dezembro 30, 2007

Nove de Outubro de 2007

O que me atraiu foram os olhos. Talvez por estar frente a frente com um esgar de genialidade, mas senti-me atraído pela força magnética de duas crateras. Eram de um castanho diferente. Eventualmente de um café colombiano antigo, daqueles difíceis de macerar, e colhido em dois vales de difícil acesso. As sobrancelhas eram finas, mas bem suportadas por ossos frontais salientes.Aliás, percebi logo que não tinha hipóteses. Nunca fui um xadrezista que contasse.
E sentei-me naquela cadeira por motivos que só o azar conhece. Ainda esbocei uma tímida ameaça. Daquelas que de tão ridículas que são, só dão vontade a quem as ouve de passar à frente, e pedir um copo de bagaceira para relaxar. Ele acendeu um Cohiba. Um vício talvez vulgar no sítio onde nos encontrávamos. Mas lá está. Aqueles olhos trataram de transformar uma situação misteriosa, em laivos de pura sedução.
O primeiro dos meus dois cavalos foi o primeiro a desaparecer. Antes de lhe conseguir comer um peão, tive de me resignar à morte violenta de duas torres e um bispo. O Cohiba ainda ia a meio, quando ele me perguntou se eu era feliz. Respondi-lhe que sim. Os ventos do inevitável sopravam para quem os quisesse sentir, e eu não fugia à regra. Ele sorriu, e coçou os pêlos ralos no queixo. Senti a minha rainha prestes a cometer suicídio. Quinze minutos de jogo, e eu já conseguia cheirar a derrota.
Ele mantinha-se concentrado, sem nunca baixar a guarda. Em cada segundo senti que estava a ser observado e monitorizado. Um suspiro meu, era um sorriso dele. Um gesto nervoso, traduzia-se num suspiro de auto-confiança do meu adversário.Quando já só me restavam três peões, em regime de guarda pretoriana a um rei prestes a pedir asilo político, pensei no meu futuro.
Fechei os olhos por segundos, e senti-me uma gaivota a voar no ‘Malécon’. Foi impossível guardar segredo dos meus pensamentos. Ele sussurrou quatro palavras, que me deixaram apreensivo.- Tens de ser tu.Olhei para aquele par de olhos, e então percebi que estava ali o meu futuro.Nove de Outubro de 2007, Havana, Cuba.
Quarenta anos depois, eu sou uma pessoa feliz, tal como ele havia vaticinado. Velho, com o relógio a correr contra mim, mas mesmo assim certo de que uma derrota nunca soube tão bem a um perdedor em toda a história da humanidade.Sim, eu fui derrotado numa partida de xadrez com o ‘Che’. Mas de que importa isso, quando foi a própria vida a ensinar-me a melhor forma de assimilar o poder magnético de um simples par de olhos.

Do cotão à meia de leite (em Portugal)

O ser Portugal, a inegável atracção pela essência do umbigo, tem dado origem a um rasto incomensurável de cotão. As alterações genéticas são já evidentes, mas não para todos.Permanecem fechados na redoma do imobilismo, os que preferem ignorar que o Zé, marido da Maria, pai do Bernardo e da Matilde, e cliente do pacote de crédito anunciado ao virar da mais comum das esquinas, já anda de pescoço a 90 graus.
Reflexo das trinta e três vias sacras percorridas desde o renascimento de um projecto falhado pela essência criadora?Acredito piamente que sim. Por isso serei um vendido ao derrotismo? Talvez. Mas não será um caminho inerente a quem bebe do saudosismo, a verve que precisa para simplesmente acordar no dia seguinte? Quando nos sentimos um ingrediente de um preparado culinário que refoga há séculos, sem que ninguém se tenha ainda preocupado em ver se levantou fervura, não há muita hipóteses de fuga.
Por isso olhamos para baixo. Analisamos a idiossincracia de um umbigo que já pede descanso de constantes miradas. Analisamo-lo, botamos esforço na comparação do mesmo com quem nos quer mal, com quem vive no degredo da má falança. A insatisfação é conclusão única e, por isso, debruçamo-nos ainda mais. As vértebras do pescoço pedem tréguas, mas nem assim pára a tarefa sempre inacabada de um onanismo que nos é imposto.Evoluímos, sem que a dúvida faça desta convicção uma verdade a contestar.
O pai de família de há décadas, é um extraterrestre no país das epopeias do 1.º esquerdo. Dos Lusíadas do rés-do-chão frente do condomínio de luxo do Parque das Nações, comprado quando ainda não era mais que um projecto em cima da secretária do arquitecto.O chefe da plebe que caminhava de botas cardadas, para uma jorna de trabalho de 12 horas, transformou-se hoje no homem das meias de leite e da meia torrada. O pai de família que não se deixava vencer pela fome para que a plêiade de meninos e meninas que lhe enchiam a mesa pudessem comer mais uma batata, prefere dar uns trocos por noite para que a prole se vá divertir aos antros de devassidão.
O exemplo acabou o seu reinado como património nacional. A frugalidade reina, no seio de um rebanho que insiste em dar provas de uma única prova de senso do colectivo. Mirar o umbigo, lavar o umbigo, vangloriar o umbigo, e ‘catar’ o cotão. Como a verdade é sempre uma pescadinha de rabo na boca (quem o garantia eram os defensores do exemplo), lá volta a dissertação ao exacto sítio onde começou.Cheira mal! O odor é fétido a cotão...Numa terra seca, onde fincam pé os velhos do Restelo que são caso sério de longevidade graças a cocktails massivos de saudosismo bacoco, nada crescerá.
Que as sugestões de escritores laureados, cansados de décadas de ginástica ‘pescoçal’, comecem a entrar na corrente sanguínea do rebanho do cotão. Quando já nada nos vale, a não ser a voracidade de impulsos revivalistas, ao menos que a gasolina possa finalmente ser mais barata, o IVA baixe, e o dinheirinho sobre quando chega o fim do mês.

