setembro 30, 2018

Enfado da escrita

já não sei se sei escrever,
detesto folhas brancas encravadas 
em metáforas lavadas,
só para cheirarem bem 
deixando o sol por trás 
de inseguranças efeminadas,...

isto soa tudo a falso,
querer ter livros para 
servir 
de incómodos a uma 
meretriz,
encravada na garganta,
e que só canta notas 
de flauta para retratos 
de família,...

se calhar,
mais vale o mundo
 ficar como está,
cómodo,
cheio de 
logo compros 
para saber se é bom



setembro 29, 2018

Do sono à razão

Andava sempre com sono. Achava que as pessoas lhe olhavam para os olhos, quase como se fossem o remendo do fundilho de um par de calças: cosido com linha grossa, de um branco sujo, suficiente para criar uma porta destinada a esconder um mundo, de outro. Até nem a roupa que vestia lhe tirava a vontade de semicerrar as pálpebras, enquanto sentia o cérebro a desligar-se, parte por parte, lâmpada a lâmpada, até ser em escuridão que se davam as ordens nas sinapses cerebrais, suficientes para manter o resto do corpo agarrado à vida.
Um dia experimentou sair à rua vestido só com uma gabardine cinzenta, para a chuva. Chegava-lhe às canelas, e tinha umas golas em bico, que levantava para ter o anonimato possível. Andou por duas ou três ruas circundantes, sentindo o vento dos acordares da manhã no rosto, acariciando-lhe o cabelo fino de uma forma quase impositiva. Sexual mesmo. Por momentos sentiu-se amaldiçoado. Não gostava de ter sono. De deixar escapar a vida por entre os dedos, só porque sentia um entorpecimento quase assassino, capaz de fazer resumir os dias a passagens benfazejas de um livro para crianças, de final previsível. 
Regressou a casa a tempo de ver o pôr do sol. Sentou-se numa cadeira antiga, de mogno, com encosto de cabeça. Preparou um chá, o que só por si parecia contraditório, já que a última coisa que queria era intensificar a calmaria habitual que sempre o rodeava. Mas, estranhamente, sentiu que ver um final de dia lhe mudou as perspetivas de vida . Achou-se induzido em erro por opções mal feitas, durante anos a fio, e que talvez o estivessem a afastar do âmago do passar dos dias. 
Resolveu passar a deitar-se só o tempo suficiente para ter vontade de se erguer de novo. Recomeçou a escrever, e já espera pelo dia em que vá conseguir editar um livro de razoabilidade aceitável. Falta é ter uma ideia...

setembro 28, 2018

Armagedão de bairro

seriam as juras as mesmas que
se desprendiam da parede,
num quarto pintado de estrelas,...

residia ali o fim dos tempos,
a altura em que cada um se aninhava
em casulos,
absorvendo-se no contínuo a tracejado
do espaço,...

enquanto lá fora pequenos barcos eram
remados para fora da desilusão,
aguardava-se apenas pelo assinar das almas,
para que explodisse o fim,
e se desligasse a luz


setembro 27, 2018

O nosso nome 4 posições acima do Nuno Júdice

Ah, é por causa da ordem alfabética!!!



Não esperavam de ti o silêncio

dizias verdades,
para mais as coisas não esperavam de ti o silêncio,...

só que,
ao arredondar as expetativas das pessoas,
fosses o reto do espaço a adaptar-se ao amor,...

meninos sem sono,
com pai e mãe,
mas sem afeto
vestido de noite estrelada,
de tudo as coisas
faziam para vir ao
teu encontro,...

planeando o soro das palavras
 para dar vida à roupa invisível de mãos suaves,
deixando cair sofismas aprimorados,
para eu os recolher e não conseguir
 parar de escrever,...

as mesmas coisas sem sentido
que de ti só queriam som,
um filosofar cantado aos sete ventos,
para dele nascer todos os sentires bem,
os ardo no teu desejo,
o tesão desenhado na parede
quando uma madrugada
nos compra a vontade de eternidade,
selando-a com um de
muitos sonos fundidos num só corpo,
de pós-sexo,...

