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quinta-feira, 14 de março de 2019

Pisca um cursor (contributo para o blogue 'Páginas Partilhadas' de abril de 2019)

...o chá arrefecia. Não havia mais açúcar em casa. Era preciso sair, amarrar o sol, e seguir em frente, para que a vida continuasse. Vontade era pouca, ou nenhuma. Entardecia a uma velocidade inesperadamente mais rápida que o habitual, e isso notava-se no sol tímido que não conseguia vencer a barreira que as vidraças definiam entre um mundo condicionado, e a selvajaria do exterior. O chá continuava a arrefecer. Havia também um cão velho, assustadoramente desesperado, mas que o escondia num sono mal disfarçado.

Chamo-me qualquer coisa. Não interessa o meu nome. Tenho a idade suficiente para perceber que o que ficou para trás já não conta, para que o que ainda está para vir tenha interesse suficiente para que se prossiga este caminho sem desvios. Por isso, está um computador aberto à minha frente, assente numa mesa que desvirgina a solidão desta sala onde exala o podre de um branco já sem idade. Olho para o cursor que pisca, e sinto o campo de visão a apertar lentamente. Talvez cegue. Talvez continue a ver. Apetece-me um gole de chá azedo, quanto mais azedo melhor. Com a poesia, tudo se acondiciona sem sentido. E, como sempre, o que busco é a desordem. Um ponto perigoso de quase não retorno, em que o traço da loucura é pisado, para depois tudo voltar à rotina deprimente dos dias. Desta vez, queria aventurar-me pelo amor não explorado. Sem personagens. Só com enleios difíceis de explorar, e que levem a lado nenhum.
Mas o cursor continua a piscar. Levanto-me, amanso o pânico do cão, e apetece-me dormir.... Já chove mais que na minha alma alguma vez fez sol.

Blogue ‘Páginas Partilhadas’

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

A ti, pai!!! (Novo crossover com o blogue 'Páginas Partilhadas')



Meteste-me medo. Impuseste-me respeito. Amei-te de uma forma que nunca soube, e nunca saberei definir. Ensinaste-me que o mundo não são quatro paredes de uma casa, nem o aconchego do amor garantido de quem nos deu vida. Carrego a mágoa de, se calhar, não ter feito tudo para que ainda cá estivesses. Tenho de prosseguir com esse nó no coração, que me tira a liberdade de viver a vida com alegria. Até porque vi a tua vida a desvanecer-se, como uma promessa de futuro justo, própria dos olhos neorealistas que me deste para analisar o mundo.
De ti guardo ainda as palavras de respeito que me cravaste no peito e na razão, uma razão que hoje moldei como barro sem te ter aqui, ao meu lado, para me 'abrir aos olhos até ao branco'.
A ti pai, cada minuto de vida que ainda tenho, dedicado a recriar o melhor possível o papel principal que tiveste na minha vida, na vida de outro ser que é, agora, todo o meu mundo.
A ti pai, sem saber se alguma vez voltarei a encontrar-te. Desculpa pelas desilusões que sei que te dei. E acredita, se me consegues ver à transparência como (quase) sempre conseguiste, que sinto muito a tua falta.

domingo, 14 de outubro de 2018

Inatingível 2018 em novo crossover com o blogue 'Páginas Partilhadas'

Às vezes gosto de pensar na manhã como uma coisa que se recorta.
Encolhida a mínimos de palma de mão, circundo-a com uma tesoura ferrugenta, apurando cada forma geométrica que faz dela maleável a todos os sentidos humanos.
Acabo com justapostos triângulos, de rebordo dourado do sol de todas as vezes em que acordo com sorrisos dos que não se vendem por sonhos falsos.
Com cuidado, procuro enfià-los nos dois globos oculares, até conseguir parar em frente ao espelho, e ver-me sem o eu que dispenso há décadas.
É giro, sentir o morno da sinceridade dos princípios de dia a brotar pelo meio de cada artéria auto-bloqueada que o nosso corpo se prepara para formar.
Abro os olhos, e só assim me vejo como algo por que vale a pena lutar. Descoordenado desta pele de papel manteiga que me embrulha os ossos, fazendo do sangue caldo intenso de odores pintados de todas as cores