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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O dia muda

 Um homem endireitado,

Encovado,

Tenta reverenciar a estatua do fundador,...


Chove,

Não há mais tempo para a memoria,

So choro,

Lágrimas perdidas no adensar de gotas de chuva,....


O dia muda,

O momento perde-se,

O homem abraça o que vier,

E cores encorpadas desnudam o céu 

(José Saramago fala sobre a melancolia)

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Que ele se mudasse,....

 Espalhava o ódio com as mãos em cima,

O corpo entortado,

Entornado até,

De forma tosca, 

 e acima de tudo conformada,....


Para aqui e para ali diziam não o conhecer,

Que ele se mudasse,

E que haveriam de escrever um livro sobre a sua loucura,

E que isso ia alegrar as pessoas,.. 


Por ele nada seria diferente do que já era,

Prosseguia como se o caminho estreitasse cada vez mais,

E não houvesse desejo para lhe aquecer o corpo,

Era igual 

De: Ainda estou aqui (2024)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Portugal em Greve Geral, 11-12-2025

 

                                                                           Tirado daqui

Para além de pai,
de mãe,
de alça de mala velha,
mais uns passos não hão de
contar,
quando sabemos que não
chegar lá,
é o que temos de certo,…

ficarmos aqui,
enlameados de pés e mãos,
arrependidos,
encardidos e sem trabalho,…

pedaços de pão duro,
numa mala velha,
e um caminho ratado,
e esburacado por fazer

segunda-feira, 6 de maio de 2024

1.º de Maio, cinco dias depois

que tem a dizer neste dia tão especial?,
o ancião abriu os braços,
percebeu-se que engoliu
as lágrimas várias vezes,
olhou para o céu,
e de forma sincera
argumentou a vontade,
o desejo de ter mais
e mais ilusões
como aquele dia em que
o povo saiu à rua,
após tanto tempo de corda
ao pescoço,
estrangulado,....

e gritou,
gritou a plenos
pulmões,
que queria a vitória enfeitada
com versos,
como se cada dia,
a partir daí,
se propusesse
a minutos novos,
feitos de jasmim e outras flores que
o dicionário não conhece,….

‘obrigado, obrigado a todos’,….

O ancião caminhava,
de braços abertos,
enquanto carros militares guardavam
o destino,
desatado como um pião a rolar rua abaixo

                                                                               Tirado daqui

Do documentário As Armas e o Povo (Weapons and the People),
1975


quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

O Grande Líder

 

                                                                             Tirada daqui

“Sophia de Mello Breyner Andresen”,
curta-metragem documental de João César Monteiro, 1969

O discurso do secretário-geral era preparado vagarosamente. Pequenas xícaras de chá, de louça chinesa florida, estavam dispostas na mesa. Um assessor redigia afanosamente as palavras do líder. Duas janelas semi-abertas faziam os cortinados de seda dançar de forma insinuada, num final de manhã morno de Maio. Lá fora só o silêncio. A sede do Governo estava situada a uma distância considerável da estrada movimentada mais concorrida. Dois carros, modelos cénicos, do pós-guerra, estavam estacionados em frente à porta de entrada do palácio governamental. Dois soldados garbosamente fardados, em tons de caqui, com botas engraxadas até aos joelhos, chapéus militares enterrados até às pestanas. O queixo imóvel, amparado por presilhas apertadas. O secretário-geral refletia, como sempre, sobre prioridades. Sentia um país estagnado, mas fiel. As pessoas, quanto muito, recorriam à reserva da intimidade para conspirar eventuais mudanças. Em público não o faziam. Acreditava que por recato e respeito. Era uma pátria disposta em cruz, como gostava de acreditar. As pessoas aos pés de um local de adoração, e um líder comprometido. Compromisso, gritou em tom médio. O assessor redigiu várias vezes a mesma palavra, como lhe foi pedido. Segurava com tanta força uma caneta de aparo, que não conteve uma gota de suor que intrepidamente caiu, como uma gota de chuva, em cima do papel. Um canto já redigido ficou parcialmente borrado, deixando o assessor com receio de ser repreendido. O grande líder estava alheado, e pareceu não se ter perturbado com algo em que nem reparou. Pousava lentamente a mão direita no peito, amparando a gravata de seda azul. Era um homem de meia idade. Mas de aparência mais velha. Tinha nascido no meio do povo. O pai era pastor, nas montanhas isoladas do Norte. Morreu jovem, deixando-o com a mãe costureira que, em dificuldades de sustento, se viu obrigada a voltar para casa dos pais. Lembrava-se por isso, com muito mais intensidade e devoção, do que tinha recebido dos avós. Carinho, mas uma distância que, sempre considerou, o favoreceu como ser humano. E o que achava uma tendência inata para a liderança que, pensa, sempre ter tido. Alheou-se um pouco nestes pensamentos, antes de perceber que estava a fazer esperar o assessor. Pedia um discurso cativante, para a próxima fase do país… Por isso voltou à realidade.

