sexta-feira, 12 de junho de 2026

E por fim a mentira,...

 Ao longo deste desânimo que habitamos,

Socorremo nos de acordes de instrumentos,

Uma guitarra a chorar sem solução,

Soluços intermináveis do batuque de distâncias explicado,....


E somos nós,

E os vizinhos do que deixamos de ser,

Quem amassa argilas de verdades,..


E por fim a mentira,

A moça que escolhi em definitivo apresentar te,

Aqui está para que silencies as últimas letras 

De: Elina Krima

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Razonar

 aí o que os jovens

deixaram de saber dizer,

uma pausa prolongada,

isso pode estar num livro,

um livro de fim arrastado,

maçador para leitores exigentes,

com silêncios em várias línguas,...


e isso razonou junto

de quem viveu ainda pouco,

e deu-lhes uma abúlica vontade do nada

                                                                            Tirado daqui

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Por isso,...

 Às vezes estar aqui sem estar,

Começar simples,

Pensando que as decisões são de todos quando amadurecem,

Mas a loucura de as tomar,

Cabe em poemas deste tipo,....


Que vão aumentando de cadencia,

Luminosos,

E impossíveis de se reproduzirem a outros olhos,

E outras formas desgarradas de análise do real,....


Por isso,

Andar,

Desenvolver o tato de análise,

O trato infindo de ser humano,

Cada vez mais aperfeiçoado 

                                                                             Tirado daqui

terça-feira, 9 de junho de 2026

Parti

 Parti. Deixei a cama por fazer. Há sangue no lavatório e paredes da casa de banho. Não me sinto em condições para te explicar o motivo. Ficou um livro aberto, na página 100, o teu número preferido, em cima da mesa da sala. Estão cadernos por estrear dispostos, sem qualquer ordem, de forma aleatória pela casa. Fiz uma festa no cão, que sempre me ignorou em tua preferência. E ainda passaram alguns segundos, para que te mirasse, nua, em cima dos lençóis da cama de corte medieval que talvez tenha sempre sido o nosso maior tesouro. Pensei em artefactos, na vontade de mestre em alisar a nossa rotina com constantes inovações de originalidade. Voltar ao passado, quando nos conhecemos, e tu me convenceste a sujar as mãos com frequência, nas coisas que até ai nunca tinham sido da minha rotina. Levo a tua música a tocar na aplicação. A que fora escrita quando o tempo era plano, e ainda não tinha ganho as curvas que só nós sempre soubemos descrever. Se tivesses acordado, far me ias desistir desta ideia sem sentido, e pintada a cobardia. Mas as certezas aquecem se a si mesmas, e sao o nosso maior alento. Talvez volte um dia. Quando ja não fizer falta ao mundo, e para ti for a nota musical única do teu acordar, que eventualmente me agarrar à tua memória.

 Entretanto chove, e ainda bem 

                                                                                    Tirado daqui

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Portentos por cumprir...

 Não era tanto o céu que se via,

Como que periclitante,

Seguro só pelo alheamento,

dos que seguindo uma rotina desconcentrada,

Ignoravam que o tempo conhecido podia estar a acabar,....


Era sim a oportunidade de criar ,

Abrir uma tela e sentir o vento a lamber o sexo da terra,

Com isso deixar deslizar pincéis a um ritmo sem pressão, ....


Ou calcular destinos para personagens,

Que assim a sorte quisesse,

poderiam ainda vir a existir,....


Era a oportunidade de espiar falhanços,

Portentos por cumprir,

E aguardar que um último trovão precipitasse o fim 

                                                                         Tirado daqui

domingo, 7 de junho de 2026

E estares aqui,. .

 Isso que me parecia juizo,

Não haver mais livros naquela casa,

Sentir que o mundo acabava sem que soubesse matar o cartesianismo,

 Assustava me deveras,....


Os dias enrijeciam como fruta seca ao sol de Verão,

A música,

A parte enliante de Uma melodia,

Soava a insulto,...


