30.11.18

A não ser que não se escreva

nem com as missangas de
cada palavra,
com as frases escondidas
 na baba solta de um
velho a bater
à porta da morte,
nem assim desfiámos
qualquer coisa de resguardado,
naquele romance que
ninguém entendia,...

batíamos à porta dos
vizinhos da esquerda,
e à direita o sexo
arranhava a parede,
como noite sim,
 noite não,...

e nós como autores sem registo,
sem influência,
só em busca de frases
intermináveis,
sem pontos
finais e vírgulas meladas,....

não se fez livro,
só se descreveu o não
retorno ao início


29.11.18

Pes s oa

Pessoa nas rochas,
no vento,
em cima de um mundo
Com tochas,...

Pessoa a arder,
luz fosca num quarto
escuro,
sem que me saibas prometer,...

Pessoa fui tu e eu,
restos de amor,
sem que me lembre do breu,...

Pessoa à noite,
comigo a vaguear,
desunido do que me possas ainda esquartejar,...

Pessoa a polir calçadas,
com Ricardo a ir pros prazeres,
e um mundo desigual,
sem fim,
nem fachadas

28.11.18

Breve esboço de amor em fim do mundo

servia para conter a raiva. Dizer a si mesmo que as noites são,quase,sempre menos frutuosas que os dias. E por isso decidira chamar-se todas as coisas, uma por dia. Abdicara da identidade. De sentir que tinha um esqueleto, dois corações, um para a vida e outro apodrecido, para a morte. Preferia sentir o ar queimado a desvanecer-se pelos seios respiratórios a dentro, falseando o sentido de ter um norte. De querer, infrutiferamente, amanhecer uma qualquer ideia quando lá fora nada mais há do que trevas a desenhar olhos que choram no céu.
Tudo estava escrito a seco, nas paredes daquela casa encostada a uma falésia que o mar ia carcomendo. A solidão almoçava com ele, recusava deitar-se consigo na mesma cama, mas passeava de mão dada com ele nos breves momentos que a chuva ácida do fim dos tempos permitia ao sentir nada, à normalidade ...
As coisas mudaram talvez porque tinham de mudar. Um dia, sentado de pernas cruzadas, a meditar sobre o que é certo e incerto, ouviu uma voz que subia pela sua pele acima. Percebeu que era algo sobre o caminho para a civilização, para um sitio onde ainda poderiam haver pessoas que sorrissem, capazes de partilhar uma ideia inocente e dissolvida nas paredes do tempo, chamada amor.
Ela sorria só o suficiente para não chorar, e parecia ter esquecido de como dissecar o choro. Os seus olhos de tez amarelecida, que ao mesmo tempo equilibravam uma existência de séculos, com a juventude eterna do querer bem, perguntavam-lhe todos os enigmas do mundo.
Ele, que se tinha esquecido de falar, de tentar ser feliz....


27.11.18

Mais uma coisa com cigarros de terra

diz-me que sabes escrever
as pedras,
e por pedras entendo os
chamados rendilhados do
tempo sem uso,
e diz-me que das pedras farás
amores-perfeitos,
daqueles capazes de se dormir em cima,
e dos amores-perfeitos morrerão
pulmões corroídos por cancros,
e dos cancros nascerão crianças,
e das crianças sairão frustrados,
incapazes sem roupa,
e que andam nus pela casa a
desfiar o cordão da vida,
até ele acabar,...

e quando já se te acabarem os pés,
diz-me que preferes ser analfabeto,
e que da felicidade que daí surgir farás
flores de papel,
para distribuir aos indecisos,
que sorvem indecisões em
vez de se contentarem com
copos de água envenenada,
e para terminar com redondéis
como estes,
sem nome,
e que fumam todos os cigarros
de terra do mundo,
diz-me que já sabes escrever outra vez,....

eu vou fingir que nunca te conheci,
para ser melhor assim


26.11.18

12 anos :-(



Solitude standing

parecia-me estranho
 que só o amor se
 quisesse sentar ao sol,
num dia frio em
que nem a vida
falava pelos olhos
das pessoas,
atrevi-me a
descascar a pele que me
 sobrava,
estendendo-a nas
 calçadas gastas
da indiferença anormalmente
definida,...