dezembro 29, 2007

Cães do Inferno

Carcaça da morte, sabes bem!!!
A fome que sinto é tanta,...
E a tristeza que a minha alma contém,
Até os cães do inferno espanta.
Eu já fui bom, mas não me consigo lembrar quando...
O fluido de um fracasso corre selvagem,
Perdi o barco do sucesso garantido,
Ouve como os leões rugem,
E eu me acomodo, de espírito contido.
Corre o rio da vida, e eu deixei partir a jangada do amor...
Pinto o quadro só de memória,
Sublinho a vivacidade dos vermelhos,
Os desmaios do âmago da minha história,
Não se refazem só com os teus conselhos.
Parte, e não olhes para trás. O paraíso é melhor que a perdição do falhanço....

Mais e Menos

Eu estava OK. Pelo menos senti que a minha ânsia de viver estava intacta. Não consegui o menos que pretendia para o meu mais.
Nem sequer alcancei o outro mais, para fintar o mais ou menos em que estavam os planos de excelência gizados para a vida mediana que almejei.Restou-me a tabela de ‘ses’ que norteia a existência de todos os que se ficam pelo menos.
O mais é uma miragem para uma comunidade que se alimenta de mais ou menos, para amenizar a triste realidade do menos adquirido. Pintar um mais no meio de tantos menos, só a custo poderá dar algo positivo.
Todos aqueles menos juntos, anulam a força de um tímido mais. Eventualmente, a medo, o mais pisará o menos para, quase de imediato, rebaixar-se à mediocridade. No final, a neutralidade vai imperar.

O Velho dos Sete Cães

Menor manifestação da razão humana, vezes maior fenómeno da bestialidade religiosa, igual a saída da missa das sete na Igreja do Barrio de Las Hermanas, em Tegucigalpa, Honduras. Mais ou menos mil pessoas, todas residentes na isla de la paloma, bem no centro da capital, convergem diariamente, à mesma hora, para aquele local.Maridos e mulheres. Apêndices entre os 2 e os 10 anos pela mão de cada um destes casais. Dezenas de apêndices. Velhos mal vestidos, enrugados, e de bengala. E exactamente sete cães. Pertencem todos ao mesmo dono. O general Juan Freischel. Dizem que o velho é nazi. Perdão, foi nazi. Porque ai de quem lhe recorde que ele nasceu na Alemanha, no ano de 1922, e que com 16 anos andava a aplaudir um austríaco frustrado no campo zepellin de nuremberga. O senhor nega.
Diz que é mentira. Ele é apenas filho de alemães que, por "necessidades inalienáveis", tiveram de viajar até às Honduras. Nasceu filho único, chegou a um novo mundo como filho único, e fez-se à vida como filho único. Bem, isso é o que dizem as pessoas. Porque ninguém sabe muito sobre o senhor. Apenas que ele gosta de cães. E faz questão de mostrar isso. Os bichos são é dificil de definir. Feios, baixotes, gordos, patas minusculas. Para andar da porta de casa, ao jardim onde o 'señor' os leva a passear, chegam a demorar uma hora. E quando pára um, param todos ao mesmo tempo. O velho deixa um rasto de merda atrás dele. E depois, já ganhou os hábitos dos hondurenhos.
Apanhar aquela mistela, é que tá quieto. As pessoas dizem mal dele, mas depois acabam por fazer o mesmo. Toda a gente já se habituou a ver aquilo. Há até quem fale que o Luis Sepulveda, o chileno renegado que vendeu a alma aos gringos europeus, costuma vir duas vezes por ano a Tegucigalpa só para ver o velho Freischel. O próximo livro pode ser sobre ele. Mas ninguém tem certezas. A história de vida do velho dava um bom livro. Disso ninguém tem dúvidas. É bom é que quem a queira escrever se apresse. O homem anda com uma icterícia esquisita. Qualquer dia fica-se....