E estares aqui,

A conversar sobre nada com esta sombra de mim que carrego,

Não ajudará a que ressoe o ribeiro,

Que insisto eu,

Parou de correr há muito por aqui 

                                                                            Tirado daqui

sábado, 6 de junho de 2026

Inatingiveis on tour, 2026 (Marrocos)


Sala de hotel em Marraquexe

Deixou de reparar na beleza,

Na forma como as vogais se apagam quando queremos seduzir,

Confiava Agora num tampo de mesa rústico, 

De uma madeira tacanha, 

E Dolorosa ao toque,....


Na vontade de emprestar sedução,

Permitindo agora que a ponta áspera de uma língua,

A acordar um sexo adormecido em manhãs que se cruzavam,

Se desvanecesse,

Quase como a vida efémera de uma flor,....


E por isso pensava,

Refletia,

Despia se e vestia de argumentos que dessem sabor à vida,....


Mas tinha,

Parado de confiar no bom senso,

E na vontade multifacetada dos humanos, 

Em abrir a alma ao semelhante 

É o que está dito,.. .

 

Ilha Lofoten, Noruega
De: Leafyfleece
                                                                            Tirado daqui

Dizem me que és a melhor versão de mim,
E que a chuva nos completa,
Nesta ausência forçada de renovação,
A que nos forçamos,
De tempos a tempos,....

Dizem que rio como se a verdade me doesse,
E estivesse escrito que a dor pertence a todos de igual forma,...

Para não ser de ninguém quando a noite regressa dos passeios a que nos habituou,...

E sendo a melhor versão de mim,
A tua percepção somos nós,
É o que está dito

sexta-feira, 5 de junho de 2026

A.macieza do olhar,....

 Quisera eu ser de facto a má notícia,

Tremida a escrita,

Num bilhete sem sentido,

Deixado nas bainhas da porta da velha casa,....


Quisera ter memória,

Um sentido de um beijo,

A macieza do olhar,

A maldade do sexo que sobra do atropelar de todas as rotinas,...


Quisera sem conseguir,

E agora que desces a rua,

Querendo sou um resto de vento velho,

Que ao ouvido,

Faço e digo de ti imprecisões,

Vidas previstas ,

Sapatos maltrapilhos da solidão 


                                                                               Tirado daqui

quinta-feira, 4 de junho de 2026

A figura humana do desejo,..

 A gente vai falando,

Sao horas de apressar,

Folhear livros como se a tua desculpa ja não existisse,...


E a presença,

A figura humana do desejo,

Fosse agora envelhecida,

Inodora para quem passa,

E insensível ao elogio,

E aos remendos do amor,....


Acertamos com a boleia dos versos,

Um titulo ou dois que ainda venha,

A tempo de nos fazer apetecer madrugadas,

Pulsares de corpos semelhantes à pré morte de uma qualquer galáxia,.....


E expliquei te o fim da obra que mastiguei,.

Enquanto redesenhava os teus contornos longe da vista que perdi 

Filme: The Shannara Chronicles (2017)
                                                                           Tirado daqui

quarta-feira, 3 de junho de 2026

A mentira retalhada,..

 é o mínimo,

cada vez que se estende

uma mão,

recolhem-se os olhos em dor,....


custa tanto como

a ausência,

apresentar um manto

de desconhecimento,

e com ele deixar ocultos

restos de memórias,

que não foi possível

limpar ao partir,....


não se pede mais

que uma verdade,

a mentira retalhada,

muitas notas de rodapé,

escritas toscamente

no livro que alguma vez amámos,...


é o mínimo,

e depois,

o silêncio pode voltar

terça-feira, 2 de junho de 2026

31 anos sem ti, mãe

 Aos poucos,

Ler a memória começa a ser um fino traço, 

Fica o riso,...


É dia mas a noite veste se de seda,

E passeia nos limites do desenho que deixamos feito,

Antes de a loucura sair,....


