sábado, maio 21, 2022

Aviltante

meu amor dos amores,
começámos uma linha
abrupta de remorsos,...

se connosco a verdade
se despir pelos intervalos da razão,
a minha,
a tua,
a nossa decisão de procurarmos
aconchego no que se soma,
ao decréscimo de uma vertigem,...

será de somenos,
quando a música de
uma linha de romance,
finalmente começar

sexta-feira, maio 20, 2022

Dia-a-dias perdidos de sentido

entro na tua expetativa de dor,
com os pés para dentro,
as mãos feridas de abandono,
e aconchegado num sono vigilante,...

desde que me perdi do conforto,
perdi a noção de repouso,
e a ambos restam-nos encontros fugazes,
com dores nos olhos esvaziantes,
e a fundada criação de um relicário,
deixado aos pés deste altar que,
no fundo,
são todos os dia-a-dias perdidos de sentido



quinta-feira, maio 19, 2022

Frase inócua

Sobrou o suficiente para bebermos até que de dia,

Se perceba que a noite não fica, 

no vazio dos olhos como uma lágrima,...


Traz-me de volta o passado,

Nesta mesa está o mundo,

Um restolho de luar,

Mas não param os desânimos,...


Só isso não chega para o rio do

Tempo,

Continuar a correr 




quarta-feira, maio 18, 2022

Voz sem mar

Sou filho da verdade,

Adotaram-me de um descuido,

E há longos cabelos sem cor que pendem,

Inofensivos,

Do que mostro como voz sem mar,....


A frase certa do meu sono,

Não cabe inteira no brilho de olhar que de mim conheces,

E há uma razão para cada pausa,

Para todos os silêncios,...


É só minha,

Não a partilho 



terça-feira, maio 17, 2022

Vista para o penhasco

 Saberia esconder a alma rasgada aos pedaços,

Uma lágrima debaixo de um corpo deformado,

Por cima de uma alma inconsequente,

Ao lado de um projeto inofensivo de vida,...


Saberia a tudo trazer arrependimentos,

Lindos,

Com vista para o penhasco,

Onde um dia se imiscuiria no vazio,

De corpo inteiro 

segunda-feira, maio 16, 2022

Lado B de todos os erros

Dizer-te isto e aquilo,
Esperar que o vento se funda com
a certeza de vida,
Enquanto lá fora,
À mercê da forma como se envelhece
numa cama,
Esperamos a roupa que nos
cubra da plenitude,
Mostrando apenas o lado
B de todos os erros,....

Posso colher a flor do
amor enquanto dormes,
Sei onde está,
Mas não creio que pare o
ciclo do que está para acontecer 

domingo, maio 15, 2022

Do lado da carne

quanto a mim escolhi,
estarei do lado da carne,
dos postulados da dor,
e da rápida regeneração,...

tudo assim se resolve
com um verso de frase,
uma conjunção hipotética,
e uma aversão a nomes
sem significado,...

sem que haja casas profundas
o suficiente,
para uma recusa
ao lado degenerativo,
e degenerado
da mesma carne,...

sempre a carne

sábado, maio 14, 2022

Um dia gostava de saber escrever assim

 

miguel torga / desfecho

 
 
Não tenho mais palavras.
Gastei-as a negar-te…
(Só a negar-te eu pude combater
O terror de te ver
Em toda a parte.)
 
Fosse qual fosse o chão da caminhada,
Era certa a meu lado
A divina presença impertinente
Do teu vulto calado
E paciente…
 
E lutei, como luta um solitário
Quando alguém lhe perturba a solidão.
Fechado num ouriço de recusas,
Soltei a voz, arma que tua não usas,
Sempre silencioso na agressão.
 
Mas o tempo moeu na sua mó
O joio amargo do que te dizia…
Agora somos dois obstinados,
Mudos e malogrados,
Que apenas vão a par na teimosia.
 
 
 
miguel torga
câmara ardente
1962

Novas estórias

O mais tarde que
podia entrar era até às oito e meia,
nem um pouco mais que isso,...

havia ordem no mundo enquanto
isso fosse respeitado,
levámos um pouco de tempo a combinar
que algum desse tempo,
não poderia ser inviável,...

teria de ser para nós,
e eu não senti nem a fome,
nem a sede,
nem sequer o desejo de novas
estórias,
que diferentes fossem de tudo
só pela forma como se bebiam

sexta-feira, maio 13, 2022

Amour de jour


amor,
fatia de bolo inesperado,
de cor amparada,
música finda,
amor gasto,
chão de amor
que assim pisamos,...

e mal nos protegemos,
quando dele vem a partilha,
um livro por acabar,
uma oração que ao céu
não chega,
amor assim,
amor assado,
e dele nos roubamos a força,...

o que por mim te jurei
acabar,
e tu ignoraste,
amor deles,
que nosso já não é,
e assim adormecemos,
sem amor que nos madrugue,
nem choro que nos amanheça

quinta-feira, maio 12, 2022

Mais minutos de tudo isto


Quero que me imagines assim,

Com um corpo circundante,

Que te distorce o campo de visão,

E sobe pelo teu caminho de silêncio,

Acima,

Sem pedir licença,... 


Não sei o que dizer quando desabrochas em provocação pura,

E o tempo perde o que de pior tem,

Para se tornar insignificante,...


Há horas que anseio por mais minutos de tudo isto


quarta-feira, maio 11, 2022

Prefixo da solidão


Aparecia sempre qualquer coisa,

Um compromisso,
Uma tarde,
Dois dias escondidos num bolso roto pelo esquecimento do amor,
Tudo era nosso e selava o nosso prefixo da solidão,...

Costumavamos dizê-lo a cantar,
Porque a música era a linguagem de partilha,
Tudo servia para darmos as mãos,
E era só do momento cada momento da falta de sons,
Do silêncio necessário,....

Sinto poder chamar-te luz atordoada da imortalidade,
Porque assim tem de ser à luz desta sintonia

terça-feira, maio 10, 2022

Defesa da escrita


Ainda há um resto de inverno por enfrentar,
Dizê-lo com o coloquialidade certa,
Parece uma herança podre
abandonada no cartório da cidade,....


A solução será contornar o problema,
Como sempre com a defesa da escrita,...

