no dia seguinte o sol foi puxado para baixo,
e a lua cosida ao céu para que ao
luar as coisas mudassem,
mas o rei estava colado ao trono,
dizia que era dono dos sonhos das pessoas,
e por isso recusava-se a sair,...

o povo mudou de ideias,
juntou-se no maior terreiro do reino,
e decidiu partir,
achou outro país,
sem rei, sem dono,
sem sol, e sem lua,..

e criou uma coisa chamada poder
das decisões coletivas,
no dia seguinte já havia livros
para as crianças sonharem


maio 13, 2018

Poema em sombras


não estavas no sol,
não fugias da lua,
nem centravas um ser de
azuis nas sombras
das desilusões,...
encontrava-te ao final de
cinco minutos de dilúvio,
escondida do vento,
ao longo de uma estrada
rendilhada de silêncios
mudos,..
a conta das ausências
pagava-a em murmúrios,
animalidades sem sentido
que te deixavam,
nos punham,
na ponta distante do
sem retorno,...
e fica por dizer
o desnudar da madrugada

E porque não um domingo transparente?


Domingo esférico

a olhar fixo para duas gaivotas a cruzar o céu,
a pele ganha as chagas da despreocupação,
desenhar o presente de um futuro irregular,
assim sem querer o apoucar das expetativas,
traz quereres diferentes do desenrolar dos dias,...

agarrados ao momento sem cor e sem definição,
trouxemos sons de volta ao silêncio do deglutir dos minutos,
trouxeste versos sem sentido,
poesia só pelo ato de querer esvaziar o cérebro de ânsias desunidas,...

e ainda bem que o sol já nasce outra vez

maio 12, 2018

Carta revolta do ter que viver

não sabias dos dias cozinhados,
com um cheiro a guisado de minutos,
eras acordada no pequeno-almoço
dos sonhos que é preferível esquecer,...

para depois te acocorares na sobremesa
de beijos que,
sendo a preferida do ser feliz,
se tornava o mosto dos segundos
que a ninguém pinta,
os desejos,...

e no fim a carta revolta
do ter que viver

Resultado de imagem para eating with blood

Tirado daqui

Sem Título (91)

era a terra calada como calados estavam os desfazeres de dias,
sobre o sol a pia dos doidos rota e com merda a sair,...

duas árvores do entendimento
no meio do apocalipse,
de bolso,
lutavam à sombra por um lugar,
no pós-fim

Resultado de imagem para the end

Tirado daqui

Cravados sós no dealbar da solidão universal



maio 10, 2018

Participação do Inatingível 2018 na Páginas Partilhadas de maio

Sem Título (93)

se para chegar aqui disseste força de mim,
fizeste-me descoser a boca,
em todos os sentidos que detestas,...

foi o silêncio que usei como segunda pele
nos almoços da escuridão,...

e contigo a prescrutar
a minha pele em chamas,...

fizeste Sol

Não sabemos de momentos sem asas na vida

só vou dormir cinco horas

regressava a casa tantos anos que nem se lembra,
depois do fim,...

chovia sobre as pedras acastanhadas de merda da calçada,
quando saíra mais velho do que era antes dos últimos suspiros,
aquela era uma cidade enviezada no criticar,
e com as cabeleiras loiras das putas que escorriam água a confirmar que subir a rua era para nunca mais voltar,...

trepou umas escadas assustadoramente normais,
e no corredor ao fundo um velho sorria-lhe a mijar com as calças pelo tornozelo,...

a cabeça estava imensamente vazia do que era aquele lugar,
só para nadar sentindo que nunca devia ter partido


maio 09, 2018

Um dia gostava de saber escrever assim

José Ángel Cilleruelo / bairro alto


2
Uma revista rasgada na armação
da cama vazia. Além o colchão
no piso de mármore, junto de restos
de pequena fogueira. Nas paredes,
mensagens de amor reles e obsceno.
Beatas, lixo, plásticos, migalhas
por todo o lado. Um preservativo
recente junta um sinal ao abandono.

Não sei se neste quarto estive só,
numa tarde de chuva, masturbando-me
devagar. Ou neste quarto será onde
desabotoou a saia e disse
deita-te! e o fio me beijou
os olhos. Ou talvez que na janela
de um quarto como o que descrevo agora,
numa manhã de setembro aziaga,
tremi ao ver que corria pela avenida.

