quinta-feira, dezembro 31, 2020

Eulogia para o Inatingível 2020

 não sei como se fazem contas inesperadas,

nem a raíz do meu pensamento

cabe num cálculo,

divirto-me com o incomensurável,

a roupa impressionista que me

impede a morte por lapidação,

tanta coisa que somo,

 sem que subtrair seja uma hipótese,...


racionalmente,

tudo se faz à míngua de perceção na minha cabeça,

a fronte lateja,

a dor vem e vai,

sem que pela cor seja reconhecida,

pelo peso seja esfacelada,...


não me reconheço num verso,

não canto sequer o poema que esperam de mim,

só sei que nada me esqueço,

com a escrita limitada que tenho




quarta-feira, dezembro 30, 2020

Avesso

 Aqui,

Suficientes vezes perto

De estar tão longe de si,

E as mãos sem intervalos,

Dos que mostravam o que já se viveu sem querer,...


Caminhou para se distanciar dos erros,

Das mensagens mal passadas,

Até ter chegado ao fruto perdido dos dias de alento,... 


E ali repousado na essência,

Esforçar-se por vir o adeus,

Um prolongado soltar de cheiros,

De sons moribundos,

Até se dar a conhecer aos mesmos de sempre,

Mas de forma contrária,

Do avesso




terça-feira, dezembro 29, 2020

Insubmisso e permissivo

 enfrentas os pressupostos 

do medo,

 tudo pela frente, 

olhos nos olhos,

 o que resta está alojado 

no teu peito, 

e há alavancas para 

uma dimensão de prazer, 

assim o queiras, 

assim te permitam os dias 

desenbainhados da noite, 

e as roupas suicidas do momento,... 


enfrentares assim a solução,

e depois o dia renasce 






segunda-feira, dezembro 28, 2020

O quarto

 o demónio andava aí,

tinha sempre os olhos na 

infância,

ansiava por momentos a sós

com o desespero,

havia uma cama,

com três aparentes olhos

que refletiam a luz,

espalhados no desarrumar das

vertentes de solidão daquele cenário,...


o demónio passava por entre as paredes,

lamentava as perdas que não

eram as suas,

chorava com os minutos desperdiçados,

e principalmente,

agarrava-se ao que o tempo lhe dizia

de soslaio,

como segredo que não precisava de ser 

guardado,...


o demónio vingou-se,

como o sol,

como a noite,

ali continuou,

desenhando ofensas no esperma

deixado nos cantos,

do quarto

Tirado daqui



domingo, dezembro 27, 2020

ela não me ouvia

 de um tempo,

dentro de um tempo,

ela não me ouvia,

como se o lugar se desprendesse

da razão,

e para ela o silêncio fosse o somar

de todas as coisas,

as mesmas que recordava de uma

hora sem formas,

que tinha ficado lá atrás,

e agora não existia mais,...


lembro-me de lhe dar 

a precisão de uma presença,

tudo o que estar apenas trazia a mais

do que o falar,

do que o desnecessário do verbo sempre

que o gesto o suplanta,

mas ela não me ouvia,...


a cada manhã,

a cada segundo que trocávamos um olhar,

optava por se afastar mais,

e mais,

até que ao pé dela,

deixei de a ver,

como se o momento pesasse agora

mais que toda a história de 

passos inconseguidos


 

sábado, dezembro 26, 2020

Post christmas uncertainty

 Não lhe perguntámos nada,

limitámo-nos a segui-lo,

com o seu ar persecutório,

de quem gasta as certezas antes que

as dúvidas se acumulem,

em dívida,...


trajava de transparente,

expressava-se com dificuldade,

mas de forma estranhamente envolvente,

com dizeres que pareciam mortos,

diluídos no tempo,

e que em todos os momentos em

que o escutávamos,

faziam consecutivamente sentido,

como se brotassem de cores diferentes,

e anódinas,...


mas todos os destinos têm o defeito

de se desfazerem no ar,

e aquele não foi exceção,

ao chegarmos a um lugar sem nome,

sem idade,

que só se encontrava escrito em todos os cantos

do mundo,

sem que alguma vez se tivesse apagado,

ele desvaneceu-se,...


ainda procurámos entre as vestes diáfanas que trazia,

e no seu lugar só restou um pequeno livro,

indefinido,

sem título,

e que levámos em busca de um novo líder

Tirado daqui



sexta-feira, dezembro 25, 2020

O Inatingivel oferece uma prenda de Natal alienante....

 «Temos frequentemente a sensação de que será perigoso olhar, e por isso há uma tendência para desviarmos os olhos, ou mesmo para os fechar. Por causa disso, é fácil ficarmos confusos, não termos a certeza de que estamos realmente a ver a coisa que pensamos estar a ver. Pode dar-se o caso de estarmos a imaginá-la, ou a confundi-la com outra coisa qualquer, ou a lembrar-nos de qualquer coisa que vimos antes -- ou, quem sabe, que talvez tenhamos imaginado antes. (...) Não basta olharmos e dizermos para nós mesmos: «estou a olhar para aquela coisa». Porque uma coisa é dizermos isso quando o objecto que temos à nossa frente é, por exemplo, um lápis, ou um bocado de pão. Mas o que é que acontece quando damos por nós a olhar para uma criança morta, ou para uma menina que jaz toda nua no passeio, a cabeça esmagada e coberta de sangue? O que é que uma pessoa diz para si mesma num caso desses? Tenta perceber: não é assim tão simples declarar de uma forma categórica, inequívoca: «Estou a olhar para uma criança morta». A nossa mente parece negar-se a alinhar as palavras; de algum modo, não conseguimos forçar-nos a fazê-lo. Porque a coisa que temos à nossa frente não é algo que possamos separar facilmente de nós mesmos. (...)

Seria bom, suponho, ganharmos uma dureza tal que nos permitisse não sermos afectados por nada. Mas, nesse caso, ficaríamos sós, tão completamente separados de todos os outros que a vida se tornaria impossível. Há quem consiga fazer isso aqui, há quem encontre em si mesmo a força necessária para se transformar num monstro, mas garanto-te que são casos raros, raríssimos -- o que, sem dúvida, te surpreenderá. Ou, por outras palavras, todos nós nos transformámos em monstros, mas não há quase ninguém que não guarde em si mesmo um qualquer vestígio da vida que outrora se vivia.
Esse é talvez o maior de todos os problemas. A vida como nós a conhecemos acabou, e, no entanto, ninguém é capaz de entender o que é que a substituiu.»


