31.8.18

X

cartas com razão precisa de um adeus,
com envelopes passando por línguas sem
que o silêncio dissesse dos corações,
apenas o silêncio necessário para explicar
o X que marca o fim,...

nunca gostámos dos fantasmas
que arranhavam as paredes,
com desdém pelo
que tendo sido vivido,
estava agora dissolvido no espelho
de águas pútridas,
de beira de porta,
e tu tantas vezes recriada no daninho do
que ficou para trás


30.8.18

Qualquer coisa às 00h00

Joventino de Jesus era um homem baixo, e descontente com o nome. Todas as manhãs, quando o sol lhe encerava os fartos bigodes só o suficiente para o acordar, achava-se com o centro de gravidade mais próximo da terra. É certo que tinha os pés, ao que parecia, a transformar-se em patas de galinha velha, o que o fazia parecer enterrar-se gradualmente em si próprio. Sentia mesmo a espinha a dobrar-se lentamente em pequenos pedacinhos de jornal, dos que se usam para matar os nervos quando esperamos por qualquer coisa sem sabermos se ela vai realmente chegar. E depois, vestido como quase sempre de calças de fazenda cinzentas, e casaco de malha da mesma cor, que já se tinha habituado a aconchegar a camisa aos quadrados, andava pela rua quase sempre a olhar para cima. As caixas do correio pareciam, a cada manhã, encastradas mais alto na parede do Hall de entrada do prédio. O carteiro, homem atarracado e de cabeleira farta de tal maneira que conseguia estar grisalho das sobrancelhas às têmporas, parecia olhar-lhe de cima para baixo, de soslaio, quase que a pensar que ali estava quase qualquer coisa digna de andar no circo. O homem que encolhia sem que ninguém soubesse explicar.
E havia a raiva que sentia do próprio nome. A mãe, senhora temente a Deus e que, no meio de uma educação cheia de lugares comuns e metáforas redutoras, o tinha ensinado a pensar que as melhores coisas da vida estão nos intervalos de um prato de sopa, nunca lhe tinha explicado porque o decidira chamar joventino. O de Jesus percebia-se, apelido de família vindo do avô materno, já que era filho de pai incógnito. O tio do Brasil, que morrera afogado na baia de Guanabara, no Rio de Janeiro, quando tentava alcançar terra de um salto após ter ajudado a carregar um navio com bananas para lisboa, explicara-lhe que só tinha de se sentir feliz porque ser de Jesus, significava que se tinham garantidas noites tranquilas de sono, com a consciência tranquila. Agora joventino,...
Pensou várias vezes em mudar. José sabia-lhe a caldo verde, que adorava. Manuel não lhe agradava muito, mas podia ser um recurso. António, achava um nome redondo, cheio de som de fado dentro. Agradava-lhe. Também não desgostava de carlos. Soava a espanholada, e adorava flamenco para se sentir mais confiante. Mas nunca aconteceu mudar. Por duas ou três vezes faltara-lhe a coragem. 

29.8.18

Que horas são?

Que horas são?,
Dizes-me o sol, pelos enleios dos cabelos com que defendes o sono das invenções da madrugada. Pergunto-te pelo som da morte, o mesmo que bate a todas as portas para anunciar o dia, e que eu falho sempre em ouvir antes do acordar. Balbuciaste o amor, como sempre fazes enquanto, atabalhoadamente, esforças-te para abrires o rosto a mais uma incerteza de horas sem contorno.
Sei que lá fora está o vento, o mesmo que nunca pergunta pelo fim dos momentos de silêncio, apenas os mata momentaneamente com beijos invisíveis.
E há crianças que chilreiam como os pássaros sem idade que tu gostas, dizendo que a fortuna estará no redondo das esquinas. No desnorte sem pés da azáfama de cada momento que escolhemos evitar, só para que se perpetue esta coisa sem nome que nos faz ir continuando por aqui. Garantindo que nunca nos iremos perder pelos intervalos das mãos que nos desligam, sempre que somos forçados a separar-nos.
Que horas são?
'Talvez o momento de não dizermos mais estas coisas, e partir?'
Viras-me costas, e sei que mais logo voltarei a ver o teu sorriso que me fura os olhos para me deixar com vontade de embalo nos braços invisíveis do teu sono.
Até lá, estarás zangada com a dor nas paredes da garganta que dá por não haver palavras para qualificares a minha vontade de nos separar.
Mas tem de ser....