dezembro 28, 2007

No dia em que Eva morreu

A 26 de Julho de 1952, o dia em Buenos Aires amanheceu quente. Terrivelmente quente. Assustadoramente abafado. As testas dos senhores eram pequenas para esconder gotas de suor que, indelicadas, não tinham qualquer pudor em mostrar-se. As damas da alta sociedade da capital argentina tiveram de deitar para o lixo o pudor. As habituais golas brancas, foram substituídas por leves camisolas de seda, de decotes tímidos, e sem mangas.
Passos acelerados, e olhares fixos no chão, marcavam a atitude das almas femininas que se passearam nas ruas naquele dia. Premonitório, dizem uns. Eu acredito. Foi o dia em que Eva morreu, e eu estava num consultório médico. no centro de Buenos Aires. Perdi o andar. E logo eu, que na altura dependia das minhas pernas para tudo. O Pablo da Calle de las Palomas a coxear. Parecia impossível. Na altura era carteiro, e o raio de uma unha encravada tirou-me a locomoção. Recordo-me das dores insuportáveis.
Começaram um dia. Chovia a potes, e eu vinha para casa, vindo do trabalho. Chutei uma pedra. Pareceu-me pequena na altura. Só que era dura que nem cornos. Senti logo a unha grande do pé esquerdo a rachar. Os dias passaram, e piorei. Toda a gente que conheço tinha-se habituado a ver-me percorrer as ruas da capital, a passo acelerado. E naquele dia, manhã cedo, tiveram de ser os meus amigos Juan e Vasco a amparar-me até ao consultório de 'El doctor'. O velho tinha fama. Tinha várias especialidades ao mesmo tempo. Quando era preciso arrancava dentes. Sempre que necessário, receitava uns comprimidos para as dores de período das madames. Naquele dia, teve de me aturar a mim.
O meu pai foi doente dele, o meu avô andou com ele na escola. Aliás, o velho era mas é bom de mais. As pessoas até gozavam um bocado com o coitado do 'señor' Péron, como ele gostava de ser tratado. Para todos os efeitos, gritava aos sete ventos que tinha aberto o consultório com a mãozinha amiga do general presidente. Mas todos sabíamos que ele nunca tinha estado com o sacana do fascista. Quer dizer, um dia, há muitos anos, foi atropelado pela limusine dele, à saída do Palácio Presidencial. Ele recordava esse dia como uma experiência religiosa. Garantia que tinha conhecido Deus. Partiu as duas pernas, ficou em coma dois dias, e o Rolls Royce do fascista nem parou. Mas o velho ficou em êxtase.
Quanto a 'La Santa'. Bem, o doutor Péron adorava arranjar os pés às senhoras, desbobinando como conhecera Eva em La Plata, quando esta não era ainda mais do que uma adolescente namoradeira. Aliás, no princípio dos anos 40, quando o mundo fervia na loucura da guerra, e o doutor Péron ainda se chamava Diego Simón, rezam as fontes históricas do velho que foi ele quem apresentou Eva a 'El General'. Está bem que este é um episódio da história argentina que nunca chegou a ser inscrito nos livros. Mas na calle de los combatentes, no centro de Buenos Aires, ai de quem se atrevesse a pô-lo em causa. Maria Eva Duarte era a menina dos olhos do doutor Diego Simón 'Perón'. E no dia em que o cancro nos ovários finalmente a venceu, o doutor preferiu nem sequer ouvir as notícias.
Aliás, quando Eva deixou de aparecer em público, consumida pela maldita doença, o doutor Diego isolou-se do mundo. A morte da sua deusa era anunciada, mas o tempo para ele, parou. O doutor saía de casa de manhã em passo acelerado. Tomava o primeiro autocarro que conseguia, evitando todos os quiosques onde se pudessem ler os escaparates de jornais ou revistas. Quando lhe parecia ouvir o suave roncar de um rádio a aquecer, acelerava, e desviava-se para bem longe. As conversas, para ele, foram, a pouco e pouco, desviando-se da realidade. Com as senhoras, trocava impressões sobre o tempo, e sobre os vestidos da primeira dama norte-americana, que sempre considerou uma verdadeira senhora.
Com os senhores, não se atrevia a falar de mais nada que não do Boca Juniores. Aliás, quem sempre o conheceu, pensou que o doutor Péron fosse um pouco, a modos que, abichanado. Logo, completamente avesso a futebol. Mas ele viu 'La Bombonera' a ser construída, e costumava dizer que o seu coração seria azul e amarelo até ao dia em que desse o último suspiro. No dia em que Eva morreu, eu vi um doutor Péron desligado da realidade. A Argentina parou, mas ele não. Continuou a viver, e não verteu uma lágrima. Transformou-se num autómato. Eu continuei com o No dia em que Eva morreu, o doutor Péron, foi parar ao hospital. Não mais de lá saiu. Os médicos dizem que nunca tal tinham visto.
O seu coração diminuiu de tal forma, que simplesmente parou. O doutor Diego quis morrer calado. Lá fora, a Argentina chorava. Ele nunca o conseguiu...

Anatomia


Dois pedaços de escroto, tingidos de um castanho ‘encerado’.
Peles toscamente apegadas a um quadril de mulher desiludida com o encarecer das lipo-aspirações.Quadro complementado com um montinho de vestígios carnais, ornamentado com dois orifícios feitos por metades de bolas de ténis de mesa. Tradução: nariz.
Par de concavidades, assemelhadas a crateras marcianas traçadas por uma sonda imperialista americana. Ditongo para olhos.Topo relvado com ‘grama’ cacimbada, e melenas de óleo fermentado em décadas de idealismo de sofá.
Acopole-se uma criação tecnológico-anatómica, capaz de desafiar o C3PO para um pas-de-deux em cima do capot de um Citroen arrastadeira.Dou uma pista....Derrubou um regime ditatorial por entre as bananeiras das roças de São Tomé e Príncipe.
Pai dos parolos idealistas.Mãe dos amantes dos casacos usados do avesso.Avô dos modelos fotográficos que aprimoram o fundo azul do cartaz da Juventude Socialista.E padrasto de quem defeca nas suaves curvas da senhora dona Maria de Jesus, quando ela sai da confissão na Igreja do Campo Grande.
Mário Alberto, nós que criamos baboseiras como esta, te saudamos!!!!Vá, beneficia-nos agora com uns trocozitos da fundação. Queremos férias à sombra da Torre Eiffel.Onde tu gritaste impropérios contra o Botas, seguro pelos 2 mil quilómetros de distância.

Monóxido de Carbono


Odeio a poesia como forma,...
A envolver o curto sentir de,...
..., quem se apouca face ao medo.
Que se combata o fluir de ideias,
Abrace-se a negatividade do silêncio,
Detesto a pequenez de um verso,
No domínio do astral, que seja um grão,
Falando de felicidade, é nada,
Abomino rimas. Mortas por asfixia,...
..., sentencio do alto da passividade.
Odeio a poesia como abstracto,
Clara só mesmo a ignorância,
Dura, sempre a pequenez de sentimentos,
Abri os olhos para a vida, e descobri,...
Que adoro a poesia como oxigénio,...
Morte ao monóxido de carbono do concreto....

dezembro 27, 2007

Amores e Outros Horrores...


Permanentes são as dores,
Sucintas de mil cores,
Que o diga a Maria Dolores,
Mulher que defeca flores,
Na praça central de Mogofores,
Ao rufar de mil tambores,
Libertando gamas de etéreos odores,
Engarrafados em vidros das Comores,
E despachados mercê de favores,
Da plêiade de senhores doutores,
Que vivem da exportação de rumores,
Dissertando pelos corredores,
Até se esvaírem nos furores,
De uma existência sem clamores...