/No país das últimas coisas, Paul Auster/

O Inatingivel 2020 deseja aos leitores, amigos e potenciais anunciantes um feliz Natal


 

quinta-feira, dezembro 24, 2020

Christmas eve on November 6th

 quero ser antes da formação,

a previsão astuta dos efeitos,

como se resolver os preconceitos

fosse uma obrigação,

a coisa certa a fazer,

sem que os outros se apercebam

que é só mais um papel rasgado,...


antes de tudo,

haver loucuras,

líderes assintomáticos que 

se deixam morrer,

porque não se consegue liderar

sem ferir,

é a mesma perda de tempo que 

o que expliquei,...


a haver alusões ao medo,

nada se perde,

tudo se transforma só

se o permitirmos



quarta-feira, dezembro 23, 2020

... e tudo começou assim há 13 anos

Inatingivel 2020: Monta-me: As letras eram bem desenhadas. Perfeitas de mais. Um preto afirmador parecia realçar cada curva. Sete letras, e um tracinho pelo meio, escri...

O Inatingivel faz hoje 13 anos

 Uma palavra,

O espaço por entre os corpos que num não saber dizer,

Num segundo em que o silêncio esmaga o cérebro adormecido,

Leva a melhor,

E vence a forma irregular do desejo,....


Haveria sons com menor latitude que a explicação dada assim,

Para a ausência,

E os mesmos terão nome,

E morarão indissociáveis da frase irregular,

Mas não cabem neste raciocínio,

Para aqui só o que me dás sem pedir nada em troca



terça-feira, dezembro 22, 2020

Desobrigada

 



Desobrigou-se de tudo,

dos risos comprometidos,
das decisões inebriadas que
custam o que valem,
até de roupas velhas,
desmazeladas,
que ainda cheiram ao que
ela tinha deixado para trás,...

sentou-se com a resiliência entre
mãos,
e esperou por qualquer coisa,
they said it would be easy,
painless,
qualquer coisa haveria de chegar,....

mas amanheceu e nada veio,
talvez por crer em Deus de uma
forma muito própria,
levantou-se e saiu,...

haveriam de surgir novas
oportunidades de redenção

segunda-feira, dezembro 21, 2020

Picotado

 Um picotado,

Capaz de circundar as analepses

 que deixaste morrer,

Passa pela primeira desilusão,

Desincha o fulgor que transportas 

do amor,...


Rodeia os muros 

da perfeição,

Até entrar no refúgio certo,

Para uma imposição 

errada,

Para trás ficam os sons e os 

cheiros de uma luta terminada,

Até que o quadro seja perfeito,

E desilusor



domingo, dezembro 20, 2020

Prenúncio trágico

 Tudo seria talvez o prolongamento da minha inocência,

Os sapatos ratados pelo desmaio do amor próprio morto,

O casaco do meu avô enfiado,

O que chamei sempre ao homem postiço que me acordou para a vida ao esbofetear-me,

E o livro anotado do revisor de contas do andar de cima,...


Não matei ninguém,

Nunca sequer matei uma ideia,

E estar assim,

Incapacitado nas frases antiséticas que foram o meu orgulho,

Angustiava-me,

A ponto de dormir sobre reticências coloridas



sábado, dezembro 19, 2020

Saturday evening walkabout

 




Neruda (Pablo Larraín, 2016)



Hoje seria dia de festa,...

 Pai.

😢

Notas de renascimento

 as tuas palavras, 

no peso das minhas palavras,

 e um concerto ao longe,

 identifico o grito de 

dor surdo,

 o mesmo de todas

 as ruas, 

luz eterna de

 todas as notas 

de renascimento,

 com o acordar,.... 


as tuas palavras 

ocultas na descrença,

 a mesma da 

falta de talento, 

com a continuação 

inequívoca de tudo

 o que me ocultaste,... 


fico sem as palavras

 que me deste, 

emudecido pela rotunda demonstração de náusea, 

que este fim de tempo traz



sexta-feira, dezembro 18, 2020

Um dia gostava de saber escrever assim

 

antónio ramos rosa / mas agora…

 
 
Mas agora estou no intervalo em que
toda a sombra é fria e todo o sangue é pobre.
Escrevo para não viver sem espaço,
para que o corpo não morra na sombra fria.
 
Sou a pobreza ilimitada de uma página.
Sou um campo abandonado. A margem
sem respiração.
 
Mas o corpo jamais cessa, o corpo sabe
a ciência certa da navegação no espaço,
o corpo abre-se ao dia, circula no próprio dia,
o corpo pode vencer a fria sombra do dia.
 
Todas as palavras se iluminam
ao lume certo do corpo que se despe,
todas as palavras ficam nuas
na tua sombra ardente.
 
 
antónio ramos rosa
matéria de amor
editorial presença
1985

Peso de ais

 como devemos gostar de estrelas a arder, 

da mesma forma suspeito 

que todos somos pessoas horríveis, 

e não haverá compromissos possíveis, 

lutas mais exemplares 

que a rotina,...


há falta de nódoas 

nesta roupa feita pele, 

e agulhas que nos trespassam 

sem que hajam gritos a eliminar, 

fruições a considerar,...


 basta de lugares 

comuns, 

o que aqui vos deixo 

pesa o mesmo que um ai,

como se os ais chegassem 

para aligeirar, 

seja o que for, 

sem que o fim traga 

penalidades



quinta-feira, dezembro 17, 2020

Canis

 


os cães,

os mesmos que nos cheiram como acossados

de qualquer coisa,

eles conseguem ver o vento,

foi um velho que mo disse,...


e mostrava-me os dedos,

um por um,

dois a dois, 

depois a mão toda,

e fechava os punhos,...


dizia-me que o ódio é difícil de escrever,

mas fácil de cantar,

por isso culpava os cães até do rasto que custava

a secar naqueles dias de chuva,

meio tosca,

e quando via um,

arranjava sempre o seixo mais redondo,

e esforçava-se por lhe bater no meio dos olhos,...


só que o raio dos bichos fugiam,

já tinham aprendido a morder-lhe o rasto das

botas cardadas,

e ir fussar noutros sítios,...


enquanto isso os relógios nunca

queriam parar

quarta-feira, dezembro 16, 2020

Impacto


seríamos nós,

as luzes diziam-no,

com tantos olhos a parecerem gatos

que se lançavam na noite,

e da noite saíam gatinhos,

e dos gatinhos saía a morte,

quando dizia que precisava de um

novo sorriso,

e de novas missas para namorar

com as velhas que já tinham morrido,

sem saber,....


achava que seríamos nós,

porque de nós nunca esperei 

a religião dos pontos cardeais,

com isto recomeço na expectativa

de que causemos impacto,

e de nós nasça a crença de 

algo novo para o futuro,

porque do passado já tudo

desvaneceu,

em flor

terça-feira, dezembro 15, 2020

O mal

 o lugar certo,

todos os momentos errados,

para que o mal tenha poiso, 

idade e passado,

com um presente atávico,

sem nome nem estatuto,...


tudo sem que a morada possível,

de todos os dias de chuva,

e sempre que o sol arranca

a pele e escolhe,

morrer para não viver mais,

seja o leito de querer bem,...

