31.7.18

Um dia gostava de saber escrever assim

per aage brandt / eu sou apenas uma sombra




*
eu sou apenas uma sombra de mim próprio,
ela atravessa sem resistência
a sala, cai sobre móveis
e papéis, instrumentos musicais,
restos de flores, um casaco vazio nu-
ma cadeira, dentro do qual uiva um telefone
como um lobo, seja para quem for
                               (homo homini lupus)

*



per aage brandt
livro da noite
trad. maria joão reynaud
poetas em mateus
quetzal
2004

Exército de sombras

dois desiludidos raspam
os últimos copos do dia,
chove as boas vindas
à desilusão,
e a lua acasalada com o
vazio ignora as decepções,...

a luz esvai-se em
nada nos pequenos
 rios de nojo,
que amparam
os passos dos desnorteados
que regressam ao que abominam,
não ter frase,
nem verbo,
nem toque de fim para o
dia seguinte,...

cria um exército de
sombras,
que esperam só por
ordem
para reabrir os olhos


30.7.18

About

as vezes dos pontos,
pele estigmada ao sol,
com lacerações invisíveis só lidas à luz de esperma,...

e sem tempo de ficar paralisado com beijos de vento,
só a falar percebiam o mundo de ossos que a tarde trazia

29.7.18

onde nunca acabaram as frentes das pessoas

vem para onde nunca acabaram as frentes das pessoas,
o mundo restou-se ao avesso das coisas,
e a comboios a andarem sem destino deixando o rasto possível,
na terra dolorida,...

se agora escrevo sem saber de choros,
e de meninos felizes que nunca quiseram deixar a marca no fogo,
é porque ganhei lugar a ver as aves passarem rumo a outros mundos,...

aqui,
onde nunca acabaram as frentes das pessoas,
rirás triste para a vida que não quer merecer mais

28.7.18

Um dia gostava de saber escrever assim

ana hatherly / o vermelho por dentro




Estão envolvidos em corpos negros vermelhos por
dentro. Estão num barco sobre o mar e o mar é
negro. É de noite. O céu está negro e sobre a
água negra tudo é vermelho por dentro.

Os corpos eram negros
sobre o mar a água era de noite
não se via o vermelho por dentro
os corpos não se viam
eram barcos com ventres todos negros
e as línguas eram de águas muito rentes
A sangue não sabia
não se via o vermelho por dentro
o céu a água envolvia
tudo envolvia nos vermelhos dentros
e os mares todas as noites estavam negros
negros por dentro
E a água volvia pelo céu tão negra
e à noite por dentro do mar todo vermelho
a noite era vermelha
e os barcos negros por dentro
E nos corpos a água negra era vermelha por dentro
e eles estavam envolvidos
e



ana hatherly
rosa do mundo
2001 poemas para o futuro
assírio & alvim
2001

Sábados

a ideia de sábados para tudo,
não acordar sem um sol que nos forçasse a dormir,
pelo menos até o cérebro se cansar de não falar,
e perder a decência de não ceder aos salamaleques da felicidade falsa,...

exasperava nao ser útil à utilidade de esperar por voltar a ser útil de novo,
e no entretanto andar no avesso do significado de qualquer coisa,
com os sábados sempre a cheirar à minudência de esperar pelo dia com pêlos,
e olhos,
a falar por si,...

mas compensava
sempre acreditar que o
sábado afaga todos
os choros 


27.7.18

Midlife happy birthday to me


podia ter acontecido

podia ter acontecido,
assim no meio de um verbo insonoro,
podia nas mãos sem dedos dos que
se calam no vento,
e falam o suficiente para perpetuar
as coisas sem importância,...

podia,
mas não aconteceu,
só a hora sem minutos das
obras sem autor,
ainda segura o equívoco
dourado desta incerteza

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          Tirado daqui                         

26.7.18

El Comandante lo obriga


não saberei dizer-te o mar

se quiseres saber do mar,
do restrito impedimento das ondas
quando se encaracolam nas
rochas órfãs do tempo,
não saberei ser o refúgio
das tuas palavras,...

com os gestos infindos de
pesar que desnudavam
os teus sorrisos,
habituei-me a namorar um olhar
que nunca soube explicar,...

era ver o vento na subretícia
demanda dos teus cabelos
selvagens,
fazendo o mundo do que eles enumeravam,
e o sol do teu rosto alumiado
pelo entardecer que o centro
do Universo queria dar,...

por isso,
não saberei
dizer-te o mar,
só o irregular traço dos passos
acasalados com a areia molhada
na falésia,
quando voltarmos costas
para voltar à galáxia
escura de todos os dias

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25.7.18

Um dia gostava de saber escrever assim

luís miguel nava / olhando o sol




     Um dia, olhando o sol, deu conta de que nele tinha os ossos mergulhados. Era no entanto impensável proceder a escavações no sol, embora tarde ou cedo a gente acabe por sentir no coração as escavadoras. Dir-se-ia um sol magnético, capaz de decidir dos resultados das mais árduas partidas de xadrez. Como se fosse uma das peças, dir-se-ia, ou como se a luz dele recuperasse através deste uma etimologia insuspeitada.