pensei no ar que me
 custava respirar,
no egoísmo
fermentado que me
tinha habituado a  ver
nos finais de vida,
e em ti como contorno
 único dos meus olhos,
quando a noite me estrangula,...

não vejo mais que o
suficiente para agora
 dissertar sobre a solidão,
talvez seja só o que tenha
conhecido até aos ossos


25.11.18

Sem título (79)

quando disseste que os sonhos eram mentiras, 
eu estava lá,
lembro-me de teres contornado
 todos os poucochinhos 
que sobravam ao final 
de cada dia,
e apertares a 
madrugada 
entre as pernas,
de tal forma 
que as estrelas 
guinchavam um 
desnorte incompreensível,
alarmante,...

percebeste isto 
tudo como a 
mentira dos sonhos,
não me compete 
a mim contrariar-te 


24.11.18

Nova forma de escrita

desenhava-te com letras 
enquanto de soslaio, 
pela ponta do 
nariz mascarrado e 
bexigoso que 
sempre te assustou,
via a escória 
desnatada que 
aprendera a odiar,...

punha um atrás do 
outro,
os cigarros 
de terra que te 
dei e tu 
assoberbaste,
transformados 
na desilusão 
de uma rotina,
a mesma que 
tresandava à 
naftalina do 
passado enterrado
naquele dia de chuva,...

demos que 
passo a passo,
nos acompanhava 
uma nuvem baça,
com todos os 
améns e os ai 
Jesus de quem 
nos amaldiçoou,
lá atrás,
onde ainda 
está a nossa 
capacidade de 
arredondar o real,
e vomitar poemas 


23.11.18

Olhos e tudo à volta

diziam que pelo fumo 
se notavam os 
teus olhos a desvirtuarem-se,
como se dentro 
do teu mirar 
estivesse o mar,
amantizado com 
o fim do mundo,
rodeado de 
milhões de almas 
que fugiam ao 
despenhamento no nada,...

só a esperar o 
amansar do dia nascido,
percebi que as 
pessoas estavam 
enganadas,
de tanto trincar 
o engano,
os teus olhos perderam 
toda a vida,... 

hoje moram na 
galáxia mais distante,
onde o universo 
já nem menino 
consegue ser 


22.11.18

Frente posta ao sol

há dias em que a morte me arrola,
prestado a testemunha do tempo,
deponho a frase implícita no mar,
ossos decompostos no ar que
brota da servidão,...

da imprevisível descontinuidade
que se apodera das
horas,
recosto-me à espera em que
consigo escrever,
laudos ao soar da voz,
à modorra do silêncio,...

frase posta,
quando o explodir
do sentir,
acabar com o respirar


21.11.18

Numa nota menor

como se os meus livros fossem
a volúpia do teu acordar,
espalhados inesteticamente por
 as mesmas estantes
onde os dedilhas,
manuseias,...

fazendo do pó
do saber,
um resgate à música
que sempre aqui esteve

20.11.18

Um dia gostava de saber escrever assim

Fingir que está tudo bem 

fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer? olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga

José Luís Peixoto, in ‘A Criança em Ruínas’

Sem título (80)

 não importa, na verdade, se eu no décimo primeiro dia de mil novecentos e noventa e três me estava a sentir mal. Nem se estava sozinho, sentindo o avesso de tudo o que já tinha experimentado. Só me recordo de que, naquele momento, e pelo menos nos tempos que se seguiram, o relógio parou. Não havia nem deve, nem haver. As coisas estagnavam à porta do meu ser, porque eu não permitia a sua entrada no registo transversal da minha existência.
Sabia que era um puto sem eira nem beira. Vestia-me mal. A comida sabia-me a lama. Não importava, realmente, se os barulhos que ouvia ao acordar de manhã, e os que tentava afugentar ao adormecer, importavam para alguma coisa. Ao meu lado na cama, estava sempre um buraco enorme, que eu sabia não estar lá, mas que me acompanhava ridiculamente a cada noite.
E sei que me cravei à vida naquele dia.
Não consigo escrever mais que isto.

