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domingo, 9 de agosto de 2026

...como uma banana madura

 Caramba, ainda me lembro. Eu não tinha culpa das observações descontextualizadas. Da roupa mal escolhida, com cores que não combinavam. Ou até dos silêncios fora de tempo, com durações erradas. E as reações. Sim, lembro-me das reações. Como se a praça central daquela terra, fosse o tribunal final da raça humana, capaz de julgar os incapazes, e absolver os suportáveis a mais algum tempo de vivência. Eu não tinha culpa. Era um miúdo. Lia os livros errados. Tomava notas de rodapé por amor ao ato de me cultivar. Mas de pouco me serviam. Assim conheci um destino à prova de água, à prova de sepultamento. À prova de tudo. Prosseguir, sem destino, fintando os obstáculos, as decisões mal tomadas, os juízos formulados para magoar. Eu era o invisível, aquele em que todos acabaram por aprender a não reparar. E havia muito para andar ainda, até que outro mundo se me descascasse,… como uma banana madura.

Fotografia de Anna Paola Guerra
                                                                          Tirado daqui

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Tubo

 Tubo,

Vida cuspida de uma vez,
Tubo,
Lá longe um barulho,
Um som irritante,....

Tubo,
Love as you get the morning news,....

A cola sai de um Tubo,
E há o Tubo,
Com que se vê a loucura a sair de casa na manhã 

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

De total descontrolo sensorial,....

 Mas o tempo,

Saber que se preenche ansiedades,
Um velho infiel é contrariado,
Saber que os espaços da pressão se desbastam com tanta vontade de que isto continue,....

E há as vozes,
Tantos gritos embrutecidos,
Desmaiados,
Num corpo de uma mulher,
Tudo se desmaia gradualmente desta forma,....

E o contrário de prazer,
De total descontrolo sensorial,
Vai-se gradualmente consumindo na noite impoluta,
Que surge da terra
                            Tirado daqui

domingo, 5 de janeiro de 2025

Ela, a da poesia

muito de olhar mandado,
costas nuas e roupa desnecessária,
aproximou-se do limite,…

um país imaginário,
de jardins imóveis e a luta afirmada para
um livro que fique por escrever,….

ela chamou-se poesia,
respirava por um nariz desentendido de Al Berto,
e chegou ao fim pelo caminho das sextilhas
porque ansiava,…

e quando chorava,
pelo ponto e vírgula desconcertante
do entardecer,
pendia o olhar mandado,
e ressurgia a pele mutilada,…

aquilo que tinha de melhorar,
e não contava a ninguém

                           Tirado daqui

Pintura de Hugo Roa

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Fui, deixando de ser

fui uma televisão,
a sobriedade da tua pele,
um prato de comida
resplandecente de outros tempos,....

fui a atração da praça cívica,
o homem que se arrasta
em música infinda,
fui a parte sóbria de uma tragédia,...

fui tanta coisa,
e agora o silêncio,
ondas e ondas de
virtude silenciosa,....

para ser nada,
e ainda assim feliz



Filme: Perfect Days (2023)

domingo, 3 de novembro de 2024

Parabéns filho...😀

E é porquê,

O senhor abre a porta,
A mulher enleia-se num novelo,
Tudo política grita-se sem destino,....

E são horas de mudar,
O povo grita ainda que vá nu,
Irrefletido,
Esforçado até,
E mesmo sem saber porquê,
Levanta a voz,....

E a desilusão escorre pelo inclinado da rua,
E para à porta do rei,
Do rei do silêncio 

                                                                            Tirado daqui

sábado, 21 de setembro de 2024

querer e querer mais

eu queria,
queria mais
que o querer
deseja o fazer,
e o pouco se
esconde do muito,...

quis tanto,
mas tanto,
que a pele se
incendiou,
e subi aos céus
embalado,
pelo vento da
possibilidade,
do teatro gasto dos desejos,....

e num plano elevado,
da lembrança em vez do
falhanço,
fui de novo
um querer rejuvenescido,
de corpo firme
e vontade intumescida de mudar o mundo,....

e a pena de ser diferente,
esfumou-se no baile
de cores do que já tinha,
deixado de ser

