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quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Somos tanto e tão pouco


                          Tirado daqui

Fotograma de 1887

Somos os novos,

A falta de vontade,

Pernas soltas de falta de caminho,...


Somos vinte e quarenta,

Falta de idade e noites em branco,

Somos a pessoa e a maré azul da calmaria,...


Somos tanto e tão pouco,

Que quando o novo sai do velho,

Temos luz em vez de um lugar no escuro,

E tanto tanto quarto para ocupar,...


E agora que a música voltou,

Deixámos de ser a nossa escrita,...


Para que a mulher das madrugadas cinzentas regresse,

E mais qualquer coisa haja,

Para que voltemos ao início 

quinta-feira, 25 de abril de 2024

Lentidão do medo









                                                                           Tirado daqui

Nem nunca jamais como agora,
Contemplei a vastidão do escuro,
Olhos desabituados da lentidão do medo,
A vida pesada com tempo,
Distendida em capitulos inocentes e reassumidos,...

Perdi as funções anatómicas da alegria,
Do relacionamento coerente e benfazejo com os outros,...

Dói-me o corpo de me doer a alma,
Sem conseguir afastar a realidade de ser olhado,
Por quem ou pelo que não conheço,...

O dia desassombra-se da noite,
E tudo se interrompe com a promessa de voltar,
Quando o vácuo do escuro abrir de novo a porta

domingo, 11 de fevereiro de 2024

Sítios familiares

 


Sítios familiares, digamos assim. Casas de paredes amarelecidas, com fios quilométricos de heras a envolver, dando um ar proverbial e literário. 

 Homens solitários vestidos de tweed, a caminhar para direções diferentes por entre aquela humidade excessiva fora de época que vinha abraçando as manhãs. 

 Sítios dificeis de perceber, e que mesmo assim apareciam, a pulular, na cabeça de um criador sem idade e destino de provocação. Supunha-se mal, bem, tudo parecia fora de sítio, de tempo ou de lugar nesta ideia. 

Mas era quase uma inevitabilidade pensar em ambientes românticos, repletos de um idílico futurismo, quando se começava a criar. E não havia preço, se depois a fluência fosse a desejada. Assim como a simetria de personagens e de desafios que ainda pudesse vir a surgir...

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

traição,....e efeitos

 


Escrever uma traição,
tradição destes tempos e de outros
que possam ainda vir,…

Será colorida,
deslocada de pareceres,
leis por provar,
até do amor que se faz
às escondidas do ódio,…

terá loucura que chegue,
e pequena o suficiente para caber
em bolsos do comum inocente,…

uma traição longínqua,
que não tem pessoa nem função
de linguagem,
apenas poderá matar


quarta-feira, 6 de setembro de 2023

Picar cenoura

 


Queria que as palavras se partissem,

Com cadência e precisão da mesma forma,

Que se pica cenoura em cubículos minusculos,

Com uma lâmina afiada,

De precisão possível,

Para não nos magoarmos,...


E depois chovesse,

O mundo desse a volta à margem esquerda do tempo,

E deixasse de haver linguagem,

Fontes próprias para o desespero,

E no fim restasse só som,

Um atrativo para a alienação,

Completa e desesperada, ...


Talvez assim a luz se refletisse entre os meus dedos

sábado, 27 de maio de 2023

...-....

 


os lábios pesavam
como chuva de inverno,
os olhos acomodavam-se
na escuridão,
era num corpo pervertido,
em reversão de costumes
e de moral,
que procurava refúgio,....

havia um tempo de cores
mortiças,
que procurava ilusão
nas tardes de aprendizagem,
numa janela ampla
e que mantinha a
altivez,
a observar o mundo 

a desaprender,....

pessoas de
cada matiz,
presentes anulados,
e passados esbatidos
no basalto da calçada,...

para ela,
valia a noção,
iludida e desiludida,
de filosofar com urros
que só a escuridão percebia

terça-feira, 13 de setembro de 2022

Flor de carne

Podem passar desde já ao 
segundo ponto desta descrição,
o início não interessa,
há uma mulher desgraçada,
que grita aos sete céus porque foi
obrigada a esvaziar o ventre,
e fá-lo com sangue nas mãos,
e entranhas a escorrer-lhe pelo rosto,
numa mistura entristecedora de lágrimas
com noções de morte,...

não interessa perceber que o tempo
está nestas razões de amor,
e que o amor se perde porque nasce
sem cores,
passar ao ponto dois,
onde há uma cidade em bulício,
como qualquer outra a
preparar-se para a noite




quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Quarta-feira, duas e tal da tarde

 assim eu quero ver
o que ainda falta por fazer,...

                      dizer o que não está implícito,
                        e assim se voa,
                          encosta abaixo,
                             nas asas de uma ave
despreocupada,
sem dono,
destino,
                       música de atino,
não há pressas,
para o que quero ver,
                e lambusado com o vento,
 sou eu o bicho voador,
que acaba uma vida
                embatido contra as rochas desgastadas,...

mas feliz



sexta-feira, 24 de junho de 2022

Message in a bottle

 lê-se desilusão,
sem mais a dizer,
termina-se como uma carta
em desuso,
sem pedido de resposta,
e atirada ao mar,
envolta em pedaços de 
insuficiente devoção,...

para que o mundo seja
pequeno,
para o fel que se desprende desta
relação de amor inconsequente



sexta-feira, 17 de junho de 2022

Por cima de qualquer nudez


 Se fosse fácil,

A dúvida transvestia-se de amor,
E era ilusão a fome de ansiedade,
Que a mulher de todos os dias mostrava como pele falsa,
Por cima de qualquer nudez,....

