12.12.10

Regresso XIV / A Cena do Ódio (A Mário Viegas)





Eis senhores a gula,
a parte solta do peido da outra,
a mulher farta de poucos
costumes com que se sobe a rua
para depois descer a partir de
ventos que só nos
levam bocados do que
éramos antes de nos perdermos,
o perfume,
o adeus traduzido em tanta
coisa mas ao mesmo tempo
pouca com que nos vamos
dizendo adeus aos poucos
deste rame-rame das
metálicas maneiras de
escrever porcaria,
se somos o que provavelmente
a sermos,
dizemos amanhã o que agora
nunca conseguiríamos dizer
às costas das nossas mãos,...


eis senhores a vontade de comer,
o desnorte com que parecemos
nem ligar ao quarenta e dois de sonhos
que nos traz para casa depois
de outros microbiarem o poucochinho
de muito que a nossa mãe nos deixou
depois de afagar a cabeleira que já
cá não está para nos proteger,...


e agora deitado senhores,
resta-me só partir para melhor
expressar o que com isto aberto ficou,
a vida solta nos redondéis de coisas destas,
talvez sirva para palitar dentes gastos que
os soltinhos de espírito usam para
escapar aos desígnios da morte de todas
as cores,.....

Regresso XIII

-Não consigo escrever nada que interesse às pessoas.
Tão depressa o redigiu, e mal o fez embrulhou o papel em tantas vezes quantas uma raiva negra o ditou, e amarrou os pés com força suficiente para orar. Alienado das constantes solicitações de espíritos que pareciam enrolar-se em redor do único esforço que o prendia à vida, dedicou-se a ouvir o entrecurtado silêncio que o tempo faz quando contorna a facilidade com que a vida passa. Queria dizer qualquer coisa a quem o quisesse ouvir, mas a única coisa certa a sair era esta indefinição de narrador que punha termo a semanas de silêncio doloroso. Parecia ter nascido uma de somenos necessidade descritiva irrisória, e como tal dedicava-se a compartimentar o que observava em situações que fossem capazes de criar impacto. Ao fundo uma janela de ripas de madeira quebradiça, com três vidros embaciados sobrepostos, que a custo sustinham a chuva e o vento persistente que davam as boa vindas à noite. Tiritava de frio com a imaginária 'Luftwaffe' de pré-loucura que parecia querer arrancá-lo a esta persistente vontade de conter o silêncio.
Não iria parar.
De seguida a parede. Cinzenta, com focos esverdeados de bacilos que revelavam o desdém com que aquele sítio parecia ter renegado o batimento do coração necessário ao humanismo.
Não. Isto é tudo muito fraco para se continuar.... Talvez noutro dia.....

13.11.10

'Arrrrrrrrte'



Arregacei um pouco de pele no antebraço. O sangue queimava-me a alma. Apóstata do sofrimento, mesmo assim nunca me havia sentido refém de tanto desnorte inumano. Empalado em asfixia, o coração ditava-me como descrever ao vento o que ia sentindo. Limpei suores enfatizados que me contornavam a testa, até conseguir gritar com forças titânicas o que já não conseguia mais esconder.....
'Arrrrrrrrrrte'
Morto, sucumbia à pressão de ter sido refém da minha ânsia de impressão silenciosa no mundo.

12.11.10

A mulher que esteve quase,...e falhou


ela queria ser enviesada,
discutir com os cenários
efectivamente postos a nu
pelas pessoas,
passar enrolada pelos pingos de suor do
desconhecimento dos
enojados de si mesmos,
e ao fim daquele torto
caminho deparar-se
com o açucar de um carinho,
dizer à pessoa que a queria,
fazer-lhe ilusões pedidas ao ouvido com
falta de jeito,
e ao adormecer
escrever nos pulsos
as palavras mal
comportadas que a faziam chorar lágrimas
azuis desespero....

11.11.10

Tenho fome da fome



em morte julgo por parentesis as
sintomáticas indecisões
de ter fome,
a sós com a loucura
que nos sangra dos ouvidos,
é por bem que as formigas da loucura pairam nas migalhas
de desnorte à solta
por aqui,
faço placentas,
desenho loucos,
mas não passa,
aqui me desconjunto sozinho com a loucura
a ratar-me a indecisão....