Interjeições que fazem falta...

Quero um ‘oh’ à João Coutinho, e um ‘Uh’ à Gabriel Alves. Coisas simples, em mundos separados. NBA à moda antiga, com o Joe Cocker a amparar a subida aos céus do Jordan. Que venha também o imprevisível ‘Can´t Touch This’, acompanhando o Magic a dançar em frente ao garrafão dos Celtics.O toque de Midas na equação?
O ‘oh’ do professor João Coutinho. Nasalado, em voz off, ai se auxiliava a digestão de um bom cozido à portuguesa!!! Ignorando o Barroca, o apêndice que ainda hoje brinda a nova geração da bola no cesto, chegava-se depressa a um clímax planeado. Um ‘oh’ profundo, insofismável, e estávamos até prontos para as soirées de ginástica artística que enfrascavam as tardes desportivas do segundo programa.Noite, e eis que vinha o ‘uh’.
Com o pé que tinha mais à mão, Gabriel aturava os vícios da tripla russa da Luz, e fechava os olhos aos fenómenos do Entroncamento das Antas. Alvalade nem existia, isto dependendo da época do ano. No Natal, evaporava-se numa nuvem de hélio.Interjeições que fazem falta. Hoje, cá andamos reducidos ao ‘É um espectáculo’ anafado dos finais de tarde.
Que venham de novo as simples coisas.

dezembro 26, 2007

Homem de Barro

Arco-Íris, Inc.

O Branco é amigo do Preto. O Castanho está unido por ligações sentimentais ao primeiro, mas nada o liga ao segundo. O Azul tem tendências suicidas, e vê no Verde um refúgio de serenidade cada vez mais raro nos dias que correm.
Os dois já se envolveram com o Preto, mas perante o Branco sempre o negaram. O Roxo espera por uma oportunidade para pedir emprego ao Castanho, que assume funções de administração na empresa de obras públicas do Amarelo.
O Branco é quem verdadeiramente dá a cara neste negócio, e fala-se que poderá ver com bons olhos um take-over feito pelo Rosa. A suavidade de temperamento deste último é vista pelo Azul como uma potencial ‘mais valia’ numa ligação meramente profissional.

A importação de água de um mar cuja localização ainda não foi tornada pública, parece ser o ramo em que o azul melhor se movimenta. A personalidade densa que o caracteriza é, segundo os analistas, a adequada para uma correcta gestão da multinacional.Uma empresa de consultoria, fundada pelo amarelo, poderá ter sido contratada para atestar a veracidade destas constatações. Por trás deverá estar uma Oferta Pública de Aquisição feita pelo Ciano, que desesperadamente luta por se manter à tona de um negócio onde o Branco ainda dita regras.
O Ciano partilha o tom com o Lilás, e é considerado perigoso. Numa desordem alvejou a tiro o Branco, que por ter corrido perigo de vida, reforçou o seu estatuto neutral. O relatório de tendências no arco-íris aponta para um futuro menos denso. O esbatimento de funções é visto com desconfiança.

Interior IV

João parece estar disposto a voltar à repartição depois do próximo nascer-do-sol, mas o careca não o deixa sair. A saída do pequeno cubículo está estrategicamente tapada por um homem que não suporta a ira dos desvarios da vida. O vulto cónico que esconde num dos bolsos do casaco ganha nova dimensão, e parece já não haver dúvidas. O alvo é João.Ao primeiro passo, o plano de agressão é declarado. O segundo, deixa de parte qualquer hipótese de tréguas.
O terceiro passo injecta desespero na pacata personalidade de João. O menino em idade de pré-primária assiste ao confronto, e alerta a mãe para um cenário de eminente desfile bélico. Pelos olhos de um ser humano de cinco anos, a caminho dos seis, estão prestes a digladiar-se dois guerreiros do espaço, armados com sabres de luz e escudos de neutrões.A senhora idosa já desmaiou. O calor sufocante de um dia húmido de Janeiro fez efeito na pressão alta de uma mulher que já foi saudável.
É preciso levá-la com urgência ao centro de saúde mais próximo, porque o coma pode estar eminente.- O jovem é bom que saia da minha frente, porque eu não gosto de servir aço às pessoas.A breve, e agressiva declaração foi a única produzida na repartição pública durante os últimos 30 minutos. João desviou-se, e o careca saiu para a rua. A caminhar, sem olhar para trás, parecia não incomodar-se com o peso da bátega de água que se abatia sobre os ombros.O autor enganou-se. Não houve nenhum homicídio.
Morreu uma barata, produziu-se um coma, acentuou-se uma depressão, e ter-se-á originado mais uma. Quem lida com a ficção, não tem dotes de médium-vidente. A realidade muda consoante as curvas dos polegares que agridem o teclado.