Vestir de escuro,

Calçar o eter até os pés sangrarem,

E principalmente a.reserva feita para dois no final de um livro,....


Explicada assim,

A parcela de um personagem ainda por nascer,

Pesa menos e fere talvez mais

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Junhando a 26 de setembro de 2025

Mirror, 1975   
De. Andrey Tarkovski

Estou preocupado?,
Sim, alguém bate à porta,
Nao interessa a hora,...

O tempo quando se esvazia,
Perde preponderância e significado,...

As vezes que descrevemos,
Escritas estavam as dúvidas,
Os medos travestidos de sexo dúbio,
A luz possível,
De um dia esclarecido e esquecido,...

Por isso estou receoso,
A medida do nojo,
Veste me o olhar 

domingo, 31 de maio de 2026

Já não sou inquirição,....

 Agradeço que me pintem,

Um corpo devastado,

Extremidades cor de sangue,

Uma conversa de morte,

Acicatada pela nudez dos finais de manhã,....


A inocência serve me a água,

A lassidão de uma noite cálida,

Convidativa,

Escrita a presente,

E de um passado jocoso,

De tantas idades,

E ao mesmo tempo ainda por nascer,....


E agora espero,....

(Próxima madrugada)

Já não sou inquirição,

Pergunta por fazer,

Mão levantada à espera de minutos por colorir,....

Sou agora o que tem de se impor,

E ler o que tendo de ler,

Se vai vestir de nova vida 

De. Johan Jakob Walther
                                                                              Tirado daqui

sábado, 30 de maio de 2026

Quando e como,...

 E a minha mao,

A gravidade conduziu a,

Tinha um corpo,

O teu,

Que em silêncio amedrontado,

Me conduziu,....


E havia uma prosa,

Um conto de ausência de palavras,

E entendimento desapegado, 

Escrito algures,

Que te contei,

Olhar com olhar,...


Quando e como,

Te ouvisses a ser minha

Nasir A. Aziz Eleyan
Mãe palestiniana
2007

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Dos sem nome,...

 Acho que só estamos aqui porque o tempo acabou,

Ela dava aulas com a sinceridade de fora dos bolsos,

E patente no sorriso,....


Descrevia o círculo semi cerrado capaz de provar,

Que o tempo não ia realmente regressar,...


E a vontade desiludida das pessoas seria a perdição,

Dos sem nome,

Sem idade,

E sem vontade de se definirem num ou dois versos,....


Para ela,

Só a filigrana do infinito do espaço,

Era sebenta a partir de agora 

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Estás bem?...


                                                                             Tirado daqui

As vezes que te olhamos e pensamos,
Terra sem nome,
Estás bem?,...

Pareces numa esquina de rua,
Onde o mundo se inclina,
E a verdade se agasalha porque o armagedao ja passeia ao sol,.. .

Fazes que reflitamos nos autores sem nome,
Nos pratos vários para quem nada tem,
E espreita por uma janela imperfeita,
À procura de aves que contem novidades em línguas mortas,...

E mesmo assim olhamos te,
Porque são o que faltar para o fim da tarde,
E a salsugem das palavras por dizer,
Agarra se à roupa,
Aos passos,
Ao tiquetaque de um 
gato que nos olha 

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Uma vírgula,....

 Por tudo aquilo que deixou de caber numa folha impura,

A chegada do Inverno,

O toque da primeira virtude,

De posição por definir no corpo da mulher que se perde na bruma,....


Uma vírgula,

Pontos que finalizem um choro sem tempo,

E de tez escurecida,....


Esperando por outro capítulo,

De todas as coisas ao litoral,

Com a brisa de um final de verão,

A anunciar a ajuda de quando ler ainda for sabido

terça-feira, 26 de maio de 2026

Ser uma ilha

 a verdade meu amor,

 a verdade é uma ramagem
 de árvore, 
que balouça sem 
destino,...

na música sem tom
 do vento forte, 
a verdade veste-se 
de branco, 
e tem a idade que
 lhe damos, 
não a que grita inocentemente
 ter,…. 