Haveremos de nos sair bem 

segunda-feira, maio 09, 2022

Escolhas

capaz de estoirar,
com as estórias,
com o mundo encolhido numa
mão,
à falta de verbo melhor,
tem de ser estoirar com tudo,
para que nada reste,
e em cima das cinzas sem cor,
se construa o que não sendo palpável,
tu possas arrastar pelos sonhos afora,...

e no fim haja algo melhor nos
intervalos dos olhos,
de quem escolhe nos observar

domingo, maio 08, 2022

Lamento ciclópico

descontente com tudo,
com a lanterna do momento perdido,
com a solidão que come connosco à mesa,
com a roupa perdida para o vício,
a raiva que se devora e depois cospe,
ficando a escorrer pelos cantos da boca,...

tanto sinal de autocracia,
e os autores de respostas fáceis que
somos,
à procura de lugar,
neste lamento ciclópico,
que não tem fim,
e se auto-renova até se esgotar


sábado, maio 07, 2022

Auto-conhecimento


a superfície pintada do silêncio,
as duas coisas que realmente interessam
em cenários como estes,
são a renovação e a permanência do amor,
no ar tépido das manhãs doces que
a convivência desinteressada,
tão depressa traz e leva,...

se tudo isto não faz sentido,
que leiamos livros,
com a mesma voracidade que
devoramos sons,
e depois os regurgitamos,
para nos fazer mais mal que bem

sexta-feira, maio 06, 2022

Pernas de gelo

 

Há muitos, muitos anos,

Nada como começar algo supérfluo de forma inconsequente,

Voltei a ser o que deveria ter sido,

O meu nome já se escrevia a carvão,

Tinha duas pernas de gelo,

E um coração vazio,...


Ate certo ponto o desejo da maioridade expressava-se nos meus olhos,

E tudo brilhava à luz de um sol incandescente,

Que ardia em lume que se esfumava,..


Tudo deixou de ser alucinante agora 

quinta-feira, maio 05, 2022

Nariz encovado

A minha cabeça imaculada está
colada a um corpo pecaminoso,
enlameado,
trovões são as minhas respostas,
e pausas de chuva resvalam de um
nariz encovado e disforme,...

A presença inusitada de um beijo
nos argumentos de final de dia,
não a sei justificar,
apenas reflito o ouro como 
cor dos meus olhos desmaiados,
e um laivo de sangue esvai-se
em cada passo para nenhures,...

haveria um regresso de dúvida,
se uma entidade expressiva pudesse
tudo isto confirmar



quarta-feira, maio 04, 2022

Livro de estilo

 


Uma mulher de estudos assustava,

As roupas eram normais,
Andrajosas até,
Mas o silêncio seria diferente,
Com laivos de insulto,
De cor anil,
Que pareciam acompanhar um contorno seguro de paz,
E irrisória vontade de fazer bem,...

Teria mil nomes,
Mas nenhum se adequava ao passar do tempo,
Compassado e irrelevante,
Que derivava do livro de estilo da sua presença 

terça-feira, maio 03, 2022

Noites mais frias do tempo


Saberemos da corrente errada de pensamento,

Quando for tarde para corrigir,

E os que anotamos como exemplos começarem a desanimar,

Olhos no chão,

Ansiedade incontida em conversas de café em silêncio,...


Aí teremos de mudar para imperativos sem forma,

E conteúdo duvidoso,

Que não obriguem a pensar,

Mas deixem as chaminés a fumegar nas noites mais frias do tempo

segunda-feira, maio 02, 2022

Primeiro poema de 2022 só hoje publicado


A luta escreve-se com erre,

Erre de razão,

E esconde-se nas algibeiras do velhote,

Tira-se quando é preciso acender uma beata,

E dizer do fado o pior possível,

Para que este país finalmente,...


Se torne internacionalista,

E as pessoas passem a usar a cabeça para
mais do que ajeitar o penteado,...

E ao menos,

Que se esconda o niilismo de tudo isto,

Num copo de bebida choca

domingo, maio 01, 2022

Há muito, muito tempo, já tive uma mãe:-(


 

Maiando ainda em 2021


Aparentava ter dos domingos à noite,

A mesma má opinião que qualquer pessoa normal,

Não havia silêncios com intervalos de sete dias entre si,

E por isso optava por estar sentada,

De janelas abertas,

A ouvir o traquitanar dos carros velhos que,

Com esforço,

Subiam aquela rua desnivelada,

E que não levava a lado nenhum,...


No fundo sentir-se mal com o passar do tempo,

Era uma desconfiança com as coisas que até poderiam ser oferecidas,

Mas que custavam sempre a suportar 

sábado, abril 30, 2022

Número de ilusão

deixa a minha solidão,
a desfaçatez com que
pintada de fresco,
se impõe como um murro
aos adormecidos de todos os dias,
e faz descer sobre ti a mesma violência,...

como uma maldade,
uma vontade que impressione
pela forma,
mas refresque sem que o calor o justifique,....

deixa que a minha solidão seja,
na prática,
um número de ‘vaudeville’,
com público surdo,
mas de coração maleável,...

estarás lá,
assim o espero enquanto chove

sexta-feira, abril 29, 2022

Imagem desenhada

eu faço versos como quem
descasca a pele dos dedos,
e acha normal a dor,...

a forma desordenada e insolente
como um mal-estar sobe pelo
corpo acima,
e aí deixamos de ser quem
a descendência pediu que fossemos,
e há sede para todos os que
partilham a fome de desonestidade,

se esfumem em imagens desenhadas




quinta-feira, abril 28, 2022

Desordens de carne

 


Era um desencontro de conceitos,
De ideias sobre corações que só se têm a si proprios,...

Por todos os dias na terra,
o criador de almas haveria de ser recordado pela cor dos seus dedos,
A pertinência das suas ideias,
Esta seria a forma correta de tudo explodir em desordens de carne,...

Sangue até se poderia usar para deslocar tudo mais para a direita,
E assim esvaziar a lonjura de dentro de toda esta vontade de escrever a coisa certa,...

Mas ainda não seria hoje

quarta-feira, abril 27, 2022

Final de ilusão

a luz mais escura que qualquer momento 
escuro de ausência,
denota frio,
riscos irregulares em paredes que
não existem,
e mais qualquer coisa além de um beijo,
é o que se pede para a ternura,
um final de dia menos ansioso,...

há folhagens nesta floresta de silêncio,
e um casal de desanimados,
troca as horas ao medo,
aninha-se,
para pôr fim à ilusão



terça-feira, abril 26, 2022

Prosseguir

a moeda nos dedos aflitos
de rendição,
pensar que pagar bem tira o rasto 
ao amor perdido nos azulejos,
torna a casa fechada,
irresoluta perante o sol e a 
persistência da luz,...

e há porventura a incerteza
de que o novo destino,
os lábios que fiquem onde
pousarem,
seja menos violento que esta mudança
de razão,
as raízes persistentes de querer mais
do que se deixou onde antes,
pousávamos a cabeça em dor



segunda-feira, abril 25, 2022

Liberdade 48

a liberdade transpira,
sua,
o velhote palrava,
levava as mãos à cabeça
como se a tragédia rondasse,
dizia que via a liberdade estroncada,
com aquela ideia de província que
defendia a dentes podres,...

mas para a liberdade suar,
perguntava-lhe eu de lábios encostados
a um copo,
e a olhá-lo por cima dos aros redondos dos
óculos,
não pode haver problemas frios que a façam 
tremer,...

o velhote pensava,
punha-se de pé a tremelicar dos finos 
pedaços de madeira que faziam de pernas,
e respondia,
virando as costas ao problema




domingo, abril 24, 2022

Ar decomposto

 Paisagem alguma seca,

De ventre imóvel e braços fecundados por um beijo de vento,
Fazia o ninho no teu rosto,...

