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quarta-feira, 10 de junho de 2026

Por isso,...

 Às vezes estar aqui sem estar,

Começar simples,

Pensando que as decisões são de todos quando amadurecem,

Mas a loucura de as tomar,

Cabe em poemas deste tipo,....


Que vão aumentando de cadencia,

Luminosos,

E impossíveis de se reproduzirem a outros olhos,

E outras formas desgarradas de análise do real,....


Por isso,

Andar,

Desenvolver o tato de análise,

O trato infindo de ser humano,

Cada vez mais aperfeiçoado 

                                                                             Tirado daqui

segunda-feira, 4 de maio de 2026

A dor pendia,...

 Ao acordar,

A dor pendia,

Partida,

Como um vidro absurdo do coração dos desajustados,....


Era a primeira vez do silêncio,

A primeira vez com o amor que era conhecido,

E a desilusão esperada e novelada das dores humanas,....


E quando ambos se afastaram,

O dia não era mais o verbo naquele mundo,....


Sobravam momentos de uma noite de poder,

Que já era a voz de

 ambos ao amanhecer 

Woman reading by candlelight
De: Peter Ilsted

quinta-feira, 23 de abril de 2026

E sempre to disse...


 Diz me qualquer coisa,

Extrai o que hesito,
O que deixo de mandar,
As pressões pessoais de um passado recente,
Desse único sorriso que tens para mim,....

As palavras,
Vão pesando como o ar em cima do tempo,...

E sempre to disse,
Ajudam a atenua lo,
A que se diga bem de uma falha de voz,
Das imperfeições com que o corpo nos retira a tranquilidade,....

Prefiro-as a tudo,
E em cima desse caminho de palpação,
De testar antes de fazer,
Será o indicado,
Para o que nos falta percorrer 

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Seria seguro admitir,...

 Ninguém exigia muito,

Tinha talvez de haver silêncio,

Um compromisso de renúncia ao verbal,

Ao insulto,

À mera consideração,....


E deixar que a verdade cedesse a uma transformação gradual,

Renúnciasse ao primado do verbo,

E fosse um conceito pré linguagem,

Dependente do amanhecer,

De anoiteceres violentos ou calmos,....


Seria seguro admitir,

Que no mundo mais que uma pessoa pensava desta forma 

terça-feira, 15 de julho de 2025

Talvez se a escrita fosse isso,...

 Talvez se precisasse de um poema,

houvesse a feição,

o rosto escorreito de um menino

abençoado que canta à chuva,…


e pares de pés que palmilham

este mundo e o outro,

para uma partilha instantânea

de paraíso,….


talvez se a escrita fosse isso,

a razão do momento da criação,

nada iria ser preciso para recomeçar,…


voltar a reproduzir testemunhos,

vidas de velhos que vão passando

no colo de uma mulher bela,…


e acabou,

o presente já se enrolou

numa noção falhada de futuro

                                                                     Tirado daqui

Fotografia de Brooke Shaden

terça-feira, 8 de julho de 2025

Vejo as pessoas em obras literárias,....

 Fechado o tempo não mudou,

Por aqui e por ali os olhos fecham-se à indiferença,

Há prazer nos desvios súbitos de caminho,...


A perfeição fica subentendida,

E quando por acaso o mundo altera a estação de evolução,

Não nos adaptamos,

E aperfeiçoam-se mecanismos de distração,...


Enquadrada a mudança,

Vejo as pessoas em obras literárias por acabar,

Doridas e sem refúgios aparentes 

                                                                    Tirado daqui

sexta-feira, 27 de junho de 2025

Como um empecilho útil,...

                       Tirado daqui
Muitas vezes,
Mais do que as que razoavelmente poderia desejar,
Via-se deixada para trás,...

Sem que ninguém a fizesse constar no que quer que seja,
Como um empecilho útil,...

Ela era o pedaço dourado de amor,
Razoável,
Atraente,...

Até útil para finais de tarde aconchegantes,
Mas dispensável quando as histórias acabavam,
E era hora de regresso às vidas particulares,....

E isso formava uma espécie de casulo em seu redor,
Imperceptível,
Inodoro,
Mas presente,....

Teria de aprender a desfiar uma vida suportável,
Com estas condições 

Fotografia de Saul Leitter  

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Poemas acabados de libertar

 acabei de ver poemas
a saltar e correr,
desabridos como o vento,
tinham um campo florido para percorrer,....

uma brisa leve,
final de primavera,
e letras que deixavam rasto
vincado,
como que o poema não falasse
por si,
mas sim pela altura
do ano em que ganhou a liberdade

                                                       Tirado daqui

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

Há só escrita

                            Tirado daqui


Dois de três percalços do dia,
Uma cama antecedida,
Da partida sem pés,
Uma manhã esvaziada,
Com o padre fechado,
Na extrema unção,....