                                                                              Tirado daqui

sábado, 25 de março de 2023

Rebentamento exangue

 


fazes-me sombra
ao coração,
ofego com a dor,
tiro-te do mundo
da noite,
e a prova sucinta
do que se explica,
surgirá no refego do rosto,
na perna trôpega,
no sorriso que esbatido,
desapareceu
na subserviência do desespero,...

e há o outro lado
do tempo, 
o estrondo de todos
os silêncios que te matam,
mesmo que não toda,...

e por fim,
do outro lado do espaço,
um rebentamento exangue

sábado, 3 de setembro de 2022

o meu nome

O meu nome,
as fortunas possíveis por
um momento de identidade,
sentir chamarem-me pelas minhas virtudes,
em vez de por erros que nem sequer reconheço,...

O meu nome como luz
incontida,
Finos riscos que acompanham
a caruma congelada de uma manhã
tímida de inverno,...

Desconhecido,
à flor da noite,
o meu nome previsto e 
revisto como herança,
anónima mas palpável de
uma passagem incólume por esta vida



segunda-feira, 22 de março de 2021

Palavras anotadas e concisas

 


Amo as palavras,

Tanto quanto as protuberâncias nos teus pulsos,

Indicam que já escreveste o suficiente, 

E lá fora há corpos lamentáveis que te vão dando razões, 

Para recomeçares, 

E rejeitas com o peso de recusas sem rosto,... 


Vou amando as palavras, 

Até quando não sei, 

Talvez espere que me retomes o gosto tu, 

Por poemas inolvidáveis e sem contornos de corda, 

Com a religião certa para que se continue, 

Pelo menos tu e eu, 

A preferir nem que seja um pouco de transmissão de sentimento, 

À total ausência de retorno do devir,... 


Continuo a amar as palavras, 

E lá fora no corredor ouço passos que me irão meter medo por esta escolha, 

Só que não me atormenta

domingo, 14 de fevereiro de 2021

...a mais inofensiva solução de uma história feliz

 deixei de ouvir-te, 

tenho entranhas em que sinto 

o mundo decrépito do pós-dia, 

a felicidade astuta que 

devora a resolução de problemas,....


ao mesmo tempo indefeso, 

e com relógios que assinalem 

um tempo que não virá, 

defendo o silêncio abstrato, 

em que te possa escrever a 

mais inofensiva solução de uma história feliz




sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Peso de ais

 como devemos gostar de estrelas a arder, 

da mesma forma suspeito 

que todos somos pessoas horríveis, 

e não haverá compromissos possíveis, 

lutas mais exemplares 

que a rotina,...


há falta de nódoas 

nesta roupa feita pele, 

e agulhas que nos trespassam 

sem que hajam gritos a eliminar, 

fruições a considerar,...


 basta de lugares 

comuns, 

o que aqui vos deixo 

pesa o mesmo que um ai,

como se os ais chegassem 

para aligeirar, 

seja o que for, 

sem que o fim traga 

penalidades



quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Fruto inóspito

 Ias para onde,

De que a ignorância te levasse,

Percebia-se a ajuda,

O vestir simplório,

As maneiras irrisórias e

Até infelizes,...


Mas voltar pelo mesmo caminho,

Ai sim passaria a residir a dúvida,

Porque a alternativa é sempre pior do que o fruto inóspito da hesitação



 

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Risco morto à nascença

Eu lembro-me de quando nada mais tinha a esperar,
Que a tua aparência de desenhos de chuva,
Não percebia muito mais que um par de olhos de calçada molhada,
O sorriso de sempre como se uma simples trovoada desse para descrever a criação em,
Dois ou mais versos,...

Sem saber perceber a luz,
Resultava perceptível que anotar o inverno nestes intróitos,
No pouco que me sobrava do Outono do teu querer,
Era um risco morto à nascença,...