Havia tanto outono na forma deleitada como dormias,
Assim como em todos os poros das lágrimas que tinha esquecido,
Serem nossas,...

E assim,
Éramos a força de um anúncio previsto,
Feita final de um último texto escrito com os nós da solidão 




sábado, abril 23, 2022

calor esquálido

ela percorre o seu próprio corpo
num espaço de um suspiro,
as mãos são a luz,
os olhos o brilho de desonra
que resta de um encontro mal
preciso,
e o desejo,
não existe,
morreu de morte morrida ao
desânimo do calor esquálido,...

a face explica o que anotado
está na areia,
será esta a praia certa para recuperar
o pedido que ele levou


sexta-feira, abril 22, 2022

O ar enrola

 

Ela disse-me,
Sorrateiros são os ditongos perdidos no meio de quem parte os dentes,
Sopra-se,
Resiste-se,
O ar enrola e não quer sair,...

Provava já ter visto homens partidos assim,
Quando sozinha subia a rua e os pecados das pessoas,
Se lhe enrolavam nas pernas,
De tal forma que um minuto se descontrolava em milhões,
Indeterminadas porções de terror,...

E todos cabiam num bolso,
Porque o ar enrolado,
É a representação gráfica da ausência de tempo e espaço 

quinta-feira, abril 21, 2022

Ideia politica

Disseram-me o suficiente para acreditar que a razão, o que nos resta de derrotas e derrotas a fio desta rotina que nos absorve, vem sempre acinzentada. Incapaz de servir para explicar a forma como nos alimentamos. Como dormimos. Como regurgitamos a forma de odiar os outros, e isso volta sempre para nos amestrar os poucos sentimentos que restam intactos pelo semelhante.
Sentado a escrever, o que se via era só um pouco da cidade que recordava. Ao longe, o Cristo-Rei já tinha deixado de me abraçar. Conseguia perceber um pouco das virtudes que Lisboa me tinha sempre conseguido deixar. A volúpia, com dose certa. O amor pelas desditas do prazer, escondido para que os outros não fizessem parar o tempo em meu redor. E principalmente, acima de tudo, um ódio profundo, mas tão devastador, assassino até, pela Poesia. Essa arte que nos segue, pegada à pele, e que aperfeiçoa a sua vertente recalcitrante na vida assustadora das pessoas que a seguem. Eu desenvolvi esse ódio, com a vontade de o escalpelizar, escrevendo. Uma, duas vezes, deitei-me numa praia de fantasmas. Mais vezes, senti-me uma vertente independente de um riso de amor. Por fim, acho que a última tentativa, espraiei-a sobre um quarto onde suspirei pelos cheiros femininos que ali se complementavam, sem nunca se tocarem.
A ideia continuava a estar na casa. Mas pouco já dela restava nos braços enrugados e devastados da quietude que me restava. 



quarta-feira, abril 20, 2022

Quando se perde um rosto

 


Sempre que selas um rosto,
Tudo o que sumariza a pele de quem está por detrás desaba,
Como se da rotina da normalidade nada sobrasse quando chega este desaparecimento,...

E em vez dele surge uma neblina dificil de descrever,
Quase como se por cima de nós,
Quando pensamos estar tranquilos a conversar com a noite,
Alguem nos viesse dizer que perdemos uma boa oportunidade de desejo,
Em deixar de tentar conhecer o que não temos como seguro,
E o outro perde ao ficar sem rosto

terça-feira, abril 19, 2022

Geografia perfeita da sua indiferença


Aquele era um homem radical,
Comesinho nas ações,

A recusa no olhar explicava talvez o pouco prazer que as
pessoas retiravam do convívio com ele,...

O que ajudava a ocultar o defeito de fala
que ganhara nos dias frios de setembro,

De um setembro deformado e desonrado que vivera há muitos anos,
Numa pátria que se tinha lembrado amar,
Mas que ocultava agora em memórias disformes e inúteis,
Das quais lutava por se separar,...

Se fosse obrigado a dizer ao silêncio aquilo
que era a geografia perfeita da sua indiferença,

Talvez escolhesse não o fazer,
Estava bem assim porque estar,
Para si,
era diferente de sentir,
Muito diferente mesmo,...

E com isso estava consciente
de que teria de viver,
Até aquela luz inocente se extinguir,
E o deixar para sempre indefeso

segunda-feira, abril 18, 2022

Poema ligeiramente em prosa


Eras esperada cedo,

Antes até que a senhora das notícias desse aquilo que sempre achámos previsível,

A velhota da casa já tinha disposto o que gostas na mesa da sala,

E em cima da cama do quarto singelo,

Assim o chamavas ainda me recordo,

Estava o ramo de flores que sempre pedias,

Por te fazer lembrar o destino,...


O tempo passou só com o vento a entrar pelas esquinas das janelas,

E o cão moribundo a vir lamber-me as pontas dos sapatos,

Ciente de que estava desiludido,

Não magoado,

 Mas a acreditar que as pessoas já deixaram de ser confiáveis 

domingo, abril 17, 2022

Um dia gostava de saber escrever assim

manuel antónio pina / alguém atrás de ti

 
 
Como no sonho dum sonho, arde
na mão fechada de Deus o que passou.
É cada vez mais tarde
onde o que eu fui sou.
 
Que coisa morreu
na minha infância
e está lá a ser eu?
a lâmpada do quarto? A criança?
 
Em quem tudo isto
a si próprio se sente?
Também aquele que escreve
é escrito para sempre.
 
 
 
manuel antónio pina
nenhum sítio
algo parecido com isto, da mesma substância
poesia reunida 1974-1992
afrontamento
1992
 

Insidiosamente

As coisas estavam sempre dispostas da forma que achava melhor,

O coração longe da vista,

Os olhos ocultados por um cabelo disfarçado e mal composto,...


E o longe,

Um conceito que para ela tinha corpo,

E defeitos como qualquer das poucas pessoas que conhecia,

Isso insistia que estivesse sempre ao alcance dos seus impulsos,...


Era uma mulher desconstruida,

Outrora atraente,

Jamais incomportável para pessoas de fino trato,

E tudo isto não parecia excessivo quando procurava artigos,

Num corredor de supermercado,...