A verdade é um passo, 
dado atrás do outro, 
e que procura a marca
 profunda na terra molhada,…

 é, 
talvez ainda,
 um choro brevíssimo
 da criança sozinha, 
que se acumula 
na terra que lhe trava 
o regresso ao tempo real

                                                                              Tirado daqui

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Faz parcelas de problemas,..

 Voto,

É me dito continua a trabalhar,

Faz das fraquezas forças,

Diz que não ha cores debaixo do horizonte,

Nem se dorme com um monte de nada,....


Faz parcelas de problemas,

Deixa de fora os ditados gastos,

Lugares comuns irregulares e previsíveis,

E grita,...


Tudo a plenos pulmões,

Como se o medo ja não fosse amanhã depois de cada pausa,

E para ti,

Se confirmasse o silêncio,

De gritos de peito vazio

                                                                                      Tirado daqui

domingo, 24 de maio de 2026

...o padrão das roupas

 Porque lhe tinham fixado o padrão das roupas. Assim o parecia, pelo menos. Repetia se, quase sempre com a mesma geometria regular. Quadrados de cores escuras, sobrepostos, espalhados em fundos brancos. Eram vestidos alegres, reveladores de silhueta, com os braços bem visíveis, a rasgar o vento. Uma figura aue se enfiava pelos olhos de quem a queria ver, e cabelo. Cabelo farto, escuro, em cachos soltos e que se enamoravam do vento que marcava histórias, descobertas e esquinas naquela terra. Tinha se habituado a ser só mais uma, apesar de reconhecer a dificuldade desse desígnio. E passeava. Imiscuia se propositadamente na ordem natural das coisas, pedindo licença ao passado para se tornar uma exclamação ruidosa do presente. Recordo me ainda quando e porque a trouxe para esta história. Apareceu me num sonho. Sei que não existe, que pode ter todos os sonhos do mundo, e ser o grito preso no peito de quem a aceite como é, e não como querem que ela seja. E não há muito mais a perorar sobre quem realmente não existe no mundo do palpável 

                                                                                      Tirado daqui

sábado, 23 de maio de 2026

A virtude de um final de romance,...

 O dia fechava-se como o último ato de uma produção teatral.  Havia o sol, que descendia no horizonte como um dedal no dedo disforme de uma mulher sem idade. Havia sangue, pequenos fios que envolviam a fina linha que separa o que alcancamos, do que nunca experimentámos.  Duas ou mais noções de tranquilidade estendidas, como naprons despreocupadamente tricotados por mãos anónimas, em cima da mesa irregular de nenhures onde esta história escolheu acontecer.  Um episódio literário sem potencialidades.  A virtude de um final de romance mais acentuado. E o desejo de se escrever, mesmo que não se saiba.  Tudo muito confuso para se continuar

                                                                                   Tirado daqui

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Os sorrisos não chegaram,....

 Tenho a esperança que um dia voltes,

Não sou pessoa de deixar escrito o resto de um dia,

Com o caderno fechado,

E a noite a chegar com desculpas,

Dizendo não ter passado,

E só recordações com crianças desaparecidas,....


Os sorrisos não chegaram,

Para que os equívocos que foram nossos se extinguissem,

E achasses um fogo para guardar no peito,

E assim te sentisses presa a mim,...


Não serve o resto de um prato de comida,

As provas de que a vida pode ser mais que uma chama de tristeza,...


Só te poderás servir,

E a mim como continuação 

                                                                          Tirado daqui

quinta-feira, 21 de maio de 2026

De novo abraço,...

Portanto abraço,
Sinto que o peito se abre,
É de noite num quarto 
qualquer sem lua,,...

Abraço sem pessoas,
Como poema 
sem sentido,
Pessoas desordenadas,
Exército de fantasmas 
sem explicação,...

E pelo menos ao alvor,
Quando a palavra perde o valor que se espera,....