Camiões e gruas e operários
destruirão o velho hotel em poucas
horas. O pó cobrirá a figueira
e os fetos do pátio antigo.
grandes rodas esmagarão a erva
onde me deitei um dia com um livro
nas mãos. Levantei os olhos
e estava junto da piscina,
prestes a rir-se do meu sotaque
de estrangeiro. Este quarto. Estas ruínas

Beijas-me?

um dia tive medo das sensações findas de não ter amparo,
lembro-me de ter acordado sem saber das pessoas o azimute,
onde elas vão quando choram,
onde se deixam ir até roçarem no limite do precipício,...

encontraste-me quando aprendi a rasgar as tardes em pedaços de criação,
acho que colei muitos uns aos outros,
e fiz outro de mim que entrou na tua crença do infinito,...

chamavas Deus quando o meu corpo foi,
tantas e tantas vezes,
a única via sacra sem cruz que já conheceste,...

os dias passavam nos bicos dos pombos moribundos,
e o sexo durava o que queríamos sem nunca roçar o infindo,...

até que me ensinaste o medo,
sem que to pedisse a não ser como chave que desmultiplicava uma parede de fumo,
entre um mundo de sombras e o real,
capaz de roçarmentiras pelos entardeceres alimentados a sangue de cada dia,...

arrumados os papéis inaprendiveis desta frase inacabada,
recomecemos no ponto zero do precisar,...

beijas-me?

maio 08, 2018

Luz cega


nem pela sombra de quando deixaste
a sombra,
serás farta história de relembrar qualquer
coisa sublinhada pela presença,
tenaz desnorteante dos dias sem fim,..

e põe ao sol o que fazias sem mostrar
nos longos passeios debaixo de um
dia aquecido,….

tudo assinado a soldo da luz
cega que ninguém vê

Resultado de imagem para luz cega




Triki triki balkan muniki


Contribuição do Inatingivel 2018 para o blog Páginas Partilhadas

Agradeço a oportunidade de me deixarem contribuir num projeto tão interessante como o Páginas Partilhadas. A ideia é boa, e em baixo está a contribuição para o próximo mês de junho. O tema é 'Os livros que somos'.

--------------------------------------------------------------------------------------------------------------
contentas-te com a frase menos bem conseguida de amor. Daquelas em que o conformismo ganha, e derrota a vontade de conseguir a realização pessoal. Também me lembro de quando disseste que poesia era para fracos de personalidade. Que incentivava o deitar todos os dias com a ideia de que ao menos nunca iremos ter problemas que nos tirem o sossego. No dia em que me disseste que biografias eram deprimentes, lembro-me que comecei a pensar se tinha tomado a atitude certa quando te beijei pela primeira vez à chuva, e tirei como consequência o inevitável compromisso .
Se nos sentíssemos agora imunes um ao outro, dispostos a  tentar outras soluções de realização pessoal, não havia livros para definir o que estava ali a acabar. E os livros que somos, acredito eu, definem as expetativas de vida que arranjamos para continuar a querer acordar. Paginados assim, até seremos criaturas nada opacas, capazes do mimetismo com o que a criação foi deixando de fantástico no correr de água de milhões de anos.
Por isso recapitulemos;
Gostas de livros sem começo e fim definidos, e que deixam as pessoas irritadas com a possibilidade de terem de comprar outro para se sentirem menos dececionadas?



maio 07, 2018

Violência doméstica


Place

Cáustico,
pele de som arranhada
em silêncio,
traiste?
vive a um passo de o próximo segundo não vir,...

e os pássaros que nunca saem do beiral da tua solidão


Uivo

tinha aprendido a descobrir o som do rebentar das flores,
como umas se faziam ouvir em silvos quase impercetiveis,
e outras pareciam chorar ao ritmo descompassado da chuva,...

era uma habilidade de segunda pele,
quase uma extensão de um eu escondido no tempo e no espaço,...