Estaria um pequeno passo adiante,

Dos olhos que insidiosamente a decompunham



sábado, abril 16, 2022

Aquém desta história

Aquém desta história. Sentia-se assim, com roupas indecorosas, feitas de um tecido sem nome, e comprado há muito tempo naquela loja dos arredores do lugar em que sempre se conhecia. E havia a possibilidade de um amor. Sentia-o de cada vez que respirava, profundamente, e a brisa fria de Janeiro lhe criava uma aura dificil de definir, que parecia acompanhar todos os passos tímidos com que contornava o círculo apático da existência.
E se ele viesse, o amor, seria de saudade feito.
Aquele que um dia tinha partido, deixando apenas o contorno do corpo em cima da cama das oferendas tântricas ao desejo despojado, talvez ainda voltasse. E iria trazer a felicidade, embrulhada em cachos de cabelo alourado, o mesmo que a religião prega para esconder o vício. E seria bom:
“recorda-te do beijo.Será imaculado, se assim o quiseres”
A frase pulsava entre as mãos, à noite, antes dos olhos se fecharem como uma crisálida envolve a vida ténue e indefesa. Por enquanto, aquém desta história. Mas seria além, assim o destino de todas as cores  o quisesse. 




sexta-feira, abril 15, 2022

A forma e o merecimento

pedir a razão,
a forma do equívoco,
era um livro aberto que não
merecia de mim,
as visitas habituais que de mim 
merecem as memórias,
os sítios onde estive e que já 
não me garantem a repulsa de antes,...

tudo embrulhado em papel de prenda
de criança, 
assim o vejo,
desta forma me despeço,
para que tudo se inicie de novo



quinta-feira, abril 14, 2022

Memória opaca

 Há tantos gritos,

Um desalinho de motivações,
Roupas incoerentes,
Sorrisos que se desculpam,
Uma voz afrontadora e que é ignorada,...

São gritos desconfortáveis,
De olhos que procuram o conforto,
E encontram a alienação,...

Um par de mãos desconfortaveis,
Sim repeti o desconforto,
Está na capa do único livro que alguem lê naquela sala


quarta-feira, abril 13, 2022

Azul no rebordo

a não ser que
se estenda por este prado,
e tenha azul no
rebordo,
e um ar renascentista,
quase como se
pudesse comer
e esquecer que tal é preciso
para respirar,
não me deverá interessar,...

ao longe a falta que me
faz a dúvida,
deixa-me hesitante,
quase como se sentisse
uma mãe a chorar,
sabendo que não era
a minha,
mas com a possível
lição de humildade,
que isso dá e depois tira



terça-feira, abril 12, 2022

Um sorriso de encontro

pode ser que nos
encontremos num sorriso,
não acredito,
para mim a chuva
mata uma flor,
e depois um acossado,
e depois um hesitante,
para no fim plantar a solidão,...

e nós entramos quando
a terra já não se senta
no trono de sempre,
e o sorriso pára para
a solidão entrar,
é um círculo concêntrico,
e sem fim



segunda-feira, abril 11, 2022

Canção humanizada

a canção,
a mesma sem
ramos de árvores,
e apenas dois dedos
em cada mão,...

a canção que
destruiu famílias,
e fomentou o revanchismo,
a canção fútil,
desregrada,
maléfica até,
fica para trás nesta
história sem fim,...

há a luz,
a forma correta e trabalhada
da luz,
que inova nas lições,
desnivela o terreno até não
mais se perceber o amor,...

e com a decisão certa,
a canção frisa o humano,
até desvanecer



domingo, abril 10, 2022

Seios nasais

 Cheira-me como se os seios nasais fossem um radar de aceitação,

O teu critério de inspiração,
O desânimo da expiração,...

Talvez assim,
Em sentido figurado,
Comigo cuidadosamente transformado em pólen,
Que desbrava o caminho do teu ser até um destino,
Sem nome e sem idade,
Talvez assim o tempo se sobreponha ao espaço,...

E cessem as madrugadas sem referências,
Que nos doem mais que o frio impoluto,
A encontrar o seu caminho para nos esclarecer de todas as finitudes

sábado, abril 09, 2022

Porque nos batem

porque nos estão a bater,
recuperar leva sempre assim tão pouco,
e não há raio de sol,
nem pingo de chuva ardente,
que nos faça recuperar os cabelos de Deus,...

porque sim,
quem assim nos faça sofrer,
será deificado,
quer a Peita da nossa perdição,
e lá no sublime onde se perde 
o pouco riso que resta,
continuamos sem saber porque
nos batem



sexta-feira, abril 08, 2022

Escrever pelo inverso

tinha o estranho hábito de escrever pelo inverso,
recuperava rápido depois de ter crescido na
época das canções de protesto,
em que um minuto durava menos que um segundo,
e uma história se cingia ao final só pela 
vontade do desafio,...

conheci-o quando já só o desespero fazia as leis,
e ao fim e ao cabo se esperava pelo fumo,
antes que das palavras viesse o conformismo,
e do conformismo qualquer coisa que a
ninguém servisse,...

reconheço-o agora pelo nome,
roupa desinteressada,
e uma honestidade incorruptível,..

nada mais me interessa saber
sobre o mesmo




quinta-feira, abril 07, 2022

Casa maltratada

ficou tão triste
 a casa,
deixaram-na despida,
e consigo vê-la inocente,
os olhos dão para a rua
de Inverno,
com o corpo a
recolher-se do frio
introspetivo dos dias sem história,...

o que fizeram a
esta casa,
guardo
num escrito sem sentido,
dobrado e requentado
no bolso sem faces que arrasto,...

a esperança,
poderá ainda
dormir no chão sem esquinas,
onde um dia te possuí

quarta-feira, abril 06, 2022

Fruto da lição


podia ser o som,
as vezes em que
palavras deixam de ser ditas,
e rematam a voz
nos sítios em que ela não chega,
exatamente como o silêncio
sempre se defendeu da extinção,...

houve os braços,
a forma como bamboleavas
por entre as frases inconsequentes,
as decisões proteladas por
que o medo nos assoberba sempre,...

e mais lá para cada noite,
a força indiscutível do teu corpo
nu que se me escapava,
chegava para vencer a luta sem nome e sem destino





terça-feira, abril 05, 2022

Coloquial

pode ser o que a luz
permite,
ensacada,
como está,
só te deixa envelheceres
a cada desnível do tempo,
inocentado de crimes irrisórios,...

o resto nem cabe na
página de um féretro,
e há rostos,
lágrimas de equívoco,... 

e eu já nem faço
parte do que fomos,
antes de termos sido



segunda-feira, abril 04, 2022

Árvores de fruto

é tempo do tempo como
árvores de fruto,
assim se chegue a casa,
e outros queiram por nós que
haja luz,
se faça contas em cima de uma
ideia moribunda,
e o quociente se anule perante
a voz quente,
que já perdemos há muitas luas,
mas ainda nos assola a parte de trás
do medo de morrer,
a perguntar,
'filho já chegaste',
'tens frio de noite',...

há tantas formações para a 
mesma vontade,
que acabas por abordar o sol,
sem que ele te peça por ternura
a mais do que o certo



domingo, abril 03, 2022

Contexto


dizer-te desculpa,
o atraso de quinze, vinte minutos,
todo o tempo que atirámos fora como
água insalubre,...


não encaixa haver olhos que conseguem
perceber os corpos nus,
e ao fim de uma noite cálida,
atiras- ao mar a frente inaudita de
uma frase assassina,
para que se recupere depois a lonjura
de inventar uma cidade

sábado, abril 02, 2022

O meu medo


O meu medo tem janelas,

E portas,

E um coração que bate descompassado com a crueldade do tempo,

E feliz com a brisa jovial de qualquer manhã que se segue à outra,...