Percebida a mecânica,
Estruturava a forma de te explicar que só nos resta o sol,
Como unidade mínima de contentamento


segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

O amor cheira mal

porque o amor cheira mal,
todas as coisas fazem parte
do húmus de nada,
e o amor continua a cheirar mal,...

disse-to,
e riste-te quase
como se ambos
estivéssemos
a terminar uma vida bem preenchida,
e eu insisti,
o amor não consegue
virar uma esquina,
espirra só coisas sem cor,
e que infetam as pessoas
de bem deixando-as fracas,
inconsequentes,....

ou seja, o amor cheira mal,
retorquiste com silêncio,
 e começaste a desenhar
círculos no meu palato,
com uma arrepiante
 unha de réptil
retocada pela brisa sufocante
de fim de tarde,
que me entrava pelas vias respiratórias,...

refletido no horizonte,
o teu sorriso contrariava-me,
garantindo que se calhar
o amor não tem cheiro,...

só milhentas formas de adeus









Tirado daqui

domingo, 11 de novembro de 2018

Idiota a representar o tempo e o medo

a senhora invisível era incapaz de responder quando a pressionavam,
as horas respaldavam para a inquietação,
deixando-a sem palavras,
achando que o poder do silêncio era a melhor solução para tudo,...

um dia fez um desenho de um minuto,
era um príncipe bonito,
de cavalo branco,
com ondulados cabelos louros,
e acabou a rasgá-lo em várias partes,...

as coisas nada mudaram para ela,
só ficou a saber assim que além da pressão,
não sabia lidar com a rejeição que é o envelhecimento


sábado, 3 de novembro de 2018

Alienação do tempo descrito

esperávamos um mandamento de respeito. Algo como a voz, replicada em sonoras
ondas de eternidade, que saísse de dentro daquela casa que, decrépita,
se preparava para morrer.
Diziam que era ali que entravam
homens sem alma, e saíam profissões de fé transformadas
em alvoradas sem cor.
Só deixando para trás um odor a terra queimada, sinónimo de maternidade hermafrodita.
Líamos a razão, apenas com os olhos fechados e em lágrimas.
Falava-se no milagre sem cor. Que a criação seria recriada aos poucos,
sem fantasia.
Disposta a ouvir as pessoas no sono
e na alvorada. Independentemente de credos, raças, ou segregações sexuais declaradas.
Efusivamente anunciado, o tempo parecia ter recomeçado. Em ti eu achava o protocolo certo de estar vivo. Ouvindo salmos de anúncios sem voz,
a rescisão da divisão entre o real e o passado,
a frase escrita, e dita.
Precisávamos de uma razão para continuar a respirar.
E encontrámo-la nas danças alienantes da névoa da manhã, que bailava estranhos encantamentos hermenêuticos em nosso redor, pedindo a madrugada.
Talvez tudo fosse o necessário para que cada minuto se passasse como nunca havia sido o anterior, e nunca poderiam ser os restantes que estivessem para vir.


sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Usual esquecimento

hás-de encontrar o que sobra,
o que resta,
aninhado nos enleios
do chão sujo de memórias,
com o sangue do
último sacrifício
incrustrado,
em semente,
ao canto de uma sala
qualquer do que foi a tua vida,...

enquanto isso a água
corre lá fora,
com um vento
assemelhado
aos lobos da noite,
soltos pelo prado,
falando impropérios
em todas as línguas do mundo,...

não sei mais
se dizer-te para esperar,
servirá para pintar este,
como outro quadro,
sem autor,
esquecido


sexta-feira, 22 de junho de 2018

Fuga ao fisco

o homem dizia não pagar impostos,
falava contra a indiscriminada voracidade,
de copo na mão,
com o fumo dos cigarros sorrateiramente a evitar-lhe os dedos,...

estava indisponível para o compromisso,
só sabia ligar o som da superioridade,
de cada vez que se ouvia a si próprio a respirar,
com a mesma fundura do buraco para onde gritava,
quando estava sozinho,...

gostava de se vestir mal,
e preparar o pequeno almoço com as sobras que guardava nos bolsos das calças,
para se sentar a escrever poemas depois,
sem se sentir culpado de toda a maldade no mundo

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Rua de um sentido

há riscos naquelas ruas onde
a dor anda nua,
coisas de somenos quando a razão faz falta para respirar,
e em vez de água bebemos
ar que as árvores deixam cair,
e cair como lágrimas,...

se explicar a partida daqui passar como um vestido de pedras,
aqui de longe vejo-te a enfiar as mangas,
sabendo que tudo pesa mais que a estátua das perguntas de circunstância