Interior III

Parece já ser tarde. O olhar que insiste em traçar a bissectriz a uma calvície nascida pelo rigor da meia-idade, despoletou uma reacção impossível de ser travada. A única funcionária responsável pelo atendimento na repartição da segurança social encerra o serviço cinco minutos antes da hora prevista.A jovem que tilinta um piercing no nariz está a ter uma crise de choro, gritando a plenos pulmões que irá ser censurada pela mãe se não entregar a declaração de imposto, e quiçá impedida de ir à festa da espuma prevista para o fim de semana que bate à porta.O paciente do único psiquiatra da freguesia tenta encontrar uma explicação para o momentâneo desenrolar de eventos, mas ao que parece não está a conseguir.
A ruborescência tomou conta de uma face assustada, e que luta por escapar de uma realidade asfixiante.Uma idosa, vagarosamente amparada por um par de muletas ferrujentas, pede ajuda para se sentar porque está a ser assoberbada por uma crise de artrite reumatóide. Cai antes de o conseguir, parece ter fracturado a anca, e é necessária a presença urgente de técnicos de emergência médica.
Uma mãe jovem tenta, sem sucesso, fazer parar uma avalanche de lamentos de um menino em idade de pré-primária, que insiste querer lanchar um pastel de nata com um sumo de laranja.João está encostado à parede. Percebeu que está num daqueles momentos cinematográficos. Cresceu consolado por uma realidade alternativa, que ainda hoje define os momentos épicos da sua vida. De repente, e vindo do nada, apareceu ali naquele cubículo o Tuco Ramirez, de ‘O Bom, o Mau, e o Vilão’.
João está com as mãos amarradas atrás das costas, empoleirado num crucifixo de madeira carunchosa, e com o nó de força enrolado no pescoço. O careca será um Clint ‘Blondie’ Eastwood de circunstância, moldado por uma raiva que João parece não entender. O careca mexe no bolso do casaco nervosamente, e deixa transparecer um vulto com uma forma cónica.Já chove, e entram os técnicos de emergência médica.
A barata que, lutava amargamente por escapar aos passos do bulício, conseguiu chegar sã e salva a uma cadeira, contígua ao assento onde o careca desfia a sua raiva. Lentamente rasteja um caminho que parece a via sacra, e está já a poucos centímetros da mão direita do careca. Um gesto brusco fá-la tombar, e cair no frio dos mosaicos azuis. É esmagada, inadvertidamente, pelo pé esquerdo de um dos técnicos de emergência médica que socorrem a senhora das muletas. A fractura confirma-se, assim como o desfiar de rosários de uma alma que afirma esperar a visita de uma ‘senhora de negro’, com quem afirma já ter tomado chá por diversas vezes.

Interior II

Alguns lugares mais atrás, um outro adulto jovem fita o azul claro dos mosaicos da repartição pública. Parece estar perdido, e quem souber analisar a profundidade da linguagem gestual humana, com certeza que descobrirá um pedido de socorro. As mãos fincadas nos bolsos de uns jeans rasgados. Um cachecol multicolor a afundar uma cabeça que tremelica ocasionalmente. O pé direito a 'embicar' com uma saliência no chão impecavelmente limpo da repartição estatal. Assim ao longe, o jovem parece estar apenas a fitar uma simples barata doméstica que corre pela vida no meio de passos 'gargulescos'.
Na realidade, ele procura a chave para a dissolução de uma personalidade que só lhe tem dado tristezas.Transporta consigo um currículo de relacionamentos amorosos falhados. O último levou-o mesmo ao Hospital, já que terminou com uma tentativa de suicídio. O jovem fechou-se na garagem da moradia recém-construída dos pais. Com botijas de gás armazenadas no porta-bagagens do 6 cilindros da família, montou um esquema de transporte de gases que o matariam em pouco tempo. Não fosse a intervenção casual da irmã, e teria sido encontrado inerte, no lugar do condutor da viatura. Ao fim de uma semana de internamento nas urgências de um hospital, começou a ser acompanhado por um psiquiatra de renome. Ainda está na fase do reconhecimento da enfermidade devendo, a breve prazo, ser-lhe receitada a devida medicação.
Noutro contexto, dois homens de meia idade repartem uma fila de cadeiras de plástico, como únicos passageiros de uma calma astronómica. A calvície de um, claramente incomoda o outro. Um fitar quase assassino disseca os pequenos pelos de uma meia-lua que parece aumentar a uma velocidade constante, e envergonhadora. É este o universo onde, previsivelmente, poderá ocorrer o crime. O autor repete. Ainda é cedo para estar a afirmá-lo taxativamente. Mas o cidadão calvo parece estar a ceder a uma pressão que poderá ser explicada pelas contingências da vida.
Foi despedido nesse mesmo dia. O outsourcing, a ditadura dos cortes económicos da empresa de fabricação de motorizadas, levou-o nessa manhã ao gabinete do senhor administrador. A um condescendente 'desculpe, mas já não contamos mais com os seus serviços', respondeu com um silêncio preocupante. Já tem na sua posse um cheque com uma indemnização correspondente aos melhores 15 anos de uma carreira contributiva de 30, e aguarda agora pelo seu lugar na atribulada agenda da técnica de comparticipações por desemprego da segurança local.
Quem o observa não faz por mal. João, um João talhado para as pequenas coisas da vida de uma localidade de interior, tem um quotidiano marcado pela missão que Deus lhe deu. Cuidar de uma avó idosa. Tão velha, que já se esqueceu de quando nasceu, nem do local onde deu o primeiro beijo. João está confinado, tantas horas quantas necessárias por dia, às quatro divisões de uma moradia do seculo XIX. É uma casa grande, de paredes grossas, e que já lhe está prometida quando o inevitável acontecer. João não trabalha, já que se comprometeu a servir a avó. Por isso, não terá culpa de a sua mente estar formatada para uma realidade tão doméstica, quanto triste.

Interior I

Um crime poderá estar prestes a acontecer. Em princípio, não será uma coisa mediática. As coisas acontecerão porque, simplesmente, o epílogo terá de ser esse. O autor não deve ainda fazer prognósticos sobre o modus operandi do alegado homicídio, porque na prática ainda não estão reunidas as condições para descrever uma situação que constitui sempre o último recurso da demonstração da animalidade humana.
A sala onde se adivinha semelhante desfecho é esparsa. Pintada de um branco reflector, com uma génese criadora de epilepsia, não terá mais que 10 metros quadrados. Trata-se de uma repartição de atendimento público, situada numa localidade do interior do país.
São três e 15 da tarde, e lá fora venta como se esperava de um dia de início de ano. Chuva adivinha-se, mas por enquanto está contida por entre o negrume das nuvens agrupadas em posição ofensiva.
Uma senhora, dos seus 40 e poucos anos, impõe a si própria um regime de calma auto-inflingida. Poderá ter a ver com a fila de cidadãos que se acotovelam no parco e sufocante espaço.