19.11.18

Como quem sempre reescreve a história, sem saber....




À Bout de Souffle, Jean-Luc Godard, 1960

Para ela a linguagem tinha acabado

é uma maneira de dizer que tudo
foi diferente,
quando o sol se desfez em pequenos pedaços,
e o dia deixou de obedecer ao racional,...

ela fazia as perguntas que tinha de fazer,
humedecendo os lábios em círculos
com a língua,
quase como se estivesse
a entrar em guerra consigo própria,...

não lhe custou perceber que
tinha de obedecer às frases
feitas da morte,
e que azulava os olhos sempre
que não percebia o que
o mar lhe estava a fazer,
quase como que circunscrevendo
a parte irrisória dos dedos das pessoas,...

deixava tudo de fazer sentido,
já que a terra se engelhava em
pequenos gomos de laranja,
e tudo entorpecidamente se virava
para dentro de si próprio,....

ao final do dia o céu irrompeu
em chamas,
e mais nada houve para ser dito,
para ela a linguagem
tinha acabado


18.11.18

Algo sobre uma foto

adoro esta foto,
é como se da terra
tivesses aprendido a fazer
amor,
como uma metáfora que a luz
te tem trazido pegada à pele,...

e é como te virando do avesso,
de ti brotasse o abandono,
o mesmo que faz das coisas o
absinto delas mesmas,
e torna a nossa existência uma
contumácia de pensamentos sem nome,
sem pai,
e com mãe moribunda,...

talvez dizer-te mais uma vez 
que adoro esta foto,
apareces nela,
desaparecendo à luz 
nauseabunda do dia 

17.11.18

Gatos

A casa ficava ao nível do mar. Podíamos ver as gaivotas a sobrevoar o telhado, fazendo círculos concêntricos por cima das nossas cabeças. Grasnavam quando pareciam querer que as víssemos, e olhavam para baixo fixamente, atentando a cada pormenor do nosso percurso, sempre que o outono se preparava para espraiar nas falésias que embalavam o sono das ondas que vinham desfazer-se em espuma junto a nós, adivinhando quando queríamos fugir à loucura de tudo aquilo que era igual.
Havia sempre um gato à janela naquela casa.
Foram vários, ao longo dos anos, mas todos juntos pareciam fazer só um. Acompanhavam as nossas presenças de espírito perante tamanha beleza, as nossas depressões quando tínhamos de abrir as portas daquele sonho e regressar ao mundo encrespado que girava, lá longe. Nasci ali, no meio das mantas 'tweed', e dos bules de chá. Das gaivotas que ganhavam coragem de entrar porta dentro, e bicar os bocadinhos de pão torrado que saltavam da torradeira todas as manhãs.
 Mal aprendi a andar, aproximei-me da porta de casa e espraiava a curiosidade com longos olhares nos carros que, lá longe, serpenteavam no horizonte, fazendo-me crer que o real tinha um tamanho descomunal. Do tamanho da imaginação que eu conseguisse, um dia, amealhar por todas as pessoas com quem me viesse a cruzar na vida.
E sempre os gatos. O tal único gato de que já falei. Que quase me parecia sempre que sabia falar. Olhar para mim com olhos raiados de choro alegre. Ouvi miados roucos. Estridentes. Declarações de amor sem sentido, e plasmadas de todas as formas inexistentes que a linguagem proporcionava.
Ainda hoje me lembro de tudo. Como se tivesse acontecido em redor do último minuto.....