Portugal tem de ser qualquer coisa de asseado



Dizer realça o escrever. Sublinha as descrenças. Enfatiza os pormenores. Descobre nos silêncios o que inviabilizado com o grito, parece mais destino do que realidade. E como a realidade descrita é sinónimo do que infelizmente a todos nos cabe hoje viver...
Homenagem a Mário Viegas....

5.11.10

Boatos


cortam-se curtos minutos-pedra nesta insofismável
perda de consideração,
somos perto da rotunda
os que desafiam,
e ao longe a desfazerem-se
conformismos em chamas
de choro,
ao fim a luta,
resgatam-se as prioridades...

4.11.10

Retalhar I


Destapada estava aquela pequena parte do coração que o vento trouxera ao entardecer. Era indecifrável a forma como as coisas se dispunham no chão, à beira de mais um passar de ano no bairro de todas as perdições. Havia um senhor esfericamente impreciso, que escrevia debruçado no degrau calcário da casa onde se aprestava a ganhar a eternidade. Adivinhavam-se grandes coisas de todo aquele silêncio que se permitia a si próprio, mas era o vento, o mesmo amparador da santidade indefinida daquela porção de coração, que o parecia desconcentrar. Mais à frente, um gato, ou o que parecia ser uma criatura carinhosa, acinzentada, e faminta, observava-o resfatelado silenciosamente em bocados de jornais das semanas que ali se foram desfazendo. Ali assim, perfeitamente balanceada no dispôr aparentamente caótico destas coisas, outra porção do passado de alguém pendia de um desnível na escadaria da igreja. Era uma carta, num papel amarelecido, só com um bocado de folha. Passando ao redor aparentava tranquilidade na forma como bailava à aragem, e nela o papel deixava entrever riscos certos e seguros de um punho que disse qualquer coisa, a qualquer pessoa. Afinal de contas, o sol já se pôs, e o homem continua a escrever. Quem observa podia fartar-se desta realidade. Mas narrar passa sempre por supôr. Encontrar pequenas concomitâncias na forma como o tempo corre devagar, para depois se lançar na montanha-russa das descrições sem sentido. Não parece ir a nenhum lado esta situação.

21.10.10

Novo poema no Singelo, assim do nada....

..., e está aqui

Semanticamente mal escrito e derivado de nada ter para dizer no momento....


Amanhecia, e Cristo pensava como remediar o mal dos homens sem que o mundo pudesse tombar, e esvaziar-se nas contradições irremediáveis em que parecia negar-se a si próprio. Acordou os apóstolos, um por um, beijou a testa suada dos que já considerava seus filhos, e fê-los sentar-se em semi-círculo. Queria recriar a noite nublada e desprovida de estrelas em que veio ao mundo. De pé, com as mãos fechadas em concha atrás das costas, e no mais puro dos silêncios, tentava escutar a respiração do tempo que passava. O céu abriu-se então a meio, e da mão que descendeu, uma encenação da morte da raça humana abriu-se em esplendor, e sobrevoou a reunião de desesperados que parecia suster o peso do planeta. Deu a cada um dos acocorados a respectiva função. A um pintar o destino das crianças. A outro, suspirar apenas pelas mortes anónimas que pareciam polvilhar os segundos que tardavam em passar. Assim sucessivamente, até que a Cristo nada foi atribuído. Simplesmente rezar para que todas as missões destinadas aos apóstolos continuassem a ser cumpridas em solo português, e assim decorressem sem sobressaltos.

19.10.10

Fome


na mão da fome mãe
o pequeno insofismável
crédito de quem o fez
chora,
pede colo do natural
enlevo da vida,
o carinho sem choros
colados ao rosto,
e a mão consola-lhe
a paz,
diz-lhe nada temas
fruto de constantes
guerras inconclusivas,
porque tu és o bom
do choro de todas
as terras deste universo,
de ti se fazem as faces
escuras e brancas,
amarelecidas pela dona
da morte e avermelhadas com os risos escritos nas
obras dos génios,
de ti florirão no perto
muitos poemas deste momento,
sem momentos a mais
a cena acaba com recortes do país que é
a madrasta dona destes
lamentos sem cor.....