Mas não é de descartar que a senhora esteja a braços com uma situação de violência psicológica de índole doméstica, já que segundo as pesquisas prévias a esta dissertação, a localidade em causa ocupa um lugar de destaque nas queixas policiais apresentadas por mulheres de meia idade.
Faltam menos de 48 horas para terminar o prazo burocrático de entrega dos impressos de cobrança do imposto sobre o rendimento do trabalho, e a ansiedade colectiva forma uma nuvem espessa, difícil de contentar, e ainda mais complicada de controlar. A uma supremacia de idosos, respondem dois jovens, aparentando uma vida com duas dezenas de anos.
O ar taciturno e irritado que demonstram, revela que estarão ali para fazer o 'português' recado a uma pessoa de família. Uma jovem contenta-se a tilintar o piercing que pende de duas narinas aquilinas, e com uns laivos judaicos. Uma gabardine preta, tão densamente negra que contrasta com o politicamente correcto ambiente, oculta um corpo que se auto-esconde de olhares reprovadores. A jovem mulher terá tentado fazer uma demonstração recente de independência perante os progenitores, uma vez que tem o cabelo quase rapado. Os olhares de reprovação que a cercam num ataque quase 'Juliocesariano', aparentemente não a incomodam.

Elogio Fúnebre...


O elogio fúnebre com as palavras ‘Manel’, ‘Gás’, e ‘Caloteiro’, foi dos mais breves que há memória. A partir do púlpito de uma igreja, pintada a tons de azul-pardo, o discursante arrotou num único vento estomacal, o critério momentâneo que usou para julgar o falecido:
- “Manel, caloteiro, morreste sem pagar a conta do gás”.
O cortejo fúnebre seguiu então em direcção ao cemitério da terra. Em campa rasa, Maneldesceu à terra à sombra de um abeto, única entidade viva no jardim das tabuletas local. Não há registo de que a conta do gás tenha sido paga. Nem de visitas à campa do Manel.

dezembro 25, 2007

Cuspir ao Vento

Experimenta cuspir ao vento, e sentir-te-ás revigorado. Liberta o muito de ti que é desprezível, e na cara, como um murro dado de punho fechado, vais levar o pouco que terás de carregar no resto da vida.
Azeitado fermento de frustrações irremediáveis. Medos embrulhados em diáfanas camadas de dejectos pulmonares.
É só a ti que vais beneficiar. Vá lá, força. Sobe ao monte mais alto que existir na tua terra, enche o peito de ar, e zás!!! Desde que a brisa esteja favorável, é garantido um pequeno ovo estrelado esverdeado, algures entre as olheiras de sono, e a boca cansada de beijos sem sentido.
Depois, logo depois, o mais rápido que te for possível, volta para casa. Prepara um banho de água imaculadamente limpa. Submerso até ao queixo, reza para que o futuro reconverta o ancestral ‘tostão’ que repousa dentro de ti.
O que sairá daí, não sei. Também não te prometi que ia só falar verdade.Ah, permite que me apresente. Sou o provável. Existo, mas tens primeiro de confirmar se me consegues sentir.

Portugal, Idade das Trevas


A pegada do homem das botas,
Deixa marca na terra molhada,
Cheira a indolente odor de carvão,
O fogareiro afoga o imóvel,

Uma família sobe no incerto,
Exigindo menos difusão do futuro,
Uma mulher doente diz-se mãe,
Aos beijos dos filhos,...
..., responde com amargura,
O pai, homem das botas,

Cansa o cansaço para sorrir,
Ladra a alegria da casa,
E chove a frustração do pouco,
“Pai, tenho frio”
“Mãe, estou triste de estar triste”

Quatro pares de olhos choram a impotência,
E forjam a alegria do falso,
Portugal, idade das trevas,
O senhor presidente do conselho vem à terra,
O Coreto vai ter banda,

E o homem das botas,...
..., crava ainda mais o pé na terra molhada...

O Peditório (Variações)


“Já dei para esse peditório”.
Treme a ovelha número dois milhões do rebanho mais recôndito da Nova Zelândia. O sujeito de uma afirmação classista, esforça-se por manter compostura. Do alto, um falcão zarolho observa o tremor de um carácter esquivo.
“Nunca dei para esse peditório”.
Morreu o cão mais feroz de Timbuctu. O presidente da corruptonação decretou 10 dias de luto nacional. O animal custou 100 milhões de folhas de papel higiénico (será mais ou menos 10 cêntimos de Euro ao câmbio actual). O criador, com nome feito no mercado, incorre num processo judicial que poderá culminar em lapidação. Sua excelência ficou com a percepção de que o animal iria durar até que o país produzisse o primeiro televisor a cores de modelo próprio. Pereceu quando ainda nem sequer foi registado o modelo do transístor nacional.
“Espero vir a dar para esse peditório”.
Chamo-me Alcino, e tenho cara de mau. Gosto do tampo da secretária onde, seis horas por dia, amparo os antebraços. O meu trabalho tem tanto de inevitável, como de ‘odorento’. Adoro perscrutar os sentimentos de quem tenta invadir o meu domínio. Monta guarda a dois lavabos. As portas são castanhas escuras. Hoje já espantei, com o meu olhar desconfiado, para cima de vários pares de atrevidos.Sou do Clube Oriental de Lisboa, e todos os dias vou a pé para casa.
“Jamais darei para esse peditório”.
O vizinho do 3.º esquerdo é necrófilo. Pelo menos é o que se fala. Nem os 10 frascos de Old Spice que compra diariamente no quiosque do preto Vladimir fazem desaparecer o odor a pecado. A porteira do prédio tem ficha na Polícia Judiciária. Esta desaparecida vai para um mês. Ninguém sabe onde está.
“O que é o peditório?”
Simplesmente,....respeito.