se te disser amo-te,
agora,
as coisas vão continuar sem
 esperar de ti o silêncio,
e o mar entrará pelos espaços
pantanosos deste
desnível de palavras,
afastando-me do que
tens escrito para os milhões
de eus à solta por aí 

setembro 26, 2018

De duas vezes para não saber escrever

se não me fizeres a página escrita,
nem duas razões para um verbo,
o dia acaba ensombrado,
insuficiente,
com um verso,..

de várias nuvens num sintagma,
e aos poucos pelo silêncio,
qualquer fruto do léxico,
de gomos fartos,
desmazelados,...

e a acabar com o analfabeto,
feliz com o rabisco sábio,
anoitecia no menor,
e distante contente facto


setembro 25, 2018

Poema de Abrir os olhos até ao branco

as correntes de pensamento 
enleavam-se sem que se 
esperassem noções de positivismo,
eram só um marxista 
desiludido com a sociedade 
que se consome a ela própria,
um kantiano a admitir 
que o primado da razão 
não existe, 
e um simples reformado 
que tinha enviuvado há dias,...

o momento da história 
não interessava,
e era um país triste,
à espera do devir 
do momento vivido,...

concluiu-se,
pela quantidade 
de nuvens disformes 
no céu,
que as coisas nunca 
têm uma razão de ser,
e só se desenham a elas
 mesmas à espera que a 
evolução humana as apague,
substituindo-as pela 
certeza do fim,...

sentado debaixo da 
luz fosca de uma 
lua grafitada no céu,
o marxista achou ser 
o menos inexato 
dos três,
é sempre o escrito 
certo da história a fazer
 evoluir uma sociedade,
e talvez por isso 
estava a acontecer 
a dúvida,
como reflexo 
de certezas monolíticas,...

o kantiano não replicou,
alumiar um discurso com o silêncio,
traz à tona a razão sempre que a afogam,...

o reformado chorava com o tom certo de desprezo pelas verdades inamovíveis,
e só então houve a certeza de que a certeza não tem peso,
só forma 


setembro 24, 2018

Texto propositadamente com fim abrupto

As coisas mudaram só depois de ela ter chegado. Aliava o facto de passar despercebida quando a chamassem:
Anas existem a cada momento do dia e quase como o tempo vira pedras para se esconder do despercebimento,
à luminosidade de um sorriso que ninguém ainda tinha, aparentemente, sabido dissecar .
Até aí as pessoas nunca se tinham verdadeiramente conhecido. Naquela rua as casas eram transparentes, sem janelas, com portas feitas de papel onde só entravam aos poucos os pares assombrados do descontentamento. E foi ela a fazer voltar ao um, ao entendimento básico das relações humanas. Chovia no dia em que chegou aos limites mutantes daquela terra. Trazia um lenço de várias cores na cabeça, com uma mochila às costas, e galochas brancas que a faziam verdadeiramente parecer a bailarina que nunca antes tinha sido vista por ali.
A princípio brindaram-na com desconfiança. A esperada desconfiança que fazia os que nada nunca tinham tido para fazer, voltar a concentrar-se na simples adoração do recortado da terra, esperando que fosse ela a fazer com que aquela indesejada rutura no conhecido continuo-tempo desaparecesse tão depressa conforme tinha aparecido.
Para se abrigar da virulência inesperada do clima, escolheu qualquer coisa parecida com um templo de adoração . Tinha paredes muito altas, que terminavam para cima em abóbodas antigas, convidando ao refúgio momentâneo das almas.
A chuva parecia não se cansar de despertar o imobilismo da poeira da terra. Pequenos oceanos que escapavam à compreensão do quotidiano, já que vestiam, eles próprios, a forma de continentes maciços de liquidez temporária, iam-se formando e avolumando perante a convidativa voragem momentânea de destruição.
Observou uma velha curvada sobre o seu próprio fim, que tentava sem motivo aparente...
(Fim propositadamente abrupto)

setembro 23, 2018

Medos em verso

esperava-se por um país onde
de nada se fizesse a vida,
com pessoas acomodadas à
arte de serem pessoas,
capazes de tricotarem minutos
incapazes de ficarem na história,...

