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quarta-feira, 11 de outubro de 2023

crimes, por cima de crimes

 


há riscos no chão,
na parede,
vento desossado que diz
de sua justiça,
num quarto vazio e esvaziado,...

não há mais princípios esventrados,
só crimes,
por cima de crimes,
sangue a prová-lo,
que conversa como a verdade,
no meio do particípio passado do engano

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Sexual homicídio

mais qualquer coisa,
desejo amarrado assim
 faz-nos mal,
sufoca o princípio 
indivisível do prazer,
diz aos dias para 
passarem em alvoroço,
pingando de sangue 
o sono irrequieto depois do sexo,...

e se quiser ser o 
teu homicida,
nada disto fará 
sentido,
porque eu vou 
arrancar a minha pele 
aos triângulos,
com a tua pele 
esfolada ao prazer 
que provier do cheiro 
a semen nesse quarto,
e sair para nunca mais voltar,...

ficarás a apodrecer 
para húmus,
sem que ninguém 
mais te valha 


domingo, 16 de dezembro de 2018

Innuendo

habituei-me a ver as pessoas a
 sorrir devagar, 
quase como se um 
pombo moribundo 
levantasse delas,
asperamente,
deixando-as sem 
consciência a pensar 
num espaço sem tempo,
dentro do saco rasgado 
que é a vida à míngua 
de expetativas,...

ao longo desta 
estrada,
recordo-me 
especialmente 
dos sorrisos 
que assim se perdiam,
dos limites 
ultrapassados 
sem nenhuma explicação,
apenas para que,
e já que falamos 
de sorrisos, 
agora os veja a 
regressar,
procurando a 
morte onde 
mais ninguém 
a encontra 





terça-feira, 27 de novembro de 2018

Mais uma coisa com cigarros de terra

diz-me que sabes escrever
as pedras,
e por pedras entendo os
chamados rendilhados do
tempo sem uso,
e diz-me que das pedras farás
amores-perfeitos,
daqueles capazes de se dormir em cima,
e dos amores-perfeitos morrerão
pulmões corroídos por cancros,
e dos cancros nascerão crianças,
e das crianças sairão frustrados,
incapazes sem roupa,
e que andam nus pela casa a
desfiar o cordão da vida,
até ele acabar,...

e quando já se te acabarem os pés,
diz-me que preferes ser analfabeto,
e que da felicidade que daí surgir farás
flores de papel,
para distribuir aos indecisos,
que sorvem indecisões em
vez de se contentarem com
copos de água envenenada,
e para terminar com redondéis
como estes,
sem nome,
e que fumam todos os cigarros
de terra do mundo,
diz-me que já sabes escrever outra vez,....

eu vou fingir que nunca te conheci,
para ser melhor assim


segunda-feira, 10 de setembro de 2018

há lugares

há lugares em que de
ser nada existe para
lá do som,
o mal tem palavras
 gastas,
verbos de cão morto
e gato que cheira as
velhas que estão a ir,
como se interessassem
 pratos de sopa de doença,
risos ocos e um não
 saber o que cá se anda a fazer,..

há lugares onde
a rudeza não diz
boa noite,
precisando do fim
como um naco de pão para ferrar
 dentes ensanguentados,
e calamo-nos com
 o vazio

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Reflexões sobre a morte

quem disse que os poemas têm de fazer sentido?,
a vida também não faz sentido,
nem a forma como nos despedimos dela,
nem sequer ter de beber o ar como 
água faz sentido,...

os poemas existem para fazer de nós seres que caminham
sem peso,
e se desfazem do que a pele nos diz para desfazer
quando dói cá dentro,..

nunca encontrarei sentido nos poemas,
porque sou a pessoa que menos sentido faz no que
escreve,
detesto tudo o que se perceba com um sorriso nos lábios,
e com toda a felicidade que só o egoísmo nos pode trazer,.

ah,
e detesto ter de parecer triste quando quero
mesmo é dizer mal de tudo e de todos,
porque quem nasceu para se ter só a si próprio,
não tem de achar sentido nos poemas,...

aliás,
que se lixem os poemas e toda
a hipocrisia que eles trazem embrulhados

Descansa em paz, tio....