De novo abraço,
As verdades estendidas 
agora ao luar

quarta-feira, 20 de maio de 2026

...atalho escondido

 mandam-me ser infeliz,

 que atire dados

ao rio,

sendo o filósofo

estagnado,

que caminha para

a morte pelo atalho escondido,....


manda-me ter tino

no que digo,

ofender só a mim mesmo,

com um silêncio

imprevisível,

como nota de rodapé

de ensaio sobre o riso,...


mandam-me e

obedeço,

tipo parafernália

ambiciosa de droga,

responsável por mortes

de anónimos


                                                                               Tirado daqui

terça-feira, 19 de maio de 2026

Dos dias imprecisos,..

 lembrar como ele falava,

o tal das palmas coloridas,

que dizia perefiro,

para ferir,

e razuar,

para elogiar,

e dava os nós

dos dedos como presente aos outros,...


recordá-lo quando partiu,

e ainda se fala do que lia,

das voltas afundadas

ao específico dos livros,

que sabia elogiar,....


lembrá-lo de

cima abaixo,

e talvez poetar

em volta dos seus pés,

cravados ainda

na lama persistente,

dos dias imprecisos

                                                                         Tirado daqui

segunda-feira, 18 de maio de 2026

O verbo,...

 há palavras escuras

 dentro de nós,

o verbo,

a solução

para a morte,…


um sorriso oculto

em sapatos gastos,

pés ensaguentados,....


a viver como a parecer,

debitar a ausência

de cor,

um gemido,

uma profissão de fé,.....


palavras escuras,

como a presença do eu,

na mentira

Guatemala
Foto de :Mary Asperlag

domingo, 17 de maio de 2026

Campo florido

 ela esqueceu-se do campo florido. Ao amanhecer, em cada despontar de dia, permitia apenas que a sua cabeça fosse invadida por escuro. De diferentes dias. O escuro do caminhar. A ausência de luz da solidão. Dois dedos apenas longe da morte, e o que isso tolda a compreensão do real. Houve, lá atrás, quando o sorriso era um companheiro de dia, e de chamada do descanso, um campo extenso. Pejado de vários tipos de flores, e com cores que a amparavam em todos os momentos. Pediu-lhe, o que a observava e segurava na mão, que lhe descrevesse o que tinha sido. Queria que voltasse a ser. Antes que a memória se apagasse, no que o sempre tem de assustador. 

                                                                            Tirado daqui

sábado, 16 de maio de 2026

Cor de nada,..

 A vontade de fazer doer,

Da dor permanecer intacta,

Cor de nada,

Sentada na loucura,....


E quando for amanhã,

Que ela se levante,

Traga o dia para dentro da noite,

E se torne habitual,

Carne de peitos abertos,

Decisão aberta e vontade de lamento,....


Uma dor literal,

Cada vez menos encarnada,

Profunda e acentuada,

Como a que os livros tratam por personagem secundária 

                                                                                Tirado daqui

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Admito o

 A perfeição,

A inocência de um animal desligado do tempo e do espaço,

Pessoas irrelevantes a passar pelos rebordos do meu esquecimento,

Atormentadas,

Todas indefesas como bromo,

E de sangue desenhado na roupa de todos os dias,....


Uma perfeição estranha,

Admito-o,

Constará talvez de um capítulo de livro sem título,

Com personagens desnecessárias e anónimas 

                                                                                 Tirado daqui

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Roupas ínvias

 acho que só estamos os mesmos

das tardes de nevoeiro,

que querem recuperar um

sorriso amedrontado,

mas sem que se apercebam

de que valemos pouco,....


que usamos

roupas ínvias,

com inscrições torpes,

e sem significado,....


a morar longe do

coração a pulsar,

seremos fracos,...


não há previsão

para que mude,

e as desculpas

decerto prosseguirão

De: Michael A. Davenport
3090 graus fahrenheit
Pintura a óleo
                                                                          Tirado daqui

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Não tenho a certeza,....