em vez disso,
sobravam países onde de pastores
 todos anoiteciam com a roupa,
e as colinas juntavam-se em pasta de
amanhecer,
sem certezas de que a noite alguma
vez surgisse,...

nada mais viveria à margem dos
últimos quereres,
só a luz,
e gente feliz consciente dos seus
medos em verso

setembro 22, 2018

Saturday`s blues lunch time


Como se engana o tempo

estavas nas barbas do que havia para fazer,
era um velório com pessoas cheias de fome,
e terias de ser tu a explicar que o tempo se desdobrava como pequeninos papéis,
os tais que envolvem os bolos da sorte chineses,
e dão a cada um a necessidade suficiente para perceber se se morre jovem,
ou fica para velho,
confiando no vento como comprimido para dormir,...

entretanto,
sentíamos toda uma dialetica a desidratar-se,
argumentos putrefatos incapazes de convencer à espera,
e a morte caminhando para um fim de tarde ao sol,
e ao calor


setembro 21, 2018

Gato(i)nhando a ver a vida


Aqui

provável seria a vez em que os pés se
acasalaram com a raiz,
em forma de medo,...

não se percebia a indiferença
no correr da água,
acasalada com o tempo,
a cama do espaço era feita
 à espera que as sombras
 do medo se desfizessem,...