 

ao amor escolher anotar,

nas ruas onde já não durmo,

de nada servirá à lúgubre sensação

de assento,

com o corpo efeminado de 

tanto prazer




segunda-feira, dezembro 14, 2020

Um dia gostava de saber escrever assim

 O poeta

O poeta não gosta de palavras
escreve para se ver livre delas.
A palavra
torna o poeta
pequeno e sem invenção.
Quando
sobre o abismo da morte,
o poeta escreve terra,
na palavra ele se apaga
e suja a página de areia.
Quando escreve sangue
o poeta sangra
e a única veia que lhe dói
é aquela que ele não sente.
Com raiva
o poeta inicia a escrita
como um rio desflorando o chão.
Cada palavra é um vidro em que se corta.
O poeta não quer escrever.
Apenas ser escrito.
Escrever, talvez,
apenas enquanto dorme.
Mia Couto, em "Idades cidades divindades"

Ora

 ora, 

a solidão tem o condão de escrever 

o que não diz,

ouve histórias,

e reconta-as da forma como elas nem

se passam,

para deixar marca, 

apelar ao insólito,...


solidão, 

por outras palavras,

é escrever versos aos pares,

como me lês neste poema,

se calhar é sintomático,

solidão é não conseguir fazer

companhia a ninguém,

ser obrigado a escrever porque

o falar dói,

estar onde nem poderemos estar

concretamente,... 


ora, 

solidão se calhar

não cabe nesta cripta de letras,

também não importa mais 

que o peso que o tempo tem,

e nem reconhece 



domingo, dezembro 13, 2020

Inseguro o ato de escrever

 esperávamos de tudo da respetiva

inocência,

dias sem renovação de 

luz,

anuências sem sentido,...


era tanta a insegurança que

escrever sobre isso,

se tornava inofensivo,

repetitivo até,....


e a poesia tem de meter medo,

saber conjugar o respeito,

não,

não poderia ser poético 

este relacionamento

que se iniciava



sábado, dezembro 12, 2020

Abstrato


A atriz contenta-se com pouco. Levanta os braços, o mais que pode. Numa mão a tesoura afiada, a mesma que poderia injuriar a integridade do próximo, danificar a sobriedade dos presentes. A outra vazia, com a qual acena. Quer que reparem na solidão sublinhada, com que se passeia pelo 'tablado' intransigente. Sublinho o 'tablado', porque me parece claro o 'sevilhanismo' da sua postura. Há um flamenco que lhe exala dos poros, pelo menos o 'flamenco' esforçado, aquele que pode mostrar. 

A sala está quase vazia. Haverá uns dez, doze, não interessam quantos pares de olhos. 

Estou lá, e tomo notas sobre o primado da solidão. Interessa-me o reforço da estranheza com que se abraça o invulgar. 

A atriz termina o que se assemelha à força de um equívoco. No fim, tenho um rascunho tranquilo, poderoso até, capaz de servir de plataforma a uma obra sobre a luz etérea da personalidade dos fracos. 

sexta-feira, dezembro 11, 2020

Deixar de pertencer

 



desde o começo

 que deixava de pertencer, 

e pertencia a tudo 

quanto findasse, 

mas não fazia parte 

do que contava,

 e sem que os olhos

 parassem de encovar, 

e as mãos de reconsiderar 

o tempo parado, 

deixava de pertencer, 

o coração estava em alerta, 

à espera, 

sem saber se a solidão chegava,.... 


e havia tudo 

o que fora reescrito, 

pontuado de novo, 

com ênfase nas interrogações 

de não ter o que comer, 

não ter o que desejar, 

e sentia que deixava 

mesmo de pertencer, 

porque tudo não era

 mais o que tinha sido, 

se calhar nunca acontecera 

da forma correta, 

sem que a boca pronunciasse 

amor da forma correta,...


 e só com um silêncio, 

com duas insuficiências de espírito, 

e tantas mais palavras

 desnecessárias,

 deixara de querer pertencer,

 reagir seria o suficiente, 

até ver

quinta-feira, dezembro 10, 2020

Pressão publica

 amordaçar pelo simples prazer

de que, eles o queriam,

admitia ser preciso, ela sublinhava a

veemência da precisão da tortura,

do puxar os limites da comunicação, 

de escrever sem interrupções de dor,...


assim se provavam os fortes, se

desorganizavam os fracos, assim se supunha

mais do que realmente o mundo tinha para

oferecer, e era tudo tão simples,...


mas não podia haver soberba com esta

desonra, com a indignação de achincalhar porque

o ato assim ganhava relevo,...


comunicar pelo simples vício de o fazer, não

arredondava nada de positivo




quarta-feira, dezembro 09, 2020

Apóstatas

 Haveremos de chegar aqui,

Mesmo aqui ao limite de tanta insatisfação pintada,

E varrida para debaixo da cama,... 


Chegaremos como tu e como eu,

Dizendo que devemos escrever só se nos apetecer,

Porque a morbidez tem de ter uma casa,

Não necessariamente a mesma de quando o som assim se nos afigura,

Sem dono,

Monarca do seu próprio destino,...


Na altura de partir,

Serão os versos nenúfar a mandar-nos embora,

E vamos fechar os olhos,

E pisá-los como apóstatas sem religião,

Ao som do fim do mundo,

na cavalleria rusticana suficiente para que nos afastemos,

Surdos connosco próprios,...


E hei-de dizer,

A quem me procurar ouvir,

Que caminharei mais rico do que quando a morte me cuspiu




terça-feira, dezembro 08, 2020

Feriado fofinho, é o que o Inatingivel deseja...

 

https://lakeofstorms.tumblr.com/post/636909534980587520/everythingfox-dog-walking-dog-via

Amiúde

 



Amiúde,

gostava do conceito,

amiúde o amor,

tanto cruzar e descruzar de braços

indolente,

amiúde tanta coisa sem nome,

que se acumula do lado mais

envelhecido do vento,...


amiúde,

julgo saber escrever o que

este conceito não diz,

esconde até,

mas amiúde engano-me,...


e ao repousar no lado encantado da lua,

amiúde falho

segunda-feira, dezembro 07, 2020

Estrutura urbana

 Devemos perceber agora

 que os pequenos gestos,

Representam menos 

que as aprofundadas descrições,

Tudo o que as pessoas 

querem descrever de si mesmas,

Anonimato,

Ideias mal construídas,

O que de mau se possa definir,

 debaixo de qualquer ponte,...