 Quanto a mim,

não tenho a certeza,

a carga da caneta tem

ainda alguma tinta,

não há hipótese de vitória,

nem de derrota,…


A porta mantém-se entreaberta,

com um cheiro de vida defumada,

que gradualmente se agarra às paredes,…

Irei proibir notificações bruscas

que terminem,

com o previsível deste

capítulo

                                                                            Tirado daqui

terça-feira, 12 de maio de 2026

Daqueles sem passado,...

 Era um grito tamanho,

Uma coisa quase com pernas e braços,

Capaz de ter passado

 e cor de olhos,

E até roupa,

 para assustar ainda mais,....


Ouvia se com claridade 

pelas ruas a fora,

Acordava as pessoas

 de sonos vigilantes,

E deixava as com um susto difícil de definir,

Daqueles sem passado,

e com um presente de poesia assustadora feito,....


E no meu livro,

Por entre anotações sem sentido,

E rabiscos da minha infância feliz,

Ele passou a ter cor,

E quase um nome que

 o identificasse

De. Rosa Gauditano e Millie Lacombe
                                                                                 Tirado daqui

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Pertenço ao etéreo, ...

 Haverá de ser amanhã quando o silêncio nos proteger,

E deixar para trás um esquadro de hesitações,

Feito reta na vontade de sair para o passado,...


Eu não sou de ninguém,

Nem da matemática dos desejos,

Nem que me arrastem para a vontade de permanecer folha branca,...


Pertenço ao etéreo,

Ao que não tem propriedade,...


E assim permanecerei quando a folha branca voltar,

E o pronome abrasivo perder a força que um beijo,

Lhe dá 

                                                                               Tirado daqui

domingo, 10 de maio de 2026

E eu confiei,...

 Disseram me para nunca parar de criar,

Mesmo que erre,...


Que seja sexta feira de manhã,

E a minha alma pese o mesmo que um copo de água,....


Criar era especifico de um momento,

De nunca dizer adeus,

Em cima de um monte de roupa gasta e vetusta,...


E eu confiei,

A princípio,

Mais atabalhoado que um reflexo inseguro num espelho,...


Mas depois era eu nas vírgulas,

Nos olhos límpidos das meninas que sonhavam,....


Em títulos até que saíam espontâneos,

Um pouco desanimados,

Mas diferentes de todos quantos ainda me cabiam no peito envelhecido 

                                                                                     Tirado daqui

sábado, 9 de maio de 2026

Sou o que envelheci,...

 As minhas estrelas,

A derrota que se supos ser minha,...


Todas as verdades desgraçadas,

Sem idade,

Que perecem à intempérie,

Enquanto anoitece nos lados B da minha loucura,

Pedem sobras de prados verdejantes,...


O que fui noutro tempo insonorizado,

A beleza de um sorriso reconhecido,

Dizeres me tanta madrugada experimental,

Em cada gemido,

Por cada orgasmo que atiravas para morrer à chuva,

Já não conta como pragmatismo,...


Eu sou o total incompleto de falhanços reconhecidos,

Sou o que envelheci,

Sou para não mais voltar ao calor do choro perdido

Nasir A. Aziz Eleyan Breakfast 1976
                                                                         Tirado daqui

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Tosco e ataviado,


Em dias assim de chuva,
De cerveja derramada,
Com o coração em cima da mesa a perder sangue,
Ao ritmo em que o céu se esvazia,....

 Não se entendem silêncios que surgem,
Palavras ocas e razões vãs para desanimar,
E discutir,....

Só a precisão inclinada de um toque,
Pensar que se tem a verdade escondida no bolso,
E assim se poder acabar tudo,
Ficar apenas com um desenho,
Tosco e ataviado,
De um coração que bate 

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Ele sentia não servir para nada, ..

 Talvez por ser ansioso,

Uma ansiedade endémica,

Das que rasga as carnes e tolhe respirações,....