O meu medo é isto,

Amedrontado por racionalizar,

Consciente de que o silêncio vence batalhas,

E é a solução para a força de um dia semi esvaziado,...


O meu medo tem o teu nome,

Mas a minha ausência de formas 

sexta-feira, abril 01, 2022

Abrilando a 3 de Dezembro

na minha rua os cavalos correm,
tão depressa como o meu vizinho dos
sonhos históricos,
há um planalto,
muitas árvores desordenadas de copa despida,
e uma estrada incerta,
com a reta suficiente e duas curvas dispostas
ao acaso,
em que as meninas passam desabridas,...

está tanto frio como a noite,
e para analisar isto,
falta-me a resolução para fazer mais qualquer
coisa do desejo de pecar

                                                                       Retirado daqui


quinta-feira, março 31, 2022

Nós dos dedos dos velhotes

existiam então alguns
espaços,
coisas mínimas enfiadas nos
nós dos dedos dos velhotes,
aí talvez fosse o fim do dia,
a forma exata para o meu silêncio
surgir,
imerso na escuridão que me diz
a razão,
e nesses espaços,
a coerência do passar do tempo
falava a montante,...

com tudo a distanciar-se,
as cores deixavam assim de 
ser percetíveis 



quarta-feira, março 30, 2022

Duas infusoes de água putrida


 Era uma dor tão grande,

Que subia por todos os poros de uma pele queimada,

E quase ganhava forma de um olho gangrenado,

Incapaz de beijar a beleza do rio desnudo que observava,...


Uma dor de leitura,

De duas infusoes de água putrida,

E capaz de matar revivendo,...


Aberta esta garrafa semi-vazia de um mosto acidental,

Era a dor das mulheres sem ventre,

Que desfazem a alma ao adormecer de cada dia 

terça-feira, março 29, 2022

Presença de luzes

 


Nunca serei totalmente tolerante com o erro,
todos os destinos,
a falta de um beijo por cada inocência mal
descrita,
até a roupa inocente,
despida desajeitadamente porque se
quer bem de forma total,
tudo é acima da compreensão,
e ao não se entender,
eu serei a reprovação do desespero de
quem assim mata a saudade,...

a quem me possa querer mais 
que um desejo,
eu digo que nada sei,
sou a lua,
a frase impotente do fim dos tempos
renovada até a criação voltar,...


e assim,
desafio quem me desafia,
a regressar sempre na minha ausência,
transformada em presença de luzes

segunda-feira, março 28, 2022

Quadro indefinido

a tua roupa,
o diz que disse em mãos
nuas,
tudo se estende se a tarde aceitar
um convite,
e tendo sido sempre tu o objeto
da mensagem,
eu finjo que a novidade está na 
brisa,
e em como não me apercebo que o
tempo passa nos pormenores,...

assim descrito,
há um quadro que atenua a imensidão
da despedida,
e a novidade da árvore que se abre à lua,
para trazer a noite pelo contraste

 



domingo, março 27, 2022

Resignação

quando o corpo se acomoda a tudo o que rejeitas,
ao que desprezas,
há soluços por debaixo da pele,
as inocências despontam no âmago do
que tinhas adormecido,
e o ser de duas tendências,
de duas cores,
de inocências anónimas,
desperta para fins que o traço
fino da poesia não acompanha,...

esta poderia até ser a tua última
resignação,
mas não a defendas,
há esperas mais aceitáveis na paragem
de todos os dias


Prenha de susto

desdisse nome de mulher,
roupa de criança,
pés de todos os que polvilharam
sangue em cima da comida,
e saiu com fome de tempo,
de repetir inconveniências,
flores exumadas para avaliar o 
que sobra do sono,
da rendição possível ao cerco da morte,...

a mesma que vem,
noite após noite,
e foge com vestes de mulher acossada,
prenha de susto



sábado, março 26, 2022

Afirmação pessoal

 


quando ainda não sabia a escrita,
a génese de tudo o que suplanta o
medo com a razão,
era ao som que recorria,...

o despertar da manhã por entre
as nuvens da génese,
o féretro da noite que nos envolve
com a promessa de renascimento;
tudo servia para a afirmação de
um eu anulado;
incapaz de suprimir vozes,
e fazer valer conceitos,...

até que tudo mudou,
e a derrota veio encantadora,
com roupas de doce dealbar de 
uma nova história

sexta-feira, março 25, 2022

La muñeca

Um cabelo indistinto de dois tons, tão ralo que merece pena. Um vestido inofensivo, com cores que não despertam o teste da consciência de quem observa. Eu serei assim para sempre,...
a razão pela qual existem dúvidas. Pontos de contacto que entram pelas frestas, e pairam como gás letal no taciturno daquele lugar,...
por esta razão, um barulho incompreensível parece o teste certo para as novidades irregulares que o dealbar da noite traz,...
lá fora, pede-se uma última oportunidade ao amor. Ao mesmo tempo que os pés desculpam a morte. E a fazem pernoitar comigo num canto de duas vozes mudas



lamento por escrito


prometo escrever-vos,
a roupa vai doer-me,
a voz enlameada de raiva,
mas será a herança
o que vou partilhar
em cima da raiva,
das notadas flexões
de postura,
tudo será relido,
e dito vezes sem conta
com a novidade própria,...

escrito será,
mas inofensivo
com a proclamada
ventura de lá,
e a forma tosca de tudo
o que por cá continuar a ficar

quinta-feira, março 24, 2022

Escrito no dia em que fiquei sem pai

livre de uma poesia com menções desnecessárias,
floreados intelectuais longe da compreensão 
do comum dos leitores,
o que aqui está cheira a carmim,
é simples no vestir,
reluz não como ouro mas de acordo
com o olhar de quem observa,
sem ver,
só com a perspetiva da
renúncia ao material,
e a flor do imaterial como objetivo,...