sábado, 6 de janeiro de 2024

Duas nações

 


Duas nações pomposa e cavalheirescamente sentaram-se à mesa,

Havia conflitos por resolver,

Dissidências avaliadas,...


Apesar de as expetativas serem poucas,

Os representantes optaram por desenhar um mundo de traçado irregular,

Com fogo visível nos extremos,

E no centro da mesa estava um livro,...


A louvar um principio de acordo,

Vários homens foram homens,

Admitiram erros,

Içaram um cálice agnóstico,

E despediram-se com gestos subtis de firmeza,

Até à próxima manifestação de insegurança do mundo

sábado, 4 de fevereiro de 2023

Fui tanta coisa

Eu fui o insensível,
o provocador,
a medida incerta por
baixo da mesa,
e que perpetua a fome,
a desordem,…

passei a deixar de
ser razão,
e justificar precedentes,
com ordens,
desejos,
com reflexões,
passos,
com insuficiências diversas,…

fui tanta coisa,
e agora rasuro,
uma folha imprudente,
e escurecida



segunda-feira, 25 de abril de 2022

Liberdade 48

a liberdade transpira,
sua,
o velhote palrava,
levava as mãos à cabeça
como se a tragédia rondasse,
dizia que via a liberdade estroncada,
com aquela ideia de província que
defendia a dentes podres,...

mas para a liberdade suar,
perguntava-lhe eu de lábios encostados
a um copo,
e a olhá-lo por cima dos aros redondos dos
óculos,
não pode haver problemas frios que a façam 
tremer,...

o velhote pensava,
punha-se de pé a tremelicar dos finos 
pedaços de madeira que faziam de pernas,
e respondia,
virando as costas ao problema




sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Também tenho uma visão pessoal de guerra

não há nenhuma razão,
nem camas pintadas
a cores neutras,
nem livros presos
por uma página,...

não restam desculpas
para que o tempo isolado,
adentre os olhos feridos
dos desolados,
e de fora controle
o que é recoletado,
e ingerido em sangue,...

não há razões
nem roupas,
que permitam obstruir
entradas,
em corpos nus,
e em sangue que
escorra da consciência,...

simplesmente não há
o que soe mais estranho,
que esta razão anulada



domingo, 25 de abril de 2021

Liberdade hoje e sempre

 


Ele disse que um dia,

Ainda antes de o sol aparecer do avesso do horizonte,

E de as pessoas perderem o que trazem agarrado às mentes da nascença,

Tudo haveria de perder a cor,

As letras não mais voltariam a ser feitas de água,...


Talvez então,

Os romances de beijos inconsequentes,

Vendessem mais que o medo,

E o medo se tornasse racional pela primeira vez desde que o tempo é tempo,...


Ele dizia muito mais coisas,

Tantas que as pessoas inocentemente construíam cercas de crença,

Em redor dele,

E eu parava de retornar à solidão,

Sentindo-a como a segunda pele que ela sempre foi 

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Experiência social

Aproximavam-se das pessoas como a luz,
Desenhavam pequenas moedas no chão,
Qualquer sociedade que se preze tinha regras,
E havia que mantê-las,...