16.11.18

Mãos desfeitas

todavia as mãos desfeitas,
vidas arrastadas atrás de um momento
encovado na morte,
com um rosto que se esvai,
alocado ao sono dos dias engarrafados,
com água podre,
e choros ao fundo de todas as ruas
que já se desfiou,....

as parcelas inauditas das somas
dos risos,
dos segundos despercebidos,
arrumados em cantos
desconhecidos do viver,...

ainda as mãos desfeitas,
preso à lamúria de noites
insuficientes,
ressurjo adormecido nas
frases longas de
um amor inaudito


15.11.18

Sem título (81)

ela não sabia como pedir desculpa,
só sentia que ao abrir a boca,
ninguém a entendia como alguém válido,
capaz de ser levado em conta 
quando surgissem as dúvidas,
e as indecisões 
que sempre existem 
nos minutos que se 
seguem ao ensandecimento 
coletivo,... 

escolheu por isso o silêncio,
e o rosto por entre as 
mãos em face do falhanço,
e o acumular de 
frustrações em 
vez da poesia,...

não queria 
melhorar até que 
um dia abrisse a 
porta de casa,
e o tal Principe,
que nem 
precisava de ser o 
mais belo da história,
lhe perguntasse 
porque é que o 
cabelo dela não 
ficava melhor 
ao sol do entardecer 


14.11.18

Só tu me consegues ler

Inatingível 2018 em novo 'crossover' com o blogue 'Páginas Partilhadas'

Não faço os cês suficientemente redondos, eu sei. Os meus emes parecem dois arcos do triunfo prestes a ruir, numa Paris dos adeus e nunca dos encontros . Aprendi a escrever tarde. Antes só respirava para poder partilhar o meu nome, as razões do meu choro, e uma ou outra coisa menos insolvente. Evoluí para os poemas sem sentido. Simples, insonsos, e que normalmente acabavam em longos entardeceres, sem frases sequer para se perceber o que pensavam os intervenientes.
Houve um tempo em que só me preocupei com o real. Os pobres e o transpirar inclusivo do medo nas páginas brancas. Os ricos que levavam a nem querer ter páginas. E os remediados, dos quais já nem me lembro.
Hoje, se calhar, só tu mesmo me sabes ler. Não quero escrever mais do que o necessário. Acho que sou um auto-didata do descritivo. Com longas impressões das coisas que vamos, ocasionalmente, vivendo juntos. E se calhar estou bem assim. 
Ainda aguardo pelo primeiro leitor....


13.11.18

I feel like bubblin' right now

What comes after...

aquela era a hora em que vinhas,
e me encontravas no avesso das mãos,
desenhado a carne viva,
por entre o que era o desânimo
de escaras que nunca assumiste ,....

pensando as pessoas
que só professávamos
o amor,
dizíamos no resto dos
olhos a escrita do sangue que
já não corria,
dos frutos podres de
um tempo em que
não queríamos mais medrar,
como outrora,...

naquela hora em que vinhas,
terminavam as histórias,
e aquelas pequenas pessoas
de um dia fechadas nas mãos
de quem nos via


12.11.18

Irresponsável dissertação sobre o nada

começa em ti o silêncio necessário. As dores que calcinam pela dor que a vida faz, quando passa pé ante pé rumo ao chão sem pedra que é a inovadora repetição de não ter para onde ir. De não ter o que respirar. Somos todos os mesmos quando, voltados para o abismo, procuramos na ponta dos dedos a ponte que já não existe. A rédea que o vento precisa para não nos levar.
Por isso, começa em ti o silêncio necessário. Às vezes querer o longe dentro do côncavo das mãos, é impossível. Bastam dois dedilhares. Duas frases por construir na folha em branco de um final de tarde sem nome




Tirado daqui

11.11.18

Idiota a representar o tempo e o medo

a senhora invisível era incapaz de responder quando a pressionavam,
as horas respaldavam para a inquietação,
deixando-a sem palavras,
achando que o poder do silêncio era a melhor solução para tudo,...

um dia fez um desenho de um minuto,
era um príncipe bonito,
de cavalo branco,
com ondulados cabelos louros,
e acabou a rasgá-lo em várias partes,...

as coisas nada mudaram para ela,
só ficou a saber assim que além da pressão,
não sabia lidar com a rejeição que é o envelhecimento


10.11.18

escrevo sempre qualquer coisa

escrevo sempre qualquer coisa porque naquele prédio não há livros,
nem que seja que já tive amigos outrora,
quando dividia as palavras em amor e adoração,
e as pessoas gostavam de mim por isso,...

