Tentei
abrir a porta. Havia um refúgio de dor aos pés de quem por ali passava. O chão
parecia pesado. O ar irrespirável. Adoeciam as expetativas de sonho, só porque
a entrada naquele mundo insistia em ser proibida. Avisaram-me. Releram-me
resenhas de pessoas sem nome, sem decisões, que por ali passaram e perpetuaram
o anonimato. A razão infundada de estarem vivos. E, aos poucos, de forma
indolor mas rasurada, foram perdendo a vida. Insistia ir ali. Admito. Falei-te,
num entardecer que já recordo mal, que adivinhava um mundo importante,
incorpóreo talvez, para lá daquela porta. Com pobres ensurdecidos, pessoas
sérias e com histórias para contar, sentadas de olhos vazios, mas ainda assim
alegres, em bancos de outros tempos, feitos a madeira esculpida. E desejava que
estivesses comigo. Íamos de certeza arranjar forma de contornar barreiras
linguísticas, e entrar noutros mundos de mão dada. Mas a porta não abria.
Caminhei sem destino, e ainda dentro daquele prédio espreitei por uma janela.
Na rua, um pregador que não conseguia escutar acenava, empoleirado e em bicos
de pés, para os confins do céu acinzentado. Ninguém parecia reparar nele….
livros, qualquer coisa de tricotado nas mãos, e a dor, e o riso, e a conspicua mudança de um desejo,...
livros ensombrados pelo desejo, com uma cama velha e instável, onde dois corpos a dizer que são a cave, a defesa dos destinos de ambos com anulação possível, porque a noite trai mais do que permite redenção,...
livros como tampas de esgoto nas noites de solidão, que batem de quando em vez com um som molhado, assoberbado pela passagem daquele carro que faz de árvore a cair na floresta,...
livros sem cor, sem pulmão, velhos como a transparência