abril 30, 2018

Poema em prosa de não querer

não me sentes mais que uma crosta purulenta, vírus de morte nas pernas sem destino, e sem sorte, isto cheira à fuga amarelenta ao resquício dos dias, odeio a massa destes minutos que me ensinaste a comer como pão sem sabor, destino dos que morrem de fome quando têm o que comer, e sentem livros de vidro de não saber ler o que as entrelinhas matam ainda antes de nascer, levado ao extremo de um solo estéril, serei a secura do vento pútrido que nos beijou quando ainda éramos um só, deixando a infeção do querer fugir, dos subreptícios desmentidos em verso,...

findos o que os barcos embatem na doca do dealbar dos dias, amontoam-se as desilusões que mesmo assim pintam sem cor este continuar

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Tirado daqui


Um dia gostava de saber escrever assim

Sit down beside me


Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente

Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer


Mia Couto

Vais ser uma canção

vais ser uma canção,
com a dose certa de malabarismo sonoro dos pássaros que acolhem a manhã,...

talvez a mesma melodia que
desprendo todos os dias dos
pedaços de vida,
que desincrusto das peles que vou vestindo à vez,
enquanto me dispo dos passados alienados que me pintam como pessoa,...

e se fores a canção que quero que sejas,
o mundo não será mais pintado a tons ocres de inviabilidade


Hiroshima, Mon Amour (Alain Resnais)

Estendo a luz na pele da manhã



abril 28, 2018

Bem disse que o fim de semana estava sonolento

A noite desenrolava-se quase como o cachecol velho que guardamos, de um inverno para o outro, e depois demora a reentrar na nossa vida, para deixar-se ficar, até o dia regressar com o cheiro da primavera que sabemos estar lá sempre. Sentia-se a cacimba a descer dos céus, e a tomar conta de todas as coisas, animadas e inanimadas, adormecendo o ciclo da vida pelo tempo necessário.

Sleepy weekend

abril 27, 2018

Mãos amarradas à luz fracionada


mais perto do que esta metáfora

tão longe que a suficiente placidez do tempo tem a ver,
com o agarrar a linha do horizonte com os dedos,
servindo-se dela para violar a pele ansiosa,...

mais perto do que esta metáfora,
estarias desenhada na irrequieta incapacidade do vento,
suficiente para em silêncio disseminar-me em pó para lá do que conseguisses traduzir em pensamentos,...

e acabar o encher de peito desta madrugada interminável,
sabendo do sol o suficiente para ter o bilhete de quando regressares 

Venha o próximo peão do sentir-se poucochinho

a menor das horas no recanto triste dos infelizes,
era um com pele de mil,
sangue vazio a cheirar a restolho de fundo de garrafa,
nem ver via tal era a nuvem que lhe dissolvia o pensar,...

com menos do que a meia da noite normalmente trazia,
arrastou-se para os recortes finais da cidade sem salvação,
alado no não ter nada a perder a não ser menos comiseração enlatada,
e enroscou-se em ouriço à espera que o vento lhe lambesse sorte,...

venha o próximo peão do sentir-se poucochinho

abril 26, 2018

Toa barde


Diálogo surdo

Não me disseste que escrevias aos fantasmas. Acreditas que as pessoas deixam coisas por fazer deste lado quando partem? Sim, é normal. A vida é quase como a roupa que sujamos. Por muito que lavemos, há sempre peças que ficam por lavar. Pedacinhos da nossa rotina que não encontram solução no senso comum. No tempo que dedicamos ao ter tempo para tudo.
Mas escrever aos fantasmas será solução?
...

e os longes

Suas as nossas imprecisōes,
minhas as frases desniveladas dos barcos
que rasam a doca,
e os longes,
e os longes,...

feito assim o desmame de todas as
frustraçōes,
cá nos restamos como partes
de um todo sem sentido,
nos pertos,
nos pertos


Soltar a franga by dawn


abril 25, 2018

Liberdade para escrever mal

quando os pronomes mesmo impessoais daquele passeio no jardim,
se tornaram nos mesmos arraiais populares de comiseração,
o céu abriu-se nulo com a chuva esperada e literária,...

houve tempo para desnecessárias manifestações de má poesia,
e o dia terminou igual aos de sempre,...

por isso terei de esperar por um fim para este poema

44 anos

Nos pisares das fases menos obscuras da lua,
seriam frases as facetas pouco abstratas daquele povo,
redigidas com o aligeirado da bruma da manhã,...