quando me mudei,
e fui saltando de bairro descosido,
em bairro descosido,
tornei-me fechado,
as letras começaram a cheirar a argamassa,
e eu sei que usei alguma para fechar uns buracos insuspeitos,
que se me abriam no peito de vez em quando,
e por onde o ar carrilhava o suficiente para me ir deixando desconfortável,...

hoje estou num sítio frio,
onde vou sempre escrevendo qualquer coisa

9.11.18

Geometria da ausência


os teus olhos não me namoravam os círculos dos dedos. Só prisioneiro da vida em esfera, podia pesar o suficiente as indecisões para que lá na precisa referência ao que, obscuramente, me dizias com um sorriso, tudo se resumisse à triangulação do que já não tenho para te dizer . Sobram-me apenas fardos sem sentido de sorrires que, sei-o, só tu me soubeste dar. Coisas, aqui e ali, do que me ensinaste a escrever. Sempre os mesmos poemas, mas sinceros, retangulares, com forma de jardim onde nunca estive mas em que talvez já tenha dormido.
Pequenos círculos de um odor a morte inundam-me o palato, agora que já é o primeiro dia sem ti 



8.11.18

Fernando perdeu a pessoa

o senhor orpheu tinha 
nome erudito,
bigode mal 
amanhado,
amava uma 
ophélia e não sabia 
se era amado de volta,...

saltava de quarto 
em quarto de uma 
lisboa que o acorrentava,
a ponto de encher 
arcas de madrepérola,
com folhas 
amarelecidas de 
palavras encavalitadas,
escritas em letra 
incomportável para 
olhos como os seus que,
acasalados em dois 
monóculos cerzidos 
com fios de arame,
o roubavam 
paulatinamente à luz 
da vida,
deixando-o entregue
 a mapas astrológicos 
sem sentido,
que um dia 
lhe trouxeram 
um último suspiro,....

muitos anos 
depois descobriram 
que o senhor orpheu,
se tinha 
chamado Fernando 


7.11.18

Bloqueio criativo

não me apetece escrever nada hoje,
sinto que os meus dedos 
caíram no buraco 
sem fundo da dúvida,
e não há ruas 
onde possa ir para 
conhecer luzes
 opacas,
das que nos 
furam a pele e ressurgem com mil 
histórias de pessoas de sucesso,
com vidas medianamente desafiantes 
para fazer perceber aos outros 
como compensa rabiscar criação literária,...

poderia forçar o erro,
e esperar por dois 
beijos de instinto,
com a louça de uma 
casa perdida 
no tempo,...

mas não vale a pena 

6.11.18

Bukowski,.....só um bocadinho

se calhar não fazes de propósito
quando achas que a vida gosta
de ti,
nem ninguém te pode culpar
quando se te acaba o fogo de
sorriso,
o mesmo que te alumia os
lábios quando
te achas superior
ao próximo,...

no meio disto tudo,
se calhar,
só queres mesmo
que ninguém te incomode,
e que continues a ter o teu uísque
a tempo e horas,
até que o teu fígado rebente,
e depois ninguém mais
se vai lembrar de ti,...

experimenta a viver o oposto disto,
e depois explica-me a diferença,...

se é que há diferenças

Resultado de imagem para charles bukowski


Tirado daqui




5.11.18

Um dia gostava de saber escrever assim

fernando pinto do amaral / 7.




Foi por uma janela que te vi
chegar. A medo, olhámos um para o outro,
cercados de razões que não havia
em nenhuma das horas passadas à espera,
em nenhuma das artes do amor.

Um véu de sons cobria-nos o mundo,
as mesas de madeira envernizada,
a camisola       os olhos muito verdes
o livro dos telefones muito azul.