16.10.10

Li

Acabei de ler um génio, e apetecia-me tanto aquelas pequenas coisas que transpiram nos cantos das ideias difusas que sempre me inundam nestes momentos. Não sou para já nada. Escrevo ao desbarato em rebordos do tempo, e sinto-me pouco mais que o espaço que já ocupei com divagações que espero ainda vir a escrever. Do génio dissecado ficaram as variações uníssonas de que as melhores ideias estão em desvarios. No 'até que a morte me leve' da velhinha que só recordamos. No 'sabe bem matarmo-nos aos poucos' do bêbedo maluco que de vez em quando ainda acizenta os nossos sonhos. E perco-me tanto no que não consigo alcançar destas certezas indissociáveis da incerteza de viver. Nunca me perguntaram se vivo para escrever, ou sequer se a minha vida tem linhas tortas que já alguma vez se tocaram. A minha folha branca enegrece com a influência sórdida de querer que rebente em sonhos multicolores. E aqui me acho querendo ser génio em pouco menos que duas dedadas de rotinas repetidas....

12.10.10

Regresso XII


se somos partes,
quais as suaves
evidências de mim,
um pedaço dissolvido
em pó de suspiros,
nesta inconstância de
querer com que o ar
envolva a carne que
os dias nos arrancam....

28.9.10

Regresso XI


Sempre fomos assim. Os mudos desta rua. Costumávamos sentir orgulho na união com que os minutos se desfaziam à nossa frente, quando concertadamente fazíamos tudo para que o tempo não saísse do círculo concêntrico de copos de gin que se esforçavam em acompanhar o ritmo frenético do póquer. O ar era cinzento, porque o queríamos. As coisas não eram coisas, mas sim insignificâncias, porque não fazia sentido qualquer outra coisa. E assim permanecia a lufa-lufa indiferente de tratar as frases que debitávamos pelos nomes opostos ao que elas aparentavam ter. Até que fomos passado. Aconteceu num fim de tarde diferente. Ligeiramente diferente do tique-taque insano do tempo que nada fazia. Faltou-nos a voz. Deixámos o amor, para ter a parcimónia como nota de rodapé da forma como nos gostávamos. Entre abraços chorámos sem lágrimas. Escrevemos poemas para que aqueles momentos se esgotassem e assim pudéssemos ir mais cedo para casa procurar abrigo nos quartos de chumbo onde nos consumíamos ao som de bêbedos melódicos que ainda eram quem nos mantinha vivos. Ficámos, na realidade, os mudos da rua. E assim foi o compromisso de nunca mais voltar a falar. Indecifravelmente incapazes de decidir por algo diferente, assim se fechou o pormenor que torna tudo isto assim tão incolor como a chuva que pinta de sem cores a rua que serve de cama à inocência morta de saber que a vida pesa, porque se desfaz em equívocos....

9.9.10

Multidões surdas


se os quais são
parte de toda a
ênfase,
menos de nós seremos
fruto silêncio dos restos
sobrados,
à margem de sons,
silêncios rostos da farta
ensurdecedora reeducação dos mortos
que estudam,
de somenos a soberba,
mais que todas as modéstias,
restadas fracções dos escolhos escritos
por desaparecidos
que sabiam saber
quase nada....

Condicionante


sorrisos professam o miúdo
solto na areia,
a noite assim se desprende da madrugada insubstituível
da chuva,
pessoais reflexões sobre a dor pertencem
ao passado da forma
em azul como o vento
traz choros de outros mundos,
feitos carne,
fracturados pedaços
de insólito medo
repousam à protecção
de querermos assim
tanta perfeição nos nossos passos,
sorridas exclamações as pessoas convalescem,
sorrisos honestos banham areias da praia
onde reflectir sobre dor,
é igual à princesa sem reino que a chuva deixa morrer sem apelo....

3.9.10

'a injustiça é uma mulher ingrata'


há surdas coisas amarelecidas pelo vai-vem
descontrolado do velho
que segura o tempo,
enrolam-se pequenas distrofias mal explicadas,
conseguidas apenas
com o azular do amanhecer que se
impõe nas esquinas poeirentas destes países
que saem à rua na aldeia,
queremos revoluções,
pintam-se paredes pedindo
evoluires fáceis de digerir e
com pão na mesa para todos,
há o falar fácil do velho
jovem que cativa os descontentes,
'a injustiça é uma mulher ingrata',
gritado dá para que se aplauda
à espera que a chuva comece a embalar a terra que já
nem chorar consegue.....