um grupo de cabeças estendidas ao sol,
como roupa molhada de dois dias que a chuva entregou às humidades de descida à terra,

vestido de imberbe juventude,
sonhava este povo com o primeiro beijo à mulher de rosto
adormecido,
sentia-lhe o cheiro,
penteava-lhe os cabelos de seda com o sono da noite de décadas,...

e quando ela veio apresentou-se,
assinava liberdade,
com a imperfeição de gomos de laranja que a deixava doce para a eternidade


Abril é o nosso acordar em dias de borrasca




abril 24, 2018

Um dia gostava de saber escrever assim

José carlos ary dos santos / in memoriam


Que a terra lhe seja pesada.
Que lhe apodreça o corpo e os olhos fiquem vivos,
Se lhe soltem os dentes e a fome fique intacta
E a alma, se a tiver, que lha fustigue o vento
E arrase com ela a memória gravada
Na lembrança demente dos que o choram.

Que a mulher que foi dele oiça o vento na noite,
Cheio de ossos e uivos
E garfos aguçados
E que reparta o medo com o primeiro intruso
E o vento se insinue pelas portas fechadas
E rasteje no quarto
E suba pela cama
E lhe entre no olhar como estiletes de aço,
Lhe penetre os ouvidos como agulhas de som.
Lhe emaranhe os cabelos como um nó de soluços,
Lhe desfigure o rosto como um ácido em chama.

Que a mulher que foi dele oiça o vento na noite,
Que a mulher que foi dele oiça o vento na cama!

Que o nome que era o seu o persigam os ecos,
O gritem no deserto as gargantas com sede,
O murmurem no escuro os mendigos com frio,
O clamem na cidade as crianças com fome,
O soluce o amante de súbito impotente,
O maldigam no exílio as almas sem descanso.

Que o nome que era o seu seja a bandeira negra,
A pálpebra doente,
O vómito de sangue.
Que o gesto que era o seu o imitem as mães
Que se torcem de dor quando abortam nas trevas,
O desenhem a lume os braços amputados,

O perpetue o esgar dos jovens mutilados,
O dance o condenado que morre na fogueira.

Que o gesto que era o seu seja o punhal do louco,
A arma do ladrão,
A marca do vencido.

Que o sangue que era o seu o farejem os cães
Nas veias de seus filhos.
Que o sangue que era o seu se lhes veja nas mãos,
E lhes aperte os pulsos como algemas de lodo,
Lhes carregue o olhar como um sopro de infâmia,
Lhes assinale a testa como um escarro de fogo,
Lhes atormente os passos como um peso de lama.

Que o sangue que era o seu seja o rictus da tara,
A máscara de sal,
A vingança do pobre.
E que o Exterminador, no seu trono de enxofre,
o faça tilintar os guizos da tortura
Até que o mundo o esqueça
E mais ninguém o chore.

Terreando

Eram tantas as árvores,
que nas sombras do sol enrolado
os meninos aprendiam a esquartejar o tempo,...

os mais velhos diziam que para
cegar o desejo,
homem tinha de andar com a própria vontade pela trela,...

com nada mais que terra vermelha nas mãos,
escrevia-se matar no caminho de todos os dias para casa


Floreados em loop




abril 23, 2018

resumo recôndito

desmentem-se as pontes de estar junto,
resumindo assim a única despedida que te conheci,
levantei o estore da noite mal surgiram
as sombras,
percebi o difícil dos minutos sem ti,
quando
se tornaram insuportaveis o que sempre tinham sido segundos de suprema pintura de desejos,...

e agora o fazer mal do silêncio,...

se mudar os meus olhos,
tu voltas?

doença da cabeça que encolhia

e as suas coisas arrumadas em filazinhas,
sem qualquer ordem específica,
apenas separadas consoante o que o livre arbítrio mandava,...

assoava-se patologicamente com um lenço de padrão
quadriculado,
enquanto olhava para aqueles pequenos restolhos
de vida,
reunidos em cima de uma mesa aparada nas pontas,
e que tremia em cima do soalho que
não era senão já uma colónia de férias do bicho da madeira,...

chamava-se esquizofrenia,
doença da cabeça que encolhia,
aquele fervor por dar uma ordem a objetos
e sentimentos,
enquanto o tempo passava


abril 22, 2018

Dot

Não és daqui, nem que queiras. Nem que o desejes,
a dizeres força em vez de choro,
só te afastas dos sítios que pisas até seres insubstituível
para que o universo,
rebole pelo sítio que deve,..

