31.10.11

'Pasteles de nata'

...i don't hate myself and i can't write #2


Gostava de se esparramar pelo chão encardido daquela pequena divisão da casa. Lá fora era tudo quadriculado. Os azulejos da frontaria da vivenda pareciam a batalha naval. As pessoas, de tão tristes, tinham caras esquálidas, quadradas mesmo. E até as árvores mortificavam tudo com a morte que já lhes tinha sido diagnosticada. Isto tudo, com um homem a espreguiçar-se, quase diariamente, assim despreocupado. Haveria qualquer coisa quando a tarde caía, e a noite se aproximava, pé ante pé, que o levava a soltar-se desta forma. Se calhar seriam auto-análises prontificadas por vontades, indefinidas, de se sentir acompanhado na maior das solidões que professava. Seria o senhor qualquer coisa, quando rebolava, quadruplicava quase a alegria de vida em largas e profundas risadas. E tudo sem música. E tudo sem assistência. Só pelo simples prazer de continuar com a vida para que a vida não acabasse num sopro de morte que ficaria irresolúvel nos contornos do tempo que um dia se acabará.
O ritual parecia precipitar-se para um fim, porque repetitivo, quando alguém o descobriu. Começou por ser um par de olhos amendoados, castanhos, vulgares, a espreitarem pelos rachas irregulares da portada da janela daquele pequeno teatro de emoções. Depois passou a cheiro. Um nariz deformado, mas curioso. E depois uma boca arfante, e que fumegava no vapor húmido das noites cada vez mais frias. E aquilo parecia combustível....

Indiana Pacho

26.10.11

....i don't hate myself and i can't write #1

...se não tivesses entrado desta forma na luz, chocarias de frente com os costumes da vida. Com a fácil interpenetração entre o querer ser, e o que se quer ser para não chorar. Admites-te assim, como fácil resposta para problemas que nem se conseguem ver. E a repousares na estrada das coisas quaisquer, sobras-te à situação escassa de querer dizer qualquer coisa, sem que o sentido ajude ou faça ponto de exclamação em pensamentos impassíveis e que se esquivam ao entendimento.

23.10.11

Se as pessoas choram, é porque sim.....

somos fortuita coisa assim, quando a esperança nos resta ao fim de choros inconstantes.
Pelo menos eu, sobro aos que gostam de se abraçar num pranto incontrolável por coisa nenhuma, fazendo de mim substância inexplicável de somas inalcançáveis de felicidade....
ao escrevê-lo, digo-o assim:
se choro é porque quero.
se não o faço, ressinto-me.
ao somar as razões pelo que não o faço, sobram as que ficam para o fazer ainda mais.
e assim passam dias que cortados em postas,
me dão fases fortuitas de risos que descambam no
chorar…..

O meu filho diz que acabou de ver....


....este senhor nas ervinhas, na Praça de Londres. O que andará ele lá a fazer?...:-) 

18.10.11

Exclamation


estou arrumadinho em conceitos no soslaio do olho,
não que me faltem pedaços de franzir,
sou o velho mais novo das coisas que os dias nos trazem de noite, mas assim quedo,
com a forte inépcia de querer abraços suaves da morte vestida de cambraia,
ao longe assumo trazer de amarela a frase necessária ao feliz
dealbar do querer com razão,
do sentir que se escreve quando se insulta,
de qualquer coisa a menos que imbecilidade num frasco de brisa da manhã,
ao socorrerem-me,
prometo sono,
deixar frases feitas pela calçada do passa-tempo,
para que no fim,
a percepção de que
me repito em tudo o que deixo por fazer seja dolorosa
de mínimo.....

Uma Praça do Brasil sem Brasília, Palma Bica, banco na esquina, loja de roupa do senhor do bigode branco e esposa, não é Praça do Brasil....(Segunda foto da dita artéria em 1965)

9.10.11

Facto fátuo


espera-me no combate acérrimo dos desnorteados,
seremos muitos mesmo que os únicos na fila para a loucura,
e com metros de qualquer coisa para dizer,
sejam os que com factos resolvem
pactos de qualquer coisa com,
azul.......

Blood


faz com tu e por,
menos serás contigo e só,
à hora o segundo,
terceira pessoa de singulares,
plurais consciências que azulam escuros,
avanço que sim,
parto pelo não,
e no fim princípio,
restas parte,
somada de nada,
ao vento....

7.10.11

Parar


parado,
soluço crasso com
infecto contágio,
desnudas,
impossíveis constatações
desenquadradas,
e dois homens
de misencéne prostrados,
com dúvidas,
de que factos,
são argumentos implementados,
na futura desratização
das mentes das águas paradas.....

6.10.11

Isto é que é o prémio Nobel de 2011? Nem é pelo homem ser sueco nem nada....



HISTÓRIAS DE MARINHEIROS (1954)
Há dias de inverno sem neve em que o mar é parente
de zonas montanhosas, encolhido sob plumagem cinza,
azul só por um minuto, longas horas com ondas quais pálidos
linces, buscando em vão sustento nas pedras de à beira-mar.
Em dias como estes saem do mar restos de naufrágios em busca
de seus proprietários, sentados no bulício da cidade, e afogadas
tripulações vêm a terra, mais ténues que fumo de cachimbo.
(No Norte andam os verdadeiros linces, com garras afiadas
e olhos sonhadores. No Norte, onde o dia
vive numa mina, de dia e de noite.
Ali, onde o único sobrevivente pode estar
junto ao forno da Aurora Boreal escutando
a música dos mortos de frio).
***
A ÁRVORE E A NUVEM (1962)
Uma árvore anda de aqui para ali sob a chuva,
com pressa, ante nós, derramando-se na cinza.
Leva um recado. Da chuva arranca vida
como um melro ante um jardim de fruta.
Quando a chuva cessa, detém-se a árvore.
Vislumbramo-la direita, quieta em noites claras,
à espera, como nós, do instante
em que flocos de neve floresçam no espaço.
***
DESDE A MONTANHA (1962)
Estou na montanha e vejo a enseada.
Os barcos descansam sobre a superfície do verão.
«Somos sonâmbulos. Luas vagabundas.»
Isso dizem as velas brancas.
«Deslizamos por uma casa adormecida.
Abrimos as portas lentamente.
Assomamo-nos à liberdade.»
Isso dizem as velas brancas.
Um dia vi navegar os desejos do mundo.
Todos, no mesmo rumo – uma só frota.
«Agora estamos dispersos. Séquito de ninguém.»
Isso dizem as velas brancas.
***
PÁSSAROS MATINAIS (1966)
Desperto o automóvel
que tem o pára-brisas coberto de pólen.
Coloco os óculos de sol.
O canto dos pássaros escurece.
Enquanto isso outro homem compra um diário
na estação de comboio
junto a um grande vagão de carga
completamente vermelho de ferrugem
que cintila ao sol.
Não há vazios por aqui.
Cruza o calor da primavera um corredor frio
por onde alguém entra depressa
e conta como foi caluniado
até na Direcção.
Por uma parte de trás da paisagem
chega a gralha
negra e branca. Pássaro agoirento.
E o melro que se move em todas as direcções
até que tudo seja um desenho a carvão,
salvo a roupa branca na corda de estender:
um coro da Palestina:
Não há vazios por aqui.
É fantástico sentir como cresce o meu poema
enquanto me vou encolhendo
Cresce, ocupa o meu lugar.
Desloca-me.
Expulsa-me do ninho.
O poema está pronto.

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