     Há quem em si se embrenhe até lhe dar o coração pela cintura – começou ele a escrever então. Como se a espinha do próprio acto de escrever ficasse à mostra, a mão foi-lhe emergindo aos poucos do papel.


luís miguel nava
poesia completa (1979-1994)
rebentação
publicações dom quixote
2002

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Senhor Fritz

pobre senhor fritz,
contava as pedrinhas em que
a insubmissão de um caminho,
parecia repetir-se ao
 longo da filigrana do sol,...

era aquela hora do dia em que os
arrependimentos
pressionavam a consciência,
e no centro de Berlim o tempo
eram duas crianças a quem
se tinha tirado um doce,...

só o senhor fritz sabia
desclassificar uma
 expetativa destas,
por isso escreveu
um livro,
era sobre um
homem que
nunca soube esperar

24.7.18

O Inatingível 2018 novamente em crossover. Mais uma colaboração com o blogue 'Acrescenta um ponto ao conto'


O sol brilhava por entre as nuvens, deixando a pele morna. O vento soprava suave, fazendo os abetos dançar uma espécie de valsa, que roçava os altos portões de metal verde. Dois militares com farda verde azeitona, e de espingarda automática ao ombro, tentavam ocultar os bocejos próprios de um amanhecer de Primavera. Andavam, em linhas retas de cerca de 50 metros, sendo observados ocasionalmente por um graduado que, pela disposição, não parecia disposto a permitir-lhes qualquer falha. Era preciso patrulhar, até os pés ganharem bolhas de cansaço.
De repente a calma daquela unidade militar foi desfeita pelo surgimento inexplicável de um homem no meio da praça de armas. Bastaram apenas alguns segundos para que ficasse rodeado de militares assustados, mas ao mesmo tempo compenetrados nos seus deveres castrenses de defesa, todos empunhando armas automáticas, e em posição de fazer fogo pelo tempo que fosse preciso.
Um jovem alourado, de tez clara e sardenta saiu a correr de um casarão militar alto. Desceu as escadas duas a duas, e correu para ir falar com o graduado que, ainda minutos antes, se limitava a observar dois patrulheiros a fazerem a rotina de todos os dias. Percebia-se que tinha ascendente sobre o mesmo, já que falava quase aos gritos, e o outro limitava-se a baixar os olhos.
Quando percebeu que dali não obtinha quaisquer respostas, dirigiu-se até ao centro da praça de armas. Um dos militares desfez a posição de tiro em que se encontrava, e saudou-o com uma continência.
-O que se passa aqui?,
questionou o militar mais graduado, enquanto se aproximava do estranho, que fumegava por todos os lados, e estava deitado de barriga para cima, a olhar o céu, e sem se mexer.
- Não sabemos meu capitão,
respondeu o sargento, que visivelmente se esforçava por encontrar as palavras certas, enquanto ao mesmo tempo lançava um olhar hierarquicamente forte sobre os outros militares que não se atreviam a desfazer a posição de tiro que tinham assumido, todos por instinto.
-Seja quem for, esta pessoa não pode continuar aqui. É um estranho, e tratem de o tirar daqui.
Mal acabou de dizer a última palavra, reentrou a correr no casarão de onde tinha saído. Entrou no gabinete, sentou-se, pegou no telefone, e secamente pediu ao telefonista:
- Se faz favor faça-me uma chamada para Lisboa. 
O jovem oficial transpirava, à medida que sentia os primeiros raios de sol a entrarem pelas vidraças grossas do seu gabinete. Quando o telefone tocou, foi rápido a levantá-lo:
- Passe-me ao tenente-coronel Otelo Saraiva de Carvalho.
Segundos depois, de Lisboa, uma voz grave falava:
- Pensei que tinha dito que só queria ouvir algo da Escola Prática de Santarém quando vocês estivessem a sair daí. Com quem estou a falar?
No pequeno gabinete em Santarém, percebia-se a gravidade da situação.
-Capitão Salgueiro Maia, meu tenente-coronel. Peço desculpa estar a incomodá-lo, ainda por cima quando o plano já está em marcha. Mas é que surgiu um imprevisto.
Em poucos momentos, explicou o melhor que soube. Estava um homem de aspeto andrajoso no meio da praça de armas da Escola Prática. E faltavam poucos minutos para a hora combinada de saída da coluna militar para Lisboa. Ninguém sabia como ele lá tinha entrado, nem se seria um invasor. Um espião da polícia política.
-Meu jovem, o senhor não está a perceber o que se está a passar, pois não? Olhe para o calendário que está à sua frente, e diga-me que data vê.