percebe o escrever textos com sangue,
a percepção indissociável de um riso,
de um afagar do dorso de um cão,
de todas as coisas ridículas que te tomam
por suspiro da criação,...

e com isto tudo o ver o sol a pôr-se todos os dias,
de preferência sem chuva,
e com o céu desenhado com as cores que pensavas
nem sequer existirem,..
talvez pesando isto,
encontres paz para dormir em cima da tua fruição

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Tirado daqui

Isto de saber escrever é uma coisa tão sem pés, cabeça, braços, dedinhos,...

Insofismável

A tua cabeça ia. Perdia-a. Vinha, ganhava. Ia. Desfazia-me do céu, quando me assoberbavas com toques angelicais dos cabelos que se deixavam perder de vista no desfalecimento do meu corpo vencido.
Sempre adorei como me tomas, nesta luta de opostos que são os campos de batalha dos sítios por onde já nos fundimos num só.
Ensurdece sentir como me dominas, escorregando os lábios pela humidade do que de mim gostas que seja teu. Conheces tudo, como se de um domínio que só vem nos livros se tratasse. A ponta da tua língua fecha-me como prisioneiro. E preso, sôfrego por mais, sofredor dos minutos seguidos aos segundos em que a própria respiração me tira a cadência de ser conciso.
Quero que a natureza finda que sou, expluda no vórtice de infindável desconhecimento que é a tua boca


abril 21, 2018

Gato morto numa praia

primeiro os versos ocos,
os de pés de areia nas águas
amorfas do anoitecer,
e a seguir quem pense com o queixo cheio de gordura,
com um gato moribundo no colo
a pedir de comer antes de dar o último suspiro,...

nada disto faz sentido assim com uma noite já a cair em céu de azulejo,
sentado na areia desta praia de soluços,
estava infeliz com um gato morto ao colo,
e sem jeito sequer para escrever um poema


Texto sobre qualquer coisa

O meu avô, homem morto e enterrado, estava naquele dia sentado num pequeno banco ruçado, pregado no meio da eira do quintal da senhora sem nome que conhecia toda a gente. Era começo de primavera, dia de estios daqueles difíceis de definir, mas até fáceis de suportar por encurtarem as noites, e esticarem os dias. O homem espreguiçava-se, dizia asneiras, roçava o cu nas folhas ásperas da bananeira que quase esganava por água naquele quintal feio. Perguntei a um e outro que passavam ao lado do muro baixinho da propriedade se conseguiam ver aqueles preparos. Mas toda a gente me olhou com insatisfação das que se dedicam a um doido, e seguiu caminho. Comecei a pensar que só eu lhe emprestava alguma existência. O calor apertava. Tirei o casaquinho de algodão que me aconchegava as espaldas, meti-o debaixo do sovaco, e entrei. Um cão quase me devorou o calcanhar por entre dentes que escorriam baba espremida por uma trela de aço que quase o sufocava. Mas,....nem liguei. Dei um passo seguro, dois indecisos, e ao terceiro já me achava perto daquele ser.
- 'O senhor consegue ouvir-me?'
Respondeu-me com o nada. Continuava a espreguiçar-se.....A entalar os dedos numa vedação rasa e cheia de ferrugem que convidava à doença. Começava a achá-lo morto, quando me disse o que tinha acabado de fazer.
- Tu vais morrer daqui a 10 minutos. Uma dúvida assolar-te-á de forma tão doce, que te tirará o ar dos pulmões devagarinho até te achares aqui ao meu lado, pronto a fazeres qualquer coisa para que a eternidade não seja mais que o que vês defronte de ti.
A prática dizia-me para não acreditar. Sou dado a alucinações quando como coisas pesadas pela manhã. Mas deixei-me ir naquele embalo. Como já me tinha provado estava farto de viver, e não tinha mais nada para fazer deste lado.
O que o homem disse, o meu qualquer coisa de quem já nem sequer me lembrava, começava a traduzir-se no real. O peito mirrava-me, os braços pesavam menos que uma folha de margarida a voar, e assim me deixei ir.
À hora a que escrevo isto, já vejo o ódio do mundo todo guardado na recôndita e espessa matreirice dos velhos.....





