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quinta-feira, 30 de abril de 2026

Onde não me querendo,. .

 O comentário,

Prefiro o ao rasto de poeira,

Ao caminho de peito,

 pra fora de uma terra de inocentes,...


Onde não me querendo,

 Me desfazem dos números do passado,

Da raiva dos injustos,

E desejos dos ímpios,....


Não havendo sombra,

Nem resignação,

Sofro da quantidade irregular de notas astutas de rodapé,...


De onde condenado à ignorância,

Remeto o silêncio à desordem a que sempre foi envolvido 

The Fatigue
Mihail Zablodski (2022)
                            Tirado daqui

sexta-feira, 13 de março de 2026

Os olhares cruzados,...

Atriz Jean Harlow, 1929
Foto de Edwin Bower Hesser


Por essa razão,
A de que a devoção não interessa e atrapalha a condição humana,  
Tinham acabado as manifestações de carinho,
Os olhares cruzados e os toques disseminados por peles a ansiarem por contactos,....

Mais ou menos no fim de uma manhã qualquer,
Quando a chuva envolvente de Verão parar o seu percurso,
Talvez tudo volte,....

Até lá,
Não se justifica contacto humano 

quinta-feira, 5 de março de 2026

Ja é tarde,...

 Eu não participo no que chamas de vontade,

Parece-me desnecessário,

Autoritário,...


E desejos não se misturam com violência de desígnios,

E de espaço e tempo,....


Prefiro a presença,

Uma simplicidade retumbante sem números,

Eficiências,

E longitudes,....


Já é tarde,

Se contestas o que digo,

Presencia a desvirginação da lua

Mosquito
De. Ricardo Félix
                                                                        Tirado daqui

sexta-feira, 6 de junho de 2025

será o fim?

 tudo o que tive a fazer,
a pensar em água,
no rame-rame das
ondas que me
enlameavam as pernas,
e um passeio sem fim numa praia deserta,....

pensava num fim colorido,
música,
sons despertos de
uma festa de pessoas alegres,
unidas pela forma intensa
de terminar um assunto,....

e havia chuva,
e deslizes trágicos
de rochas pelas enseadas,
e um casal de gaivotas
que se cortejava,
embalado pelo vento que me acompanhava,....

o dia acaba,
e a mão treme-me,...

será o fim?, 
o talvez é a resposta possível

                         Tirado daqui

Ifé terracota, Nigéria, 1200-1400

sábado, 26 de abril de 2025

Que trouxeram a hesitação,...

 Um dia de pensar,

Outro para desejar,

Desejar tanto ou mais que pedras fora do sítio,

No caminho de um profeta iludido,...


E foram as vitórias,

As que perderam valor,

As que se seguraram como poema,

Que trouxeram a hesitação,

O medo que tu e eu tantas vezes partilhámos,...


E agora escrito,

Desejado, 

Chorado,

O pesar volta

                                                                      Tirado daqui

domingo, 16 de março de 2025

Medieval na linguagem,...

 Um sofisma de ter,

A presença certa do erro que assim se quer,

São as minhas mãos,

A luz hesitante,

Um resto de comida azeda com a bebida seca dos solitários,....


E para a miséria,

Faltará pouco com esta descrição,...


Só a eventualidade de um par de sapatos ilusório,

Roupa de rei em corpo de serventuário,

E a conclusão desta indução ao erro,....


O teu sorriso,

Vestido,

Medieval na linguagem,

Parco de gestos,

E intocável para a minha virtude de pessoa irrealizada 


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

...sombras de memória

 Hoje sonho outra vez com as minhas sombras de memória,

O que chamo às especificidades de uma vida de insegurança como tem sido a minha,...


Figuras que se deitam comigo nas noites,

Sobem pelo corpo num frémito indolente,

E tornam-me um poço de ansiedade sem expectativa e sem tempo,...


