5.9.15

Mais um esforço de qualquer coisa...

Acocorado em posição de medo crescente, john esperava qualquer coisa. O céu estava um não sei quê de verão, mas percebendo que não tardava o frio na próxima esquina. O homem estava nu só porque sim, e tentava com os deZ dedos dos pés enterrar o que restava do seu ser o mais fundo possível. Isto tudo tinha uma explicação. Talvez coerente, talvez incisiva. Mas foi mais ou menos quatro horas antes deste quadro, que o homem decidiu ser absorvido pelo núcleo da terra. Estava sentado num banco cinzento de hyde park, a ver pombos a cagar, e sentiu se a mais nesta rotina toda. Trinta anos de uma vida mal vivida. Sem aqueles momentos causadores de frisson, de conseguir um rodapezinho num livro de histórias qualquer. Só mesmo sono atrás de sono, com uma indefinição marcada no relógio da existência. Ainda se lembrava de como esta ideia de fazer parte da terra tinha começado. Foi quando a miúda mais feia que tinha conhecido lhe disse que estava a precisar de um pouco de universo nos cabelos. Perguntou lhe como,
e ela respondeu que a qualquer momento esperava descolar se deste mundo, e explodir num arco íris de felicidade. Dois ou três dias depois ouviu uma explosão enorme em casa. Soube que tinha sido a miúda galatica a procurar o universo dentro do forno da mãe, com o gás ligado. (Continua,...se calhar)

4.9.15

F(r)ado

Cortou uma pequena fatia daquele queijo pentagonal, que estava cheio de pontos verdes. Aquela maldita coisa tinha estado guardada no armário de cima da cozinha, junto ao esquentador. Quando o tirou, seriam umas seis da tarde, o papel de alumínio já escorria humidade. E também um cheiro indefinido a quarto fechado numa tarde de outono. É daqueles odores que não se descreve, prova se. Talvez por isso tirou a chávena mais velha da casa. Fora comprada na rua arbat, em Moscovo. Aí por mil novecentos e setenta e oito, numa excursão que o partido pagava para deixar as pessoas silenciosas de tanta realização pessoal. Encheu até 3/4 de água morna, que abraçou um saquinho moreno de chá de cidreira. Arrastou o banco da mesa da cozinha, e sentou se vagarosamente. Sentia o cóccix a encaixar no quadrado do assento. Estava bem assim. A chávena de chá, já a pedir bebericos suaves, estava à sua frente, a esquerda. Os dois pedacinhos de pão de centeio que esmagavam o queijo, assentes na madeira gasta da mesa.
Será um antônio mal gasto este homem. Assim o parece a falta de melhor desígnio pelo autor. Sozinho na vida, e com uma bronquite que para ele funcionava quase como um programa de rádio de companhia, mastigava vagarosamente. Pensava neste momento em praia. Pelo menos naquele vaguear de rio que gostava de sentir nos pés na juventude, enquanto falava de bola consigo próprio. O chá terá demorado dez minutos a desaparecer, e a sandes pouco mais. Assentou o cotovelo esquerdo na mesa. Apoiou a têmpora na mão como gostava. A meia franja grisalha pendia lhe até meio do indicador e do médio enrugados. O braço direito estava colado à barriga, suportando a mão morta, sem destino, no colo. Parecia que a tarde respirava ao som daquele radio em onda média que serpenteava vindo não se sabe de onde. Era a um fado do marceneiro , que ouvira vezes sem conta, que respondia o seu medo. Pavor tranquilo de qualquer coisa parecida com um fim....

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