Estabeleceram-se pequenas colónias de dúvidas naquele sítio,
Com transações em que tu e eu nem existiamos,
Apenas passávamos por entre os intervalos dos registos da morte,
Prosseguindo com tudo sem que do nada esperassemos qualquer coisa,...

Agora fazemos lustro com o que resta,
Estes são desígnios que aprendemos a aceitar,
Fruindo sem adormecer perante o óbvio


sábado, 25 de abril de 2020

Abril antes que se esgote



O cravo doía onde a verdade não entrava,
A minha indecisão não encaixava na história,
Só um escrito de dor,
Lamentos seguidos e seguidos,
Afirmados como poesia,
E declamados como a forma irregular da saída de cena,...

Aqui à chuva esgotam-se os minutos até que a luz reentre,
E a escuridão saia 

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Teoria e retórica

...e a sabedoria extrema ajudava
a serenar posições,
contendo irrelevâncias pessoais,
e dando às futuras ignomínias,
o valor possível,
e sem sabor,...

afinavam-se vozes,
discutiam-se teorias políticas extintas,
e tal como os menos
pacientes abandonaram a discussão,
os mais insípidos ficaram,...

acrescentavam que o homem
está bem por si só,
e que o coletivo assoberba
a volúpia necessária a qualquer vivência,...

assistia de longe,
havia uma luz brilhante
que inundava o terreiro,
e não me sentia informado
para marcar uma posição
de distanciamento,
face à voracidade daqueles minutos


quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

abstração sem sublinhado

procuramos casa,
da mesma maneira
que nos adoçam toda a tralha que nos resta,
de quando esmigalhávamos
aviões contra as casas,
dentro desta divisão ideológica
própria de um fim de tempo,...

e início de uma abstração
sem sublinhado

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Início e fim da noite

quando a noite começou, há muito muito tempo, 
conseguíamos percorrer
a distância entre um beijo
e um adeus,
antes que o relógio desse a volta
que tinha de dar,
havia a razão inaudita das escrituras falsas,
porque as pessoas têm
de ser falsas,
antes que a benesse da 
santidade venha,
com a morte,....

e havia muitas crianças,
para que espiássemos as frases incompletas
que faziam parte do quotidiano,...

e prestes a terminar,
a noite quer agora
tirar-nos isso,
acomodemo-nos à 
lage da fratura nas 
nossas crenças



sábado, 28 de setembro de 2019

Politics

os revolucionários comem o
suficiente para nunca se enfartar,
a medida certa de exploração,
as frases decompostas
em lassidão de nada saber

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Louça partida no silêncio

não me faças louça
de predicados,
recados de beijos
a meio,
e frases prontas
para desvendar,
como se a meio de
uma nova revolução,
a lavra de um pousio
de fome,
fosse a menina de
todos os olhos,...

a cegueira predisposta
ao conformismo,
às admissões de culpa,
termina aqui,
seguem-se transmissões
de tristeza


segunda-feira, 27 de maio de 2019

Transformação social

e para esse efeito,
estas são resoluções
que já não cumprem,
o Governo desta
cidade deixou de ser solidário,
com as pessoas entrelaçadas
 em ramos de árvores,
e a chuva a contar
 para o abono dos vivos,
e mortos,...

a partir de hoje,
não mais se
estudará retórica
nas escolas,
e as pessoas
falarão mal apenas
porque tem de ser,...

a meu ver,
são casos a mais
para que a música
pare de tocar nas ruas,
ainda se poderão continuar
a ouvir sorrisos avulso
antes da noite chegar,
e do próximo matar
o próximo,
e o próximo,
antes de morrer
 virado do avesso,
porque todos
pararão com o
bater dos corações
descompassado
de antes,
para que nem
corações haja mais,....

só pedras em
cima de pedras,
e uma pira que irá
esvair-se quando o
céu implodir,
e a escuridão ganhar de vez