O capitão respondeu, firmemente, mas com a hesitação a crescer.
- 25 de abril de 1974, meu tenente-coronel.
Seguiu-se um silêncio que feria os ouvidos. Foi curto, mas impositivo.
-Então vire-se rapidamente, e resolva isso. Daqui por meia hora no máximo, quero a coluna militar na rua!!! É hoje, ou vamos todos para a prisão, ouviu? Os portugueses não podem esperar mais.
Aos gritos, de Lisboa, a ordem estava dada:
-Sim, meu tenente-coronel.
O jovem Salgueiro  Maia voltou a correr para a praça de armas. O sol desabrochava como um pêssego maduro no horizonte, incendiando os resquícios da noite com um vermelho fogo, que parecia deixar no ar o perfume intenso de que aquele dia iria remodelar a história, conforme todos a conheciam.
-Vamos lá a resolver isto rapidamente.
O capitão berrou uma ordem.Mandou formar um círculo em redor do homem. Os cerca de 20 militares de Cavalaria puseram-se novamente em posição de tiro com as armas automáticas.
Um barulho estranho, quase que saído da barriga de uma baleia morta nos tempos idos do Mar do Norte, ecoou por toda a unidade militar. O barulho parecia vir das profundezas da terra.Debaixo do homem que permanecia inconsciente. Vestia uma touca de linho. Trazia umas calças, aparentemente do mesmo material, rasgadas nos joelhos, e estava descalço. Tinha uma cara cansada, mas um ar tranquilo.
O capitão Salgueiro Maia, como oficial mais graduado, chegou-se à frente. Tirou a espingarda automática das mãos de um dos sargentos, e apontou-a ao estranho homem. Pediu-lhe a identificação, e perguntou-lhe se era um invasor estrangeiro. Advertiu-o para não tentar fazer qualquer movimento brusco, pois seria logo preso ou, se necessário fosse, abatido.
O inesperado invasor disse chamar-se Júlio. Sim, o personagem principal desta história, que já tinha passado pelo Portugal do dealbar da nacionalidade, e pela Lisboa trágica de 1755. Explicou tudo isso, com uma voz trémula, de quem não esperava que acreditassem nele. E não acreditaram. Foi o próprio capitão Salgueiro Maia que ordenou que o mesmo fosse preso. Com uma escolta de dois militares, de espingardas em punho, foi encaminhado para as celas do quartel militar. Estava uma revolução em curso, e nada nem ninguém poderia perturbar aquele momento de viragem da história de Portugal.
Foi por entre as grades do pequeno cubículo onde o deixaram, que Júlio assistiu à saída de uma extensa coluna militar. No caminho pelos corredores da instalação militar, percebeu que, acidentalmente, estava a ser um intérprete do momento mais bonito da história de Portugal. Reconheceu Salgueiro Maia. Sorriu, sozinho, com a hesitação do jovem capitão que não sabia se as ordens a que estava sujeito iriam ser cumpridas com sucesso. E, pela primeira vez desde que se tinha metido nesta aventura, não se sentiu assustado. Sabia que tudo iria ter um fim. Um dia. Não sabia quando, nem de que forma. Nem até se sairia vivo de todas estas atribulações. Sentia-se desmaterializado da pessoa que já tinha sido. Agora, a única coisa que lhe interessava era passar à próxima etapa. Saber onde a sorte o levaria. Pensou que a máquina do tempo estaria em condições. Bastaria só ativar o botão que trazia consigo a todo o momento, e ela recomeçaria a trabalhar.
O tempo foi passando, e de Lisboa vinham as notícias que Júlio já sabia que iam acontecer. O capitão que ainda agora o tinha mandado prender, tinha, ele próprio, dado voz de detenção ao presidente do Conselho de Ministros. Nas ruas, o povo festejava o fim da ditadura. Ao anoitecer, três militares vieram dar-lhe o jantar. De propósito entornou a taça de sopa no chão, levando a um pequeno momento de distração dos que o mantinham cativo. A porta da cela ficou aberta, e Júlio aproveitou para fugir.
Já era noite, e o quartel estava iluminado por pequenos pontos amarelos, e que pareciam pirilampos. Escondeu-se atrás de um blindado, apenas os minutos suficientes para ouvir dois militares a dizerem um para o outro que o preso tinha escapado, e era preciso dar o alarme.
Assim que teve oportunidade, preparou todos os sentidos para perceber que era altura de nova transição no espaço, e no tempo. Um silvo agudo fê-lo acionar o botão, que o fez transpor para a máquina do tempo. O inesperado de toda esta aventura continuava, ao virar da próxima esquina.