31.8.10

Alguma coisa para fechar o mês....


soletradas são todas
as frestas da rua
dos bêbedos,
desnorteados,
impressionáveis por
menos que um abraço de
equívocos mal desenhados,
e com isto
repito que se
menor sou,
poucochinho
continuarei para sempre....

22.8.10

desnutridos e calvos precoces


quero mais que fogos amordaçados,
deixo presente a interrogação do
que o insuficiente dos dias me
faz à capacidade escassa de desenhar
planos alternativos,
sonhos de praça,
pesadelos de avenida,
rio-me sem saber da
cidade que tenho a
escorrer da ponta dos dedos
repletos de anátemas e pústulas
cheirosas,
reflexão finda, que
se siga a explicação
desta infinda redacção
aos desnutridos e
calvos precoces....


20.8.10

Solidão de cristal


ainda a tua morte naquela parede,
adormeço com o som descrente do fado de sempre,
o homem que perdeu a infância na sujidade do
copo de vinho de todos
os velhos que conheceu,
guardo-te no tremelicar da perna que não mato,
e na face oculta do sorriso que nunca mais
pintei,
lá fora uma cidade tenta
matar-me comigo a deixar,
tem sido lento este
processo do ar a sumir-se com uma
lentidão mais torturante que
a bala que nunca
mais me visita,
se quero chorar, rio,
se o riso me visita ignoro-o,
não me levas assustadoramente parvo deste
desenrolar de minutos que não leva a lado nenhum,
bastam-me surpresas impossíveis quando
o dia lá fora desdobrar o horizonte para reaparecer,
nunca pedi muito mais
que o pouco que sei poder almejar,
só não quero a solidão de aqui estar a pintar
no invisível....

Ordinariamente simples


farto do amorzinho pouco
e descabelado, digo a
torto e sem direito
farto,...

desníveis a
saltar para me esconder,
hajam rodas para
esconder as crianças
do verbo foder,..

o zezinho a maria,
os pares de dedos
do trolha espúria,
a micção mal-cheirosa
da senhora,
tudo faz parte da
recolha,...

sim é lixo para a ramona,
três da manhã ninguém ressona,
tudo farto do mundo
de peidinhos vaginais,
de soltas risadas
frugais,...

tudo quer porrada,
toca mal o rapazinho
na estrada,
o que a rir espera da
vida sonhos,
coisas que só terá em
merda e vómitos risonhos,....

não,
já me fartei disto,
nem já de petisco
quero a oração,
só mesmo sopas
e repouso,
como cristo....

11.8.10

Tímidas concepções masculinas sobre as mulheres


sonhadas formas de mulher presas naquele caminho,
soltam-se as pontas do mundo em redor da ineficiência dos rebordos
irregulares deste quadro feito a cores mortiças,...

incapaz pois de atrair os homens a mais
que morrer em redor de ideias transparentes,
a rotação dos dias continua assim com
um odor endoidecido a
traições permanentes
e já descritas no sobre
facto exagerado das
descrições com
que as crianças
costumam ser verdadeiras e dignas de confiança,...

no intervalo deste não sentido continuam a
desenhar-se mais frases ímpias que justificam
a faceta destruidora
do homem....

Pronto facto


"fazes som da quieta incompreensão daquele minuto que esvaiu todo um tempo de soluções mudas"

9.8.10

Sentia-se Maria


Sentia-se Maria. Não o fruto da indecisão dos pós da criação, mas o amor. O passar métrico dos segundos com tudo no sítio em precisão diíficl de descrever. Maria nos gestos, nas indecisões, até nas lágrimas que fecundam a terra em dias secos e de morte pintada nas esquinas. Somei-me naquele dia aos 'bonita', e aos 'fazia-te um filho', que de tão indecentes soavam mudos. Chamei-me deprimido. Calmo bocado da rotina que mata aos poucos. Mas fi-lo à minha maneira. A mão tapava-me a boca nervosa, porque sentia a minha voz de barreiras, não de contactos. Respondeu-me sem responder. Com passo ante passo, nervosamente à procura de um destino que se desfazia no respirar nervoso que se sobrepunha ao correr do sangue da cidade. Insisti. Queria a vida, disse. Arrisquei um toque. Dobrou-se sobre si. Temi pelo desnorte. Mas não. Foi do imobilismo que nasceu o suspiro. Murmurou dor. Percebi que já não queria ao outro, mas só ao que não se vê, mas só dói. Atraiu-me o enliar do vento por sobre o labirinto dos cabelos negros. Pareceu-me ter ouvido um quero-te, choroso e frio. Mas sem olhar. Só lamentos de tudo. Sem palavras, desnorteava por entre gestos subtilmente descontrolados. Olhares humedecidos por um arrependimento que queria morrer, mas parecia imortal.
Caminhámos. Sentia a terra por baixo dos pés a dizer-me o indecifrável. Desaguei com um rio de silêncios junto ao mar. Foi onde me sentia melhor que a minha pele se envenenou com uma sedosa declaração de amor. Humedecidos momentos de atrevimento traduziram-se num beijo. O pôr-do-sol abraçava o que parecíamos querer do resto da vida.