E porque não há livros perfeitos,
Rasga-se a página com o fim já a falar,
E não há alumiar,
Não há escurecer,....

Há só escrita,
Mesmo que permaneça a dor

segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

Cartas porque sim


                           Tirado daqui

Apolo e Dafne, 2020, Roberto Ferri

Eu também tive cartas. Via-as apenas como pedaços de papel. Não que as pessoas chegassem à minha vida, e elas aumentassem ou diminuíssem de valor. Continuavam a ser repositórios de experiências. Dias e noites a chegar e partir, e eu a permanecer o mesmo. Imutável, com experiências de vida vulgares e inúteis de serem explicadas, ou sequer partilhadas. Mas sentia, ainda assim, necessidade de as ter. Funcionavam como estertor das coisas que eu queria esquecer. Acho que estavas lá, ou tens passado como particula quase invisível de cor em tanto branco do papel. Já começo a ser desnecessário, e monótono. Mas não sei ser de outra forma

 Por isso estão aqui estas heranças. Se não quiseres, não as aceites como cartas. Pensa na virtude de tanta sinceridade, como aquela que aqui verto. Só isso que quero mesmo dizer-te....

quarta-feira, 8 de maio de 2024

Trôpegos

 Continuo a ter este hábito triste de escrever todos os dias,

Lá fora um carro engasga-se,

A pomba da liberdade recortada já não consegue voar,...


Já não sei mais o que dizer às pessoas,

A mim mesmo,...


A demora de um beijo afeta-me,

E experimento passos,...


Trôpegos,

Sem destino,

Irregulares e que acordam o dia,

Será com eles que espero,

Encontrarei o que a escrita não me dá,...


Ou não 

                                                                                 Tirado daqui

                                                            de: paulaandwendyprojects.com

domingo, 7 de abril de 2024

...terminou lá atrás no dia

 Se não eras feliz,

A razão era uma dança,
Uma qualquer dança que a peso ias fazendo,...

Não era meu,
Ou minha a culpa,
Não era certo que quase fosses a luz,
De um assunto que terminou
 lá atrás no dia 

                                                                         Tirado daqui

terça-feira, 19 de dezembro de 2023

De poemas partidos

 


De vez em quando trago-te,

Peço te que venhas para

       Junto do que resta de mim,

Gostas desta ide

Ia,

De poemas parti

Dos,

         Desconjuntados e feridos

No âmago,

Erros de sintaxe propositados,...


Quase como se respirasse e

Rradamente,

De propósito,

Para nos mantermos aqui,

Infelizmente aqui,...


Porq

Ue,

Não há mais corrente de ar,

Onde nos re

Viremos,

Convenientemente 

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

eu em ti




eu em ti,
a novidade,
o passo certo,
no terreno errado,...

eu em ti,
fruta proibida,
na boca ilegal,
e sorrisos,
tudo o que de bom
uma virtude traz,
e o escuro retira,...

eu em ti,
conta,
contar a luz,
os reflexos que pintam o
vácuo,...

eu em ti,
e acabou,
podendo retomar

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

Viagem imaginada

 


À partida este seria um caminho fácil de percorrer. Um tosco retângulo de terreno com mais ou menos um quilómetro de diâmetro, e uma estrada ziguezagueante, aos altos e baixos, mas em relativo bom estado, que a atravessava na diagonal. Há praias no inicio, e penso que no fim também haverá. A ideia é parar lá, debaixo dos tamarindos velhos mas frondosos, e ganhar balanço para chegarmos ao outro lado. Acho que no inicio e fim da viagem as paisagens serão parecidas. Curtas extensões de areia, que deixam os pés a vermelhar de salsugem, por entre o tímido impeto de ondas que chegam para nos lamber os pés, e depois regressam prontas a voltar e fazer o mesmo a quem se atrever a passar depois de nós. 

Pressinto o teu hábito de apreciar experiências destas de forma indolente, escolhendo locais ao acaso para te deitares, se possivel nua, amantizada com o bater do coração da terra por baixo do teu corpo insinuante. Pressinto e desejo. Gosto de locais excessivos, para que o excessivo do que temos sobressaia

quinta-feira, 6 de julho de 2023

Exercício do particular para o geral

 


O sorriso era reconhecivel.vulgar mesmo. Os lábios gretados, aparentemente fruto de uma alimentação deficiente, à base de fritos e outras coisas normalmente dispensáveis. 

Os dentes, apesar de parecerem desenhados à esquadria, eram finos. A boca assustava, em suma, por isso permanecia oculta com camisolas 'turtleneck' de cores sóbrias, que independentemente da estação do ano tapavam os lábios, e com isso dificultavam a percepção de uma identidade difícil de ser definida. 

Este é um retrato feito ao longe, e que permite perceber um homem de meia idade, assoberbado pela rotina. Pode ser sempre encontrado à mesma hora, mergulhado num mar de gente anónima, com transportes que vão e vêm até chegar o certo. Veste roupa formal, e na mão uma pasta de executivo, já desgastada pelo tempo e uso.