Disponível aqui

23.7.18

Criar é desafiar


Contingência de um dia

na tua cama a pele
perdida da transumância,
pedir o amor retalhado em sangue,
desenhava na luz da manhã gemidos incolores,...

abraçava-nos a timidez do nascer do dia,
sempre o primeiro a invadir um planeta,
trancado ao que não tinha desenho corpóreo de prazer,...

uma,
duas,
três voltas da mesma chave do privado feito suor,
até que a noite regresse,
e o que renasça
chore o gemido preso
entre paredes


22.7.18

Casas de um dia no escorrer dos teus olhos


numa estrada escura e sem destino

numa estrada escura e sem destino,
havia duas maneiras de rasgar o céu,
em nenhuma delas se conseguiu trazer de volta as pessoas,
só as árvores ficaram a dançar com esquadria,
arrastadas pelo devaneio sem explicação do vento,...

a cada amanhecer o planeta encolhia sem qualquer sinal de vida racional,
até que tudo terminou num clarão sem cor,
que trouxe de volta as pessoas,
mas já não havia planeta para viver

21.7.18

Dependências

não quis depois de ti frases que expliquem o mar,
nem silêncios que me perseguissem como o teu olhar me feria,
só escondendo o meu ser de mim mesmo percebi a terra,
sentindo os dedos dos pés como raízes da árvore que decepaste à vida,...

em mim a razão encontrou um habitat,
reaprendi a encher todos os eus daquelas pequenas palavras da manhã,
só precisando do que tinha sido antes de me sentir a via sacra,
com a cruz do teu caminhar,
percebi que escrevendo o sol,
friso a alegria de não saber o recitar da noite


20.7.18

Todos os dias

Recusava as notas intrínsecas da música do acordar,
eram as de todos os dias,
monótonas, irrepreensíveis,
encostadas ao abrir as pálpebras dos porquês,...

escolheu por isso o friso de todos os dias dos dias que passavam iguais 


19.7.18

E se um dia te desenhar o céu no sorriso?




Árvores

não sentia culpa de ver as
árvores suicidarem-se com
uma solidão auto-imposta,
os dias passavam
e momento a momento
inundavam-o gritos lancinantes,
sentires presos
no desdobrar dos dias,...

com o correr das
estrelas no céu,
o tempo abria as
suas estradas,
e as árvores
nunca renasciam

inneroptics:
“ Sally Mann
”

18.7.18

Despedi da

sei do vento
despido na manhã
suja dos últimos
dias do adeus,
com a frase
irremediável escrita
no verde de todas
as rotinas,
dei para a
tua última
impressão
do real,...

chamavas todas as
coisas do azul
incompreendido,
balbuciando o amor
como perdido,
e a redução do tempo
para o fim como a
maior indefinição
ainda por beijar,...

passo a passo
industriámos a forma
única de,
Indiscutivelmente,
deixarmos o silêncio
para trás neste
reduto de gritos estridentes,...

para tudo acabar
na demora da
chuva que limpa
a roupa suja de mal

17.7.18

Mãos negras



Sharon Olds
in Satanás Diz

Sharon Olds
Satanás Diz

Conto de fim de Verão

naquela tarde de verão tudo seguia para o fim que tinha de ser,
havia carne a apodrecer no estertor dos falhados,
osso a osso o conformismo montava a praça no abismo das cores vãs,...

sonhei com os cavalos que caçados pelo tempo,
arredondavam a espera pelo fim andando em roda,
sem fim de coisas aparentes,...

e quando já era o silêncio a fazer de pele das pessoas,
o outono veio a fazer da velha mais velha,
tão velha que a mulher coerência daquele lugar,
remoeu a vontade de ser consciente,
e adormeceu para sempre nos colos dos honestos


16.7.18

Um dia gostava de saber escrever assim

poema de Valério Romão

queria ter aprendido essa forma líquida de estar na vida
de ser um osso pintado a caminho da dança
pôr as mãos atrás das costas num gesto largo
para lançar o peito em figura de proa
para ter nas costas o navio crescendo
como uma árvore de fruto e dele
pingar homens bons às centenas
homens de coração exposto à ferida e à temperança
e nunca mais descer à casa do medo
nunca mais tremer
nunca mais declinar em vestígio
fazer do túmulo em chamas a casa do espírito
o cepo glorioso onde todos os dias oferecer as mãos e a testa limpa
ao machado e à vontade da coroa
(seja esta coroa seja esta vontade)
o coração ardendo sempre o coração ardendo livre

That 90`s feeling


Poema a meu pai sem corpo

lembro-me dos mais velhos a falarem de quando o conhecimento era um medo,
o tempo em que os livros forçosamente eram segredados,
passados de suspiro em suspiro longe da luz do dia,
podia ser à sombra de uma árvore,
na ilusão de um toque fugidio,...

hoje conhecer é incorpóreo,
não está em lado nenhum,
e a decisão de termos posse de sinapses,
faz-nos raios de luz que chamam a si a liberdade