28.8.18

Frase solta

faziam a fauna daqueles momentos de aconchego,
os pássaros velhos do sorriso,
com os bigodes de um gato gordo a titilar de amor a pele,
e ao longe a ladrar o cão sem nome do adeus,
de que tínhamos medo que passasse a porta para abraçar o chão comum da nossa vivência,...

não havia rei neste mundo sem trono,
sem leis
e de onde o som se recusava a sair de gargantas sem notas de música,
tudo funcionava pela forma simples das roupas rasgadas,
do passear por entre as pedras até doer de tanto saber bem,
querendo os quandos sem saber onde os porquês se escondiam por entre as ondas do rio das coisas sem nome,...

até ao fim das noites que viessem,
ficaríamos aqui até os nossos corpos serem chaves de uma possível eternidade

É o que se arranja por hoje

não resta mais nada que um menos,
fomos tudo o que sobrou da alegre e consentânea experiência de felicidade,
e agora só a noite,
um sítio em que nem as árvores já dançam com o silêncio

27.8.18

Dizer (mal) o que se pensa

se escrevo é porque sou esquisito,
e gosto de coisas que ninguém
 sequer considera viáveis,
se não escrevo é porque tenho
a mania da superioridade,
porque tenho um dom que
não aproveito só pelo prazer
de me achar diferente dos outros,...

escrever não é ser diferente
 desejando propósitos
diferentes de quem não escreve,
escrever é ter o sol desejando
 que chova para ficar em casa
a escrever mais,
e não escrever é só fazer
com que o tempo se repita a
ele próprio


26.8.18

Medo de um sonhador

a querer cidades,
frases soltas de um rio,
o da aldeia escrito no menor resoluto fim de um discurso,
era o sonhador a quem temiamos,
deixar de ter medo parecia agora fácil com o vento assim agrilhoado,...

estava vestido com nuvens até aos pés,
e na cabeça era com os cabelos cor de douro que cobria as ideias,
as mesmas que perdia pelo chão a cada passo conciliador,...

decidiu chamar sonhador aos restos facilitados de mar que lhe sobraram,
sem nunca entender o medo dos conformados pelo que difundia


25.8.18

Breve estória do fim dos tempos

diziam qualquer coisa à sorte sobre o fim daquele Verão,
foi o mesmo onde as mulheres sentiram os ovários a congelar,
e perceberam que a vida iria começar a acabar gradualmente,
e ser substituída por nascentes de água a brotar em forma de árvores,...

explicavam do acaso o possível em lamentos,
com os velhos a pensar que tinham trazido a si o fim dos tempos,
só por enlearem na lua os fios de ouro que guardavam como alumiar de madrugada,...

com a porta do tempo a reter o passar do inverno,
o frio aconchegou o inevitável,
se tudo o que alguma vez tinha sido explodiu no céu,
o que estava para deixar de ser ia minguar a dor até desaparecer


24.8.18

Mudança gradual de costumes

...aos poucos acabavam-se as meias verdades,
de mansinho ficava o ar quente entre as coisas,
ressarcido do pranto,
das velhas hesitações da noite quando indeterminada,...

pareciam sempre por resolver os problemas das famílias sem olhos,
que deixavam por pintar os espaços entre o que fica por dizer,
acabando a amanhecerem-se sem sede,
e com música de silêncio para contar,...

eram novos tempos em que a viuvez dos pecados,
usava roupa branca para complementar a dor,
e deixar a morte nas portas entreabertas da solidão


23.8.18

Escrever sempre tambem pare coisas medíocres

se é tão pouca assim a desilusão,
o mundo não deveria doer quando os dias
nascem sem a cor da esperança,...

só mais uma ideia opaca para
 expressar desagravamento pelo
caminho para o fim 

22.8.18

A inutilidade da volúpia

ninguém quer a volúpia só para metáfora,
a frase enche-se,
o tesão explica-se com acasos,
e o amor perde-se no banco de trás de um autocarro não sei para onde,...