Quiseste despedir-te logo ali
talvez pra não nos verem. Se pudéssemos
sobreviver ao fogo dos sorrisos,
como se a um segredo confessássemos
mais do que a própria vida! Mas ias descendo
a longa rampa rumo aos repetidos
roteiros do saber. Retomarias
os horários de sempre, esse teu mundo
sem ventos nem marés, fins-de-semana
uns à espera dos outros. Quase tudo
o que tínhamos dito ficava a sonhar
com muitas outras tardes, com a luz
de menos breves horas. «Pode ser
que eu te escreva, que passe contigo
um dia de setembro».



fernando pinto do amaral
os olhos verdes
poesia reunida 1990-2000
dom quixote
2000

Sexo de ideias

as frases saiam a custo,
os homens acariciavam a pele
para saber se as palavras,
poderiam ser a causa de vida,...

chegaste a pedir-me para te
escrever qualquer
coisa com uma morte,
um desaparecimento
 brutal que servisse
para justificar o que
parecia ser um armagedao,...

acredito agora
que o mundo
acabou naquele dia,
nunca mais
cheirou a sexo de
ideias durante a madrugada


4.11.18

Para sempre

para sempre,
não gostei de sentir o 
tempo enleado 
na impossibilidade de 
mais um respirar tranquilo,...

olhava em volta,
e excetuando o 
infinito como 
prosa de todos os dias,
percebia que 
aquele seria o 
momento das 
letras maiúsculas,
dos compromissos 
com a razão,
a gnose de não 
ter mais nada que o 
nada como fator de criação,
e tudo o que de 
maravilhosamente 
assustador dai 
se desprende,...

por isso para 
sempre 
enredado 
naqueles 
livros de 
maravilha,
das sextilhas
 insuficientes,
escritas 
com 
ênfase 
no traço 
das reticências,
e usando 
o amor 
como a evasão 
do descontínuo,...

para sempre,
me terás como queiras,
no correr dos 
rios eternos da espera 

3.11.18

Alienação do tempo descrito

esperávamos um mandamento de respeito. Algo como a voz, replicada em sonoras
ondas de eternidade, que saísse de dentro daquela casa que, decrépita,
se preparava para morrer.
Diziam que era ali que entravam
homens sem alma, e saíam profissões de fé transformadas
em alvoradas sem cor.
Só deixando para trás um odor a terra queimada, sinónimo de maternidade hermafrodita.
Líamos a razão, apenas com os olhos fechados e em lágrimas.
Falava-se no milagre sem cor. Que a criação seria recriada aos poucos,
sem fantasia.
Disposta a ouvir as pessoas no sono
e na alvorada. Independentemente de credos, raças, ou segregações sexuais declaradas.
Efusivamente anunciado, o tempo parecia ter recomeçado. Em ti eu achava o protocolo certo de estar vivo. Ouvindo salmos de anúncios sem voz,
a rescisão da divisão entre o real e o passado,
a frase escrita, e dita.
Precisávamos de uma razão para continuar a respirar.
E encontrámo-la nas danças alienantes da névoa da manhã, que bailava estranhos encantamentos hermenêuticos em nosso redor, pedindo a madrugada.
Talvez tudo fosse o necessário para que cada minuto se passasse como nunca havia sido o anterior, e nunca poderiam ser os restantes que estivessem para vir.


2.11.18

Esperança de papel a voar como pássaro

para quê as escaras?,
as peles resolvidas de
choro,
cravadas de sangue invisível,
com as noites mal dormidas,
as vivências inutilmente escritas
a transparente,
para que acabem no centro
de todas as praças do mundo,
sublinhadas com gritos,...

no final do riso,
disse-te que viria um
fim travestido de inocência,
e que não haveria estigmas
suficientes para que,
no meio dos lamentos,
sobrasse qualquer ponte para
uma esperança com forma de pássaro,...

a voar em todas as palmas
das mãos dos esvaziados
de crer,
que sobrassem,
ao cimo desta montanha
onde sei que terei
de esperar pelo fim





Tirado daqui

1.11.18

Primeira de novembro (Diz que é um conto de Natal)