tudo
assim escrito,
e uma menina que chora
até à sofreguidão,
espera-se a manhã

setembro 20, 2018

Um dia gostava de saber escrever assim

ruy belo / nos finais do verão



Quando alguns anos aí por finais de agosto o sol por momentos como que se vela
e eu me sinto talvez sem saber porquê subitamente triste ou não sei indeciso
posso fazer várias coisas, no entanto quase sempre o que faço
é correr completamente todas as persianas de todas as janelas de todas as divisões
                                                                                                                 da casa
meter-me na cama cobrir-me todo até a cabeça com a roupa
e começar a ouvir por exemplo o requiem de mozart. Talvez quase todo o verão
tenha passado por mim quase sem eu dar verdadeiramente por isso
terei descido meia dúzia de vezes à praia terei tomado ao todo um banho
terei visto distraidamente uma tarde a areia cair-me do punho
levemente fechado por entre os dedos para a palma aberta da outra mão
O sol terá aplicado diariamente a sua demão de luz a dois lados da minha casa
mais amarelado pela manhã na parede voltada a leste
mais amarelo torrado na parede do lado ocidental pouco antes de passar
o testemunho à sombra avassaladora da noite
O lugar exacto do pôr do sol ter-se-á desviado insensivelmente no
sentido norte-sul dou por isso exactamente no fim do mês
ao levantar os olhos da máquina de escrever e procurar em vão o sol prestes a pôr-se
no estreito intervalo de duas casas à beira-mar onde antes o via
e além disso a passagem do tempo será também visível por exemplo
na altura da pilha dos jornais acumulados a um canto do quarto
no progressivo desgaste do enorme sabonete que dia a dia utilizei
para lavar distraidamente as mãos as diversas vezes que as lavei
Alguma coisa passou para sempre passou irremediavelmente para sempre
alguma coisa que não será principalmente isso mas será também isso
alguns rostos pousados no verão de linhas suaves como certos sulcos na areia
sim decerto alguns rostos estes dias insistentemente repetidos
mas afinal desconhecidos ficarão para sempre nas dobras do verão
e mais uma vez na vida eu não saberei que fazer acreditem
no que digo não saberei verdadeiramente que fazer
Noutras alturas do ano quando a timidez se apodera de mim
ou não consigo olhar alguém nos olhos ou tratar de um assunto prático
tomo um whisky telefono a alguém leio certo tempo o jornal
Agora nestes finais de agosto quando o sol por momentos como que hesitou
o que fiz foi correr as persianas rodear-me de uma certa escuridão
e deixar correr a fita onde se encontra gravado o requiem de mozart
Os violinos como que procurarão serrar suavemente as vozes cheias e leves
instrumentos de sopro violinos e vozes dispor-se-ão aqui e ali por estratos
à maneira das nuvens no céu de alguns destes dias passados
pela hora do pôr do sol lá para os lados do poente sobre as águas mansas do mar
Sentirei talvez a mão de cotão da escuridão pesar-me no peito
estendido apenas existente devido ao ritmo lento da respiração
e o vento socorrer-se-á de vez em quando da cumplicidade da música
que abranda que como que poisa para garantir que sim
que está ali exactamente rente à moldura da janela e procura
fazer-se pequeno para ver se passa por algum interstício
e assinalar a sua presença no quarto por uma ligeira ondulação das cortinas
por um hálito na minha pele que seja bastante para me alterar o ritmo da
                                                                                                respiração
Sentir-me-ei levemente inquieto tenho dois ou três problemas a resolver
estarei triste indeciso inquieto terá passado para mim de maneira
irremediável e não sei porquê mais sensível um tempo de vida
voltarei a cassete do outro lado piscarei os olhos no escuro
Tenho a sensação de que me protegem três ou quatro pessoas
de que três ou quatro pessoas contra as quais às vezes me revolto me fazem falta
não descerei à praia não quero estes dias voltar a descer à praia
Talvez em meados de setembro se porventura se não alterar muito
o ritmo da minha respiração eu abra de novo as janelas veja o tempo que faz
dê uns passos pequenos na casa e me encaminhe lentamente na direcção do mar
Então sim então estarei só. Que é feito daqueles rostos de verão
daquelas silhuetas ao pôr-do-sol interpostas por vezes entre a luz e o livro que lia
a que profundidade se encontram agora determinados passos
ainda não há muito indubitavelmente impressos na areia do verão
perguntarei na falta de outras pessoas talvez ao mar esse mar que mora
sempre aqui e não vai para longe com o verão. Ficarei à escuta procurarei
distinguir no marulho do mar qualquer esboço de resposta
olharei os contrastes da luz incidindo na superfície do mar
Sei que é em vão que tudo será decerto em vão e que mais uma vez
assisti sem remédio de braços caídos à implacável destruição do verão
Que é feito do verão que é feito dessa pausada estação
onde eu sem saber cavara os alicerces da minha vida que é feito
dos olhos sérios e dignos dessa criança ameaçada pelo fim do verão?
por um tempo que em breve a roubaria ao ruidoso convívio do verão?
Quando eu era pequeno e pressentia que me iam levar para longe do mar
despedia-me uma a uma das árvores das pedras que não mais voltaria a ver
mesmo que no ano seguinte as voltasse a ver dava uns passos a cambalear
pensava que seria isso doer-me a cabeça que nunca me tinha doído
Mas não era por isso não era por sentir há pouco no pulso
o fim acerado do verão que eu estava inquieto triste
ia jurar que não era por nada disso que não tinha nada a ver com isso
Agora sim agora estarei inquieto e triste por saber mais profundamente
do que uma unha cravada na carne que alguma coisa sem remédio acabou
que certos rostos precisamente esses rostos que amiúde o verão
utilizava para ser leve fazer parte das minhas coisas fazer
talvez parte de mim repousam para sempre amortalhados no verão
estarei triste por ver que mais uma vez terei falhado inapelavelmente na vida
Inútil agora fechar as janelas deitar-me voltar a ouvir o requiem de mozart
inútil mesmo estar certo de que fizesse eu o que fizesse
mesmo que o fizesse no devido tempo tudo seria inútil
Abrirei a janela fincarei o queixo no peitoril da janela
farei uma última tentativa para procurar saber onde é que se esconde
o verão onde é afinal o sítio sossegado do verão
Ficarei sem remédio triste à janela do meu quarto
de olhos perdidos no mar perdidos com o verão