Tenho de Conhecer-te...

O teu nome,
número,
jogo,
Diz-me tudo,...
Tenho de conhecer-te,
Um sonho por uma poltrona,
Dissecar-te em rios de desconhecido,
O teu nome,
Letra por vírgula,
Número,
de antecâmaras para sonhar,
Jogo,de luzes pretas quando choras,
Resumi que te quero,
Minimiza agora a minha saudade...

Sonho II

Martelo, escopro, pregos de caixão, uma laje de mármore 10 por 25 cm. Durante 60 dias sentei-me no quintal da minha casa, debaixo da velha figueira que o meu avô Aníbal tinha plantado, com todo este material à minha frente. Esta mania durou exactamente dois meses. E tudo começou com um sonho. Lembro-me que o tive depois de um jantar numa tasca do bairro alto. Em Julho, às 10 e meia da noite, com 35 graus de temperatura, pedi ao dono daquele pardieiro que me servisse uma feijjoada à transmontana.
Estava de férias há apenas dois dias e, sinceramente, não sei qual foi a pancada que me deu para fazer aquilo. Mas fiz. Como acompanhamento, mandei que colocassem à minha frente do prato três taças de vinho do barril. Em precisamente 22 minutos e 40 segundos comi e bebi tudo. Saí da tasca, meti-me no carro, guiei até ao centro de Marvila, entrei em casa, e deitei-me. Garanto que em todo este percurso me senti como morto.
A cabeça vazia, a cara branca como a cal, os braços e as pernas hirtos. Acho que adormeci logo. Ah, tapei-me com uma manta de lã, o que nem me pareceu um pecado. O sonho chegou, mais rápido que um estalar de dedos. Se bem me lembro, os meus neuroniozinhos fizeram-me viajar até ao Panteão Nacional. Caminhava sozinho pelo meio dos tumulos dos grandes nacionais.
De repente, um banco castanho, pequeno, surgiu perante mim, e quase me fez cair. Equilibrei-me. Só então olhei para mim mesmo, e reparei que estava nu. Não me preocupei minimamente com isso. Aliás, até me obriguei a mim mesmo a sentar-me no banco, de cabeça baixa. Segundos depois levantei os olhos, e li. Amália Rodrigues, Julho-1920; Maio 1999.
A banda sonora entrou neste preciso momento. Até hoje, estou para perceber como um cérebro que eu sempre considerei mediano, conseguiu proporcionar-me uma experiencia destas. Não, não foi o Povo que Lavas no Rio que me embalou. Nem muito menos o Fado dos Caracolinhos. Motorhead, Ace of Spades.
Uma musica da minha infancia, a acompanhar-me naquilo que parecia ser a antecâmara da morte. Senti-me tão bem a ponto de renegar convicções de anos, e pedir a Deus que não me deixasse acordar. Alguém queria que eu me transformasse no ladrilhador da memória portuguesa. Senti-me voltar à vida. Lutei com todas as forças para o eviyar. Não tinha ainda chegado a minha hora. Acordei. Apesar do calor, apalpei cada centimetro do corpo, e não senti uma única gota de suor.
04h30. Levantei-me, esperei pelo raiar do sol, fui a um armazém de ferragens comprar um martelo, um escopro, um quilo de pregos de caixão. Perto de Sintra, encontrei uma laje de mármore. À hora de almoço, estava de regresso a casa. Despi-me, levei o banco mais pequeno que tinha em casa para o quintal, e instalei-me debaixo da figueira do meu tio Aníbal.
Sessenta dias depois, eis-me exactamente no mesmo sítio. Não sei o que fazer com tudo isto que tenho à minha frente, mas de uma coisa estou certo. Ainda sou muito novo para sofrer de arterosclerose.

dezembro 24, 2007

Dissertando no 'menor' da morte

A morte discursa sempre numa sala repleta de sombras. Requisito essencial: janelas encerradas, e paredes ‘besuntadas’ de um cinzento entristecido, quase como se tratasse de um pedido de desculpas formal aos conferencistas.
São temas esparsos que nunca abrangem a compreensão de todas as multidões. Com o pé fincado no púlpito, a oradora só sai quando a retórica se esgota.Diz que tem pressa, e receio de invasões. As salas têm, por isso, de ser estanques. Em causa estão eventuais violações protagonizadas por elementos estranhos.
Especialmente receado é o arrependimento. Figura difusa, por vezes multiforme, capaz de estragar o encadeamento de um raciocínio.Por decreto, estão proibidas todas as manifestações deste sentimento durante sessões oratórias da morte. Devem evitar-se possíveis caminhos de retorno dos conferencistas convidados para os eventos periódicos.

Episódio do Infante...

O Infante D. Henrique é primo da mãe. Ao fim do segundo trago de Bayleys, assegurou que o Navegador foi gerado em pecado.Não, perdão.Ela quis mesmo foi dizer que o homem é primo da mãe dela, que herdou a casa ‘giríssima’ que a família ainda mantém, assim como quem entra em Vila do Bispo.
Ah, parece que a versão muda.Já chove.A marta em redor do pescoço da interlocutora eriça-se, e ela agora atira que o Infante D. Henrique é amícissimo do pai, com quem já teve sociedade num negócio de import-export de malas Louis Vuitton.
O ‘waiter’ traz na mão uma bandeja em tons de cinzento-claro, com lagostins gordos dispostos em circulo.
Só que,.......parece que o recipiente vai mesmo é para a mesa ao lado.Um casal de sexagenários, de aparência nórdica, aguarda há muito pelo jantar, e não disfarça o desejo seguinte:‘Moet-Chandon, please’A marta está menos eriçada.
A dona ausentou-se momentaneamente. Sente-se que ela pode voltar......nunca mais.
Isto caso haja quem lhe reporte o episódio do Infante.