Penso assim,

Numa estrutura urbana,

Para que falar pese mais que 

este silêncio que se me colou à pele,

Desde aquela noite que ainda dura




domingo, dezembro 06, 2020

Unhas

 



Tantas perguntas,

Tantas unhas com perguntas dentro,

Cortadas rente,

Indagando pelo mar,

E as pessoas que gravitam em redor do sujo das manhãs,...


Disponível para a fração de uma lenta memória,

Sem parar de questionar a importância de uma inspiração fora de tempo,

De querer criar sem a lonjura necessária,... 


Tanta pergunta, 

e o poeta sem languidez

 para mais sexo aos quadrados 

sábado, dezembro 05, 2020

Tempo? Eu odeio o tempo...


https://alghol.tumblr.com/post/190909895761/naomi-kawase-embracing-1992

Tortura consentida

 Isto de estar aqui,

É agradável,

O sol brilha sem nos perguntar coisas que magoem,

As pessoas passam e não há aquele burburinho azul que detesto,

O mesmo dos anfiteatros políticos,...


Anoto por isso as minhas hesitações em letra de imprensa,

Tudo em lista numerada,

Para mais tarde ser de compreensão simplificada,

E quando chega a hora de ir embora,

Já a noite está transvestida de choro sem razão,

Encontro-te ao vires, 

do que tens vindo 

a chamar de tortura consentida,

Só hoje percebi que andas a estudar para filósofa 







sexta-feira, dezembro 04, 2020

Dois planos de existência

 há tanto tempo que nem chuva, nem sol. Só uma ânsia de caminhar em pasto seco, com um bordão a abrir caminho, e dois motes de existência planeados. Para o primeiro nem havia palavras, só ações. Andar, andar sem destino. Passar pelos fins de Primavera molhados, com chão a sangrar de um castanho pastoso e pestilento,.... irromper nos matos virgens de início de estio, que ardem sem chama a ponto de morrerem ainda antes de nascer,.... e perto do fim de um percurso sem destino, cheira a Outono. Aqueles minutos antes da total loucura, com árvores que balouçam ao vento, inconsequentes, despidas de roupa e de desejos frutificados de uma existência terrena. Se chegar ao fim significar frio,.... uma inusitada perda de pele, sentindo que tudo pode voltar a recomeçar, valerá a pena. Quem sabe se valerá a pena o Inverno, como razão sem dono

E há depois um outro plano de existência, o das ideias que não cabem num poema. Em mil. Tudo está assoberbado, da forma como tem de estar. Sem mais delongas...



quinta-feira, dezembro 03, 2020

Gravidade

 Esperar pelas sobras,

Como se as sobras anunciassem o que me queres,

A força com as mãos em estrela,

Ainda faz com que procures se no meu corpo gasto nos extremos,

Mora a gravidade, 

possível para que o amor não deslize,... 


Para o esquecimento,

E ainda haja luz ao fim de um minuto,

E a noite possa assim durar fria para sempre,...


Anoto numa figura o que  restar deste teste



quarta-feira, dezembro 02, 2020

Fora da palavra


Não que me obrigue a despedir do redigido de ti,

Apenas reparo no irregular das vogais de silêncio,

Com consoantes insuficientes,

As mesmas que estendidas ao sol,

Envelheciam o suficiente para aparecerem de ovários secos,... 


Incapazes de mais serem que mulheres velhas,

Depauperadas,

As mesmas que o tempo sempre estuprou,

E seguiu para fazer o mesmo a quem calhasse,...


Aninhado na ausência de razão,

Sim,

Talvez me restasse ter uma despedida fora da palavra,

Porque o escrito não são palavras,

É ar que nos renova a vida descontinuada 



terça-feira, dezembro 01, 2020

Dezembrando a 12 de outubro


não serás esquecido,
escrever sobre tantas idas
não sei onde,
falar sobre as minudências de não
ter dinheiro sequer para matar a sede,
ou frutificar os desentendimentos mesquinhos,
em leituras conjuntas do livro
da vida,
não levam a lado nenhum,...

mais vale o luar,
passar as mãos pelos olhos,
e acreditar que ali é o paraíso,
dito com todas as letras,
descrito com o enlevo dos tolos,...

tudo o suficiente para que aqui
fiques,
só mais um tempo

segunda-feira, novembro 30, 2020

... E o que nos resta?


Acentos tónicos

 




Ao andar na rua,
 talvez seja a ameaça de 
um conflito sem nome, 
o que me perturba,....

 refletindo, 
com os acentos tónicos
 nas palavras,
 e sem silêncios 
que comprometam 
por onde queiramos ir, 
isto é uma nota de rodapé, 
não interessa, 
não aligeira nada que possa perturbar 
o amorfo dos dias assim descritos,... 

só me senti forçado 
a dizê-lo, 
antes que ficasse esquecido

domingo, novembro 29, 2020

Pouco amor próprio

 Todos os caminhos estavam travados,

Em vez de traçados,

Sim,

Porque não acreditava em pré concepções,

Só no livre arbítrio kantiano,...


Isso explicava o pouco amor próprio no vestir,

A economia nas palavras,

Como que se esperasse pelo induzir da dor,

Em vez da supremacia do argumento,...


E tanto que custava espezinhar a areia na engrenagem,

Era só mais um lugar comum à espera de ser conquistado




sábado, novembro 28, 2020

Devir do tempo




 o ar pesava mais 

que um sorriso desnecessário,... 

havia inocência 
que pairava, 
aninhada em pétalas 
de dentes de leão, 
pelo menos a suficiente 
para que o enternecimento 
das pessoas fosse palpável,... 

não me doía a idade 
que já tinha, 
nem a que esperava vir a ter, 
só me sentia mal por não 
saber antecipar a carga política 
de momentos semelhantes, 
pus-me acocorado 
debaixo de uma árvore, 
de copa frondosa, 
até porque chovia, 
e já conhecia a envolvência 
do devir do tempo para me proteger,....
 adivinhei, 
deitei-me a adivinhar, 
e fiz mais qualquer coisa 
do que o teórico, 
quiçá teológico,.... 

e o fim veio desenhado,
pintado com o ocre
da solidão

sexta-feira, novembro 27, 2020

A frase e o sentido

 este é o momento em que revês aquelas

palavras estranhas,

as mesmas que num dia à noite,

na tua infância,

quase pecaste ao escrever,

e de tão ameaçadoras que se tornaram,

foram rasgadas aos bocados,

e atiradas para o fundo do mesmo 

universo em que sorrateiramente,

te sentavas para afogar o desnível que

ainda faltava para a maioridade,...


a medo prescutas o sujeito,

o que se pretende com letras dispostas

irregularmente,

sem qualquer sentido,

e só depois,

só muito depois,

ao lado do que hesitantemente te é

apresentado,

está a solução,....


não há número concreto que

faça dela percetível




Giz

 Não sei porque as memórias crescem,

Enquanto me esforço por encolher mãos,

E pés,

E passadas já dadas mas nunca registadas,...