ruy belo
toda a terra
todos os poemas III
assírio & alvim
2004

O fim

Não me digas que qualquer coisa representa mais para ti que nós. Nunca tinha sentido que o desenho do real se escrevia com traços da tua pele. Quase como se a génese da criação fosses tu, a exalar humidade cálida num amanhecer qualquer próximo do início do inverno. Quando eu já me tinha habituado a ver tudo como uma pausa no ‘ralenti’ do tempo, isto antes de chegares. E eu ter repensado que as pedras da calçada de todas as ruas do mundo se podiam juntar num longo caminho a preto e branco, a minha dimensão preferida do real, feito para que ambos o pudéssemos caminhar em conjunto. Fazendo de cada passo um reinventar da ditadura sanguinária do passar dos segundos. Sempre esse adamastor que nunca me tinha deixado dormir, e que só saiu da parte de trás da minha cabeça quando a primeira coisa que me habituei a encontrar ao reabrir os olhos em cada manhã, foi a doce extensão planisférica da tua pele. O sabor sem sabores dos teus lábios.
E agora, quando senti que o universo tinha dado uma volta completa em redor do meu desligamento da vida. Quase como se me tivesse visto livre da coisa que tinha como alma, ganhando em troca a tranquila percepção da finitude, dizes o fim. Escrito como um recomeço desnecessário. E eu sem alma para poder tirar do que resta do meu respirar, uma nova alma para serzir como pele.


setembro 19, 2018

Near death experience


O menino das mãos nos bolsos

O menino das mãos nos bolsos.
Sem saber o que fazer.
Nem como
sentir os passos de solidão
que lhe atiçavam
 a alma de fome.
 Punha pé ante pé porque o passado
pesa sempre mais
que um futuro não alcançado.
Não tinha presente para mais
que ser andrajoso,
repugnante para olhos que cruzavam
a luz só para o evitar, e seguir um
caminho impoluto e isento de negatividades
mal desenhadas.
Precisava de um ar de água sentido.
Para banhar cada frase  impercetivel.
Desdizer choros por demais
diminutos para serem revelados.
O menino das mãos nos bolsos e
o peso do céu nas decisões de real escritas.
Está a chegar ao mar...

setembro 18, 2018

Sem título (87)

Não me digas porque as
árvores choram,
Se elas o fazem também
 já o fizeste
para saber como o mar
é infindo,
e as pessoas gostam
de deitar
 os sonhos em cima de coisas
ocas como esta 

setembro 17, 2018

Lama sem terra

mesmo com todas as frases a falarem de ausência,
e tudo o que sobra de adjetivado a perpetuar a moral,
aumentam os espaços entre as janelas do choro,...

ter o que não existe aos olhos de um tempo inacabado,
só serve à loucura,
às velhas amostras de uma clareza sem fios,...

para com a rudeza do que não dorme a morte mal dormida,
não restam soluções,
só pés de seda feitos de mármore,
e um namoro ao estertor das almas


setembro 16, 2018

Um dia gostava de saber escrever assim

Paraíso


Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.

                     David Mourão-Ferreira, in Infinito Pessoal

Cadeira de balouço

A gola de renda estava conforme lhe tinham sempre ensinado. Branca, a assentar sobre o pescoço, sem tocar nos ombros. Os folhos pareciam pétalas de girassol, mas um girassol morto, já esbranquiçado pela infeção de anos a fio a dançar sozinho com a tortura do vento. Os cabelos alourados assentavam como palha num campo alentejano em cima daquele objeto do amor de sua mãe. As mãos assentavam em cruz, em cima do colo. O vestido azul claro, cor de mar quando amanhece, dava um ar de pintura renascentista aquela sala. Sorria, ao fitar a parede branca, ao mesmo tempo que, de quando em vez, assentava a nuca numa almofada castanha da cadeira de balouço, que se deixava ir num bailado frio, e desconexo.
Mas que não saía de tom naquela sala, perdida no fundo de uma cidade adormecida, ao som da banda sonora do passar dos dias. Lembrava-se disso, e também se lembrava do que podia ser a sua vida caso, no outro lado do mundo, houvesse um coração que batesse ao mesmo ritmo que o seu. Escrevesse os mesmos versos sem sentido, e que se recusavam a rimar. E ouvisse uma música inconstante, da mesma forma que tudo em si era inconstante.
Odiava ter de frisar as coisas na vida conforme lhe tinham sempre ensinado. Mas um dia tudo ia acabar. Até lá, que se deixasse balouçar com a gola de renda imóvel.