Disseram-lhe que ela iria desaparecer. Sem escrever qualquer carta. Nem sequer esvaziar as gavetas de casa, as tais, muitas que nem fechavam porque as combinações de seda emperravam as dobradiças, e sofriam com aquele um ou outro frasco de perfume caído da caixa de casquinha que estava em cima da cómoda. Só ia sair, para provavelmente nunca mais voltar. Há uns tempos, as velhotas do mercado ouviram-na a choramingar sozinha, quando entrava de cesto de verga na mão para as compras do sábado de manhã. Não é que a conhecessem muito. Mas mulher cansada de viver, gosta de dar com o olho em cabelos sedosos como ela tinha. E a pele branca, como se fosse o último copo de leite que Jesus bebeu no domingo de Ramos. Perguntaram-lhe o que tinha e ela, a princípio, nada disse. Apoiou-se na mármore da banca do peixe. Os dedos muito avermelhados por entre as cabeças dos pargos. Parecia que ia desmaiar. Até houve quem se oferecesse para chamar uma ambulância. Mas ela aguentou-se em pé, apesar das pernas tremerem por entre a saia de folhos, que dava aquele dia de verão um ar de primavera mal redigida pelas mãos de um poeta. Foi aí que alguém a ouviu dizer que se ia embora de casa. Porque sim. 
E foi. Naquele dia, quando o céu já marcava os restolhos de fogo próprios de um dia de estio, ele chegou a casa desanimado. Pressentindo o pior. Ela não estava. A casa estava arrumada como habitualmente. O quarto de porta fechada. A mesa da cozinha alinhava com as cadeiras de madeira clara. Na sala uma escuridão baça parecia conversar com os raios de sol que entravam pelas frestas dos estores da janela. Ela não estava em lado nenhum. Soube que a vida teria necessariamente de mudar. O que era a cola que lhe juntava a madeira da vida desaparecera.
As semanas foram passando, e ele fechava-se como um caranguejo que repousa na rebentação, apenas com a carapaça como proteção.
O Natal já lá vinha no calendário, e alguém lhe disse que ela tinha sido vista. Passeava no jardim da cidade vizinha. Cabisbaixa. Tinha cortado o cabelo, aquele que tinha sido o seu tesouro de seda, como gostava de lhe chamar. Carregava na mão uma pequena mala preta, e andava em ziguezagues, sem destino.
Na véspera de Natal ele chegou do trabalho para uma casa vazia. Sentou-se no sofá da sala, ouvindo a chuva e o vento que lá fora arranhavam as paredes do prédio, recusando-se a ceder ao silêncio da noite. Pensou que não se recordava de qualquer prenda que desejasse mais do que ela, a bater-lhe à porta, com o mesmo sorriso que anos antes lhe tinha servido de chave a um coração fechado. 
Adormeceu, e só acordou na manhã seguinte com a luz do sol a acariciar-lhe o rosto, quase como se quisesse secar-lhe as lágrimas que cosiam uma segunda pele em redor de uma triste redoma.
Saiu para a rua, pronto para qualquer coisa que a vida lhe trouxesse. Era manhã de Natal, e andou minutos a fio sem encontrar ninguém. Chegou junto a um parque que sempre tinha adorado. Foi ali que a tinha conhecido, há mais tempo do que aquele que agora conseguia conceber.
E foi então que, fitando o horizonte, viu algo a aproximar-se. A princípio era um ponto indefinível, ate que....
Parecia que a brisa lhe tocava a música sem nome que, não era só dele.
Primeiro os cabelos, agora curtos, depois a pele reluzente naquele sol de fim de ano, e depois um sorriso renascido. Sim, era ela. Olharam-se sem que a palavra fosse uma prioridade naquele momento. Ela pegou-lhe na mão direita, e colocou-a no coração. Sorriram um para o outro. Regressaram de mão dada a casa. Ele percebeu que tinha de ser ela a explicar. Mantiveram-se em silêncio, a olhar um para o outro, até que a ela lhe saiu dos lábios:
‘Percebi que quando morrer te vou perder para sempre. Não consegui suportar isso’
Ele pegou-lhe na mão, quase como se pedisse desculpa por ser um indutor de sofrimento, e continuou num silêncio cúmplice.
Lembrou para si mesmo que era Natal, e tinha uma prenda que nunca havia perdido...

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