a volúpia,
ao que me dizem,
provavelmente é qualquer coisa que se compra com lenços perfumados,
e depois usa-se para tirar nódoas de sangue seco e enseminado


21.8.18

A boa ventura do pessimismo

anda cá mas só se souberes fazer mal,
inexpressivos cabrões os que dormem virados para o céu,
quase como se o mundo fosse plano de tão bem resolvido para os anjos que trilham os sons da nudez,...

farto da coisa seca dos que só andam a distribuir palmadinhas nas costas,
e a entrar nas tabernas secas de primor,
com a boa nova de que as pessoas só ganharão se um dia o mundo for todo pintado de azul,...

para os rendidos uma estrela, 
força aos que mostram choro nas asas canoras da felicidade que cheira mal,...

e ao léu o desígnio de ter pena da pena como profissão reconhecida,

ajustem-se a isto porque o mau é todas as esquinas em que batem com os cornos de manhã 

20.8.18

Poema aos mortos-vivos

não gosto do jeito de fazer poesia destas segundas-feiras,
a falta de mulheres tranquilas,
seguras de que o tempo se lhes molda às pernas,
e não haver filhos sem versos nos olhos,
irrita-me,...

proponho poesias sem dias definidos,
a detestar os poetas,
acusando-os de um belicismo de todas as cores,
e que insulte as pessoas para depois as ressuscitar,...

perceberam?
mortos-vivos


19.8.18

Sem título (89)

eu não gostava que pusessem
balizas na minha existência,
servia-me do tempo como
os desclassificados de bairro
usam as meninas inocentes,
sem travão nem metáforas daquelas
 que vulgarizam os poemas,...

por isso,
os caminhos sem escapatória
não me diziam muito,
só o suficiente para acordar
 a cada manhã com os
olhos secos de choro,
aliás,
nunca acreditei no choro,
nem nas estrelas como
justificação para caminhos transparentes



18.8.18

Antever

...e era dizendo o restante dos murmúrios de morte,
que estava escrito naquela rua onde nunca tinha passado,
o som mudo dos ribeiros,...

...obrigado repetido por entre pedra solta nas bocas dos operários,
dizendo a fome na boca dos filhos que,
se quisessem ter,
abraçariam para depois abdicar na roupa rota e andrajosa da miséria


17.8.18

Fazer o tempo menos que o lugar

Quis dizer-te algo belo, mas ao mesmo tempo que não deixasse marca debaixo da pele. Tentei comparar-te à chuva. Dizendo que te achava o mesmo que a vaporização irregular da respiração naquele momento em que acaba de chover, e o céu se esmaga num cinzento dedicado ao tempo, e que sabe que vai morrer na certeza do sol. Não me ligaste. Fazias qualquer coisa em renda, encostada ao muro de todos os dias, e que do lado de lá guardava o teu mundo de cristal onde ninguém estava autorizado a entrar, sob pena de ruína total de um equilíbrio instável.
As frases pareciam escassear, porque para mim sempre tinhas sido a linguagem. O verbo desfiado em gomos de substantivos, para que só me restassem os sintagmas não verbais quando te quisesse aconchegar em qualquer coisa parecida com um gostar de ti.
Sobrou o entardecer que, sabendo eu te ter sido sempre indiferente, me deixava certo de que poderia tentar analisar uma linguagem corporal que te era característica. Com resquícios de uma solista num Lago dos Cisnes pintado a notas musicais sem cores, mas que mesmo assim servia para frisar o necessário de te querer ter.
Quando a noite chegar, e eu sentir que só sei pensar e escrever de uma forma monotematica sobre o evoluir da criação, deixando o resto para quem foi dotado de um pensar eficazmente aberto ao mundo, talvez me vá embora para nunca mais voltar.
Observava, entretanto, como as flores pareciam querer defender a dissertação do primado da indiferença, sobre o amor, em redor dos teus pés descalços e que lutavam por enraizar-se no cromático da Terra.