Não me culpo por carregar espécies de fantasmas assim,

Aconteceu,

Como a respiração é diferente de pessoa para pessoa,

E o olhar tem os seus pontos de fusão a diferentes distâncias



                           Tirado daqui

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

Jovem num passado

 Ainda só é 1983. Chove tanto. As minhas mãos agarram o nada. Observo dois homens que se observam, cruzando caminhos, apressados para fugir ao temporal. A verdade não é minha, é de toda a gente, dos desesperados, da vontade súbita de mudança. Sirvo o chá abrasante, enquanto um fio de som abafado me entra, sorrateiramente, nos canais auditivos. São as notícias do dia, servidas em pleno de confusão e desprezo por minha parte.
Passo os dedos pelo jornal do dia, com um gato a insinuar-se no calor extremo e instável que o meu corpo liberta. Sou jovem, gosto de nuvens de pombos a voarem na praça central da minha terra. Um corpo de mulher vale o mesmo que o respirar para mim. O amor é um jogo do galo apressado, feito nas costas das mãos suadas de uma tarde de Verão. Sou ninguém, e mais qualquer pessoa por conta das hesitações que pratico. Sou o mestre do etéreo, dos poemas que não completo. De querer escrever mais, sempre mais, melhor, de forma cativante, inovadora, mas que não sai nunca do tempo fútil do desejo. E chove cada vez mais. Não sei se me quero recordar de há quanto tempo nasci. Da presença inócua do tempo na minha vida. E faço por percorrer a larga amplitude da divisão fechada em que me encontro, com passos curtos. Sou sozinho, não estou tomado por nada. A presunção cabe numa caixa mínima de rapé, em cima da televisão desligada e a ganhar pó. O exterior prende-me de novo a atenção. O vento verga à subjugação as árvores velhas, e faz o real dançar num turbilhão de filme-catástrofe. Sinto um torpor, e depois uma lágrima, e outra, a rolarem-me, perdidas, pelas faces. O refúgio são os bolsos das calças. Se tivesse a alegria como prato do dia, sorrisos enleantes e desafiadores que comigo dançassem, seria tudo tão diferente. Olho para trás. Um gato observa-me. Uma voz abafada anuncia que um avião caiu algures. A mortandade foi total. Sou jovem. Não me importo. A vida é uma plenitude fechada, conforme a vejo.



sábado, 30 de março de 2024

Viela sem dono



Os teus lábios,
Como o som de uma voz perdida,
Um assombro numa viela sem dono,.  

Dizerem o mesmo que nada,
Soarem a todo o silêncio do mundo,
Os teus lábios a soarem a sexo já esquecido,....

Lá fora o vento,
A roçar nas paredes dos prédios vazios,
Assegura que entendo o desespero,...

E a música encaminha-
Nos para a derrota

domingo, 11 de fevereiro de 2024

Sítios familiares

 


Sítios familiares, digamos assim. Casas de paredes amarelecidas, com fios quilométricos de heras a envolver, dando um ar proverbial e literário. 

 Homens solitários vestidos de tweed, a caminhar para direções diferentes por entre aquela humidade excessiva fora de época que vinha abraçando as manhãs. 

 Sítios dificeis de perceber, e que mesmo assim apareciam, a pulular, na cabeça de um criador sem idade e destino de provocação. Supunha-se mal, bem, tudo parecia fora de sítio, de tempo ou de lugar nesta ideia. 

Mas era quase uma inevitabilidade pensar em ambientes românticos, repletos de um idílico futurismo, quando se começava a criar. E não havia preço, se depois a fluência fosse a desejada. Assim como a simetria de personagens e de desafios que ainda pudesse vir a surgir...

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

O Traço é trémulo

 

O Traço é trémulo,

A música esvai-se como a vida de um poema,

Há poeira de mais em livros esquecidos nas gavetas sem perdão,...


De tudo não se retira a nudez corredia,

Nem há intrusos capazes de tão pouco como um sorriso,...


A ver-me como uma sombra,

Que não vai mais conseguir flores por cada despedida

quarta-feira, 20 de setembro de 2023

Som

Ao contrário do habitual, esta era uma música agonizante. Em tons desligados, progressivamente em estridência, que deslizavam pelo recinto acanhado e fora de tempo. Tinha-se habituado a si própria a caminhar para aquele sítio, fechar os olhos, cerrar os punhos com tanta força até sentir a dormência a tomar conta das mãos pequenas e inofensivas, e talvez com essa encenação começar a aperceber-se de uma melodia cativante. Parecia-lhe vir do deslindar dos tempos, saída de uma declaração de amor pensada por um homem cativado por uma mulher, com ambos a acharem-se presos no espaço e numa época perdida onde já ninguém conseguia ir. Gostava. Fazia aquele sentimento crescer; tanto até um ponto em que o coração parecia explodir. Quando se sentia bem, pelo menos arrefecida da dor, voltava. Mas naquele dia, tudo era diferente. O que estava a mais, que tinha aprendido a soltar pela audição, tomava conta de si sob a forma de um vento feroz e cruel….


terça-feira, 11 de julho de 2023

à beira de Lisboa

as palavras cintilam,
um brilho inóspito que
ofusca,
rasga a noite ainda sem idade,....

o Tejo já me namora
inofensivamente,
do arco da rua Augusta
sorvo a solidão,
inspiro-a até me rasgar o ser,...

sou a peça que falta
para o tempo parar,
o brilho do apelo à
banalidade,
ao vulgar,
deixa-me os olhos feridos,....

e há muito menos de
desafio,
de imparcialidade,
em acabar um novo dia
vazio desta forma,....

como se a vontade, 
significasse pesadelo,
estagnação na vontade de
recordar



segunda-feira, 19 de junho de 2023

Mais um atrevimento literário incompleto

 


-o Júlio já pinta!!!

