domingo, 9 de agosto de 2026

...como uma banana madura

 Caramba, ainda me lembro. Eu não tinha culpa das observações descontextualizadas. Da roupa mal escolhida, com cores que não combinavam. Ou até dos silêncios fora de tempo, com durações erradas. E as reações. Sim, lembro-me das reações. Como se a praça central daquela terra, fosse o tribunal final da raça humana, capaz de julgar os incapazes, e absolver os suportáveis a mais algum tempo de vivência. Eu não tinha culpa. Era um miúdo. Lia os livros errados. Tomava notas de rodapé por amor ao ato de me cultivar. Mas de pouco me serviam. Assim conheci um destino à prova de água, à prova de sepultamento. À prova de tudo. Prosseguir, sem destino, fintando os obstáculos, as decisões mal tomadas, os juízos formulados para magoar. Eu era o invisível, aquele em que todos acabaram por aprender a não reparar. E havia muito para andar ainda, até que outro mundo se me descascasse,… como uma banana madura.

Fotografia de Anna Paola Guerra
                                                                          Tirado daqui

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