Tudo se desfaz se não for concretizado,

Nem satisfeito com o apagador de giz da nossa escola de emoções,...


Podia continuar por tanto tempo,

Neste jogo ridículo de puxa metaforas incisivas,

Mas não vale a pena,

O meu passo será sempre inferior a todas as pernas que já tive




quinta-feira, novembro 26, 2020

Sinto saudades tuas, pai

 eu não escrevo mais,

não vou desejar para os 

outros o que as

reticências fazem comigo,

invasão de espaço,

laqueação de conteúdo

criativo,...


seja o que for,

não escrevo mais,

de hoje em diante serei

uma carrancuda interrupção de personagem

secundária




quarta-feira, novembro 25, 2020

Fruto inóspito

 Ias para onde,

De que a ignorância te levasse,

Percebia-se a ajuda,

O vestir simplório,

As maneiras irrisórias e

Até infelizes,...


Mas voltar pelo mesmo caminho,

Ai sim passaria a residir a dúvida,

Porque a alternativa é sempre pior do que o fruto inóspito da hesitação



 

terça-feira, novembro 24, 2020

Doença dos olhos vazios

 Não sei como se come a desilusão,

Se com ar como se do prenúncio do fim houvesse retorno,

Ou mesmo sem nada,... 


Um prato de solidão acometido da doença dos olhos vazios,

Tornaria os nossos refluxos dourados,

Como se desta circunstância se  esperassem apenas anulaçoes,

E nunca a confirmação irresoluvel do que deixamos por dizer,...


Sem saber o que se acrescenta mais a esta teoria,

Deixando-a por aqui torna inofensiva a reação de armas




segunda-feira, novembro 23, 2020

A mosca

 Eu não sou 

aquela mosca,

Não estou aqui trancado contigo,

Nem com todas as tuas frustrações a escorrerem pela parede,

Como se a minha vida nada mais valesse 

que uma orientação de negócio,

Um adeus mal medido no livro mais lamechas que imagines,...


Já que falei em mosca,

No sentido prático do termo,

A frase certa é um verso na canção que preferires 

do Bob Dylan,

Com um punhado de alienados a protestarem 

contra a guerra,

Sabendo que é ela que lhes dá de comer,...


Pronto,

Resume-me a essa mosca, 

E cheira-te com a pituitária proeminente, 

Descobrirás e depois anota aquilo que és 





domingo, novembro 22, 2020

Retomar de esperança

vontade de te contar 
o lustro dos minutos,
 as minhas noites 
eram a frase certa, 
do que me lembro 
terem sido os teus dias,
 os mesmos que anormalmente transpiravam enquanto a tua 
desconfiança crescia,...
 
e era  agora o possível 
discorrer dos 
projetos em comum, 
das encruzilhadas 
sem nome, 
que me contavas 
no fim de cada livro anónimo,...

e por fim a vontade
 de ser o mesmo de 
sempre, 
se tu o quiseres,
 lacrada está a 
esperança em 
que tudo se retome



sábado, novembro 21, 2020

Um dia gostava de saber escrever assim

 

Vimos do Tempo da Falta Mínima

Vimos do tempo da falta mínima
da casa construindo as folhas de quadrícula
(quando um traço mais que expressivo preenche
o vazio de uma folha)
nem beleza nem fim
nem número ordenador como fantasma.

Todas as memórias partilhámos
a ruína compreende tudo.
Compreender quer dizer abraçar
(linhas e cruzamentos na procura da folha)
o mundo inteiro nos é dado.

Mais tarde (mais além
dois furos a passagem para o útil)
as dunas darão lugar a campos cultivados?
Quero dizer
não rejeito do movimento toda a impaciência
toda a dissolução.
(pouco a pouco) Até onde podemos ir?

João Miguel Fernandes Jorge, in "Vinte e Nove Poemas"

Irrealismos

 Enquanto as pessoas se lembrarem,

Verei falhas na fluência de versos errados que faço o favor de deixar fluir,

Não há génio,

Nem défices entre ideias,

Quanto muito um ou outro sujeito desdiz o que sempre defendeu,

E isso dará a interrupção suficiente para que se respire,...


Não há mãos suficientes para tanta expetativa frustrada,

So silêncios por domar





sexta-feira, novembro 20, 2020

Analfabetos de reclusão

 



Ainda há pouco, 
enquanto estivemos abraçados, 
dissemos tanta coisa em surdina, 
que só a linguagem fazia 
a cama, 
ao que só nós entendiamos,...

e havia reflexões, 
momentos de números findos 
em que, 
analfabetos de reclusão, 
nos achávamos prontos 
para tanta coisa, 
e ao mesmo tempo para nada,... 

agora renova a morbidez,
para que embalemos
as coisas,
com o adeus em mente

quinta-feira, novembro 19, 2020

I love all things small

  e agora, 

fazer qualquer coisa 

com esta manhã, 

que nos entra pelos  

cílios dentro,

deixando o quente 

da verdade de fora, 

e a acidez de uma mentira 

possível, 

como que a nadar, 

em silêncio

Esboroado

 


Não entendia se haveria maneira de me dar a conhecer num futuro,

Que parecia já de círculo vicioso,

Sem acomodação,

Com as ideias desestruturadas,...


Sim tinha medo,

Basta ler que o que agora te escrevo se calhar já nem sentido faz,

Mesmo que te junte uma ilusão ou duas,

Que até nem custam nada,...


Já não será a mesma coisa de custo pornografico,

Com o desejo todo que manifestavas só por eu ser quem era,...


Acabou agora,

O sentido esboroou-se,

Não me apetece mais sequer espelhar-me na água por cima de onde moro




quarta-feira, novembro 18, 2020

Olhar cruzado

 

Desamparadamente,
caem-me os impossíveis,
as frases sem cês de cedilha,
e os ditongos emudecidos,
os que melhor exprimem a volúpia,..

não recupero a forma,
nem o conteúdo das imperfeições,
só me fazem esperar tanto,
e tanto tempo pelo que me dás em troca,
e nada surge,
nem o restolho do desprezo a que
me habituaste,...

e já lá vem o crucifixo do olhar,
já que depois de renegar o 
impossível,
comprometi-me com o desprezo aos 
lados inúteis da criação




terça-feira, novembro 17, 2020

Mar sem cor

 A nossa memória,

O que nos passou pela pele,

Advertiu que ser capaz de nos transformar pode não ser possível,...