Talvez por nunca saber onde pôr as mãos,

Ter a auto defesa inutilizada com raios de sol matinais,

E até perder o controlo,

 com uma ou duas porções de quaisquer belezas femininas,...


Ele sentia não servir pra nada,

E escrevia na pele gasta por um clima inconstante,

Escrevia a notícia da contradição revoltada de ser humano

quarta-feira, 6 de maio de 2026

E por isso agarrar, ..

 Estas mãos recusam a provavel lonjura,

Saber que nunca é nunca, 

E a insistência no presente,

Trará o futuro desordenado,....


Não é de hoje a indecisão,

As loucuras reais com o desejo,

Os corpos insuficientes para tanto lastro de tempo,....


E por isso agarrar,

Persistir no momento,

Fazendo com que ele persista,

Sem cor mas imune a tudo

De: Mirrorpalais

terça-feira, 5 de maio de 2026

Um mar sozinho,...

 Até aqui tudo bem,

Um homem delicado com a sombra,

Gravada na pedra,...


Um mar sozinho,

Que só arrulha,

Sem mais talentos,....


E muito tempo,

Para desperdiçar,

Relativizar,

Tudo escrito com nada e letras de sol,...


Não mais será necessário para que se continue uma história,

Sem ilusão,

Final definido,

E o acaso a tomar conta do esculpir de personagens ideólogos,

E inofensivos 

Atriz Maria Lani
Man Ray
1930

segunda-feira, 4 de maio de 2026

A dor pendia,...

 Ao acordar,

A dor pendia,

Partida,

Como um vidro absurdo do coração dos desajustados,....


Era a primeira vez do silêncio,

A primeira vez com o amor que era conhecido,

E a desilusão esperada e novelada das dores humanas,....


E quando ambos se afastaram,

O dia não era mais o verbo naquele mundo,....


Sobravam momentos de uma noite de poder,

Que já era a voz de

 ambos ao amanhecer 

Woman reading by candlelight
De: Peter Ilsted

domingo, 3 de maio de 2026

Ao invés voltou a casa,...

 Tinha a roupa gasta,

Com um odor a sítios fechados,

De difícil localização,....


Seria o suficiente para se desculpar,

Olhar em volta e pensar que o julgavam,

Que até o som sibilante do vento a roçar nas copas das árvores,

Seria uma crítica tosca ao seu desligamento,....


Mas não se deixou afetar,

Ao invés voltou a casa,

Fechou a porta e aninhou se,

Em forma de ovo,

Na cama velha mas intemporal,

Onde as suas noites se lesavam a si próprias 

One sings,the other doesn't
De: Agnes Varda (1977)

sábado, 2 de maio de 2026

A vida ao murro,...

 A vida,

A vida ao murro,

Dois despotas fechados em casa,

A pensar na erva curta,

Nos pontapés em cada um quando ruminavam ideias,....


E a maré ja subiu,

Há barcos acomodados no horizonte,

E os despotas têm medo,

Um medo tão ameaçador,

Capaz de lhes esventrar o ódio,

E fazer regressar aquela companheira de sono,

A total e completa paralisia,...


E a vida não pára,

De andar ao murro 

De: Yellowjackets

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Maiando a 3 de setembro de 2025

 O animal ressuscitado de uma morte estival,

O livro incompleto,
A jornada de trabalho insuportável,
Reduzida a um folheto político,...

Lamentar o que se falhou,
O calor que ainda se arrasta pelas calçadas gastas,
E a prova inocente de loucura,
Pendida da presilha de um relógio,
Que dá as horas por gritos desesperados de inocência 

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Onde não me querendo,. .

 O comentário,

Prefiro o ao rasto de poeira,

Ao caminho de peito,

 pra fora de uma terra de inocentes,...


Onde não me querendo,

 Me desfazem dos números do passado,

Da raiva dos injustos,

E desejos dos ímpios,....


Não havendo sombra,

Nem resignação,

Sofro da quantidade irregular de notas astutas de rodapé,...


