quarta-feira, 22 de julho de 2026
segunda-feira, 1 de dezembro de 2025
sábado, 26 de abril de 2025
Um dia gostava de saber escrever assim
Estou vivo e escrevo sol
ao Ruy Belo
Escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em fios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol
Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever e sol
A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram suas faces
e na minha língua o sol trepida
Melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maravilha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde
António Ramos Rosa
terça-feira, 3 de dezembro de 2024
sábado, 3 de agosto de 2024
Um dia gostava de saber escrever assim
O SILÊNCIO
segunda-feira, 6 de novembro de 2023
Um dia gostava de saber escrever assim
Não darei o teu nome
“ Não darei o teu nome à minha sede
de possuir os céus azuis sem fim,
Nem à vertigem súbita em que morro
Quando o vento da noite me atravessa.
Não darei o teu nome à limpidez
De certas horas puras que perdi,
Nem às imagens de oiro que imagino,
Nem a nenhuma coisa que sonhei.
Pois tudo isso é só a minha vida,
Exalação da terra, flor da terra,
Fruto pesado, leite e sabor.
Mesmo no azul extremo da distância,
Lá onde as cores todas se dissolvem,
O que me chama é só a minha vida.”
David M. Ferreira
quarta-feira, 2 de agosto de 2023
Um dia gostava de saber escrever assim
Eugénio de Andrade/O copo de água
Devia ser nos começos do verão, os inumeráveis jacarandás de Jerez de la Frontera estavam em flor. Nos pátios da luxuosa vivenda onde me haviam instalado (que o Governo confiscara a um riquíssimo produtor de vinhos da região por fraude fiscal, agora destinada a hospedar gente da cultura), os repuxos erguiam os seus irisados fios de água para logo os deixar cair molemente na face doutras águas cativas em grandes taças de mármore, onde já flutuavam uma ou outra flor de jacarandá. Aquele rumor, a que se misturava às vezes algum canto de ave, parecia-me então a música do paraíso.
Durante aqueles dias, eu ficava por ali sentado toda a manhã com os meus papéis e um copo de água, que o caseiro me punha em cima da mesa, um copo de cristal com grinaldas de flores gravadas na parte superior, poucas coisas haverá tão bonitas como um copo de água fresca no verão, mesmo quando o vidro não tem a o brilho e a transparência do cristal. O caseiro, cuja voz vinda doutro pátio me prendia a atenção com cantares andaluzes muito ornamentados, também colocava cuidadosamente à noite, na minha mesa de cabeceira, um copo de água em tudo semelhante àquele de que falei. E como lhe referisse a beleza, ele ofereceu-me, ao partir, o que estava no meu quarto, como lembrança da minha passagem pela casa. É esse copo que, desde então – e já lá vão tantos anos! – tenho à cabeceira, e sempre com água fresca, como se o verão e a luz dos jacarandás durassem eternamente.
Foz do Douro, 24.3.2001
eugénio de andrade
inimigo rumor número 14
1º semestre 2003
livros cotovia
2003
sábado, 4 de fevereiro de 2023
Um dia gostava de saber escrever assim
maria teresa horta / por dentro da alegria
novamente a tristeza
onde os ombros se acolhem
o dilúvio obscuro?
onde os outros não olham?
poesia reunida
educação sentimental
dom quixote
2009
quinta-feira, 12 de janeiro de 2023
sexta-feira, 16 de dezembro de 2022
Um dia gostava de saber escrever assim
FIVE O'CLOCK TEAR
Coisa tão triste aqui esta mulher
com seus dedos pousados no deserto dos joelhos
com seus olhos voando devagar sobre a mesa
para pousar no talher
Coisa mais triste o seu vaivém macio
p'ra não amachucar uma invisível flora
que cresce na penumbra
dos velhos corredores desta casa onde mora
Que triste o seu entrar de novo nesta sala
que triste a sua chávena
e o gesto de pegá-la
E que triste e que triste a cadeira amarela
de onde se ergue um sossego um sossego infinito
que é apenas de vê-la
e por isso esquisito
E que tristes de súbito os seus pés nos sapatos
seus seios seus cabelos o seu corpo inclinado
o álbum a mesinha as manchas dos retratos
E que infinitamente triste triste
o selo do silêncio
do silêncio colado ao papel das paredes
da sala digo cela
em que comigo a vedes
Mas que infinitamente ainda mais triste triste
a chávena pousada
e o olhar confortando uma flor já esquecida
do sol
do ar
lá de fora
(da vida)
numa jarra parada
A Palavra O Açoite (1977)
quarta-feira, 14 de setembro de 2022
Um dia gostava de saber escrever assim
pier paolo pasolini / ao príncipe
Se voltar o Sol, se cair o crepúsculo,
se a noite tiver sabor de noites futuras,se uma tarde de chuva parece regressar
de tempos muito amados e jamais
possuídos,
eu já não fico feliz, nem disso retiro prazer ou
sofrimento
já não sinto, diante de mim, a vida inteira…
Para se ser poeta, é preciso ter muito tempo
Horas e horas de solidão são a única
maneira
de dar forma a alguma coisa, que é força,
abandono,
vício, liberdade, de dar estilo ao caos.
Eu tempo já tenho pouco: por culpa da morte
que avança, no ocaso da juventude.