E hoje seria este vídeo


abril 20, 2018

Um dia gostava de saber escrever assim

Villa Dei Misteri

Tiro os óculos e recua o mundo: 
torno à mais árdua intimidade. 
Diónisos ou Penteus, antes do sangue 
pesa já a vinha sobre as colinas 
de Outubro. 

                         As bodas místicas 
do deus e da noviça, meu destino 
branco, minha face nocturna, 
não os preserva a ciência 
dos três livros, nem figurariam, 

por certo, na cinza dos restantes. 
Sei, entre névoas e azul, de uma 
biblioteca deserta, cujas estantes, 
por desnudas, não enjeitam 
a mais discreta sabedoria. 

Em sua transparência se inscrevem, 
como a luz à luz se sobrepõe. 
Trago na pele e nos olhos, 
sobre a língua e o palato, 
a memória escaldante 

de uma mulher. 
                              Devora-me 
um álcool lento e sedicioso. 
De todas as mortes sofridas, 
só esta temo e não desejo. 

Rui Knopfli, in "O Corpo de Atena"

Hoje seria para aí este vídeo


tudo pelo silêncio sem cor de gostar

havia uma história de psicose
mal explicada,
custava um par de olhos fechados e dava sempre para imaginar o mar,
com ela sentada no capot do carro,
e um vento quase ciclonico que lhe
arrancava a pele da cara,
quase como se fosse a forma de lhe
levar aquela vida,
trazendo em seu lugar uma estupidamente mortificada dependência do onírico,...

e ele também havia a arranhar as nuvens que separavam as gotas de chuva,
quase para que desabasse um puzzle de dependência do céu,
que desse para reconstruir o mundo em acomodação e espera do fim,...

e havia um beijo quando a noite chegava,
tudo pelo silêncio sem cor de gostar para o regresso a casa em conjunto


abril 19, 2018

Sem Título (95)


se podias estar aqui,
com a poesia desmultiplicada no
acesso à rua onde ninguém nos conhece,
nunca te verei pintada com a invisibilidade própria
dos indecisos,…

o tempo é de quem brinca com o real
ao adormecer,
e por isso desligo o candeeiro e
adormeço na teia dos segundos que
não voltarei a ver

E porque os dias estão a começar a aquecer...


Boa noite

Deste lado da rua as pessoas tinham um sono de pedra. Começavam a preparar-se para a noite, ainda a tarde estava de pijama, deitada,
à espera de forças para levantar-se com uma disposição de abraço ao tempo . E todas as coisas pareciam também declamar disposições de pedra, sem emoções, e com contornos de filósofo grego hesitante com o `pathos` das indecisões.

abril 18, 2018

Mais um dia de trabalho

dizes-me ter vontade de respostas,
que este mundo te desobriga de compromissos,
porque comprometer é a arte dos desorientados,...

faço o favor de ouvir,
a saber que já deixei de querer saber
do mundo como o conheci,...

se bem me lembro só te dei o silêncio,
o mesmo que me dizias para guardar
sempre na caixa dos despojos,...

até logo,
depois falamos de sermos precisos para a vida







abril 17, 2018

Novos tempos para o Inatingivel 2018. More to come....

Foto de In-Finita.

Lamechice do dia


Mãos

Onde estavas naquela tarde? Procurei-te no jardim das árvores que choram, o sítio que sabia ser o teu preferido para te lamentares da vida. Não te encontrei. Olhei em redor. O entardecer estava como sempre gostaste. Fresco, e com nuvens que passavam na cinematografia do céu como atores em fim de esplendor.
Fiquei sem saber o que pensar, nem onde tentar procurar-te mais. Senti uma quentura estranha no peito, quase como se me dissessem que iria ficar a viver com um estranho tipo de solidão.
Sentei-me por momentos. Arrefeci na minha desorientação, e o único refúgio que encontrei foi olhar para as minhas mãos. Estavam sem luvas, e quase que se desenhavam a si próprias com traços irregulares que surgiam, descontrolados. Perdi ação por causa do frio, e senti-as paralisar. Lembrei-me da admiração que sempre tiveste por elas. Chamavas-me pianista da tua alma.
E se te perder, para que é que elas passarão a servir?


abril 15, 2018

Gato(i)nhando de aniversário






Poema do ódio em sentido figurado

não me contentavas assim tanto
sendo a puta das meias palavras,
sem a frase feita dos dias anormalmente
longos entre as tuas pernas,
serias só mais uma no caminho de
louvores a Deus,
que descasco a cada
entardecer,...