Manter-nos à tona de um mar sem cor,

O mesmo que sustenta a farsa incolor da felicidade,

Isso sim é possível,

Mas só regressa mais tarde na vida,

Quando o resultado de todas as contas que não soubemos fazer,

Se desfaz em mentira nas nossas mãos,...


É isto que se me oferece dizer sobre o relapso da loucura








segunda-feira, novembro 16, 2020

Canis artis

 



Urgência

 


à medida que era olhado,
os próprios olhos esvaziavam-se,
num pop barulhento de início,
e depois como se falássemos
da vida que sai,
lentamente,
do corpo de
um velho que se deixa ir,...

recusava-se a conjeturas,
só pedia para sair dali,
estar num milhão de sítios
diferentes,
sem que estivesse em nenhum,
havia urgência nisso

domingo, novembro 15, 2020

Because cruelty is a thing

https://qmata.tumblr.com/post/630373834288168960

Deus dará

 


A urna,

Não a coisa tanatoria,

Com a carga simbólica que a solidão dá,

Mas a precisão esfingica de uma hora depois da outra,

Um segundo a matar o outro,

Sangue no início de qualquer coisa que acaba ao Deus dará,... 


Sozinhos entendemo-la,

Desde que anotada no rodapé com as mnemonicas que precisamos ao luar,

Acompanhados não,

E não me ocorre nada mais de impressionante para partilhar ao sol invulgar 

sábado, novembro 14, 2020

Matemática tosca

 Sobre a insistência em avançar os números,

Com as pessoas inseguras a fazerem um forte intransponível de melancolia,

Dizia-se que merecia apreensão,

Desdém até,.. 


As pessoas vivem sem fendas na ignorância,

Não há invasor que transponha a irrecorrencia de nada saber,

De se dizer o contrário do que se faz,

E por isso não haveria contas inconsequentes,

So música de trabalho, 

Que fizesse avançar o que quer fosse de que se falava




sexta-feira, novembro 13, 2020

Temor cego

 Muitos anos depois,

Tirado da gaveta onde ficou esquecido,

Ainda cheirava a arrependimento,

No meio de papéis amarrotados,

Anotacoes de cálculos feitos sem alojar o propósito,...


Dizia-te que ceifar tanto resto de planos sem braços,

Iria correr mal,

Acabariamos por baixo daquelas árvores sem dono,

Que temiamos






quinta-feira, novembro 12, 2020

Indecoroso

olhos cravados no chão,

dia que nasce,

abraçado à noite em comcubinato,
a mesma rotina de sempre,
só que naquele dia,
naquele momento,
algo era diferente,...

uma mulher de ar triste,
pele suja,
de olhos cravados no chão,
envolve o corpo num abraço
ao divino,...

sobe-se a rua,
um saco intacto,
balouça ao vento,
com os despojos da noite aconchegados
em desvario,
nada é o que parece,
para tudo permanecer igual
a sempre,
e há tanto por contar no topo da rua,
mas tem de se seguir



quarta-feira, novembro 11, 2020

Isto saiu de uma penada, e sei que devia ter continuado. Mas lá veio o habitual sentimento de que não é bom o suficiente🙄

 Certo dia, o homem sem nome chegou mais cedo do que habitual à rua onde eu vivia.

Habituara-me a ver como ele se insinuava às pessoas sem se apresentar, e aproveitava-se do que as pessoas não lhe davam, por andarem absortas nas respetivas rotinas de todos os dias, para lhes tirar anos de vida. Fazia-o sem pedir licença, a pentear o cabelo crespo e parcialmente grisalho para trás, e distribuindo olhares de soslaio, por entre sorrisos mais cheios de perguntas do que de respostas.

Naquele dia chegava mais cedo. Estacionou o carro branco,  e de linhas deformadas, mesmo em frente ao mini mercado do velho Malaquias, e saiu. Ainda entrou na porta de madeira apodrecida, desviando com cuidado desmesurado a cortina de missangas que as pessoas já se tinham habituado a ouvir como qualquer coisa que hipnotizava, ao invés de um simples atavio que nem sequer servia para impedir a entrada das moscas que se dançavam a si próprias até à morte.

Pegou em dois pêros raquiticos, castanhos esverdeados, colocou-os num saco, fez um nó improvisado. Abeirou-se do velho Malaquias, e só se dignou a perguntar quanto custava com um olhar que eu nem consegui ver, pois do homem sem nome só estava a conseguir ver as costas rectangulares, que naquele dia estavam como que embrulhadas numa capa de chuva que ele vestia, apesar de a manhã até estar com um calor que quase era metálico.

Saiu, o saco preso entre os dedos anelar e médio da mão direita. Na outra mão segurava um porta chaves, de onde pendiam as chaves do carro, e uma pequena bola russada de futebol, que me lembrava um novelo de cotão que dia sim, dia não, apanhava nos cantos da minha sala.

Desceu a rua com passos acelerados, mas irregulares. Parecia à espera que alguém lhe saísse ao caminho. De vez em quando parava, levantava os olhos com hesitação, e eu já tinha dificuldade em vê-lo. Já só conseguia perceber as suas costas rectangulares ao longe, encimadas pelo cabelo irregularmente grisalho que parecia fazer daquela pessoa uma daquelas chatas com vela de pano, que me recordava ver sair para a pesca quando o meu avô me levava a passear junto à Foz do rio que sempre baptizou todos os meus medos, e alguns dos meus anseios.

Naquele dia, como já tinha aqui começado a explicar, as coisas fugiram um pouco à regra. Este homem chamava-me a atenção por razões que eu nem conseguia sequer explicar. Talvez porque já sentia os trinta a pisar-me as costas, e ansiava escrever qualquer coisa que se parecesse com um romance. E aquele homem surgiu-me, pela primeira vez na vida, como uma possibilidade de personagem. Alguém que, desde que bem observado, descrito com contornos quase impressionistas, talvez me levasse a uma história de culpa, de ambição desmedida, de amores por explicar, e vícios escondidos a sete chaves no silêncio de um móvel centenário de quarto secular.

Por isso resolvi segui-lo. Depois de vestir um fato de treino velho, e calçar umas sapatilhas de futebol já rasgadas na biqueira, que foram a unica cobertura que arranjei naquele momento, sai de casa.

