Eu sabia que era uma vantagem ter bolsos fundos. Não é cativante descrever o que podemos transportar, provavelmente sem sequer precisarmos. Mas, naquele dia, consegui encaixar um papel de desejos, como lhe chamava, num espaço reduzido de uns jeans velhos e rossados. Escrevia o que me apetecia nestas folhas. Versos de Rima, versos de viagem, prosas curtas e reveladoras, a minha moral quase traduzida em desenhos de esquadria. De tudo um pouco, o que me traduzia como pessoa e ser pensante. Caminhei pela beira mar, num dia cinzento e que me presenteava com chuvas aquecidas e com cheiro a cidade decrépita e envelhecida. Gostava disso. Conseguia, em dias como o de hoje, arranjar ainda espaço para dizer a mim mesmo, em quatro, cinco curtas palavras no máximo, que ainda assim me sentia poucochinho. A precisar de um reforço, que só talvez viesse de um ocaso em silêncio, num dos vértices daquele mundo que eu lutava por manter pequeno e sem importância.
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