setembro 15, 2018

Coerência

podem responder-me da sombra,
de que é a força que
regula os momentos
de avaliação do
poder de um homem desesperado,...

eu só pergunto dos
segundos enlutados
da fome,
o querer um livro com
todas as questões
enlameadas,
e não saber ler os
choros comprometidos
das pessoas,
o querer a força,
a restrição ilimitada
de um beijo falso de amor,...

e só ter olhos vazios de
dor,
pedaços de um
sexo envelhecido,
e o Capital de Marx ensanguentado,
como arma de um crime
por definir,...

não sei fazer mais
sentido que este


setembro 14, 2018

Só e o respeito

era ela a que,
na noite,
chegava sozinha quando
a luz intermitente da solidão
corria os últimos estores,...

o respeito ardia por entre as coxas
cansadas de esperar,
à porta de um templo sem fiéis,
ficava o sonho encorpado na madrugada


setembro 13, 2018

Breve descrição de almoço e saída para encontro

A sopa sabia mal. Além de insonsa, tinha dois pedaços irregulares de chouriço a boiar num pequeno rio alaranjado, onde nadavam amálgamas verdes que imitavam os desperdícios radioativos do Tejo, que os lisboetas tomam como algas.
Ainda pediu o sal, que veio num frasco transparente, com um fundo cheio de verdete, e que parecia bailar em cima da mesa que tinha os pés assustadoramente assimétricos .
Deu duas colheradas, e socorreu-se do copo de três que repousava nos limites do toalhete encardido, quase a despedaçar-se no chão, mas que ainda servia para que aquele antro guardasse um restolho de dignidade.
Ao seu lado, um velhote que parecia mais entrado do que devia ser fitava a parede amarelada da sala. Tinha uns óculos de armação de massa, bem preta, que envolviam daquelas lentes que pareciam o entardecer: meio claras e meio escuras. Ainda lhe escapava o olhar para a barba de três dias que o outro tinha, e que só servia para lhe dar um ar de campo minado a um rosto quadrado, e que denotava um talento para a música quiçá nunca aproveitado.
Eram duas da tarde, por aí. Faltava já o apetite para continuar ali. Fez escorregar a mão direita para o bolso das calças de sarja, e tirou um lenço dobrado em seis. De um gesto fê-lo desabrochar, e encostou-o às duas narinas obstruídas por uma primavera que dava uns sinais de vida naqueles pontinhos sem cor com que sempre se anunciava, e que pareciam dançar ao som dos escapes do bulício da baixa por volto da hora de almoço, quando o calor já amornava as rotinas.
Pediu a conta. Tinha mais fome, mas só pensou em sair dali. Deixou uma nota encardida, e com um pequeno rasgão ao meio, em cima da mesa, e saiu. Franziu os olhos com o sol de início de tarde . A cabeça pedia Protecao, e por isso tapou-a com uma boina que guardava do avô, que tinha vindo das beiras para morrer em lisboa como homem falhado, e começou a subir a rua. Estava atrasado para um encontro importante...


setembro 12, 2018

Um dia gostava de saber escrever assim

daniel faria / estranho é o sono que não te devolve





Estranho é o sono que não te devolve.
Como é estrangeiro o sossego
De quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
De quem já só por dentro se ilumina
E surpreende
E por fora é
Apenas peso de ser tarde. Como é
Amargo não poder guardar-te
Em chão mais próximo do coração.



daniel faria
explicação das árvores e outros animais
fundação manuel leão
1998

Pontualidade

vieste pelas 18 e qualquer coisa,
quando já não havia relógios em casa,...

cheiravas a insubstituível provisão do amor,
como se houvesse pó de flores mortas a renascer,...
subindo pelas paredes,
e a envolver-nos com amarras invisíveis,
daquelas impossíveis de esmiuçar,...

trazias incenso nos intervalos dos sorrisos,
quase como se o silêncio que te embalava como uma encomenda de inverno,
não fosse mais nada que qualquer coisa sem processo de redenção,...