quem escreve esqueceu-se de começar isto
que aqui está com capitular,
só dá para seguir em frente,
e recordar o que já foi este caminho de
anónimos feito

quarta-feira, março 23, 2022

necessário

o que via mostrava,
como templo,
desejos mal inocentados de perdição,
trapo roto de um andrajoso,
tudo seguia o mesmo método
de mostrar para perceber,
fazer aperceber,
que se o dia nasce sempre do mesmo 
sítio,...


a noite espera mais do que necessário



terça-feira, março 22, 2022

Esperança de uma roupa rasgada

a tarde terminou,
apetecia que tudo se repetisse
da pior forma possível,
e depois houvesse mais qualquer
coisa para contar,
não sei a quem,...

apetecia também a luz,
embebida nas nossa roupas
de forma suja,
para nos deixarmos a sós com
a poeira de um resíduo;
de inveja,..

se bem me lembro,
os mesmos que ficaram a queimar,
em lume violento,
no dia em que de ti restou a
esperança de uma roupa rasgada

segunda-feira, março 21, 2022

Mais uma contribuição para o Dia Mundial da Poesia

respiro a penumbra,
há uma forma inocente de 
o dizer,
sem que se ataquem dogmas,
sem que os idealistas se afastem
do horizonte,...

para que assim tudo se reorganize
numa ofensa aos resignados,
e do madrugar renasça um
corpo desprovido de osso,
só com anuladas fórmulas matemáticas
de sonho 



Rebranding

Neste dia Mundial da Poesia, o Inatíngivel entra numa nova fase da sua vida. Não faz mais sentido falar no singular, uma vez que este projeto é para quem o lê.
Por isso, um rebranding.
A partir de hoje, este blog passará a chamar-se 'Inatingíveis'.


Obrigado a quem me lê, comenta, ou simplesmente passa por aqui.

Lisura de um bebé

 


Não importa a reserva,

Uma, duas, tres vezes de caráter,
A lisura de um bebé,
Uma revolução que não se esconde,
Tudo se anota num papel com a intenção de venda,...

E depois há a manhã,
Com tudo o que repetidamente quero que ela traga,
Na minha poesia,
Para depois se perder,
Irremediavelmente pelo horizonte negro da perdição 

domingo, março 20, 2022

Mãos confiantes


Com frequência viramos as costas à presença,

Ao sorriso,

Às perfeitas ideias de entardecer em parelha,

Como se tudo pudesse fugir de nós apenas pela força de um medo necrófilo,

Que passa por juventude no meio de um olhar de fim de vida apressada,...


E se o rápido trouxer a perfeição, 

Será nosso o dia que falta nos intervalos destas mãos confiantes 

sábado, março 19, 2022

Há muito tempo atrás, já tive um pai🥺


 

Baixe a fidalguia

 


Enjeito responsabilidade,

Assino numa pedra aquilo que foi a minha noite comigo mesmo,
E antes que numa qualquer ilustre casa se me baixe a fidalguia,
Assumo que nunca rejeito a posse de uma ideia,...

Capaz de a acarinhar serei sempre,
Dizer dela dois ou três versos infundados,
E depois voltar à noite comigo mesmo,
Estão prestes a fraquejar estas luzes de razão que me assoberbaram

sexta-feira, março 18, 2022

Tempo e irrelevâncias

 dizia-lhe simplesmente,
"minha senhora. A mim não me
assiste parar o tempo",
teria de conseguir inutilizar relógios,
amedrontar o caminho que se faz
para a irrelevância,
e torná-lo algo que dominaríamos com
facilidade,
até o apessoarmos à nossa imagem,...

por isso acrescentou,
"minha senhora, nada mais tenho a acrescentar",
e seguiu para onde tinha de ir,
um refúgio longe 
dos gritos de si mesmo



quinta-feira, março 17, 2022

Uma casa


A casa,

Duas janelas,

Se soubesse a minha mão estaria na porta,

O teu coração indivisível guardado,

Num baú de vime que comprei já não sei quando,

E haveria livros,

Com dedicatórias ao acaso escritas em línguas de sexo,

E ninguém para as ler,...


O tempo pára de formas diferentes, 

Indiferente ao Stephen hawking que sofregamente dizemos um ao outro, 

Em parcelas de sexo que não dão conta certa,... 


Uma casa,

Acho que já não moro aqui 

quarta-feira, março 16, 2022

Já não se dança mais nos aniversários

já não se dança mais nos aniversários,
as pessoas não querem,
só há mãos indistintas,
sons difíceis de recontar,
uma pausa atrás da outra
para que os silêncios se tornem anormais,
e haja paz onde antes houve intenção
de maltratar;...

o jovem lamenta que a mãe tenha partido,
imóvel chora e deplora que aquela mulher,
a mesma que vestida de preto se arrastou
anos para o fim do mundo,
fazendo questão de regressar com mãos vazias
para acalmar a fome de amor dos rebentos,
estivesse agora noutro lado,
a sumir-se em pó,...

já não se dança mais nos aniversários,
a conclusão suja que tiro tem
esta marca

terça-feira, março 15, 2022

Bunker


 'arbeit macht frei',
todas as lições,
cada palmo de terreno;
a forçada ilusão de que
tudo está bem,
e depois a impoluta frase de um
filósofo,
expressa-se mal,
faz-te expressar mal,...

o tempo passa quando anelas os
dedos,
a ponta do indicador toca
o polegar,
e há cada solução improvisada,
para problemas que morreram,
naquele dia,
naquele 'bunker',
quando o mal fechou os olhos

segunda-feira, março 14, 2022

Untar

 


Untar,

Bem a boca,

Untar e besuntar,

Tens um corpo para alguma coisa,

Untar o passado e o presente que doa,

Recoletar momentos,

E besuntá-los na pele,

Porque há sempre rasto e rasgo para mais qualquer coisa,

Numa ardósia,

E no chão,...