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Tirado daqui

quinta-feira, 24 de maio de 2018

eu tanásia

aquela coisa de subir e descer as costelas para seguir em frente,
com os espelhos a gastarem a luz da existência,
devolvendo buracos negros,...

a sentir segundos como espinhos
alegrias ratadas à porta do esgoto,
para o repente parafrasear o fim,...

achou a tangente da coragem,
e acabou,...
——————————————

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Poema em prosa de não querer

não me sentes mais que uma crosta purulenta, vírus de morte nas pernas sem destino, e sem sorte, isto cheira à fuga amarelenta ao resquício dos dias, odeio a massa destes minutos que me ensinaste a comer como pão sem sabor, destino dos que morrem de fome quando têm o que comer, e sentem livros de vidro de não saber ler o que as entrelinhas matam ainda antes de nascer, levado ao extremo de um solo estéril, serei a secura do vento pútrido que nos beijou quando ainda éramos um só, deixando a infeção do querer fugir, dos subreptícios desmentidos em verso,...

findos o que os barcos embatem na doca do dealbar dos dias, amontoam-se as desilusões que mesmo assim pintam sem cor este continuar

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Tirado daqui


quinta-feira, 1 de março de 2018

Vagamente inspirado numa crónica de rádio

Sobreviveu a um nascer sem história,
Escreveu inocência com transparência,
Respirares sem conta e
Sem ninguém a reparar,...

Passou intacta ao que se chama de coração retalhado,
Sozinha caminhou escrevendo na
Pele martírio,...

Sobreviveu ao holocausto do desprezo,
Com o esbranquiçar da vida
A tolher a esperança do imortal,..

E quando já só esperava o fim,
Salvou uma vida quase escrita
Com os mesmos versos,
E fê-lo só com o amparar de uma mão,...

Fim ...


sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Solidão de cristal


ainda a tua morte naquela parede,
adormeço com o som descrente do fado de sempre,
o homem que perdeu a infância na sujidade do
copo de vinho de todos
os velhos que conheceu,
guardo-te no tremelicar da perna que não mato,
e na face oculta do sorriso que nunca mais
pintei,
lá fora uma cidade tenta
matar-me comigo a deixar,
tem sido lento este
processo do ar a sumir-se com uma
lentidão mais torturante que
a bala que nunca
mais me visita,
se quero chorar, rio,
se o riso me visita ignoro-o,
não me levas assustadoramente parvo deste
desenrolar de minutos que não leva a lado nenhum,
bastam-me surpresas impossíveis quando
o dia lá fora desdobrar o horizonte para reaparecer,
nunca pedi muito mais
que o pouco que sei poder almejar,
só não quero a solidão de aqui estar a pintar
no invisível....

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Transpirado de morte


A morte era o espaço entre as calçadas. As veias da rua que pulsavam na violência do vento capaz de conversar, e descrever ao mesmo tempo. Sentou-se de cócoras à espera do dia, e enquanto rezava, as pessoas passavam despercebidas em busca de vida nos finos cabelos de sol que pareciam descer do horizonte.
Eram rezas o que chorava. Soletrava desejos poucos e infindos de vingança. Dizia-se acomodada ao tempo, e ao que o tempo na sua lonjura deixava nos intervalos dos dedos que a chamavam disso. De morte.
Em dois solavancos a rotina desprendeu-se do que ninguém parecia ver, e as coisas acabaram. Uma mulher reergueu-se da poeira, mimetizando uma criança que pela mão a acompanhava no meio de latidos de cães felizes.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Orgasmos verdes

Plasma-me,

Três fortes
subtilmente descritas,
impressões
de morte,

cheiros soltos,

cão azul,
esgana,
fácil pintura,

de sonho,
acordado,

com a possível
erradicação,

de tirar pesadelos
da pestana preta
do último suspiro....