16.8.18

Arco sem triunfo

anos, tantos anos de meninas
simples,
sem saberem a
taboada ou sequer
ajeitar a cueca por
detrás dos vestidos de
 renda,
o amor de coisas inúteis
dito assim,
de chofre,...

e sem saber expressar
 ódio pelo fim de tarde
cor de merda,
que nao leva a lado
nenhum,
nem sequer à perceção
 de que o poema só serve para dizer que a solidão é melhor que tudo isto


15.8.18

Crise de meia idade


poderia este homem terminar
 hoje a vida,
que dele as pessoas sempre
esperariam qualquer
coisa da meia idade,
o conformismo no redondo dos olhos,
com os passos incertos
de não ter vida para desenhar
quando cada sol nascia,...

e ela relativizava as coisas
no refogado do arroz,
armava tudo a cada almoço
com um silêncio de melaço,
para acabar numa teoria difusa
 do sol como escape de um
sítio onde não se quer estar,
e com quem não se quer estar,...

um dia a noite entrou
pela casa dentro,
e deu duas coisas
a escolher,
desonra,
ou a capacidade de reter
 qualidades e transformá-las
em qualquer coisa parecida com felicidade,...

escolheu-se esperar pela próxima
madrugada,
o ser humano consegue o
impossível
 quando prefere desligar-se





14.8.18

Os sonhos não sabem desenhar

Diziam-me dos sonhos que eles não podiam desenhar. Só se sabiam exprimir por gestos limitados, quase como se fossem crianças a aprender a agarrar o mundo quando o mundo ainda nem sequer se apercebeu delas. E escolhi entendê-los, aos sonhos, como sempre percebi as estrelas:
como pequenos picotados que as pessoas que dormem acordadas destacam, e levam para casa para mergulhar em soluções de água com açúcar, fazendo-as florescer em filhos e filhas. Ou por outras palavras, garantes de imortalidade teórica.
Isto já aconteceu há uns anos, esta forma de ver o real. A vida passou por mim quase como se nada disto contasse para nada. Nunca o partilhei com ninguém. Tive filhos a nascer nas cozinhas que fui tendo, quase como botões de rosa que aparecem na primavera já com a educação assegurada, e morrem primeiro que nós sem que nós nos apercebamos de que eles são, na realidade, livros que nós lemos e optamos por deixar a meio para que outros, mais tarde, encontrem a maneira segura de se sentirem felizes com os finais incertos que dali surgem.
Enquanto escrevo isto sinto o meu corpo a definhar. Durmo pouco, como só o pão de todos os dias que sempre conheci. Leio nada mais que as caras das pessoas, todas as manhãs, quando propositadamente deslizo como o vento por entre tudo só para ver que nunca me enganei nas idiossincrasias empacotadas que me convenceram do fim dos tempos ainda antes que se saiba que ele vai chegar.
Mas de uma coisa continuo convencido: os sonhos não sabem desenhar. Refletir, talvez...


13.8.18

Um dia gostava de saber escrever assim

konstandinos kavafis / vozes



Vozes ideais e amadas
daqueles que morreram, e daqueles que são
para nós perdidos como os mortos.

Às vezes nos nossos sonhos falam;
às vezes no pensamento as ouve a mente.

E com o seu som por um momento regressam
sons da primeira poesia da nossa vida –
qual música, à noite, longínqua, que se apaga.



konstandinos kavafis
os poemas
adenda, 1.ª  (1897-1904)
trad. joaquim manuel magalhães e
nikos pratsinis
relógio d´água
2005

Anatomia

parecia estranho que o tecido das coisas fosse de água,
tanto que naquela noite não conheci ninguém feito de nervo,
correr de sangue,
e perspetiva de morte,...

só o equívoco da solidão num pudim de versos vulgares,
sem que dos mesmos pudesse alguma vez haver sentido,
e apenas a perfeição talhada em cruz por conta de cada vida que se tirava a um deprimido,...

sei que comi ene estrelas ao aquecer da madrugada,
sem me sentir menos que a qualquer coisa que o big bang ia deixando deste lado,
sem saber ler




12.8.18

Orgulhosamente sem título

as pessoas mudam,
os verbos perdem a pele e
desfazem as proposições,
restando a pedra solta com a
substância de uma encenação,...