Se ainda houver amor para untar,

Fá-lo afrontando,

A autoridade esteve comigo ontem de madrugada,

E disse-me para te rires,

E depois guardares no bolso,

Untado 

domingo, março 13, 2022

Vocábulos

ilusão,
dono do sol,
fatia de nada,
parte de cá do mar,
casa decrépita
não obstante acolhedora,
raíz do mal indefinido,
tanta coisa e o
menos de tudo o resto,....

chama-me para
sempre a falta de um sonho,
o que quiseres e
o lamento certo para haver amor,
chama-me,
apenas



felizmente há luar (no pun intended)

felizmente há luar,
não há a tristeza de dizer
que a voz se nos abafa,
regredindo em tom ufano,
felizmente há uma noite
que se embrulha na mesma,
cama de sempre,
e nunca acorda para voltar a deitar-se,
quando mais ninguém quer,...

felizmente há quem escreva tudo
a tinta prova-o quando reluz
na luz tímida da manhã,
e a herança fica para os
que a quiserem preservar



sábado, março 12, 2022

Anjo ferido

Tirado daqui

Foi o momento em que ela conseguiu olhar de frente o homem que a tinha atraiçoado. Nada de especial aconteceu. Ouvia, lá muito ao fundo, do que parecia ser um gaio assustado, e de quando em vez uma brisa surripiada ao Verão, que a deixava dormente enquanto se insinuava por entre o corpo que escondia em roupas sem história. Ele remetia-se ao silêncio, e ela aproveitava para falar conforme melhor tinha aprendido. Com os olhos. Considerava-se já poliglota no que chamava de "refúgio ocular". E a ele, dizia ter-se magoado. Ter deixado de saber chorar, escrever, e até encontrar conforto na dor suportável que o silêncio da solidão, de quando em vez, lhe conseguia trazer. O silêncio continuava. E talvez fosse melhor assim. Não havia defesa possível para a falta de arrependimento. E os olhos dele diziam isso. Os seus continuavam a falar,...mas sem serem ouvidos. Ao afastarem-se, mais uma vez sem ter sido necessária a linguagem verbal, acomodou-se no entardecer que a envolvia, como um xaile o faz a uma velhota esquecida no mundo. E talvez fosse melhor assim.

 

...outra coisa que não Karl

Tinha explicado a várias pessoas o meu conceito de luta política. Um dizia-me que estava ultrapassado. O outro concordou, mas contava pelos dedos das mãos esquálidas a quantidade de produtos, físicos e imateriais, que o zé trabalhador quer em cima da mesa a cada jantar que a mulher lhe faz.
A resposta que mais considerei, deram-ma quando começou a chover. Recordo-me do dia. Uma terça-feira de Novembro, naquele lusco fusco em que as pessoas perdem vontade de falar, mas continuam a marcar passo na rotina de qualquer hora. Foi de um tipo que conhecia mal. Acho que nem me lembro do nome dele. Marcava aí os seus 50 anos, e costumava vê-lo a andar sem destino, na azáfama de todos os dias. Avançou, depois de me ver sair da taberna do qualquer coisa, e vinha de dedo no ar. Dizia que me tinha ouvido a falar sobre política. Que considerava todas as coisas boas, até se começar a dizer que o homem só é feliz por causa do conflito social. E que de todas as vezes que se enervara sobre política, aquela fora a mais trágica.
Esticou-me ainda mais o dedo. Afiançou-me que a luta política era uma miragem. Que costumava escrever poemas para não refletir sobre o futuro inconsequente do homem. E que tudo já tinha deixado de contar para ele. Pela minha cara inquisitiva, a contar os segundos para conseguir arranjar um argumento certo para retorquir, ele resolveu afastar-se.
Deixou-me a pensar se deveria mudar o meu nome para outra coisa que não Karl...



sexta-feira, março 11, 2022

11 de Março, 47 anos depois

lê assim,
como se das mãos se te desprendessem
ramos de árvore,
e a manhã surgisse antes dos objetos que coletas
há tanto tempo,...

e já nem espaço te dão para um sono descomprometido
e livre,...

lê como a divindade da criação definiu as regras,
de olhos semicerrados,
prática corrente de racionalidade;
e uma porta que te separe da chama,
do último fogo do adeus,...

talvez haja compreensão
suficiente,
para que a resolução do mar te chame
ao sítio onde,
tens de estar



quinta-feira, março 10, 2022

Sânscrito

esforçava-se por o sânscrito
 soar pouco a crença,
 mais a possibilidade real
de novos ventos,
uma pressão nova para
que o mundo,
as duas metades da mesma
laranja carcomida,
pudesse unir-se de forma incomensurável,...

havia um livro
certo para que aquelas mãos,
não perdessem o alento,
a lonjura próxima de um mito,
não estava ali naquele momento,
mas a fome de revolta
aumenta quando menos se espera



quarta-feira, março 09, 2022

Casting

Ele quase jazia aos meus pés, Somavam-se minutos sem que nada dissesse,Mas tinha habituado a minha própria inquirição a ouvir o que eram as suas crenças políticas, os passos que tinha dado quando quase tinha morto uma pessoa, escapando-se só porque chovia, tudo isto os olhos diziam,...


E normalmente depois levantava-se, continuava sem falar mas percebia-se que em breve o iria fazer, até sair uma interjeição, um suspiro, a breve noção de que se estava ali pelo papel degenerativo do tempo, e não pelo reluzente do enorme espelho que era o sol de fim de tarde




terça-feira, março 08, 2022

O embrulho

ficou decidido que se
 ofertava qualquer coisa,
embrulhada em terra,
não havia necessidade
de ornamentos,
já que o ar beijava
ao de leve a carne de
quem receava,
e inocentava a intenção de pecado,...

não se queria este mundo
e o outro,
só uma encosta de desejo,
uma pequena casa
na falésia,
onde o mar batesse,
sem necessidade de convidar
a morte para refeição, ...

e o embrulho,
mesmo que cheio
de ar e entupido de
absolvição falsa,
servia a intenção



segunda-feira, março 07, 2022

Pensar sem sentido


Quando realmente só interessava ser diferente,

Ter um livro aberto defronte,

Na página certa,

Com a passagem inofensiva de um autor desconhecido,

Já não dávamos as mãos,

Nem passávamos pelos sítios coerentes da forma,

Como antes o fazíamos,...


Agora a rotina tem sabor a ocre,

Não há dois dedos que se vejam por entre a neblina,

E só se citam coisas esporádicas,

Que não se agarram à nossa pele como dantes 

domingo, março 06, 2022

Poeira não primordial

É hoje o primeiro dia em que tudo se apaga das minhas mãos,

Não há horizontes,

Não há dias,

Nem noites,

Só há poeira não primordial que vejo espalhada,

Como gritos de juventude que surgem fora de tempo,

Como se a memória não custasse nada aos desaparecidos de si mesmos,...


E depois,

Quando uma mãe surge incapaz de medrar, 

para manter as bocas dos filhos fechadas,

De fome,

Sobra só um desalinho de ideias que não cabe,

Nas únicas calças que sobram para vestir



sábado, março 05, 2022

Página de vírgulas


Jamais tive amor senão
por uma página de vírgulas,
um encontro de pausas de uma
leitura familiar,...