não te suporto,
indiscutivelmente feita de fealdade,
e com as comidas da mão que tanto
dizes ter,
os minutos ficam-te sempre mal nesses
cabelos desgrenhados,
e com os segundos guardas-te na mais recôndita rua
suja e mal cheirosa,
onde te sentes bem longe do mal purgante
que transpiras,..

eu sou o que sou,
e estás bem assim como lima das unhas
que já roí,
e nunca mais quero voltar a ter

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Tirado daqui

Inconsequente dos versos

eu sei que já se escreveu que as dores
que doem mais são as que ninguem vê,
e a tal treta do contentamento descontente,
e que quem escreve tem de ter sempre o coração ensopado em sangue,
mas para mim a poesia não é isso,...

já debito coisas sem sentido há tanto tempo,
que prefiro nem ter definição propria de escrita,
olhem,
chamem-me inconsequente dos versos 

Saberão gotas o orvalho da manhã?




abril 14, 2018

que se veste de nada

serão as provas de uma vida longa,
o caminhar encurvado pelo
caminho dos pés envelhecidos,
com o rosto a pedir duas mãos
sem ossos,...

na espera sem história de ter de
tolerar um tempo,
que se veste de nada,
e nos vai embrulhando com
a suave efervescência de qualquer coisa

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Tirado daqui

Fraqueza

lembras-te do fruir?,
a mão na esquina da noite,
a sorver as luzes desconstruídas
depois de já não haver nada a perder,
com o silêncio de todos os medos
acolchoados no choro

abril 13, 2018

E assim se fecha a noite

Bilhas de água

as frases eram bilhas de água,
que pendiam das cabeças das mulheres
que deixavam a prole em casa,
e recitavam as prescrições dos medos
que lhes sustentavam as doenças,...

era um tempo de frutos maduros,
e as árvores a dançar
com as fémeas da necessidade,
as que arriscavam até o amor para
poder dizer amanhã,
sem chorar o que devia ter sido,...

e foram passando rios de
tempo sem pais,
minutos sem fim,...

e das mulheres foram
sobrando as velhas,
e da prole os
descontentes,...

a quem só lhes restava
as bilhas de água,
sem voz


Tranquilidade irrequieta


Gato(i)nhando in the sun


abril 12, 2018

Viver sem crer

a pessoa no espasmo,
estava a sombra a refletir
se seria o fim,
disse não que o sim estava próximo,
e porventura com o corpo sem controlo,...

respondeu a morte,
os murros na cara traziam
nuvens sem cor,
pensou por fim,
na máxima indisposição do ser,..

viver sem crer...

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Tirado daqui

Pelo sim, pelo não,...


Este é um rio sem cantores

este é um rio sem cantores,
com margens secas e desníveis
com animais que ratam as raízes
das árvores até,
até que elas caiam e sejam levadas
pela correnteza para se tornarem noutros bosques,
noutros sítios,..

e deixarem este rio silencioso,
com um vento mudo e que se espraia
a falar com o sol,
sem saber como sair do rebate dos dias
que correm sem nunca mergulharem notícias
de novos dias que interessem,...

este é um rio sem cantores,
nem versos melhores do que o silêncio

abril 11, 2018

Com outro perfume

nasceu há muito tempo,
parecia que tinha a idade em desabrochares de flores,
e a escolaridade medida no
desembrulhar da beleza da lua,
para se sentir velho tinha de
chover a espaços,
e era jovem sempre que havia
daqueles sóis que aquecem a pele,...

com pequenos pensamentos vazios
fazia-se notar às vezes,
e preparou-se para morrer quando sentiu que já nada tinha para dizer ao mundo,
só que o sol nasceu de novo,
e ainda cá está,...

com outro perfume


abril 10, 2018

Alá está no Sado


aos meus 18 anos

aos meus 18 anos queria escrever um livro,
tinha de ter uma subida ao monte mais alto do mundo,
com todos os aventureiros predispostos a lançarem-se no vazio em busca do som,
e recordo-me que havia um menino mudo,
e sem sonhos,
que assistia a tudo cá de baixo como se a vida fosse a lagarta que lhe passava gentilmente no ombro,...

nunca escrevi esse livro,
porque o mundo é essencialmente plano,
e eu prefiro a poesia sem sentido