E havia pressão como a luz dos olhos,
Para que a novidade não fosse a escuridão,
Mas sim o refúgio do tempo entre as mãos 

sexta-feira, 29 de abril de 2022

Imagem desenhada

eu faço versos como quem
descasca a pele dos dedos,
e acha normal a dor,...

a forma desordenada e insolente
como um mal-estar sobe pelo
corpo acima,
e aí deixamos de ser quem
a descendência pediu que fossemos,
e há sede para todos os que
partilham a fome de desonestidade,

se esfumem em imagens desenhadas




terça-feira, 26 de abril de 2022

Prosseguir

a moeda nos dedos aflitos
de rendição,
pensar que pagar bem tira o rasto 
ao amor perdido nos azulejos,
torna a casa fechada,
irresoluta perante o sol e a 
persistência da luz,...

e há porventura a incerteza
de que o novo destino,
os lábios que fiquem onde
pousarem,
seja menos violento que esta mudança
de razão,
as raízes persistentes de querer mais
do que se deixou onde antes,
pousávamos a cabeça em dor



terça-feira, 19 de abril de 2022

Geografia perfeita da sua indiferença


Aquele era um homem radical,
Comesinho nas ações,

A recusa no olhar explicava talvez o pouco prazer que as
pessoas retiravam do convívio com ele,...

O que ajudava a ocultar o defeito de fala
que ganhara nos dias frios de setembro,

De um setembro deformado e desonrado que vivera há muitos anos,
Numa pátria que se tinha lembrado amar,
Mas que ocultava agora em memórias disformes e inúteis,
Das quais lutava por se separar,...

Se fosse obrigado a dizer ao silêncio aquilo
que era a geografia perfeita da sua indiferença,

Talvez escolhesse não o fazer,
Estava bem assim porque estar,
Para si,
era diferente de sentir,
Muito diferente mesmo,...

E com isso estava consciente
de que teria de viver,
Até aquela luz inocente se extinguir,
E o deixar para sempre indefeso

sexta-feira, 15 de abril de 2022

A forma e o merecimento

pedir a razão,
a forma do equívoco,
era um livro aberto que não
merecia de mim,
as visitas habituais que de mim 
merecem as memórias,
os sítios onde estive e que já 
não me garantem a repulsa de antes,...

tudo embrulhado em papel de prenda
de criança, 
assim o vejo,
desta forma me despeço,
para que tudo se inicie de novo



quarta-feira, 13 de abril de 2022

Azul no rebordo

a não ser que
se estenda por este prado,
e tenha azul no
rebordo,
e um ar renascentista,
quase como se
pudesse comer
e esquecer que tal é preciso
para respirar,
não me deverá interessar,...

ao longe a falta que me
faz a dúvida,
deixa-me hesitante,
quase como se sentisse
uma mãe a chorar,
sabendo que não era
a minha,
mas com a possível
lição de humildade,
que isso dá e depois tira



domingo, 3 de abril de 2022

Contexto


dizer-te desculpa,
o atraso de quinze, vinte minutos,
todo o tempo que atirámos fora como
água insalubre,...


não encaixa haver olhos que conseguem
perceber os corpos nus,
e ao fim de uma noite cálida,
atiras- ao mar a frente inaudita de
uma frase assassina,
para que se recupere depois a lonjura
de inventar uma cidade

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Leitura inexata do amor


Pensar,

As mãos sem nome,

Uma Igreja vazia de contornos simples,

Ela perdera a força,

Um pescoço indiferente ao tempo que se esforçava,... 


Passava de oculto em oculto,

Até ferir os olhos com a luz escurecida,

Do dia que já não contava como número,...


E era agora a eleição certa para passar de novo,

A sentir como era antes da leitura inexata do amor

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

....inevitável


 ao fim e ao cabo a absolvição,

ocupar um lugar onde não se é chamado,

e o dia em que sentada na fonte

de todos os dias,

a água começou por me cobrir as

pernas,

não havia tempo para o inevitável,

só medo,

um braço,

cabelo enovelado,...


quase como se a individualidade se esgotasse,

mas o feminino prosseguisse,...


levantava-me,

para regressar no dia seguinte

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

posição fecunda de um adeus

 


Não é de grande ambição pensar que
o que se vê,
a lua,
o estrado entre os nossos passos e o abismo,
já existía antes até de haver o existir,…

A suposição que nos rodeia,
a perceção de luz que ampara as más
feitas escolhas,
incapacita o desgosto,
tira tragédia às lágrimas que se
perdem,
antes até de fecundar a Terra,..

E por mais que se queira,
nada disto enche a casa dos versos,
só adia a posição fecunda de um adeus


quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

Quadris em forma de criação

É proibida,

a anotação de irrelevâncias,

no teu corpo,

como que uma sombra,

perfeita feita pelo sol, 

com os mesmos seios irrelevantes,

os quadris em forma de criação,...


lá ao fundo,

cigarros fazem de vagalumes,

e mesmo que desse para refletir sobre

o problema da memória,

já não cabem falhanços neste quadro