15.7.18

Livros enlouquecem

não me lembro letra a letra de
qualquer frase desse livro,
só sei do estóico do recanto
onde ele estava,
e de o recolheres pelos píncaros
chamando-lhe fusão,
e irremediável perda
de sentimentos,...

achei que ao coseres os
lábios em V,
estavas a hiperbolizar
um sentimento,
porque um livro não
é o frio da salmoura
dos dias,...

nem sequer adianta o luar pela janela,
como forma de retomar sanidade
perdida com finais inesperados
em verso,...

importante mesmo é
frisarmos a loucura,
quando adormecemos à noite



14.7.18

Poema descoberta

há dois ou três
livros atrás,
estava aditivada
em mim
como certeza,
a adesiva
presença da tua razão,...

encontrei-a
metaforizada
no choro de uma menina,
que nem sim
 nem não,
optava assim
pelo atirar dos
barcos ao cais,
em vez
do amor,...

sabes,
acho que perdi
 a vontade de
dormir sobre
 a leitura,
depois disto,
sabendo
que encrustei
frases menores
do nosso dia a dia,
em cima
da minha
fórmula de adormecer,...

este talvez
 letra a letra,
seja o
último poema
descoberta da minha vida

13.7.18

Minimalismo

esta mania de bocadinhos
fazia,
com que começasse
todos os
poemas por minúsculas,....

até os pedacinhos
 de sono que trazia
agarrados à franja,
quando o sol menino a
beijava no estio
de cada manhã,
já deram uma cidade
inteira a voar
no assuão,
do amor da
despedida


-—————————/-/—————

Acordo de separação

findas as negociações,
foi decidido puxar aquele
 papel de 25 linhas
 da gaveta,
e passar o
acordo a escrito,...

havia duas saudades
 para repartir em
partes iguais,
aos dias pares
ficava com o homem
do nariz pequeno,
aos ímpares com o
homem sem voz,
e quando o tempo parasse
 por mero cansaço,
as saudades,
que eram irmãs,
iam esperar dentro da
luz refratária que o
mar refletisse,...

aguardava-se pela equidade
deste acordo,
já que o mesmo era
visto como último recurso
para as partes envolvidas,...

pai e filho que iam
mudar de continentes,
e passar a ver-se só quando
 a sorte quisesse,...

a letra miudinha a
palavra amor estava
lacrada a lágrimas 

11.7.18

Rua zero

não, não estávamos sozinhos e chovia,
lembro-me de na rua escorrer um pequeno
rio de margens soltas,
vermelho sangue,...

parecia que nos ossos das casas,
havia moribundas e efetivas
partes de heranças,
deixadas pelos risos de todas
as crianças,...

conversámos,
até o sol se encaracolar
naquelas nuvens que eram habituais no
horizonte,
e parar de brotar o desnorte
de todos os cantos invisíveis
de morte,....

e no fim a alma
desenhada num,
mão na mão


9.7.18

Cinquenta anos antes

cinquenta anos antes,
contados a pernas de medo,
lembrava-me do jardim que media
com revirares de órbitas,
falava comigo a amarelos,
sem que dele percebesse que outrora
tinha sido uma senhora que esperava a morte,...

também me recordava do bater diferente da chuva,
que soava aos batuques de folclore daquelas
festas de interior esquecido,...

cinquenta anos antes,
nem sequer tinha existência corpórea,
mas lembro-me dos passeios da língua,
a forma como qualquer ser que respirava,
se fazia entender apenas pela pele invisível
e escarada,
a mesma que prendia à pobreza,...

cinquenta anos antes,
apareceu definido na porta para a dimensão
de medo em que hoje acordei

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Tirado daqui

8.7.18

My thoughts exactly

Eucanaã Ferraz
in Poesia

Eucanaã Ferraz
in: Poesia 

Ele metia os meninos da Tailândia cá fora a todos. Foi perto da casa dele e tudo...