domingo, 4 de janeiro de 2009

Confissão com propósito adiado

Marido - Apetece-me morrer bem.
Mulher - Já pensaste que isso é complicado, sem roupa nova.
Marido - Talvez. Mas já almocei. Comi bacalhau com grão.
Mulher - E de que esperas morrer?
Marido - De solidão. Tenho o coração a modos que a rachar.
Mulher - ....
Marido - Dizem que não dói. Sente-se só uma azia.
Mulher - Olha, vai começar as tardes da Júlia.
Marido - Vou à casa de banho. Se não voltar dentro de meia-hora, chama o cangalheiro.
Mulher - Levas revista?
Marido - Sim. O livro de cheques.
Mulher -....
Marido - Não contes com doações. Vou só rasgar as provas de que um dia fui pessoa.
Mulher - E lembras-te de que amanhã é feriado??
Marido -....
Mulher - Tenho as visitas do dominó. Não quero a casa a cheirar mal.
Marido - Talvez morra só depois de amanhã.
Mulher - Vai lá cagar. Não te quero com gases....
Marido - .....

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Morte enpacotada

Esgravata-se tanto, que a terra chega a ser um laivo de poesia feita de lambadas. Os torrões do tal desmentido de vida cravam pus nas feridas inanimadas. O sopro de tal consequência, desfaz pruridos de inevitabilidades alcançadas quando o respirar dói, mas também faz feliz o simples arfar de perceber como o tempo perspassa a tarefa árdua de estar aqui.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Testamento


Desculpou-se com frutos próprios. Coisinhas, coisonas, e ao mesmo tempo nada. Restos de pouca coisa, que tolhem movimentos. Paralítico sol desconcertava. Calma, mas tanta calma, que as paredes pediam socorro para conseguirem passar sem matar a própria essência da vida afastada.Estava ali para perecer lentamente. Não queria morrer, mas os olhos enganavam quem se empobrecia a ver.
Pediam cinzel, porque já se tinha visto mármore menos mortiça. Os braços seriam de carne, porque a morte já se tinha ido embora menos consolada com tão pouca solução de água decomposta. O sorriso, nada. Mancha preta só. Nem tingimento de cor. Cadeira foi o próprio pó que a terra lhe pedia de demasia, e o testamento só um pedido: curiosidade. Dizer ao alegre que plante uma flor de seriedade junto dos que mais gosta. Pedir ao triste que simplesmente não morra. Arraste-se até que o mundo assegure que já não preciso mais dele. E esforçados da vida. Unam-se em tons de pesada diversidade. Os blocos só são invencíveis quando o um, manda mais que a soma de todos os uns descontentes.

sábado, 10 de maio de 2008

Delfina



Menina Rabina,
Flausina que se trata bem,
Chamam-lhe Delfina,
Tem a chita como refém,...

A saber como vestido,
Bafiento sinal verruguento,
Delfina assume latido,
Ao regurgitar placas de unguento,

Traz-te ao vento, Delfina,
Deixa-te bamba de convicções,
Porque se cospes morfina,
Engoles extensas contracções,...

Vi menina, coxeando mulher,
No outro dia que deturpava a noite,
Agarrava a sombra de uma colher,
Apêndice que chorava levou açoite,...

Delfina de vento falada,
Sombra de mulher na pernoita,
Quis-te à morte ralada,
Quando ela já tinha sido afoita,.....

segunda-feira, 31 de março de 2008

Cancro em torrente de pensamentos


O cancro, eu vejo-o como um golfinho azul. Sentado à beira de um rio de constâncias metálicas, observo-o a pular. Escapule-se às ondas entristecidas, e ri. Salta como se procurasse agarrar porções de ar claudicado. Gases que se cansaram de vida, e querem agora molhar os beiços à morte. Que desejam perscrutar um sentimento flutuante, como a leveza de espírito. O golfinho azul toca. Desfaz pequenas correntes que ligam quem o observa ao radicalismo de uma vida de balões esvaziados. Odeio metamorfoses de monstros. Sei-o, de uma forma conflituosa, que dentro do golfinho azul está.... Está o que nunca quis imaginar. Assombros de pesadelos magnéticos, que deixam marcas no corpo e na alma quando o sol nasce. Gemidos de crianças que acordam, e em vez de braços abertos em ondas de amor, são esbofeteadas pela escuridão madrasta. São quase horas de abdicar de tudo. Mas antes de um final de encadeamentos, uma tirada de completa clarividência..... Amo a vida... Espero que ela se apaixone, sem remissões, também por mim....