acabei de ver poemas a saltar e correr, desabridos como o vento, tinham um campo florido para percorrer,....
uma brisa leve, final de primavera, e letras que deixavam rasto vincado, como que o poema não falasse por si, mas sim pela altura do ano em que ganhou a liberdade
Eu também tive cartas. Via-as apenas como pedaços de papel. Não que as pessoas chegassem à minha vida, e elas aumentassem ou diminuíssem de valor. Continuavam a ser repositórios de experiências. Dias e noites a chegar e partir, e eu a permanecer o mesmo. Imutável, com experiências de vida vulgares e inúteis de serem explicadas, ou sequer partilhadas. Mas sentia, ainda assim, necessidade de as ter. Funcionavam como estertor das coisas que eu queria esquecer. Acho que estavas lá, ou tens passado como particula quase invisível de cor em tanto branco do papel. Já começo a ser desnecessário, e monótono. Mas não sei ser de outra forma
Por isso estão aqui estas heranças. Se não quiseres, não as aceites como cartas. Pensa na virtude de tanta sinceridade, como aquela que aqui verto. Só isso que quero mesmo dizer-te....
À partida este seria um caminho fácil de percorrer. Um tosco retângulo de terreno com mais ou menos um quilómetro de diâmetro, e uma estrada ziguezagueante, aos altos e baixos, mas em relativo bom estado, que a atravessava na diagonal. Há praias no inicio, e penso que no fim também haverá. A ideia é parar lá, debaixo dos tamarindos velhos mas frondosos, e ganhar balanço para chegarmos ao outro lado. Acho que no inicio e fim da viagem as paisagens serão parecidas. Curtas extensões de areia, que deixam os pés a vermelhar de salsugem, por entre o tímido impeto de ondas que chegam para nos lamber os pés, e depois regressam prontas a voltar e fazer o mesmo a quem se atrever a passar depois de nós.
Pressinto o teu hábito de apreciar experiências destas de forma indolente, escolhendo locais ao acaso para te deitares, se possivel nua, amantizada com o bater do coração da terra por baixo do teu corpo insinuante. Pressinto e desejo. Gosto de locais excessivos, para que o excessivo do que temos sobressaia
O sorriso era reconhecivel.vulgar mesmo. Os lábios gretados, aparentemente fruto de uma alimentação deficiente, à base de fritos e outras coisas normalmente dispensáveis.
Os dentes, apesar de parecerem desenhados à esquadria, eram finos. A boca assustava, em suma, por isso permanecia oculta com camisolas 'turtleneck' de cores sóbrias, que independentemente da estação do ano tapavam os lábios, e com isso dificultavam a percepção de uma identidade difícil de ser definida.
Este é um retrato feito ao longe, e que permite perceber um homem de meia idade, assoberbado pela rotina. Pode ser sempre encontrado à mesma hora, mergulhado num mar de gente anónima, com transportes que vão e vêm até chegar o certo. Veste roupa formal, e na mão uma pasta de executivo, já desgastada pelo tempo e uso.
Oculta a calvície precoce, e o cabelo envelhecido, com o mesmo chapéu. De feltro, com uma banda azul escura. Herdara-o do pai, que o tinha recebido do seu pai,....
E era algo que sempre tinha contribuído para manter um ar de distinção na família. Este é um exercicio de escrita que parte do particular para o geral. É respeitando essa ideia que surge, por entre a chuva que entretanto aparece, ritmada e sorrateira, o transporte que tantos esperam. Entra no velho autocarro de dois andares, de fabrico inglês, e mantém-se com a dignidade intacta, na medida do possivel. Engolido por uma maré de anónimos, pensa em branco. Com rebordos de cores desmaiadas, e que talvez indiquem alguma alegria impossivel de explicar...
não me parece a dor, não estou desolado com lábios secos, gretados, duas formas de ver o abandono, repousados no adeus inocente com que acabas este, e qualquer dia,...
não me sinto desolado, porque o desenho dos teus olhos, o que segue de ponta à outra da tua fronte, não está no domínio do real, do que dizem os livros fechados, e esquecidos por nós,....
às vezes a frase completa-se, e percebemos que o som, não serve para frequentar o incorpóreo
Conheceram-se por mero acaso. Ela apanhava a medo, e o mais rápido que conseguia, as moedas que tinha perdido ao deixar escapar o balanço à saída de um café. Ele passava apressado, tentando chegar a tempo a uma consulta médica. Não queria, mas tinha de parar e ajudar. Primeiro distraído, e sem nada dizer, foi tentando usar o polegar e o indicador como pinça, para apanhar as moedas. Só depois, ao fim de alguns segundos, olhou para ela que, assustada, também tentava que tudo acabasse rapidamente. Algo criou uma mudança no balanço das coisas. Ele perdeu a concentração no que fazia, e perguntou-lhe o nome. Ela a custo respondeu. A consulta médica ficou esquecida, e ela estava de volta ao café de onde tinha acabado de sair. Conversaram em crescendo, conhecendo cada bocadinho de uma juventude que partilhavam, e que tem sempre prazo de validade. Separaram-se com o sentimento de que aquilo não podia ficar por ali. No dia a seguir cruzaram-se exatamente no mesmo local. Voltaram à mesma conversa de descoberta mútua, que terminou já com os contactos trocados. O tempo voou, e depois do sexo exploratório, veio a ideia de viverem juntos. Mais tempo passou, e ela um dia disse que uma criança vinha a caminho. Ele sentiu-se a renascer, mas o trabalho tirava-lhe cada vez mais tempo de qualidade. Ou seja, um projeto de família, se calhar, não era bem o que tinha em mente naquele momento. Ela voltava sempre ao mesmo café, e um dia tornou a perder o balanço. Só que a barriga crescida já a impedia de apanhar as moedas da malvada carteira envelhecida. O cavalheirismo existe, e em dois momentos alguém a ajudava a corrigir o percalço. Era um homem. De olhos húmidos. Chorava. Ela perguntou porquê, se podia ajudar. Ele respondeu que tinha perdido o amor da sua vida. Ela sentiu-se compelida a regressar ao café, e fazer o melhor para ajudar. Percebeu que tão depressa como acaba, um outro projeto de vida pode começar. E pegou no telefone. O pai do rebento que carregava estava do outro lado. E as coisas acabaram entre ambos. Para ela, iam recomeçar