Gato(i)nhando acrobata






Colaboração para o blogue 'Páginas Partilhadas', Agosto de 2018

Magia

A devoção era palpável do primeiro suspiro da manhã, que sabia a orvalho de meandros de Primavera, ao cerrar de pálpebras da noite, que tranquilizava até aquelas inseguranças que costumam vir, parecidas com as ondas da praia quando o vento se decide a revolver as entranhas do planeta. Tinha resignação à sua presença. De cabelos enleados como a lã quando sai das ovelhas assustadas, de um louro esbranquiçado. A pele que escurecia consoante o sol invadia, sorrateiro, aquele quarto de paredes brancas, e ficava alva quando o sono vinha, e a noite aparecia, como as mães que vão aconchegar os filhos, fazendo-os sentir com uma força capaz de levantar todo o Universo.
Preferia não lhe dar qualquer nome. Chamava-a querida, com uma voz que de tão impercetível, parecia o bicar do pardal em cada manhã, no beiral da janela. Decidia-se pelo amor, e ela nem respondia ou, quanto muito olhava-o com dois vaga-lumes pequenos, sorrateiros, que pareciam presos e com vontade de sair. E queria sorrir,... o tiritar do canto da boca mostrava-o. Dava para ver, quase à transparência, que o fazia quando virava costas para sair daquele lugar.
Uma indecisão de meio segundo roubou-lhe o viver. Mediu mal a pressa, e enfiou a frente do carro contra um muro, um dia. A partir daí, sentiu que morrera. Mas a vida tinha-lhe dado uma nova vida, com as pernas mortas, braços moribundos, mas com uma cabeça que brilhava a todas as horas. E ela surgiu quando já tinha prometido, escrevendo uma carta à sua própria razão, que o passar do tempo tinha de contar com ele para pormenorizar todas as decisões indispensáveis para que a vida continuasse.
Ele não tinha muito para oferecer. Mas ela foi ficando. Era de poucas palavras. Dizia só as certas. Quase como, a princípio, tivesse querido roubar algo de dentro dele. E ficou-lhe com o coração. Pareceu magia.
Naquele dia, disse para si mesmo, ia escrever dentro da própria cabeça um início de romance. Chamar-lhe-ia qualquer coisa como a Flor mágica dos dias iguais. 

7.7.18

Later in the day


Um dia gostava de saber escrever assim

Elegia com uma variação romântica


As mulheres loucas arrumam os quartos, fazem
as camas desfeitas, empilham camisas e calças,
abotoam os cintos do infinito, prendem os laços
da sombra. Com os seus olhos cegos, enfiam
agulhas no buraco da vida, cosem as feridas
do amor que não tiveram, cantam devagar
a canção da idade fria. Dispo essas mulheres
no meu poema; espalho as suas roupas pelas cadeiras
do quarto; abro a cama onde as deito; rasgo
os pontos que acabaram de coser. O seu sexo -
seco pelos ventos de uma inquietação nocturna
- humedece-me os dedos. Desfolho os dias de março
enquanto desfloro os seus lábios. Por vezes,
as mulheres loucas abrem a porta da varanda,
respiram o perfume das trepadeiras brancas
da primavera, desmaiam com o sol.

Nuno Júdice

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Mãos invertebradas

de vez em quando a
musicalidade de um plural,
e a vontade de
pisar a linha de nem
haver verbos,
com jardim montado
na gola de um casaco,
arrebitada porque
 o frio nos
decapita a solidão,...

tudo frases
pintadas como
se gosta,
e o que traz
um olá desnecessário
que escorre do
nunca mais quero ver-te,
procurando o lado
 certo da rua das
mãos invertebradas

6.7.18

Torga a ser visionário antes de tempo. Deve saber tão bem ter um intelecto superior.