e deixamo-nos ficar à música das folhas que deslizavam para o abismo,
redimidos das saudades de cristal que conhecíamos

setembro 11, 2018

sou eu quem escreve os poemas mais bonitos

sou eu quem escreve os poemas mais bonitos,
não só pela métrica nos rebordos,
como pela diferenciação entre morte e pratos de sopa,,..

não faço sentido a chamar as meninas quando saem do trabalho,
estendo um manto de cães mortos e digo-lhes que se casarão,
caso se atrevam a ter a coragem da irresponsabilidade momentânea na vida,...

sou eu quem escreve os poemas mais bonitos,
aliás,
não sou só eu quem o diz,
conheço quem os defina enquanto põe roupa a secar,
cantando fados de uma nota só,
disparados com arco e flecha em direção a alvos no céu,...

os meus poemas saltam num só pé,
e são cadavéricos quando se despedem da vida,
para fazerem uma multidão de raparigas imberbes apaixonar-se por eles logo a seguir,...

sou eu quem escreve os poemas mais bonitos,
talvez seja hora de os rasgar num féretro sem cor


setembro 10, 2018

há lugares

há lugares em que de
ser nada existe para
lá do som,
o mal tem palavras
 gastas,
verbos de cão morto
e gato que cheira as
velhas que estão a ir,
como se interessassem
 pratos de sopa de doença,
risos ocos e um não
 saber o que cá se anda a fazer,..

há lugares onde
a rudeza não diz
boa noite,
precisando do fim
como um naco de pão para ferrar
 dentes ensanguentados,
e calamo-nos com
 o vazio

setembro 09, 2018

Perdido na tradução

eu não quero ir,
estar aqui contigo faz-me sentir com olhos que não rasgam carne,
e que talvez o desejo,
não se escreva com indiferença,
mas sim com luzes de cidade grande a sarar a pele de feridas infetadas,...

fica comigo mais um pouco,
se lá fora o vento não se desculpa pela arrogância,
aqui não precisamos de falar,
gosto de ti pelas inconstâncias do silêncio,
com a necessidade irrefletida de desenhar na tua pele que não sou perfeito,
mostrando que a minha carne pesa mais que a insignificância dos meus ossos,...

eu não quero ir,
com um último abraço de manhã,
devo conseguir gravar-te no meu respirar



setembro 08, 2018

Andar nu por escolha

mesmo nua,
a solidão traz as roupas
costuradas largas,
com espaço para o vento fazer casa,
e não permitir ninhos com pássaros de raiz a piarem,...

conhece-se a senhora de todos os dias nesta reflexão,
uma hora mal passada,
com as dores de arrependimento que bordam o corpo em esse,
desejoso da miséria para que a riqueza passe ao lado deste desconhecimento,...

achei-me capaz de desenhar uma
madrugada a pensar assim,
mas a frase do querer bem às indecisões,
entortou-me os dedos e partiu a raiz da
felicidade dos criadores


setembro 07, 2018

Tentativa falhada de escrever com tema

Na verdade, as coisas cobrem-se de um manto sem cor. Parecem querer proteger-se do amargo das manhãs, quando as pessoas saem de casa nuas. Sem esperança. De bolsos vazios. Os olhos debaixo de um friso sem novidades de humanidade. Se bem me lembro conheci-te num dia como estes, sem nome e sem felicidade. Caminhava ao longo do rio de todos os días, e passeavas em sentido oposto. Mirando o céu, com lágrimas a assegurar-te o rodeio de sonho de um rosto cansado, aquilino, e quase deificado.
A um lamento de solidão, respondi-te com a certeza de que valia a pena navegar. Sem destino. Com o pesar escondido num bolso, e o desejo de amar no outro.
Demos as mãos quase em silêncio, até me teres dito que tinhas a forma de uma âncora. Escondida debaixo de um qualquer mar, que até podía ser aquele ao lado. Interminável. E que nos abraçava, como o péndulo do tempo que não pára perante qualquer hesitação.

setembro 06, 2018

Up goes Dr. Watson












Ghost Stories (Jeremy Dyson & Andy Nyman, 2017).

era tão pouco corpo

e era tão pouco corpo,
só quanto coubesse nesta mão 
de solidão sem dedos,
e com uma alma a 
querer-se velha,
jogada ao pontapé
rua abaixo,...

era tão pouca 
vontade de céu,
de quereres aquela cama
sem retalhos,
cosmológica no sentido 
de pele do termo,...