Político cumpridor


pesados nãos que
nobre feito da minha
burguesia desconjuro
nesta noite,
sou frase,
ditongo anasalado
de choro,
não me peçam
ordens,
nem sujeitos oradores,
só revisões dos conceitos mortos da
ideologia que já espremeu velhos
idiotas,
ordeno que me
fuzilem no cheiro
fétido a falhanço,
falhei povos,
desprezei líderes,
perto da sombra que
deixo como legado,
nem a morte
encontra banhos
de fé,
a sumir de tudo isto,
fim neste testamento
das ideias ácidas
de nada fazer....

8.8.10

Texto #93

Não serei por eles mais que o som. Os que cá ficaram, nada me dizem. Os que partiram, deixaram a memória. Foram como árvores a cair mesmo que ninguém as tenha ouvido. Ficou um peito cicatrizado e em chaga como o que carrego até o último suspiro mo tirar. Vi tudo quando a transformação era ainda simples. O vento soprava sempre do mesmo sítio. As coisas deformavam-se à medida que o homem as abandonava. E as pessoas conseguiam ser felizes pensando que dão à luz outras pessoas que também querem vir a achar esta passagem como uma experiência que valeu a pena. Tudo mudou quando o mundo pareceu abraçar a sombra. Deixei de ser o social, e sou agora o anti qualquer coisa a mais que eu e os meus. Desgosto de dizer que o futuro somos nós todos. E andar a evitar as gotas de chuva ácida que o céu teima em tombar sobre nós faz de mim uma invisível sombra do que fui.
E foi como conheci quem tentei sempre ser. Um dia contornava a mesma rua, evitando os olhos de morte do aglomerado indiferente de arrotos estridentes, quando me deparei com a certeza de que era eu que pairava assim, ao som do bailar de uma flor morta.Foi o som a despertar sons, e depois a trazer lágrimas de emoção, e no fim a deixar-me incrédulo no que não conseguia perceber. O belo nunca tinha sido tão imprescindível. O feio perdia cores. As certezas do fim, irremediavelmente travestiam-se de raios incólumes de luz do bem.
Sentei-me a escrever o que sentia na ardósia dura do alcatrão, para sair a reflexão mais dura de sempre sobre o que os homens querem do futuro.

Normal abrasivo


estou tonto,
sinto o mundo torto,
as coisas empalidecem,
nada se faz como
a parte do todo
deseja,
sou plano,
perdi as saliências,
a braços de mim
resta o desejo de
acabar,
e ficam pontos,
desnortes simples
impossíveis de realizar,
de tornar improvável
a vontade concisa
de que o normal
regresse transparente,
...e abrasivo....

6.8.10

Cumprimenta-me


Não me cumprimentes com sacrifício. Passa por mim e com pancadinhas secas nas costas, desfaz a situação idónea que criámos com toda esta formalidade. Eu tirei-me todo da manhã. Sou uma pessoa fria, com idênticas proporções de desdém por tudo o que mexe mais que a conta. Tu és fraternidade consubstanciada em dois olhos que se interrogam com a prática difusa de questionar que tornou o homem no verme antropofórmico que é. Não se escrevem coisas como as nossas. Só mesmo a dizer é que as pessoas acreditam que há gente inocente o suficiente para acreditar nos sons inconsequentes que a rotina retira de presenças como as nossas.

Afinal ainda há ideias...


se inventasse um poema,
as arestas douradas
desvanecer-se-iam em pó
sem cor,
dos limites um castro,
onde homens raquíticos
e com falta de senso de
racionalidade se digladiavam por
dois beijos de sol
moribundo,
ao entoar o que
se percebe por aproximação,
chegava a luz,
e o poema acabava.....