Gerez, 6 de Abril de 1944 – Ainda a leitura destes frades nacionais, e a convicção cada vez mais provada de que a vida mental portuguesa não tem crescimento. Parece que cada escritor, cada artista, aqui, começa sempre de novo. Camilo é tão primário como Fernão Lopes, e João de Deus tão ingénuo como D. Dinís. Nenhuma geração, desde que Portugal é Portugal, pegou na herança que lhe deixaram, e aumentou o capital. À gente de setenta, por exemplo, clara, luminosa, racionalista, seguiu-se uma outra sebastianista e brumosa. Onde se entronca Antero? Quem ergue hoje o facho que brilhou nas mãos de Garrett? Perdem-se as raras mensagens que de tempos a tempos aparecem, e cada alfobre literário é composto por uns pobre pacóvios que vêm de Trás-os-Montes ou do Algarve, e que entram a gatinhar nas letras ou no pensamento como se a arte e as ideias estivessem ainda no Condado Portucalense. A cultura não chega ao povo, e quem vem dele não a pode trazer, evidentemente. Isto não é falta de respeito nem de carinho pelo que temos. Deus sabe a ternura que me desperta uma das nossas páginas gordurosas de prosa! É apenas uma verificação imparcial. Se pegamos numa história da nossa literatura, lá temos o sábio Fr. Amador Arrais, o inefável Heitor Pinto, o velho Manuel Bernardes, o nunca assaz padre Vieira. Mas se tratarmos duma história do nosso pensamento, é a mesma gente que nos aparece, a ser pau para toda a colher. O mesmo nome serve para representar a poesia, a novela, o teatro, a filosofia, a mística, a retórica, tudo quanto Marta fiou. O pior é que Marta fiou uns tormentos que arranham a alma de quem os veste! Já o romance fez todas as experiências, tentou todos os caminhos, e o nosso ainda a choutar em Fornos de Algodres! A coisa começou menos mal com Bernardim Ribeiro, mas quem deu continuidade àquele nosso esmoer saudoso dos sentimentos? Fazemos uma arte de impulsos, desarticulada dum todo, anárquica e fragmentária. Também não queria um imbricamento tão apertado como existe em certas terras, onde se está a ler Gide e a entender Montaigne. Mas pedia uma linha de propósitos, uma ramificação constante da mesma cepa comum, dando cada ramo as suas flores e os seus frutos. Mas não. Por mais que a gente se esforce, o que é certo é que em toda a nossa literatura não há verdadeiramente uma obra que seja um facho a arder na grande noite da humanidade. Onde temos nós coisa que se compare a um D. Quixote, essa gigantesca coluna do génio mais estremado que se viu? Camões? Muito bom, evidentemente, mas é preciso mais. Ainda foi a nossa limitação que cantou ali. Os Lusíadas! Logo no título a nossa tacanhez se manifestou. Os outros chamaram às epopeias deles Odisseias, Paraísos Perdidos, Divinas Comédias, etc. Nomes que agarram mundos. Nós ficámo-nos pelos lusíadas desta pobre Lusitânia. Bem se sabe que o nacional português era na ocasião o universal. Mas está justamente aí o limitado da visão. Nunca o relato grandíloquo das façanhas dum povo podia constituir em si matéria de eternidade. A isso era preciso juntar-lhe qualquer coisa de mais simbólico e geral, uma síntese que ficasse para sempre a ser um marco de imaginação e de poder criador. Quase tão ilegível como os Lusíadas, a Divina Comédiatem contudo a visão assombrosa e apocalíptica do Inferno. E sempre a humanidade há-de encontrar ali a concretização dum terror, dum enigma que lhe devorou a fantasia. Nas piores páginas do Quixotepermanece vivo o diálogo infindável e universal do espírito e da matéria, e é isso que nele importa fundamentalmente. Ora Camões não levantou o pano a nenhum mistério. Deu a volta ao mundo, como Fernão de Magalhães, a cantar as nossas glórias. E as nossas glórias passaram…
Mas está bem, aceitemos Camões. E a seguir? A seguir vêm dois séculos em que ninguém sabia o que era um verso! Lá aparece Garrett por fim a estudar o romanceiro, a aprender de novo a magia das coisas, e consegue escrever as Asas Brancas. Mas, ao lado, Castilho continua a rimar arcàdicamente, e Herculano permanece granítico, a fazer cruzes quebradas como um mau pedreiro. Ora a arte e o pensamento implicam um afinamento contínuo de processos, um saber cada vez mais sólido e desanuviado. Perdendo-se a experiência passada, é natural que tenha de se recomeçar com meios simples e primários. E o progresso é impossível. De resto, esse crescer contínuo, além doutras vantagens, evitava-nos o dissabor de certas adptações ou imitações serem tão grosseiras e calvas. Aflitos, os nossos artistas e pensadores, em certos momentos, começam a correr para apanhar o comboio de uma actualização universal. E como vão sem bagagem, nus e ingénuos, o resultado é no fim a roupa que vestem em Paris tapar-lhes o melhor da personalidade.
É claro que uma verificação destas só é possível se puder servir o futuro. Mas é exactamente no futuro que eu penso.
Só há grandes literaturas onde o povo é permeável à cultura. Onde se leu a Bíblia à lareira durante centenas de anos, e onde as Mil e uma Noites não destoam ao lado de uma charrua. O nosso povo, que é donde sairam os nossos maiores, precisa dum banho lustral de pão e de beleza. E então, sim! Então cada escritor português que vier não terá apenas para descrever, e grossamente, as pitorescas romarias da sua aldeia.

Miguel Torga, “Diário III”, pp. 26-30, 1954, Coimbra.

...só o chora o cão mais livre daquela invernia

qualquer coisa a um tempo
escrito a diáfano,
enrolado na cacimba surge
o velho das madrugadas,
casa despida de segundos
esguios a escorrerem
pelas paredes,...

desce o empedrado
 trôpego,
ar metido para dentro
com névoa da morte,
vai parar na esquina
 para jurar aos finados
 que há-de comer amargo
nesse almoço,
cruza-se com o fungar
do cão mais livre
daquela invernia,
cheira-lhe o rasto
e evapora-se no nevoeiro,...

a luz daquele lugar
 abre um olho,
e depois
mais um,
do céu escrito a
chumbo descem
poemas de fim,
há um coração
cansado do espirrar
dos dias,
tombado com
duas pernas
e dois braços,
e um halo debruado
a conformismo,
morto,...

só o chora o cão
mais livre daquela invernia


5.7.18

Quando queres ser a alegria da 'Party',...mas não consegues....