fazíamos falta uns aos outros
 se houvesse água nas
esquinas dos advérbios,
como se mormente o amor,
nos puséssemos em quatro
estações de lamentos,
para perceber a raiva
encaixada no silêncio,...

e de mim não levarão
mais que um morango de favor,
e um copo de água de
português mal entendido


11.8.18

As férias trazem a falta de sentido

Nefasto o dealbar do que querias sublinhado. Com a razão toldada em dois momentos que te brilhavam nos olhos como coisas por resolver, foi o vento daquele entardecer que sabias ir ser o último que parou tudo. As raízes dos ossos encravados na parte destrutível do ser. O ires com estigmas da crença curva em seres finitos. As pessoas que nunca te souberam ler mais que uma simples nota de rodapé. E as flores. Indiscritíveis artifícios que terminam uma discussão como esta, tal como começam todas: com a certeza de que o belo somos todos nós quando pegamos na ilusão, e a aconchegamos para o frio

10.8.18

Não olhes para lá do suor do tempo

não olhes pra lá
do suor do tempo,
aqui onde não somamos nada
 como os que sabem esperar,
os minutos ensinam-me
a repisar como o prender à certeza da vida,
se equivale aos grilhões
desenhados da morte que
 vem para jantar,...

e com um não saber dedicar
 amores frios à vontade
 de um beijo,
sugeria o contar das
 pedras da ausência,
a escrita desordenada
de frases às estrelas,
quase como se elas fossem
o fechar de boca dos mortos,
e com isso
trouxessem o descolamento à vontade de pertencer,...

para fim da impaciência
pelo uivar da criação,
o mel de estarmos juntos,
sem que dar um passo seja mais que
atrasar os relógios para lá do zero


9.8.18

O Inatingível 2018 de novo no blogue ‘Páginas Partilhadas’




O selo e Pessoa

remoendo as dores,
as frases de pedra estavam distribuídas por todos os bolsos,
restando uma carta gizada a escopro,...

com a manhã bem vincada numa metáfora colorida,
que extravasasse o papel em raios diáfanos de luz,...

havia o tudo escrito nas mãos,
as coisas ditas com voz dorida,
como se um desnorte abrisse as gargantas de onde nos ofertaram choros,...

passei pelos livros de mar que lemos,
os mesmos onde a poesia nunca conseguiu dormir,
porque ela é o ser sem descanso que sabemos estar lá,...

arrumadas as mágoas num saco indissociável de letras,
precisava-se de um selo para expedir o destino,
com cara de dizeres de feira,
e olhar de rainha frustrada com falta de amor,...

surgiu-me Pessoa sem egos de renascimento,
apenas um suspiro de tantos mal quereres que ainda hoje esventram a terra de raízes,...

não sei se voltarei a
ver-te acordar com este
amontoado de medidas de sonhos

8.8.18

Hesitando

mas e a vontade de dizer mas,
todas as coisas que
só pela suicida ideia
de gritar basta,
nos saem caras,
difíceis de ridicularizar,
e de assim nos dar vontade de
nos apoucarmos,
perante a derrota do tempo,...

não chegamos para os deslizes
de ter o ensejo de
querermos ser pequenos,
para a insubstituível
vontade de escrever
parvoíces como esta,...

talvez com a lama dos
 dias que findam sem
nos encontrarmos,
ressurja a decisão
insondável do medo

7.8.18

O Inatingivel 2018 em crossover de novo. Revista 'Hórus Cultuliterarte'


Celacantos

sabes aqueles peixes,
os celacantos,
discutimos longevidade em cima destes medos que não desusam o tempo,
falávamos do oceano que nos separava nas expetativas sobre a morte,
e como procrastinar talvez nos ficasse bem em cima do que restar das peles,
queimadas ao sol,...

pelo sim pelo não veio a noite como acompanhante,
e o mar que lhe batia nos pés,
deixando um rasto de cascalho sem que a sobremesa tivesse chegado,
e os malditos celacantos,
que até estavam nos rostos distendidos,
como se em cada fração de uma ruga de velhice,
coubesse a razoabilidade de não esperar nada da vida,

sem mais nada para dizer a não ser qualquer tempo,
terminou por ali a espera da razão colorida