Esta é uma memória como outra qualquer. A voz do Jon Bon Jovi ecoava pelos pátios da escola, quase dissolvida no vento de inicio de Outono. Os putos andavam todos de fato de treino, relogios casio nos pulsos, e eu tinha-me lembrado de pôr o meu grupo de amigos a rir. Depois sofri com isso. Lembro-me que no meio das gargalhadas de gozo com o Júlio, reparei na sua expressão de raiva a crescer. A mão direita a pentear os caracóis soltos como lã de ovelha, a esquerda a bater descompassadamente na perna, e mais rápido que o toque para o fim do intervalo ele avança contra mim, e prega-me um direto na cara que me projeta contra o vidro da sala de trabalhos oficinais. Foi nesse preciso momento que o livin on a prayer acabou, e os miúdos voltavam como autómatos para as aulas.

Se tinha posto toda a gente a rir, já ninguém ficava agora para trás a mostrar piedade pela justa retribuição que eu tinha acabado de receber por ter humilhado um colega. Dei por mim como o último no recreio. A bochecha a doer-me. O Júlio era um bom boxeador. A minha mochila caída ao meu lado ah, e começava a chover.

Levantei-me e segui para a aula. Acho que era matemática. Nao me recordo bem. Isto foi em meados de 1986, e aqui sentado na sala de minha casa, com uma playlist de spotify a tocar, e um laptop aberto em ângulo reto, faz-me pensar que se calhar na altura, eu já sabia mais o que não queria, do que tinha certezas sobre como seria o meu futuro. Fui o último a entrar na sala. A professora de matemática, uma tipa que eu hoje consideraria decerto insegura, com as suas constantes blusas em turtleneck, e um silêncio entre aulas que parecia desprezar os alunos, só me pediu para fechar a porta, e sentar-me ao lado do Júlio.

Nós éramos miúdos de 10, 11 anos, que não sabíamos nada sobre proporções de insultos, e amor próprio, ou até domínio de um discurso coerente. Só gostávamos de ser engraçados, os mais fixes.

Depois de 40 e tal minutos de arrazoado sobre equações, saímos e eu fui pedir desculpa ao Júlio. 

Lembro-me que ele estava a ler A Bola, na altura em que ainda era um lençol que servia de abrigo aos vagabundos nas ruas. Sentei-me ao lado dele. A Samantha Fox tinha começado a cantar, e foi por entre um insinuante 'touch me'', que abri o coração:

-não ficaste chateado com aquilo pois não?

Ele voltou a não responder. Estava mais interessado na crónica do Benfica-tirsense. Nem se importava que, mais uma vez, estivesse a chover.

quarta-feira, 31 de maio de 2023

Bater de asas

O pássaro pousa no que resta da minha mão,

Observa em redor com olhos encovados,

Encarando-me por momentos,

Enquanto busca uma escapatória,...


A minha vida resume-se a uma fuga semelhante,

Enquanto o bater de asas poeirento,

Me acorda para a chuva azulada que ilumina a rua

                                                                          Tirado daqui

domingo, 28 de maio de 2023

Escrito no dia de Natal de 2022

esta era uma desilusão
que vinha de mais poemas,
de uma resiliência fechada
em livros poeirentos,
e que as pessoas anulavam
com conversas sobre o passado,
em que os mais velhos tranquilizavam
embaraços,
com a ideia de que o retorno
é um lugar seguro,
isento de gumes
que cortem a amargura do adeus,...

mas era uma desilusão
enfeudada no mar,
quando na tempestade
que vai e vem,
e tem voz de mulher,
ficava um sentir de
uma comunidade,
que não desistia em lágrimas

sábado, 20 de maio de 2023

A noite e o cinema italiano

 


Acomodado como sempre mas resistente como nunca,

Perguntei à noite por memórias de cinema italiano,

Quis saber,

Com os olhos ja dolorosamente acomodados,

Quantos minutos de pasolini,

E moedas da fontana di trevi,

Iriam servir de manto para me ajudar a atravessar a escuridão displicente,...


A noite respondeu-me como lhe aproveu,

Disse inocências,

E ficámos a conversar inesperadamente até a madrugada

sexta-feira, 12 de maio de 2023

Porque mudei

 


Terei eu mudado com a luz, de

Tudo o que se nos pediu, nada ficou

Ao topo desta mesa, só o vento arrasta

Complacente,

O que a sorte nos deixou traduzido no pouco pó,

E restos do pão com que atravessámos a

Pobreza, e o que de mim resta,....


Um animal sem alma, politico o suficiente,

Que te afastou, e agora lamenta, o que elétrico,

Alumia a frase que restou, e que não entendo,

Porque mudei