Disseram que ia passar o natal para um sítio algures, na
costa. A casa ia ficar vazia. E competia-me zelar por ela. O plano era simples.
A meio da manhã subir ao segundo andar, abrir a porta com jeito porque a
fechadura estava oxidada, e em circunstância nenhuma entrar calçado. O chão tinha
um tipo de cera pegajoso, necessário para o ‘parquet’ se manter conservado. A
primeira coisa a fazer era alimentar o gato. Um velhote rechonchudo, quase
cilíndrico, que se arrastava de um lado para o outro entre sonos soltos que
fazia onde mais lhe apetecia. Depois de posta a ração, e mudada a água, a ideia
era ir à cozinha. Abrir as janelas que davam para um terraço. Com cuidado, porque
a abertura era para o exterior, e com isso podia danificar-se um limoeiro
frondoso que estava ali há décadas, mas ainda dava sinais de vida. Se quisesse,
tinha autorização para ligar a aparelhagem antiga. Os donos disseram que a
tinham comprado no estrangeiro, Nova Iorque se bem me lembro. Havia várias
caixas envelhecidas de cartão, algumas com CD dispostos por ordem alfabética, e
alguns, poucos vinis. Estes sem qualquer definição ou ordenação. Nunca tive
coragem de mexer ali. Além de ser pouco dado a tecnologias, aquele recanto da
casa fazia lembrar-me tristeza. Não sei como, nem porquê. Mas fazia. Por fim,
organizava as minhas idas sempre de forma a receber o estafeta que entregava as
compras. Nada de perecíveis, porque os donos da casa passavam longos períodos
fora, e não gostavam de surpresas como cheiros difíceis de descrever. Só saía
dali ao entardecer. Perdia algum tempo, confesso, a folhear uma longa e variada
biblioteca. À saída, tinha a incumbência de me certificar que a porta ficava
bem trancada. A fechadura oxidava cada vez mais…..

Tirado daqui “Avian Rites”
[Colagem digital, 2018]