Oculta a calvície precoce, e o cabelo envelhecido, com o mesmo chapéu. De feltro, com uma banda azul escura. Herdara-o do pai, que o tinha recebido do seu pai,....

E era algo que sempre tinha contribuído para manter um ar de distinção na família. Este é um exercicio de escrita que parte do particular para o geral. É respeitando essa ideia que surge, por entre a chuva que entretanto aparece, ritmada e sorrateira, o transporte que tantos esperam. Entra no velho autocarro de dois andares, de fabrico inglês, e mantém-se com a dignidade intacta, na medida do possivel. Engolido por uma maré de anónimos, pensa em branco. Com rebordos de cores desmaiadas, e que talvez indiquem alguma alegria impossivel de explicar...

quinta-feira, 29 de junho de 2023

Desolação

 


não me parece a dor,
não estou desolado
com lábios secos,
gretados,
duas formas de ver
o abandono,
repousados no adeus
inocente com que acabas este,
e qualquer dia,...

não me sinto desolado,
porque o desenho dos
teus olhos,
 o que segue de ponta à outra
da tua fronte,
não está no domínio do
real,
do que dizem os livros
fechados,
e esquecidos por nós,....

às vezes a frase
completa-se,
e percebemos que o som,
não serve para frequentar o incorpóreo

quinta-feira, 22 de junho de 2023

Projeto de um livro

 


Acordei com o mundo de cabeça para baixo,

Não havia nomes para as coisas,

O vento inspirava em vez de bufar,

E destruía tudo aos poucos,

As estradas abriam sulcos profundos,

Com as pessoas a acharem que a terra estava a abrir feridas,....


Achei surgir a oportunidade certa para renascer,

Seria o projeto de um livro,

Um verso fora do sítio,

Um amor sem corpo nem idade,...


O que porviesse da destruição,

Seria melhor que um

 sonho sem sentido 

segunda-feira, 29 de maio de 2023

Acasos com sentido

 


Conheceram-se por mero acaso. Ela apanhava a medo, e o mais rápido que conseguia, as moedas que tinha perdido ao deixar escapar o balanço à saída de um café. Ele passava apressado, tentando chegar a tempo a uma consulta médica. Não queria, mas tinha de parar e ajudar. Primeiro distraído, e sem nada dizer, foi tentando usar o polegar e o indicador como pinça, para apanhar as moedas. Só depois, ao fim de alguns segundos, olhou para ela que, assustada, também tentava que tudo acabasse rapidamente. Algo criou uma mudança no balanço das coisas. Ele perdeu a concentração no que fazia, e perguntou-lhe o nome. Ela a custo respondeu. A consulta médica ficou esquecida, e ela estava de volta ao café de onde tinha acabado de sair. Conversaram em crescendo, conhecendo cada bocadinho de uma juventude que partilhavam, e que tem sempre prazo de validade. Separaram-se com o sentimento de que aquilo não podia ficar por ali. No dia a seguir cruzaram-se exatamente no mesmo local. Voltaram à mesma conversa de descoberta mútua, que terminou já com os contactos trocados. O tempo voou, e depois do sexo exploratório, veio a ideia de viverem juntos. Mais tempo passou, e ela um dia disse que uma criança vinha a caminho. Ele sentiu-se a renascer, mas o trabalho tirava-lhe cada vez mais tempo de qualidade. Ou seja, um projeto de família, se calhar, não era bem o que tinha em mente naquele momento. Ela voltava sempre ao mesmo café, e um dia tornou a perder o balanço. Só que a barriga crescida já a impedia de apanhar as moedas da malvada carteira envelhecida. O cavalheirismo existe, e em dois momentos alguém a ajudava a corrigir o percalço. Era um homem. De olhos húmidos. Chorava. Ela perguntou porquê, se podia ajudar. Ele respondeu que tinha perdido o amor da sua vida. Ela sentiu-se compelida a regressar ao café, e fazer o melhor para ajudar. Percebeu que tão depressa como acaba, um outro projeto de vida pode começar. E pegou no telefone. O pai do rebento que carregava estava do outro lado. E as coisas acabaram entre ambos. Para ela, iam recomeçar

quarta-feira, 5 de abril de 2023

Exemplo de poesia fraca

 


Lembro-me das ideias,

De haver uma tertúlia de objetivos escassos,

Reunida ao ar livre,

Com homens de boa fé e sem pretensões casuísticas,

Só mesmo reunidos pelo velho prazer de cavaquear sem idioma nem objetivo,...


Tudo acabou quando as lesões inapelaveis do amor fizeram mossa,

E as questões de todos os dias se assumiram fracas,

Capazes de deixar os argumentos sem força para que se continuasse,

E assim voltou o silêncio de sapatos e roupa estranha,

Para se sentar à mesa ao anoitecer