O céu tinha escurecido um pouco, e um quarto do sol, que aquela hora já quase se descobria na totalidade por cima do pincaro da igreja, parecia estar escondido atrás de nuvens cor de cinza.

Contornei a esquina do palacete devoluto que ficava do outro lado da estrada da rua onde ficava a minha casa, e acelerei o passo. Temia já não o conseguir encontrar. Levava um bom avanço, e eu arriscava-me a encontrar pessoas conhecidas. Aquela hora era habitual dar de frente com dois ou três bêbados meus vizinhos, que já regressavam a casa em busca do almoço completamente sem tino e prontos para bater nas mulheres se preciso fosse. Vi um deles, o anacleto, o soldador reformado que naquele dia, e ainda bem, nem me viu.

Acabei por encontrar o homem sem nome já na descida para o Porto da cidade. Era uma rua de que gostava muito, pois garantia vida durante quase todo o dia. Aquela hora estava cheia de homens que entregavam encomendas nos cafés, e de velhotas que arrastavam pesarosamente os carrinhos de compras como se a vida delas já nem dependesse disso.

O homem sem nome estava parado junto a um quiosque de jornais. Só ali reparei, com um pouco mais de pormenor, que tinha uma pêra irregular que lhe cobria a boca, e descia quase ao nível do externo, dando-lhe um ar inexplicável de confúcio arrependido. Quase amargurado de tanto medo que guardava por explicar.

Parei como se nada fosse. Pus a mão direita no bolso das calças velhas de treino que trazia, e reparei que guardava, amarfanhado, um maço com alguns cigarros. Deviam estar ali desde que eu prometera, pela enésima vez, deixar de fumar. Acho que havia alguns dias estar a conseguir cumprir, mas pronto.... Como um homem é um ser que se contenta com os seus falhanços, saquei do cigarro que me pareceu em melhor estado. Passou um velhote com cara de político ao meu lado, a fumar cachimbo, e pedi-lhe lume. Parecia ter já construída uma imagem de transeunte sem nome, e por isso pus-me imóvel, numa posição quase diagonal à bissetriz da rua, a dar baforadas nervosas. Observava o homem que me  tinha dignado a perseguir, e sentia-me clandestino. Talvez fosse essa a melhor forma de me consolidar com o ambiente em que me encontrava. Eu nunca tinha tido a aspiração de ser escritor. Aliás, eu sempre abominei letras. Punham-me nervoso, receoso de me entregar a elas, quase como se elas me pudessem engolir e nunca mais me vomitar. Só que me encontrava num momento da minha vida em que precisava de uma decisão radical. E era isso. Pus-me então a tentar captar todos os pormenores que conseguia daquela pessoa que eu só tinha visto um punhado de vezes antes.

O sino da Igreja do meu bairro, que só ouvia muito ao longe tal a distância a que me encontrava do meu mundo, soou duas badaladas. Era meia hora talvez próxima do tempo de almoço.

O homem sem nome recomeçara a andar. Reparei que tinha comprado dois maços de tabaco, um jornal que me pareceu desportivo, e uma coisa retangular que eu não conseguia descortinar. Continuou a desenvolver passos em direção ao Porto. Acho que ainda não tinha visto que estava a ser seguido, e eu começava a sentir-me mal com a intromissão... 

Definição sem cor

 Quero ser estendido,

Existem raízes de problemas que não me afetam,

Vem de lá a noite,

Haverá um equívoco a ponto de me fazer repensar,...


Estão convidados a fazer com que pense de forma diferente,

Sabendo que este é um momento de definição sem cor




terça-feira, novembro 10, 2020

Intenções

 a memória é exaustiva, 

exaustante, 

delimitadora do

 que esperas, 

de tudo o que 

nunca ansiaste,....


 a procura de novas 

explicações para

 um falhanço,

 serve-nos de abrigo,...


 ingere o suficiente

 de nada, 

para que ao acordarmos seja o oposto o que 

nos acompanha,.... 


à memória 

ao arrepio dos sentimentos, 

um sentimento 

indecoroso,

 um beijo enevoado, 

e todas as fruições 

de que te lembras, 

ao chorar




segunda-feira, novembro 09, 2020

Codícia

 Os enigmas,

Nao saber o que pensar das coisas,

Levava a que provavelmente fosse 

forçado a passar a mão pelo áspero,

Dizer que os contornos não seriam assim 

tão precisos,

se escritos quando se chora,...


Lá fora,

A falar em códigos 

desconhecidos,

Atenuava o cheiro da 

codícia,

Do anseio de tanta coisa iliterada 

que desejava,

E sabia nunca poder vir a ter,...


Esta irregularidade assim escrita se calhar,

Teria de terminar noutra língua,

Para refúgio,...


Just maybe




domingo, novembro 08, 2020

Aquiescência



 do novo silêncio nada se entendeu, 

um sentimento de posse que acabava, 

outro que tentava começar, 

e tanto pesava um equívoco, 

como se dissimulava uma certeza,....


dizíamos a quem quisesse ouvir, 

que a dor de estar vivo, 

é diferente do relógio que marca o atraso 

que devemos à morte,.... 


o tal silêncio, 

o que se refugiava nas cores hediondas 

da insubmissão, 

parecia ter ficado para trás,.... 


só nos restávamos como presença fixa, 

no sumir afrontado da herança escrita, 

que já não é nossa

Um dia gostava de saber escrever assim

 

alexandre o'neill / mesa dos sonhos

 
 
Ao lado do homem vou crescendo
 
Defendo-me da morte quando dou
Meu corpo ao seu desejo violento
E lhe devoro o corpo lentamente
 
Mesa dos sonhos no meu corpo vivem
Todas as formas e começam
Todas as vidas
 
Ao lado do homem vou crescendo
 
E defendo-me da morte povoando
De novos sonhos a vida.
 

 
alexandre o´neill
no reino da dinamarca 1958
poesias completas
assírio & alvim
2000

Por vezes, o tempo é indistinto da matéria. Da dor....


 

Cartilagens

 Depois de comer.

quando a fome já não se 

explicava a si própria,

O objetivo de coisas 

entediantes como respirar,

Escrever cartas com 

destinatários ao critério,

Passava a ser diferente,...


Tinha outro som,

As pessoas deixavam 

de ser sempre iguais,

E o desejo até de escrever bonito,

Com osso lá dentro,

E cálcio para chupar nas cartilagens,

Também isso divergia,...