3.8.10

Ainda sem ideias....


Não sai nada. Não há mundos satisfatoriamente interessantes para descrever. Nem sonhos disformes que me agradem. Nada. Só branco. Pretos desinteressantes e pouco cativantes. E cores falsas por defeito. Preocupa-me a falta de espontaneidade que advém de tudo isto...

16.7.10

Choro suficiente para perto das coisas más.....


nexo farto de todos nós,
sobe mete carne vã,
presa torna à luz da esperança,
vácuos soltos,
inéditos prazos
de choro,
levantei-me de
si coisa escura,
a luz penteava
a lágrima opaca,
cego torno,
de luz amarela,
braço de fogo,
corpo de sal.....

14.7.10

Sem título (13)


dou a culpa às estrelas,
mas uma coisa
mesmo
de censurar,
de lhes dizer
tudo porque não
dizer nada dá
borbulhas de
arrependimento,
e quero fazer-lhes mal,
e dizer que sou ruim,
e dar o dito por não
dito quanto ao antecipar
de um futuro eterno no céu,
e enrolar todas as
doenças insuficientes
numa bola e atirá-las lá
para cima até
tudo rebentar
num orgasmo
de fumo de todas as cores,

mas,

não sei se terei coragem,
afinal de contas nem
o etéreo e sem cheiro
sei descrever....

13.7.10

...nada saber porque assim o desejo


estas são pequenas coisas,
deslindes próprios das situações que ficam
por resolver nos dias
de sol escondido nas
dúvidas,
escrevo-as na palma da
mão ao lusco-fusco,
depois com toda a força
que a ignorância me permite sopro,
e tudo se desvanece
no voo solto do que
almejei para este momento,
soluções,
factos consumados,
segundos milimetricamente dispostos
em círculo para me fazerem sentir bem,
de tudo abdico para ficar solitariamente a planear
acabar com este sentimento de malha fina que
é o nada saber porque assim o desejo.....

10.7.10

Regresso X

Pedido escuro. Coisas sem sentido ofertadas de mão estendida, com objectivos indefinidos. Gosto da sala. Dá-te aquele estrangulamento indefinido, que explicas com recuos e avanços se não aprecias o ar de com quem falas. É um pedido escuro. Apoiam o desejo que tens de ganhar o mundo. De deixar tudo bem desenhado com a insatisfação com que acordaste, e que foi construindo dentro de ti castelos assustadoramente cinzentos. E agora querem-te rei. Mas monarca das coisas invisíveis. Quase como se governasses para mortos que só já esperam o desfazer de tudo enquanto os olhos se fecham para sempre. Mas há também o renascer da alegria. O sol que não sai do rasgo do horizonte pouco mais que um tímido sorriso, mas que está lá. Que já aquece o que frio está.....

6.7.10

Regresso IX


Cá me espero no dia
Encoberto das raivas,
Distendido por sobre
A amarela incandescência
Dos dizeres que nada fazem,...

Sou amanhecer,
Não sou ninguém,
Decano dos que
Sonhando perfazem
Cem maneiras de
Razões soltas
De inspiração,...

Feito caule,
Nada de árvores,
Somos folhas
Os que aqui resumem
Pintos mortos,...

Sonhos pardos,
Mulheres tortas,
Escrito isto nada
Dá,
Só mar
Desnorte total
No pó que
Se come às
Mãos cheias,...

Para no fim
Vir o fim,
E dizer dos princípios,
Coisas intragáveis
E desnorteadas
De se dizerem,
De um só trago....

17.6.10

Texto #94

Do mal as coisas de perto. A lassidão do vento que nos toma os medos, e pinta a pele com antecipada frustração pelo amanhã. A futura devassa. Os sorrisos que pelos choros transformam o tempo em coisas poucas que roem o impenetrável. É a conversa que nos vai mantendo. A recitar poetas malditos e sem heranças. Escrevendo em cantos de páginas rimas indecifráveis que nada dizem quando fraccionadas. Desmandos contínuos. Afãs ardentes e sem sentido. Nada...

15.6.10

Fado agudo do tímido acabrunhado...


Dado faço ao que laço
na estroina confabulação,
partir de cá,
sol no alto,
convido a tarde
no regaço,
e o homem
da partição,
vejo destes
que têm graça,
deixo-os no pouco
que muito sentido,
para no fim
calmo ficar,
com a luz da
inibição....