6.8.18

Se de ti sobrou o apodrecimento em árvore


Recebendo o sol,
saberei recomeçar a vida

Hábitos de leitura

pensei em ler-te hoje,
à sombra do que deixei
 de entender quando
escrevias o céu,
e aqui,
onde o fogo nos
rodeia em golas de
renda sufocantes,
era a terra a dizer-me
que a escrita mata o
amor às coisas pequenas,...

mas os rebordos de
aço dos teus versos,
onde há mulheres
capazes de terraplanar
os destinos,
sem que a erva
daninha chamada homem
desnorteie a fertilidade,
desse lado não se resiste a
um grito para o futuro,...

por isso fui
ler-te de novo,...

gostei do cheiro
a western com que
fiquei na saudade que ainda
 recordo ter por ti


5.8.18

Menos sorte para os conformados

indecisões, falsas percepções, sem saber do ar que respiramos,
tudo para dizer que já não mora aqui o princípio de dia sem cor a que nos habituámos,...

sobram só porções sem tamanho de meninas bonitas,
resinas de consensos de que o amor é o que nos move,
e um pequeno livro de páginas rasgadas,
com desenhos de velhinhas de há dez séculos a chorar,
enquanto esperavam pelos filhos mortos na guerra,...

desesperamos por um outro sol menos taxativo,
que não controle as frações indiscriminadas do vento mulher,
e enquanto não surge o renovador,
à espera da morte das árvores nos quedamos à beira rio


4.8.18

não estiveste aqui quando a noite comeu

não estiveste aqui quando a noite comeu,
fazia frio e as árvores de fruto dançavam descompassadas,
sem que a lua parasse de envelhecer mais do que o habitual,...

lembro-me dos meninos enviados ao céu,
com um vento debaixo da pele,
sobre os mesmos dizia-se do sol que os tinha parido mudos,
e que não interessavam para mais do que letras de poemas,...

não regresses só porque o amanhecer te quer aqui,
agora,
não tenho medo desta madrugada que me ensina a ler uma estrofe de anti solidão

3.8.18

Trans

o amor ainda
mora aqui,
chama-se José
e trabalha à noite
a fabricar sonhos na rua,
lambuza os deves e
os haveres das pessoas,
e chama-as de todas
as declinações do
verbo querer que lhe
cabem nas dobras
da pele,...

veste o brilho gasto,
escondido nas
caixinhas de madeira
mofa e desnecessária
de que se faz o seu envelhecer,...

e para dormir passa o
lavar de pés da
rotina no rosto,
e imagina-se uma
princesa sem reino,
sem Principe,
até sem a frase
mágica da felicidade,
mas com a ilusão de
todos os améns
perdidos juntos
na redenção,...

o amor ainda
mora aqui,
chama-se José e
há-de morrer mulher


2.8.18

Pobreza

Estava trauteada aquela música. Parecia que tinha notas musicais engalfinhadas, quase como o pasodoble desnorteado que a rádio vomitava, de quando em vez, nas tardes de chuva miudinha que convidavam a ficar em casa. Falava sobre um amor recitado. Um amor analfabeto, de dois andrajosos que resolveram apoiar-se na miséria, depois de se terem rendido à animalidade que advém da falta de perspetivas.
Dizia que sentir-se bem com o outro, é quase como despir a pele, e voltar a vesti-la do avesso. Por entre os acordes da guitarra flamenca, parecia ouvir-se um choro igual ao dos velórios. Baixinho, quase impercetivel.


1.8.18

Sim, estás no sítio certo

Primeira de agosto

acabo isto amanhã,
talvez se as coisas deixarem de se pintar a si próprias com um contorno amarelecido,
quase como se visse tudo no meio da pútrida evolução do tempo,
com a morte a caminhar de tamancos,
a apascentar as vacas antes de nos bater à porta,...

o que tenho para escrever resume-se com um adjetivo,
intenso,
passos fortes na saída do café,
dizer adeus à rotina indefinida do não ter nada para dizer,
e estar só para completar um círculo inteiro de comiseração,...

sim,
acabo isto amanhã,
hoje vou chorar de cansaço até adormecer

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