no dia em que partiu depois de toda a gente de que gostava ter morrido,
sentiu a alma a abrir-se como um fecho de casaco velho,
e deixou de gostar da vida como um dado adquirido

maio 06, 2018

Um dia gostava de saber escrever assim

Um rosto

Quantos séculos passaram pelos
teus olhos? Quis contá-los; mas não consegui
passar do princípio que os teus dedos
me deram, fechados para somas
e subtracções. O tempo é assim: doce
como este mel que escorre da tua boca,
quando nela procuro as palavras
que esconde; e amargo como a penumbra
que te envolve, numa celebração
de cinza. Mas dizias-me: «Uma certeza
protege-me.» E deixas-me a luz que te
ilumina, e o rosto a que nenhum inverno
roubou a beleza

Nuno Júdice

Songs from the tube


Bom dia indecente

ela era conhecida como a mulher que media tudo em vaginas,
um dia de descuido na 'disco',
um mês sem mulato da praia,
há um ano a deixar crescer sem depilação,...

quando ficou velha passou a medir tudo em milímetros,
hoje já está mais perto dos joelhos

maio 05, 2018

Primavera restada a um adeus

a ver-te à espera de um mar,
com olhos de maré cinzenta que rebate
na praia que chora,
fruimos ambos de um horizonte com poemas
por escrever,
o mesmo que nos dava o dar de passos
que calcam na areia o bem querer,
as esperas finalmente descritas nestes momentos
que sabemos acabarem com o adeus,
o até que o tempo queira,..

e um abraço restado ao vento,
a todos os entardeceres resumidos naquele
fechar de céu em chumbo,
e o começar a chover,...

pudesse este pedaço de universo caber nos
passos opostos que demos,
até nunca


Hoje acordei com 'coolness' dos 'eighties'


Os poemas e a pituitária

à terra o querer de quem tem
poemas cravados na pele,
ao sol os amanheceres sempre iguais de tal descredibilização,...

tomar banho assim em metáforas,
deve doer comas na pituitária

maio 04, 2018

O Inatingível 2018 a chegar a outros lados. Em breve em livro


O mundo lá fora já é seguro?



Nova e subsistente mágoa

...não se recordava do pó de onde vinha. Só o especial sabor do chão barrento, que perfumava os seios nasais a cada acordar recordado no sítio de onde lutava fratricidamente para não sair, a fazia sentir pessoa subtraída à terra. Limite superior do ser, encastrado em cada coisa que aquele lugar tinha.
E no fim, lágrimas sem sentido. Tantas, que a chuva da manhã se confundia com a sina de ser tristemente afogada em mágoa...

maio 03, 2018

Sniff, sniff, sniff

Redondel





nisto de ensimesmar a solidão,
contam-se pelo rosto do mar
as lágrimas do não querer,...

e com o fim a vontade do tudo,
na mesma medida do nada






Tirado daqui

Pequenas bolas de bem querer de bom dia


Sem Título (94)

estiveram assim como que decifrados minutos,
escritos por quantos cigarros tiveste de fumar durante anos de reclusão em ti mesma,
apareciam nos pontos da pele quadriculada,
de palavras cruzadas de café de anos 80,
em que o teu rosto se transformava na soma das tardes alienadas com bicas mal tiradas,...

quantas metáforas de noites me deste assim,
escondida na pequenez do não querer ser mais que podias pensar ter sido,
enquanto ressoava em suspiros mudos a nudez pensada para estes momentos de despedida eterna,...

com as mãos atadas ficou assim por resolver a luz fria de um até sempre,
sem solução pintada a sangue

maio 02, 2018

Um dia gostava de saber escrever assim




Ode limitativa

na tua indiscutível visão do pleno,
arranjei forças para me esconder onde o horizonte de papel se incendiava,
fui de meter mãos às cinzas de prado queimado,
que deixavas chover em mim como se merecesse a benção,...

durante muito tempo duvidei deste lugar que só achava desenhado quando saías,
e no teu lugar ficava aquele canto de Terra onde nem o vento sopra,
porque ninguém está lá para o ouvir chorar,...

se encontrares para mim um sítio invisível neste desfazer de insónia,
a promessa em verso faço-te de me liquefazer no teu sangue,
o mesmo onde tomei banhos de solidão a teu pedido