Lavabos

a mentira estava retalhada
 por entre a poça de mijo,
um pouco acima,
a caligrafia trêmula
da mulher,
fora de corpo,...

nove números e um léxico
de pentear o tempo,
para lá do bom dia
de todas as noites,
a preferir ser a puta de
um romance mal escrito,
do que o mentiroso de um
momento,...

cheirava a poesia maldita
naquele cubículo,
do lusco-fusco lá
de fora esvoaçavam
os sem rumo,
que tinham na pila a
extensão de qualquer
coisa do elogio,
do vir para casa
todas as noites
para um amor sincero



4.7.18

Inadaptação social

um olho retalhado,
a face amarela da espera,
os bolsos da comiseração cheios de ar podre,...

com o assento na face negra do jardim,
escrevinhava as interrogações possíveis no ar,
com a chuva a corrigir erros de léxico,...

e os desculpes todos postos à beira da crassa farsa de estar só,
chamava-se qualquer coisa menos a luz,
muito prazer ao asco de o conhecer

3.7.18

I've got a girlfriend, and she´s lost her brain....

Lisboa, manhã sem osso

do domínio do português que
da minha língua sai,
em acendalha,
restas-te como gramática muda,
o garante de que o irreal,
é o banho que dou a todas as coisas,
ao que me rodeia no entardecer
do inverno que está sempre lá,...

se escrevo é porque o sol manda,
e de todas as coisas a menos presente é
como idealizamos a pele que descamamos,
e o horizonte menos vivo que daí sai,...

no fim de tudo perceber,
se me acordares com o silêncio,
será como me quero deixar ir

‘Abrir os olhos até ao branco’ Director’s cut

Do lugar comum da folha em branco, ou neste caso do cursor de um computador a piscar . Para o infinito. O passo pode parecer simples. Mas há o risco de durar anos. No meu caso talvez metade da minha vida. A poesia nunca foi uma prioridade do meu desejo, por vezes doentio, de escrever. Surgiu como mero acaso. Pode parecer presunção, com a água benta necessária, mas juro que não.
Poesia são os dois mais dois que a vida precisa para correr nos carris possíveis, não necessariamente nos certos. E, ao fim de vários anos de um desejo silenciado, e por vezes reprimido, surge o livro 'Abrir os olhos até ao branco'.
Não acho que seja um projeto com um fio condutor definido. Antes uma viagem de automóvel aos solavancos por um caminho com muitas curvas, paragens prolongadas para ganhar balanço, e um grande sentido de que este percurso poderá ser longo, assim eu mantenha esse desejo pungente de continuar a escrever .
Não quero realçar nenhum dos poemas que fazem parte deste livro. Um trabalho de descoberta é o mais importante que compete a um leitor, e só a ele. Um livro, assim que se completa o processo de edição, deixa de ser do seu autor. Passa a ser da história. Só queria sublinhar a mensagem que, penso eu, este livro encerra. A de descoberta. Ele passa pela escuridão, pela morte como omnipresente fator de catarse da vida, e passa também pela criação da vida. Tudo com o amor, algumas formas de amor, como ilha longínqua que um autor procura alcançar de cada vez que junta palavras com o intuito de lhes dar um som e sentido de beleza.
Em suma, 'Abrir os olhos até ao branco' porque a vida existe para ser vivida, como uma pele que é só nossa, e de mais ninguém .


2.7.18

Still to be continued

-O senhor quer morrer hoje?
À atoarda nem respondi. Estava mais com pressa de sair dali, e chegar a casa, do que dar conversa a quem não merecia. Mas ela continuou. Continuava a cacimbar, e já sentia os ossos a engilharem, como sempre acontece quando não quero enfrentar as situações.
-Só tinha era de sair da frente para eu passar!!!
A paciência mirrava-se-me a olhos vistos, e consegui, mesmo assim, levantar uma das mãos, e assentar-lhe no ombro. Acho que nada disse, mas a velha não retorquia também. Nem recuava um palmo que fosse. Aliás, até calcou os pés no chão. Trazia tipo umas redes calçadas, pretas e brancas, que por esta altura já estavam todas ensopadas em lama.
Achei que pelo menos um com licença ela me merecia. Mas continuou a falar. Tirou um livro pequeno, quase minúsculo, de capa acastanhada. Atirou-mo aos calcanhares, e disse que eu não merecia o chão que pisava. Peguei naquela amálgama de papel, ratada nas pontas, e vi que parecia um rol de mercearia. Folheei uma ou outra coisa, enquanto a velha não parava de ruminar qualquer coisa que eu nunca, e em qualquer momento, entendi.
Quando me pareceu razoável virar-lhe costas, só me saiu da garganta:
- Se a senhora não tem mais nada a fazer, tenho eu. Boa tarde.
Parou de chover. Galguei uns dez passos de lama, atravancada por uns pedregulhos que pareciam lontras a boiar num rio todo sujo de óleo.
Depois calquei a calçada de basalto, sem mais olhar para trás.
Sem ver, ouvi, ou pareceu-me ouvir, que a velha tinha reentrado no pechisbeque, e arrancado....

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