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Tirado daqui

abril 09, 2018

abril 08, 2018

Amanhe ser

com a luz acaricia-me a pele esperando que dela venham os diamantes,
amanheces-me sempre assim,
com o final da noite a explicar como a razão se pode esconder,
entre querer e desejar no que resta da escuridão


abril 07, 2018

Um dia gostava de saber escrever assim

ruy belo / morte ao meio-dia


No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe,
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz do dia
pois a areia cresceu e a gente em vão requer
curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer

gato(i)nhando com malvadez



Ao que mais se espera no final de cada dia

Aqui onde os bancos de jardim são pedras por virar, somos todos menos razoáveis. O sol custa a sentir quando rompe nuvens baças e cor de chumbo. O vento coça-nos o nariz só para se meter connosco, e perceber que já éramos velhos sem esperança ainda na barriga das nossas mães. E as ruas são todas iguais:
sem que se perceba onde começam e acabam.
Com casas numeradas a transparente, para que as pessoas se percam de propósito, e vão parar todos os dias a casas de estranhos, e se calhar chorem. Este é um mundo que ninguém encontra em lado nenhum. Nem consta como nota de rodapé em qualquer livro de estudo para criancinhas felizes lerem, e construírem sinapses com ele.
Habituei-me a passear aqui, quando os meus pés eram de pedra. Agora que são de água tépida, e sem cor, já nem me lembro de como são as pessoas que outrora conheci.
Acho que morreram, e estão à espera de renascer para passarem por vidas desnorteadas como estas, uma, e outra, e outra vez....

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Tirado daqui

abril 06, 2018

Arrebenta a giga!!!



Apagar as palavras


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escolhi apagar as palavras,
viver com o que aqui não está em vez,
pela vez do que me escrevias,
à distância,
na planura do corpo que não era meu enquanto,
fui teu e de todos os seres tu que me mostraste,...

não quero o verbo,
complemento-me no acordar de cada dia,
a saber que já não conheço palavras como as que me
definiste,
como as que quiseste que tivesse no meu querer,...

nem sequer sei de mim agora,
que o amanhecer me fura os olhos com,
as facas do pensar afastado que já tens de mim

Tirado daqui

abril 05, 2018

Selfie com 98 anos. Praga do catano, ou o camandro!!!

Plano quinquenal

camarada professor não prestidigitaremos a vida assim,
o senso do coletivo é mais importante que a percepção de
realização pessoal,...

por isso declaro,
de hoje em diante fim aos poemas opacos e afuniladores da resolução da classe operária,...

que fiquem os versos que instalam a exaltação,
nos dias de nevoeiro que nos assolam antes da vitória final


abril 04, 2018

Um dia gostava de saber escrever assim

Manuel António Pina/Tat tam asi 


Nós os maus caminhamos em
círculos cada vez mais estreitos
até ao centro de tudo, o silêncio de tudo

(Nada é de mais, porque existe tudo)
Na nossa terrível vigília
cultivamos técnicas mortas,
o pleonasmo, a pura repetição

Aqueles que afirmam tudo
existem já na eternidade
conquistaram a imobilidade e o silêncio
com sábia indiferença são sidos por tudo

Música

gostava da música, 
de dentro da música, 
do que escorria pelos dedos 
com o desdobrar do silêncio,..

e com o gostar de não dormir no
escuro do não haver nada,
gostava de viver com música 
de dentro do que tinha dentro

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Tirado daqui

Corto os segundos na vida que transpira




do lúgubre de um povo,
as mulheres que arregaçam os ventres ao vento das cearas,
Os meninos homens dos dias azuis,
como azuis são as noites que choram fome por satisfazer,...

Éramos neo-realistas os que víamos este quadro adormecido,
Pintado com cor de sangue,
Desmaiado de todos os sangues que,
No anonimato,
Embalam qualquer coisa escura de calor nas frases

abril 03, 2018

abril 02, 2018

os dias dos dias iguais aos dias

eram muito mais que o percetivel,
o que se podia perceber das vezes que éramos lambidos,
Com aquela disforme língua de fogo que descia do céu,...

Escondiam-se nos sôfregos,
na falta de ar dos cobardes,
Com a pressão das nuvens de onde chovia,
listavam monótonas canções de adeus nas paredes das casas,
de cada vez que o vento as dissolvia em pó de ouro,...

e com a cadência de um decassílabo,
na voz morta de uma fadista solitária,
apresentavam-se ao universo,...

os dias dos dias iguais aos dias
de ontem,
os que matam filhos,
antes dos pais

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