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sábado, 5 de agosto de 2023

fátuo e moribundo

seixos partidos,
ondas que desenroladas,
armam um circo de abandono
em toda a extensão de uma praia,
desencontrada do som,
perdida nas saias longas e franzidas,
das mulheres que se arrastam numa 
esquina de espaço,...

a voragem da voz que surge,
em rostos entristecidos,
esconde os raios tímidos de sol,
numa manhã que se desenrola
como fogo,
fátuo e moribundo

quinta-feira, 2 de junho de 2022

27 anos


Naquele dia, escolheram descer a rua apertada,

Tinha dois desníveis acentuados antes de uma reta prolongada,

Que dava acesso à estrada onde os carros se ouviam,

Cada vez menos,

Quase já como dois lamentos de abetos que dançam ao vento,...


Traziam pequenas porções de fruta madura,

Para dar aos pássaros que pedinchavam por sustento à medida que palmilhavam sem muita pressa,

E sentiam-se bem,

À chegada à casa descoordenada que construiram na enseada,

Acreditavam-se realizados,...


Tinha chegado a época das chuvas 

domingo, 30 de maio de 2021

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Passado e presente

inneroptics:
“inge morath
”


Pai,
Lembras-te de mim pai,
eu parava a tua tristeza,
punha a minha mão branca no teu rosto,
adocicava o teu respirar pai,
lembro-me bem, 
era o que me dizias, 
enquanto me acariciavas
com lentidão ternurenta,

com a tua mão sempre fria,
sentia a tua tristeza como um nódulo
na minha voz,
ela estava lá,
quando baixavas o olhar,
e desenhavas o teu destino no chão
poeirento da nossa sala,...

sentava-me a teus pés,
apalpando mundos de ouro com 
o limite do meu desenhar,
pai, 
agora volto para casa,
não está lá ninguém,
mas é a minha casa,... 

sem ti

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Escamas espalhadas da existência

junto ao meu esqueleto estão pequenos rabiscos,
Desejos sem sentido,
repreensoes de que fui sendo alvo enquanto,
Enquanto o tempo o foi permitindo,...

a terra pesa-me o que está ao meu alcance,
e deixa-me brincar com as irregularidades da caligrafia,
apreciar o que se esforçaram por me dizer,
e a influência do medo naquilo que me foi ocultado,...

Enquanto sujeito das escamas espalhadas da existência,
conformo-me com a inevitabilidade da decadência,
Sem retorno e sem odor



quinta-feira, 11 de junho de 2020

Poema cansado de esperar

queria que me esperasses nesse tempos
onde preparas os intervalos,
das nossas existências,...

eu não sei de maldade,
não percebo se respirar assim,
com dores de saudades a escortanharem
uma voz que já nem viva está,
será digno,
será modelado ao presente
que ainda consigo ter,...

conjugar assim tantos verbos
reduzidos ao particípio,
da espera,
tira-me a força de um
argumento que só está desenhado,
de traço trémulo,
com um sol que desmaia pelo
meio desta chuva ácida cor de enegrecido,...

esquece que te pedi a espera,
prepara-me só a partida,
porque a dor entontece-me o argumento


sexta-feira, 24 de abril de 2020

não deixou que o morressem por dentro

não sabia o que fazer,
advogava a não violência,
mas toda a gente percebia o
contrário,
as relíquias da sua vida eram os passeios
sem hora para terminar,
os sons enumerados em coleção,
sem etiquetas,
só com lamentos pela forma
como se produziram,...

e agora,
quando já nada mais se preparava
após o último beijo,
envolveu-se em casulo,
sobre si mesmo,
e não deixou que o morressem
por dentro


sábado, 19 de outubro de 2019

Vida transparente

diziam não gosto do árbitro,
e para o ano com estes jogadores
não chegamos lá,
arrecadavam as mãos nos bolsos
e tiravam-nas de novo,
diziam mundos e fundos
de tudo,
e a banalidade era tanta que
os olhos azulavam,
e tudo em volta cegava,
havia música sem acordes,
velhinhas inauditas,
que trajavam de som e
sem recordação,...

e diziam não gostar do chuto
na bola,
quando comiam a sandes de couratos,
entremeada com a cerveja azeda,
e diziam que queriam mais
na próxima semana,
e quando o sol se vestia de noite,
regressavam a casa,
e nem ouviam que estava lá vida,
só pensavam não gostar do árbitro


quarta-feira, 31 de julho de 2019

Perguntas

era aqui que estava quando
as perguntas começaram,
as noites não tinham mais o
mesmo sabor,
dos dias percebia só o som
emudecido do adeus,...

não mais te vi ao longe,
caminhando em emes mal desenhados
para os meus braços,...

e tudo quanto ficou
sobrava no renascer das
mentes,
para que ao ler
os mesmos livros
que foram nossos,
me sobrasse a luz,
no desnorte da solidão




terça-feira, 11 de junho de 2019

Solidão de Outono feita

 se me sabes de dia,
nas noites preencho
o teu desconhecer,
sei-me cultura
estranha do teu sorriso,
 imperador morto
 e sem descendência
dos contornos do teu corpo,
a cavalo,
percorro quilómetros
sem cor em estepes
cor de palha,
por entre o teu cabelo
 que arde no imenso
de um leito,
 que jaz como poema incompleto....

 às vezes,
 parte do que aqui
foi feito desfaz-se
em diamante,
sem que entenda
o andrajoso de estar só,
sem a liberdade
outonal de estares presente


quarta-feira, 5 de junho de 2019

Deprimindo a forma

aquela coisa revertida em dúvida,
a saída de casa, e o palmilhar errático
pelo meio da chuva,
arriscando o risco de afastar a vida,
e aproximar a bolina da existência sem rumo,...

chegar a um abrigo,
sacudir qualquer coisa sem forma
sem cheiro,
suspirar duas vezes enquanto ao lado,
pares e pares e pares de olhos sem
dono censuram-nos a dor,
medem-nos o próximo,
afastam o longe,....

seguindo com força imediata ao choro,
até que já ali,
onde nada cabe na ausência do querer,
tudo volta ao início,...

não sabendo descrever melhor o vazio,
escreve-se assim a
cabeça sem forma



segunda-feira, 29 de abril de 2019

Escondi-me

escondi-me por alguma razão,
sem que o silêncio fosse
o argumento que
desliza por entre os números,
mas antes pelas palavras,....

resignado à folha branca,
ao ter sempre a mesma
coisa para dizer,
os mesmos castelos transparentes
que sustentem as falhas inodoras,
deixei de saber escrever
o suficiente para
que um sorriso brotasse,
flor,
do terreno virgem do teu ser,...

quis esconder-me
porque sim,
porque já não
me resigno a ter nãos
 para que deixe de ter talvez,
só quero voltar a fazer sentido,...

escondi-me,
e tu a brilhares
 como Quasar do meu sofrimento




quarta-feira, 27 de março de 2019

...desta porra triste

nada nos safa desta porra triste,
de mãos a deslizarem pelo corpo presas,
e condenadas ao degredo da injustiça,...

e de chorar,
e de revoltar quando nem se come,
para nos recusarmos a que a luz
se acenda nesta estrofe rota de vida,...

se souberes como nos safar desta porra triste,
ouvir-te-ei,
acho eu,
caso ainda tenha ouvidos,
e capacidade de um riso atávico só para
provar que me importo,
e dois olhos que brilhem o suficiente
antes de que o fio do tempo os esgane,...

até que haja mar para nos
trazer de volta,
cantaremos logo mais,
antes de dormir de lonjura
na alma