Mas também por culpa deste nosso mundo
humano,
que aos pobres tira o pão, aos poetas a paz.
a poesia é uma mercadoria inconsumível
poemas e recensões
trad. joão coles
sr teste edições
2022
sábado, 14 de maio de 2022
Um dia gostava de saber escrever assim
miguel torga / desfecho
Gastei-as a negar-te…
(Só a negar-te eu pude combater
O terror de te ver
Em toda a parte.)
Era certa a meu lado
A divina presença impertinente
Do teu vulto calado
E paciente…
Quando alguém lhe perturba a solidão.
Fechado num ouriço de recusas,
Soltei a voz, arma que tua não usas,
Sempre silencioso na agressão.
O joio amargo do que te dizia…
Agora somos dois obstinados,
Mudos e malogrados,
Que apenas vão a par na teimosia.
câmara ardente
1962
domingo, 17 de abril de 2022
Um dia gostava de saber escrever assim
manuel antónio pina / alguém atrás de ti
na mão fechada de Deus o que passou.
É cada vez mais tarde
onde o que eu fui sou.
na minha infância
e está lá a ser eu?
a lâmpada do quarto? A criança?
a si próprio se sente?
Também aquele que escreve
é escrito para sempre.
nenhum sítio
algo parecido com isto, da mesma substância
poesia reunida 1974-1992
afrontamento
1992
quarta-feira, 2 de março de 2022
Um dia gostava de saber escrever assim
Bolero do coronel sensível que fez amor em Monsanto
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022
Um dia gostava de saber escrever assim
nuno júdice / fevereiro
nenhum dos sinais do princípio me traz
o conforto de ser, nem
abre a última porta, por
onde passaram os exércitos da noite.
Mas vejo melhor: e
descubro-te, a um canto,
debruçada da varanda – como
se espreitasses o mar verde da memória,
ou procurasses a própria definição
da água, entre o azul
e o negro.
É, de facto, a cor
dos teus olhos,
como a lembro. Encostavas-te
à parede branca, contra
o sol; e a luz não te atravessava
os cabelos com que protegias
o rosto.
particularidades, a tua presença é
a mais evidente. Deixo que
a sombra desapareça de toda a parte,
da parede até ao próprio horizonte; e
é como se saísses de dentro
do tempo, e nos entrássemos,
por instantes, sob um céu de nuvens esburacadas
como as tábuas comidas
pelo sal.
a fonte da vida
quetzal
1997
sábado, 29 de janeiro de 2022
Um dia gostava de saber escrever assim
As coisas que mais prazer me deram na vida
sexta-feira, 23 de abril de 2021
Um dia gostava de saber escrever assim
Eu procurei e era vapor ou sonho
e era o mundo, o rumor do estiocom os seus barcos de folhagem entre as pedras
e o sol por sobre os muros, a linguagem
dos gestos quase imóveis no ardor
monótono e sombrio de uma brancura
que vencia o tempo e era o ombro
e o seio da terra entre o verde e a cinza.
Eu procurava e recebia o sopro
de um fogo em labirintos áridos
e a violência reunia-se num flanco
vermelho, companheira
que ardia adormecida e se elevava
sem sobressaltos à nudez do cimo.
Era como se a terra amasse o sonho
e com a mão de fogo e a mão de água
desenhasse o instante da primeira
alegria divina. Eu recebia
as formas que se abriam e encerravam
em círculos vagarosos de uma matéria pura.
António Ramos Rosa, ‘As duas mãos da terra
sexta-feira, 16 de abril de 2021
Um dia gostava de saber escrever assim
cesare pavese / trabalhar cansa
Atravessar uma rua para fugir de casa
só um rapaz o faz, mas este homem que vagueia
todo o dia pelas ruas já não é um rapaz
e não foge de casa.
tardes em que até as praças ficam vazias, estendidas
ao sol que vai pôr-se, e este homem que chega
por uma avenida de árvores inúteis para.
Vale a pena ser-se só, para se estar cada vez mais sozinho?
Percorrê-las apenas – as praças e as ruas
estão vazias. Havia que parar uma mulher
e falar-lhe e convencê-la a viverem junto.
Doutro modo fala-se sozinho. É por isso que às vezes
vem abordar-nos o bêbado nocturno
e conta os projectos de toda a vida.
que se encontra alguém, mas quem anda pelas ruas
de vez em quando para. Se fossem dois,
mesmo a andar pelas ruas, a casa seria
onde está essa mulher e valeria a pena.
De noite a praça volta a ficar deserta
e este homem que passa não vê as casas
nem as luzes inúteis, já não levanta olhos:
sente apenas o empedrado, que outros homens fizeram
com mãos calejadas, como são as suas.
Anda certamente na rua aquela mulher
que, rogada, havia de querer dar uma mão à casa.
quarta-feira, 7 de abril de 2021
Um dia gostava de saber escrever assim
josé gomes ferreira / cabaré
III
sob as estrelas
olho com orgulho para o céu
e sinto que pertenço ao universo.
os olhos são de terra
e a minh’ alma, um pássaro sem corpo…
no meio destas flores de papel
perfumadas de música,
sinto-me tímido e infeliz,
a tropeçar no corpo inútil.
mas apenas existir.
Ser uma coisa qualquer
esquecida de criar.
cabaré 1932
poesia I
portugália
1972
sexta-feira, 26 de março de 2021
Um dia gostava de saber escrever assim