Peixeiros

diz-me cá se sonhares com pregões de peixeiros,
dos que fazem valer a vida por bem vivida,
Isso faz de ti apreciador do que a verdade nunca nos explica?,...

pelo sim pelo não hoje vou desligar o candeeiro à noite,
a pensar que sonhar com mudos nos faz gostar de mentirosos

M

maio 01, 2018

A segunda do Primeiro de Maio

Após aquela revolução, as pessoas saíam à rua vestidas com roupas garridas, feitas com tecidos reciclados, que estavam guardados nas gavetas há anos. Disseram pela rádio que a noite tinha acabado, e que a alegria estava de volta e era para ser pintada nas paredes, de manhã à noite, com tintas invisíveis e que só pudessem ser vistas quando houvesse necessidade de celebrar a liberdade.
Aos gritos, os velhos abraçaram as crianças, os solitários os alegres, as crianças sentiram-se adultas mas de uma forma natural, quase como se lhes tivessem crescido novas peles duras e que servissem de carapaça ao incerto que aí vinha.

Gato(i)nhando na primeira de maio


Etiquetas

Poesia (1148) Vida (938) Surreal (439) poemas (416) poema (404) escrita (301) Pensamentos (212) pensar (197) Homem (194) Introspecção (192) Escrever (166) abstrato (139) Textos (116) poesias (93) introspeção (89) Portugal (86) Sem Título (84) Reflexão (83) prosa (83) autores (80) imagem (80) Sonhos (78) Um dia gostava de saber escrever assim (75) youtube (69) musica (66) Contos (61) Tempo (60) Absurdo (57) Passado (57) Literatura (56) Amor (55) video (52) Sórdido (51) Política (45) tristeza (42) imagens (36) Ironia (34) foto (34) pensamento (34) texto (32) História (31) gif (31) introspecao (30) Fantasia (29) Desilusão (28) Recordações (28) Humor (25) cinema (25) rotina (24) Dedicatória (22) Música (22) Memória (21) Ficção (20) Morte (20) Divagações (19) desespero (19) ser (19) Comiseração (18) dúvida (18) existência (17) fotos (17) Desejos (16) Inatingivel (16) recordar (16) Regresso (15) lisboa (15) Tumblr (14) solidão (14) irreal (13) quotidiano (13) Pelo Menos (12) Texto # (12) Vídeos (12) ideias (12) razão (12) real (12) sujeito (12) videos (12) Menina perfeita (11) Rimas (11) escritores (11) giphy (11) nonsense (11) pessoal (11) presente (11) sentimentos (10) 'Depois de almoço' (9) escritaautomática (9) Mundo (8) Natal (8) Religião (8) ausência (8) autor (8) blogue (8) fotografia (8) sonhar (8) sonho (8) surrealista (8) Suspense (7) abstração (7) coisas estúpidas (7) curtas (7) ilusão (7) reflexao (7) relacionamentos (7) saudade (7) sombrio (7) subjetivo (7) viver (7) vídeo (7) Discurso de (6) Diálogo (6) Homenagem (6) Viagens (6) aniversario (6) datas (6) desnorte (6) filmes (6) futuro (6) gatos (6) noite (6) qualquer coisa (6) sentir (6) Dia Mundial da Poesia (5) aniversário (5) belo (5) cidade (5) ciidade (5) comédia (5) concursos (5) depressão (5) descrição (5) do nada (5) dor (5) espaço (5) imaginário (5) lembrança (5) linguagem (5) livros (5) luxos importados (5) língua (5) paginas partilhadas (5) pessoas (5) poetas (5) politica (5) prosa poética (5) strand of oaks (5) trabalho (5) Actualidade (4) Ali antes do almoço e a umas horas do sono (4) adeus (4) amargo (4) animais (4) arte (4) crossover (4) espera (4) família (4) ideia (4) interrogação (4) intervenção (4) meditação (4) poetar (4) racional (4) refletir (4) social (4) subjectividade (4) terra (4) Gótico (3) Poemas de enternecer (3) Vício (3) auto-conhecimento (3) beleza (3) breve (3) colaborações (3) conformismo (3) conhecer (3) conto (3) conversas (3) curto (3) curtos (3) céu (3) desejo (3) destino (3) dia (3) eu (3) evento (3) familia (3) festas (3) fim (3) lamentos (3) medo (3) mensagem (3) mulher (3) obscuro (3) outono (3) país (3) pessimismo (3) popular (3) porque sim (3) páginas partilhadas (3) realidade (3) sem sentido (3) sentimento (3) silêncio (3) tarde (3) é meu (3) 'abrir os olhos até ao branco' (2) 'na terra de' (2) América Latina (2) Denúncia (2) Fernando pessoa (2) Poemas música (2) Poesia abstrato (2) alegria (2) angustia (2) ao calhas (2) armagedão (2) atualidade (2) campo (2) certeza (2) condição humana (2) considerar (2) decepção (2) desconexo (2) discurso (2) erotismo (2) fado (2) falhanço (2) festa (2) filosofar (2) frase (2) hate myself (2) hesitações (2) indecisão (2) instrospeção (2) insulto (2) interior (2) jogo de palavras (2) jogos de palavras (2) lamento (2) leituras (2) lembrar (2) ler (2) liberdade (2) link (2) loucura (2) luta (2) manhã (2) monólogo (2) nomes (2) parvoíces (2) passeio (2) perda (2) personalidade (2) pictures (2) psicose (2) revolta (2) ridículo (2) riso (2) sem tema (2) sensibilidade (2) sentidos (2) sexo (2) simples (2) statement (2) subjetividade (2) tradicional (2) viagem (2) violência (2) Africa (1) Anuncio (1) Gig (1) Haikai (1) Justiça (1) Livro (1) Parabéns (1) Poesia escrita lisboa verão (1) Poeta (1) Teatro (1) Universo (1) acomodações do dia (1) acrescenta um ponto ao conto (1) agir (1) alienação (1) animado (1) anseio (1) ansiedade (1) antiguidade (1) análise (1) artistas (1) assunto (1) ausencia (1) blackadder (1) brincadeira (1) canto (1) cartas (1) celebração (1) citações (1) coletâneas (1) comida (1) conjetura (1) contribuições (1) corpo (1) cruel (1) crónica (1) cálculos (1) desafio (1) desanimo (1) descoberta (1) desenho (1) despedida (1) dialogo (1) discriminação (1) dissertar (1) distância (1) divulgação (1) doença (1) e tal (1) efeméride (1) eletricidade (1) embed (1) escreva (1) escrita criativa (1) estetica (1) estranho (1) estupidez (1) estória (1) estórias (1) exercício (1) existir (1) explicar (1) falar (1) fatalismo (1) feelings (1) felicidade (1) filme (1) filosofia (1) fim de semana (1) final (1) fofinho (1) frases (1) futebol (1) guerra (1) haiku (1) horuscultuliterarte (1) humano (1) idade (1) ilusao (1) imaginar (1) imprensa (1) inatingível (1) indecente (1) infancia (1) infantil (1) inglês (1) iniciativas (1) internet (1) inutil (1) inverno (1) irracional (1) jardim (1) já se comia qualquer coisa (1) l (1) lamechas (1) leitura (1) lengalenga (1) letras (1) lingua (1) links (1) livre (1) luz (1) mario viegas (1) melancolia (1) memórias (1) metáforas (1) moods (1) movies (1) (1) nada (1) natureza (1) novidade (1) não sei se um dia gostava de saber escrever assim (1) números (1) once upon a time (1) outono quente (1) pais (1) participações (1) pensáveis (1) pequeno (1) percepção (1) pintura (1) pobreza (1) português (1) praia (1) precisar (1) promoção (1) provocação (1) proximidade (1) prémios (1) qualquer coisa antes de almoço (1) quandistão (1) quarto esférico do fim (1) questionar (1) raiva (1) rap (1) realismo (1) recear (1) recordação (1) redes sociais (1) remorsos (1) renascer (1) residir (1) resposta (1) ridiculo (1) risco (1) ruído (1) saudades (1) sem titulo (1) sociedade (1) som (1) sátira (1) televisão (1) texto poético (1) tv (1) tweet (1) twitter (1) vazio (1) velhice (1) versos (1) vida escrita (1) vidasubjectividade (1) visão (1) vivência (1) voraz (1) voz (1) vuday (1) vulgar (1) África (1) ódio (1)