13.6.10

Entranho-me nas terras aos poucos....


a ver se sei saber-te no
fino envolvimento que me sufoca,
no anotamento dos dias que assim passam,
o ar diminui-se-me conforme as sombras
da dor,
ao lado de mim,
estou eu triste com tantos tus que se diluem,
e assim morto aos bocadinhos,
deitado na brancura dos
adeus até sempre,
feliz me vou com o calor
da música disto que
invento para o tempo
não me abraçar até
não largar....

12.6.10

Pensei isto,e.....

Esta brincadeira da escrita começou como uma necessidade de afirmação, e agora é quase um mundo paralelo. Serve para que me desprenda do que tenho. Que sinta o que provavelmente nunca virei a ter. Acima de tudo, não sei o que procuro com tudo isto. Deveria querer afastar-me da escrita quando saio do trabalho, diariamente. Tudo isto é repetitivo. A técnica é sempre a mesma. Há considerandos que julgam a escrita como uma actividade menor.
Mas, não obstante tudo isto, e a julgar que tudo o que relatei é digno de crédito, não consigo desprender-me de nada. Existem sempre pequenas coisas que me prendem à ficção.
À poesia.
O ler um trecho curto, mas tão intrinsecamente diferente que me leva a querer fazer melhor.
A necessidade de ficção que a minha existência sempre teve.
Na escrita as coisas são simplesmente diferentes de tudo o que a realidade nos dá no quotidiano.
As pessoas não são assim tão lineares. Os conceitos são moldáveis, e nunca imutáveis. O tempo é só um acessório de criação, e nunca o maior assassino da própria existência humana.
Escrever é tantas coisas somadas que conduzem sempre ao destino seguro que é o regresso a ela. Um segundo pode ser maior que quatro mil milhões de anos de existência da vida. E a morte não tem necessariamente de ser o fim deste jogo da criação.
Juntar palavras é bacoco. Mas é sublime. As paredes são sempre maleáveis no fim de se absorver um texto bem escrito. Há um rei que não manda, e súbditos que matam ao Deus dará. E há sonhadores. Miúdos, velhos, discípulos do mal e do bem que trocam de papéis na mesma proporção em que não têm quaisquer papéis definidos na vida. É de facto o último limiar da liberdade humana. Não sei como consigo resumir melhor o que sinto pela escrita.
Talvez só deixando de escrever......

11.6.10

Transpirado de morte


A morte era o espaço entre as calçadas. As veias da rua que pulsavam na violência do vento capaz de conversar, e descrever ao mesmo tempo. Sentou-se de cócoras à espera do dia, e enquanto rezava, as pessoas passavam despercebidas em busca de vida nos finos cabelos de sol que pareciam descer do horizonte.
Eram rezas o que chorava. Soletrava desejos poucos e infindos de vingança. Dizia-se acomodada ao tempo, e ao que o tempo na sua lonjura deixava nos intervalos dos dedos que a chamavam disso. De morte.
Em dois solavancos a rotina desprendeu-se do que ninguém parecia ver, e as coisas acabaram. Uma mulher reergueu-se da poeira, mimetizando uma criança que pela mão a acompanhava no meio de latidos de cães felizes.

9.6.10

Poema de mãe para pai que aprende a sê-lo


lembro-me da minha mãe
a dizer que o intervalo entre
o espaço e o tempo
estava na covinha linda
que eu conseguia fazer com as minhas mãos,
deu-me um abraço aconchegante,
afagou-me os cabelos,
e depois deixámo-nos
ambos no amor insuflado
da chuva que caía,
senti-me sentido entre
os minutos que pareciam
cantar,
e ela disse-me o mundo,
e explicou-me sonhos
que queria para mim,
esforcei-me por entender,
transfigurei-me em tantos olhos ao mesmo
tempo,
naquele par de pupilas
que achou o amor em
resquícios de folhas
queimadas no prado
a perder de vista,
no que chorando achou
melhor deixar a existência progredir em versos que nem sequer entendia,
e até nos que por aqui
passam sem que ninguém repare neles,
fui feliz quando tão pouco parecia existir para que não o fosse,...

e hoje o abraço,
e o sorriso da inocência,
e o amor das pequenas
coisas que parecendo sem sentido,
conseguem mover o mundo,
e eu que me acho tão
pouco para fazer o
que antes observei....

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