De onde condenado à ignorância,

Remeto o silêncio à desordem a que sempre foi envolvido 

The Fatigue
Mihail Zablodski (2022)
                            Tirado daqui

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Pensar em ilusão,

 Eu quero é ter tentado ser a escuridão,

A indecisão,

Fechar portas ao ruído de remorsos,

De camas sujas e presas no passado,

E dizer de mim mesmo que sobrevivi,

Estou mais forte,....


Se oiço o contrário desta ideia,

Pensar em ilusão,

Em escritores de mão cheia deitados na prisão,

Será o indicado para dormir,

E poder seguir com a melhor versão de mim

you're not made for human eles
La chimera (2023)
Alice Rohrwacher

terça-feira, 28 de abril de 2026

E a apontar,...

 É querer que de uma ameaça se faça uma nudez,

Um convite à partida sem compromisso,...


Sabendo que se deixa a presença,

A mente,

A devoção ao vício e ao pecar,

Em sítios repelentes,....


Mas que sempre cativaram pelo cheiro,

E a génese de luzes difícil de explicar,....


E a apontar,

Perto mas longe de toque,

Está o decisor invisivel,

chamado tempo

Collected Memories
De: Mark Forbes

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Para o leitor confundia,...

 Parecia um engano de um escritor distraído,

Uma falha de sentido mais do que de sintaxe,...


Querer descrever porções de enganos,

Sorrisos fora de tempo,

As bênçãos da morte,

Coisas naturais e decanas,

Como artifícios literários que se encaixam à pressão,.....


Para o leitor confundia,

Sentir um homem que preparava o fim,

A ler o jornal,

A aperceber-se que a guerra alastrava,

Como a doença que o minava,...


E que o último suspiro iria chegar,

Quando um animal envelhecido e dependente,

Se aproximasse para cheirar umas mãos despidas de vida

Il Grido
Michelangelo Antonioni
                             Tirado daqui

domingo, 26 de abril de 2026

...ombro esquerdo

 O homem insistia em dizer que me conhecia. Apanhou-me na rua, enquanto caminhava com dois sacos excessivamente pesados nas mãos, e um saco de pano que equilibrava, dificilmente no ombro esquerdo. Apontava-me insistentemente para o rosto, dizendo que as linhas dos maxilares lhe eram familiares. Sentia-me incomodado. Sabia que era parecido comigo mesmo. Quanto muito com o meu falecido pai. O homem das sobrancelhas fartas, que fumava intermitentemente, e morreu um dia, exaurido pelo abandono a que se tinha votado. Se calhar, esta pessoa tinha-o conhecido. Talvez se lembrasse de um par de sobrancelhas que, reconheço, falavam por si próprias. Mas eu nunca o tinha visto. E, agora, acompanhava-me com persistência, rua fora. Tentei ignorá-lo. Mas passou pelos meus sítios de sempre. O quiosque dos jornais, onde o dono estava tão azafamado, que não ligava a nada nem a ninguém. A seguir a peixaria e o talho, em lados opostos da rua. Estavam ali desde que me lembrava, e sentia que iriam continuar muito para além da minha presença física naquele universo. Subi a rua, visivelmente incomodado. A dado momento, o homem perdeu-me o passo. Mas mantinha-me sempre debaixo de olho.

Peter Hujar, Dois cães 
Nova Iorque, EUA, 1978

sábado, 25 de abril de 2026

Falando do fim do mundo,...

 Quarenta anos,

Sai-me isto como,

Podia estar a reverenciar o teu corpo com a justiça devida,

Apercebendo-me de odores que os livros não trazem,....


Falando do fim do mundo,

Daquela esquina sem retorno,

Cheia de pessoas que deixaram fugir a ousadia,

Na esperança que me ouvisses,...


E fosse de mim que irias falar quando,

A próxima noite chegar,

E eu ainda me vir preso no estático que a fruição das horas tem,....


Quarenta anos,

Talvez o prazo de validade,

que amparar te num altar de amor tenha