Sonho


Desembarco na Esparta renascida,
É o lúgubre frio da noite que me recebe,

Ondas de sinistras demonstrações de abandono,
Envolvem a fraca batida cadavérica,
Apoio, encontro em restos de fulgor feminino,

Assombros de uma beleza belicista,
Arrastam uma carcaça na névoa,

O grito da invasão ao futuro,
Hordas de homens de armas mugem impropérios,
A impavidez da descrença toma-me refém,

Tocado pela toga de Xerxes,
Abençoo o desejo de cavalgar,

Levantar voo, e desafiar Zeus,
Caem chuvadas de sangue fervente,
Caminho na Esparta renascida,

Libertei-me dos grilhões da morte prometida...

Couve-flor

Aquilo tinha forma de couve-flor. Um ponto minúsculo, que aumentava com as alterações de direcção do vento. Cá em baixo estava tudo acabado de pintar de branco, e as cabeças rodavam em simultâneo à espera do pior. O relâmpago falou, antes de o trovão gritar.O que se temia, despencou do céu aos trambolhões.
Chuva ácida rebentou num desvario de destruição, e manchou de pecado cada pedacinho de incólume parcela de redenção. Do branco, restou o esgar da apreensão.O traseiro peludo levantou-se da sanita. O par de mãos reparou que não tinha papel higiénico onde se agarrar. De azulejos brancos em perpendicular pendiam minúsculos pontos acastanhados. O piaçá está partido, e o feijão preto da picanha deixou uma estranha acidez no esfíncter.
A couve-flor talvez necessite de citrinos para acalmar. A tia Isalgina faz uma laranjada refrescante. Tem é que ser sem kiwi, porque estar sempre a colocar a mão direita em ângulo recto faz mal às articulações.Papel higiénico colorido? Solução aburguesada.
Quem não usa tirinhas ovais de papel celofane para proteger as coxas quando se senta em lavabos públicos, também não tem de se preocupar com cãezinhos a sair ornamentados por pêlos em helicoidal.Pedra. Isso.
Sozinho em lavabos público, sem miradas inconvenientes. Resolve-se a situação de uma rectaguarda imaculada, com três passagens de um cubo de calçada. Mãos lavadas em bacia de águas a cheirar a cozido à portuguesa com três dias, e uma consciência apta a enfrentar novo imprevisto causado pelo feijão preto na picanha. Maldito Tira-Dentes.
Se o homem não tivesse existido, nem aqueles tipos tinham inventado a maldita picanha, que deixa uma pessoa a arder por dentro. Receita do diabo.

dezembro 23, 2007

Monta-me

As letras eram bem desenhadas. Perfeitas de mais.
Um preto afirmador parecia realçar cada curva.
Sete letras, e um tracinho pelo meio, escritos ao fundo de umas costas que brilhavam ao sol do meio da tarde.
Monta-me
Assim se lia semelhante palavra. Chegou à terra a dona da referida incrustação, na única carreira rodoviária de que o povo dispunha. Nada tinha de cavalo, embora uns traços de mula até que assentavam bem no todo que galgou os dois degraus da coxia da viatura.
Ventava um pouco, coisa que até veio por bem em dia de semelhante calma. E a mulher a mostrar o umbigo. Na praça central, junto ao coreto onde o autocarro normalmente pára, estava sentado o homem mais velho da povoação. E o
Monta-me......,
saltou logo à vista.
Pouco instruído, Ti Gama de sua graça dominava as letras o suficiente para perceber coisas pouco habituais. E se aquilo era pouco habitual. Saltava à vista um pedacinho de tecido curto, pouco abaixo do peito da fêmea. Quarenta graus, e dois bicos tesos como as tetas de uma vaca a pedir ordenha.Chegou armada com uma mochila dos estrangeiros. Aquelas coisas enormes, que quase só se vêem na televisão às costas do ‘cámonis’ de pêlo louro. A bagagem era maior que aquela meia leca. Ti Gama não conseguiu ver os olhos à pequena. Mas o sol.
O raio do reflexo que aquilo fazia no fundo das costas da moça.A bengala do velhote cravou-se na poeira do alcatrão, o homem levantou-se....e andou. As botas cardadas pesavam em dia de torreira, mas Ti Gama não descravava os olhos do preto daquela coisa. A jovem entrou na cabine da Rodoviária da terra. Pareceu ter ido comprar o bilhete de regresso.A cena, em poucos segundos, transferiu-se para um tascozito rafeiro. Coisa sem classe, mas que ia aguentando por ser o único na aldeia.
- Indicava-me o WC?
Voz maviosa tem a rapariga. Ti Gama estava hipnotizado. Sentou-se ao balcão e esperou. Tirou do bolso das cerolas um estojo dourado. Lá dentro meia onça de tabaco. Uns restozitos assentaram nos dedos do velhote, e foram cair em cima da mortalha. Enrolou o cigarrito, e antes de o acender já a jovem tinha voltado.
- Uma cerveja sem álcool, por favor.
O dono do tasco, cujo nome não vem ao caso, disse que não tinha. Só ‘mines’. A rapariga pediu uma cola. Ti Gama esperou que o gargalo se encostasse aos lábios da cliente, e disparou, ....sem pudores.
- A jovem desculpe, mas é alguma égua?
Resumindo uma longa história, em poucas palavras, quem sofreu foi a bochecha direita do idoso. A menina saiu à pressa, Ti Gama deixou cair o cigarrito, e o dono do tasco brindou-o com um:
- Você não tem mulher em casa?
Ti Gama nem respondeu. A bengala cravada no soalho, as botas cardadas a arrastar, e uma dúvida a assombrar-lhe a moleira debaixo da boina...Terá Deus criado mulheres cavalos?

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