éramos nós,
eu e tu,
tão pouco argumento de querer a juventude
engavetada quando o amor abraça
a vontade de solidão,...

era tão pouco corpo,
que sem um corpo
para ter vida,
resta um livro de choro,
para o sono 
sem olhos 
de estar ao vento



setembro 05, 2018

Deificações

nem o desejo encravado no choro de todas as derrotas,
só talvez um campo árido,
em que te sintas com um corpo inusitadamente pesado,
recortado em estrela,
para se encaixar nas falsas alegrias arrumadas nos aparadores do passado,...

sendo assim adorava-te como uma deusa decepada,
incapaz do milagre do imiscuir do dia na noite,
e pronta para contrições sem fim de aderentes ao caos,...

nasce mais uma dúvida com cancro,
talvez volte aos poemas para esquecer deificações inúteis


setembro 04, 2018

Agradecimento ao projeto 'Gazeta de Poesia Inédita'

Inatingível 2018 convidado para participar neste projeto de seleção da Poesia Portuguesa contemporânea.
Muito obrigado ao José Pascoal.





o Tejo ia e vinha

o Tejo gostava de se meter
pelos olhos dentro,
enquanto ia e vinha,
num desnudamento igual
ao de uma puta a
tirar os três,...

cá em cima,
nos braços de Lisboa,
os desnorteados aos magotes
gostavam do som,
falava com eles e dava-lhes
de beber quase como um padre,...

e os dias passavam assim,
como estores que
abrem e fecham,
deixando nas pessoas só aquelas
 pequenas fistulas dos
arrependimentos,
enquanto o Tejo ia e vinha

setembro 03, 2018

Um dia gostava de saber escrever assim



Sem título (88)

olá desde o lado em
que se regurgitam os
verbos desconhecidos,...

por aqui há o lado escondido
dos cafés fechados por
morte dos donos,
e quando as ruas cheiram mal,
as pessoas defendem-se,
para terminar com os lábios
em fogo nas despedidas
sem cor


setembro 02, 2018

Análise sensorial

quando quase fomos aqui,
neste momento em que só o corte da pele,
e o retiro de um beijo quando
faltava o contorno do teu corpo,
chegava para que todo o sexo fizesse sentido,
e qualquer esmagar de hesitação
 soubesse a perda de inocência numa praia,...

e eu a continuar a achar que
deixámos de nos saber escrever,
talvez me enganasse
duvidando de um gemido
detalhado como o
que me embalou,
fazendo-me solto no
primeiro sono de muitos verbos
 transumados no branco interminável do nada


setembro 01, 2018

Segunda de Setembro





Já não necessito de ti
tenho a companhia nocturna dos animais e a peste
tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio doutras
[galáxias, e
[o remorso
um dia pressenti a música estelar das pedras, abandonei-me ao silêncio
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração
não, não preciso mais de mim
possuo a doença dos espaços incomensuráveis
e os secretos poços dos nómadas
ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto
deixei de estar disponível, perdoa-me
se cultivo regularmente a saudade de meu próprio corpo
"

Al Berto, “O Medo” 

Cidade perdida

não sabia do silêncio daquela cidade desenhada
com a tua seiva,
tinham-me falado de um terreiro onde as pessoas
não existiam,
só com as frases inodoras dos relógios se percebia o
latejar das ideias,...

e crendo nos relógios que em cada esquina marcavam
o tempo,
percebi a polpa dos frutos do acaso,...

nunca foste a cidade
de aldeias que pensei,...

só depois de tudo o que foi acabar,
um dia,
estarei aqui para acolher o sangue
nas paredes das casas que ficarem

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Tirado daqui

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