Agora quando anoitece,

Se calhar o cordel irá servir para enforcar 

nem que seja menos um




sábado, novembro 07, 2020

O Inatingível não concede, nem abdica

Parar, e pensar

 O mundo não lhe ia fazer mal ao mesmo tempo,

Primeiro surgiriam os equívocos,

As estórias mal contadas,

Que se consolidaram deficientemente,

E agora obrigavam a ocultar sentimentos,

A fechar portas em nome de um bem maior,...


Por outras palavras,

Teria de se minimizar,

Como que entrar no mundo 

dos insetos sofredores,

Porque assim tinha de ser,...


Não havia outra expetativa que não esta,

O tempo já tinha recomeçado a passar




sexta-feira, novembro 06, 2020

Sopa de lentilhas

 Andam a descobrir corpos,

A terra parece ter nódoas depois de uma refeição de sopa de lentilhas,

Sem ter uma mãe que saiba limpa-las,

E um pai capaz de trabalhar para ganhar mais lentilhas,

E assim garantir que a sopa não falha,...


Temente ao silêncio,

À esperança de que assim se louve a diferença,

Pensava o pior,

A guerra inexplorada de sons abafados,

Talvez como a defesa possível das linhas

 vazias de um ressurgimento da morte,...


E anotava - se como ser possível negar este tiro que furava um maxilar,

Permitindo que fosse o outro a fazer ressurgir a fala,

E adiar pouco mais que se descobrissem ainda mais corpos




quinta-feira, novembro 05, 2020

Praia alienante

 

as pessoas são ilegais,
merecem um grito num
grande descampado,
a insultar a res pública e
o conluio daquilo que
elas nos oferecem,...

há tanta raiva,
     momentos inadaptados quando
estas pessoas se afirmam numa 
lonjura,
   difícil de entender,...

e tu também,
com poros excitados de ditador,
e     as narinas a dizerem flores,
a ti também te considero ilegal,
no sentido de que não há
tempo a perder,
   quando se volta atrás em espaços
que não cabem na ânsia de chorar,...

acho o fado,
   tanto choro que verti para
entender isto,
que no fundo,
escapa a qualquer perceção,...

  se reduzido
fiquei   ao poema insuficiente,
a culpa será do que de ilegal este momento
teve,
enquanto a embarcação em
mar alto,
se afasta desta praia

quarta-feira, novembro 04, 2020

Cinematografia


o meu destino choveu
sobre ti,
a razão,
as coisas explicadas,
tudo enclausurado em pequenas
caixas sem cor,...

não há crenças mais fortes
que as que nos fazem dormir,
sem vontade de acordar,
se to dissesse,
renovarias uma defesa incondicional,
incrustada na solidão,...

e parava o filme de
monólogo,
que não cessava
de passar em mim

terça-feira, novembro 03, 2020

The most important day of my life... Happy birthday, V...

Na terceira vez a forma,
Antes do encanto o redondo dos desejos,
Esferica a resposta à glória da dedicação,
Com metro,
Passo a passo a lonjura para o compromisso,
Encurta a distância que tinhas prometido,...

Não estipulo a verdade,
Nem as críticas à sua hermenêutica,
Anoto só cada grito,
Todas as exaltacoes que são veículos,
Para as perfeiçoes possíveis,...

Ao longe a despedida,
Ao perto a frase embrulho que combinamos,
À medida,
Para a envolver




segunda-feira, novembro 02, 2020

Pesadelo indefinido

não sei o que quero,
sonhar amedronta-me menos
do que pensava,
calçar sapatos que não são
os meus parece
ser a solução,
mas esfuma-se,...

o que esperava é que sobre
o animal que escorre sempre sangue
do rabo nada saísse,
os olhos se encovassem,
e a perceção
pesasse menos que o confronto,....

por isso nada reprova o que
se erra,
e menos ainda o que
fica por disputar,
sonhar amedronta-me
mesmo o
que se calhar deve


domingo, novembro 01, 2020

'Novembrando' a 13 de setembro


o presente é um clarão
que olfata a memória,
desgoverna os sentidos
escorreitos,
   desperta os inutilizados,
e ao fundo uma mesa,
de toalha garrida,...

e dois homens animam-se
mutuamente,
há vinho,
e palmadinhas nas costas,
   com tudo que um desprezo deve ter,...

se chover,
a liberdade terminará,
e o normal vai voltar com
a presença inaudita de um grito,
e os pedidos de solução
sem memória,
silenciados pelos trovões

sábado, outubro 31, 2020

Maneira silenciosa

Chegada ao teu rosto,
Esta era uma chama sem história,
Quase perfumada,
Que não gerava expetativas,...

Esperava-se por um fogo que ajudasse a embalar livros antigos,
E precisasse de alguma água para que as pessoas pudessem evoluir,
Deixassem de considerar imoral as faces imprecisas de um amor que se exprime por si próprio,
Sem lufa-lufas impessoais,
Apenas com roupas de rubras gargalhadas que deixassem ao expoente inalcancavel,
Tudo o que há por explicar em textos monolíticos como este,
Sem fendas,...

Percebendo que seria um rosto adormecido,
Aligeirado de forma quase socrática no escuro,
Acomodo-me num mundo acamado apenas pelo atraso nas experiências,
Aclamado à minha maneira silenciosa



sexta-feira, outubro 30, 2020

Dispensava-se a poesia

Nenhuma palavra,
Nem sequer o jeito efeminado de qualquer palavra,
Expurgando da comparação a pele acintosa,
Poderia refazer o que estava pensado,
Eram dias de anormalidade perfumada,
Com todo o sentido inovador que isso poderia trazer,. ..

Dispensava-se a poesia neste relato,
Sabendo-se que uma mulher inesperada iria surgir,
Com notícias de partida,
E não muitos afloramentos ao conceito de felicidade,
Diria ter deixado para trás outro livro de memórias,
Algumas estórias por acabar,
E principalmente um polícia de costumes que lhe tinha marcado a pele,
Conforme era visível,...

Tudo estava pronto para que as coisas recomecassem,
Agora com especial cuidado para que esta ficção aguentasse os testes de racionalismo



quinta-feira, outubro 29, 2020

Ponderado

Desenhei os meus falhanços,
Contei comigo de formas que nunca julguei possíveis,
Tudo ficou escrito como me pediste,
Ponderado,
Livre de figuras de estilo,
Num português que sobrevivesse a si próprio,
Antes de morrer de velhice no canto de um papel gasto,...

Mas nada parece ter resultado,
A voar,
Este era um idioma infértil,
Não iria servir para o que me propunha,
Esta poesia a continuar,
Teria de ser mais desabrida que contida,
Menos desafortunada,...

Seria altura de refletirmos juntos,
por um novo par de ilusões


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