Não me sentir único,
Força protetora do que
nos rimos naquela tarde encardida de Verão,
não me fez alheado da prova de vida,
dos sorrisos que tropeçam uns nos
outros num prado longínquo,…

A própria indefinição de um beijo,
Tornou-me credor da
razão,
Por isso a luz,
Esconde-me do que não
protegi de amor neste momento,
em que escrevo para não esquecer


sexta-feira, março 04, 2022

Trans song




 

Titilar

Propunha-se aprender o verbo titilar,

Eu títilo,

A manhã desdobrava-se na página que a noite permitia, 

Tu titilas, 

Apercebia-se da proverbial rotina do desejo, 

Ele titila, 

Anunciamos o fim dos nossos tempos,... 


Nós titilamos, 

Uma mão como o evangelho da perdição, 

Vós titilais, 

Iria oferecer-se à escuridão, 

Eles titilam, 

Tudo por pagar o silêncio com nova noite 




quinta-feira, março 03, 2022

Instinto maternal

 


Escrevo-a porque a vida não recolhe o amor do chão,

Antes espera que ele amadureça em sítios elevados,

Para o acondicionar na temperatura certa,

E servi-lo aos poucos,

Em doses certas de amanheceres trôpegos,

Sem sentido,

Com uma brisa que nos rodeia como os amigos do tempo das descobertas,...


Para depois nos ir deixando, 

Aos poucochinhos, 

Soltos no mundo, 

À espera que a água nos lave os olhos de vez

quarta-feira, março 02, 2022

Um dia gostava de saber escrever assim

 Bolero do coronel sensível que fez amor em Monsanto

ANTÓNIO LOBO ANTUNES
Eu que me comovo
Por tudo e por nada
Deixei-te parada
Na berma da estrada
Usei o teu corpo
Paguei o teu preço
Esqueci o teu nome
Limpei-me com o lenço
Olhei-te a cintura
De pé no alcatrão
Levantei-te as saias
Deitei-te no banco
Num bosque de faias
De mala na mão
Nem sequer falaste
Nem sequer beijaste
Nem sequer gemeste,
Mordeste, abraçaste
Quinhentos escudos
Foi o que disseste
Tinhas quinze anos
Dezasseis, dezassete
Cheiravas a mato
À sopa dos pobres
A infância sem quarto
A suor, a chiclete
Saíste do carro
Alisando a blusa
Espiei da janela
Rosto de aguarela
Coxa em semifusa
Soltei o travão
Voltei para casa
De chaves na mão
Sobrancelha em asa
Disse: fiz serão
Ao filho e à mulher
Repeti a fruta
Acabei a ceia
Larguei o talher
Estendi-me na cama
De ouvido à escuta
E perna cruzada
Que de olhos em chama
Só tinha na ideia
Teu corpo parado
Na berma da estrada
Eu que me comovo
Por tudo e por nada

Representação inédita do voar

O que sei é que talvez haja uma fotografia,

O que se chama uma representação inédita do voar,

Tenho-a guardada há tanto tempo que se transmutou,

Assume agora o ar entre os teus braços,

Que era invisível quando a reprodução foi feita,...


Sei que se passa qualquer coisa quando tudo isto falta, 

E é meia noite entre todas as tuas ausências, 

Sei que me emudeço só de recordar lá longe,

O que falta para terminar este poema



terça-feira, março 01, 2022

Marçando a 5 de Novembro de 2021

as palavras continuam feridas,
o sangue como entoação prova-o,
por vezes nu,
sempre referido como o passado 
encontrado e sem influência,...


no resto comunica-se o breu,
na ausência de encontros,
e com as pessoas acomodadas a
uma alegria comesinha,
que não ofenda,
o tempo vai passando menos inclusivo,
mais deslocado da influência social
do amor

                                                                       Tirado daqui


segunda-feira, fevereiro 28, 2022

Frota fantasma

os braços substituem-se,
as pernas decompõem-se,
as divergências de fundo com o que
conta,
antes de respirar,
fazem-se talvez desenhando,
um traço de Dali aqui,
a prosápia de um surrealista a gritar,
e no fim escreve-se aos gritos,
porque o silêncio,...


o inconformismo da resignação,
não serve para aqui,
há a luz de uma frota fantasma
a afastar-nos da rotina



domingo, fevereiro 27, 2022

Arrazoado inconsciente

rezas minhas a por quais
frases resolvidas,
minuto assim,
louca morte,...


a Norte nada de novo,
a Sul acontecem coisas,
vamos por ali se resultar;
voltamos de lá como a porta 
permitir,
e hoje sou o filósofo
que a pressão permite,
amanhã preso ao chão
me sentirei,
o que quiseres sairá
do fogo,
que o fogo arda assim,
sempre que dele se precisar



sábado, fevereiro 26, 2022

O antigo milhar de escudos

 Então um dia sobes a uma cadeira,

Falam-te de contágios simples,

Coisas que nos enegrecem a pele sem que saibamos o que é,... 


E depois vem a mulher inocente do antigo milhar de escudos,

Que nos ficou a dever a honra,

Mas nos pagou numa moeda que se sobra já a ela própria,

E diz que tudo é normal,...


Nem será digno de preocupação se houver aquele exame em que, 

Com as entranhas expostas num ecrã para o qual se olha com receio, 

Vemos todos os nossos erros sublinhados a escarlate, 

E sem que se sinta que há mais caminho para iludir

sexta-feira, fevereiro 25, 2022

Também tenho uma visão pessoal de guerra

não há nenhuma razão,
nem camas pintadas
a cores neutras,
nem livros presos
por uma página,...

não restam desculpas
para que o tempo isolado,
adentre os olhos feridos
dos desolados,
e de fora controle
o que é recoletado,
e ingerido em sangue,...

não há razões
nem roupas,
que permitam obstruir
entradas,
em corpos nus,
e em sangue que
escorra da consciência,...

simplesmente não há
o que soe mais estranho,
que esta razão anulada



Atrevimento

 


Encontro um mundo nas lágrimas secas do teu poema,

Há guerra,

Anulados os acordos,

Ficam rotações e rotações de amor,

Enquanto te circunscreves no meu ser,...


Pelo menos enquanto houver prados de

Lonjura como este

quinta-feira, fevereiro 24, 2022

O que flui sem retorno

 não sei bem o que dizer,

a bondade é diferente da intuição,

mas a fortuna,

o puro sentimento de restabelecer equilíbrios,

após uma tempestade tão grande que nos derruba

ao ponto da insignificância,

trouxe-me aqui a este local,...


onde não há mais o imperativo categórico

do querer,

só do desejar,

do querer bem,...


as letras fluem como o ar que nos abençoa

a existência,

e por fim restam dois números,

incongruentes,

que me pendem da lapela enquanto espero

por qualquer coisa,

que nem sequer me pertence



quarta-feira, fevereiro 23, 2022

Nas sombras dos próprios desejos

 Trabalhava,

Equivoco sim equivoco não,
Nas sombras dos proprios desejos,
Capaz de caminhar ereto no som do choro possivel,...

E no despedir de cada dia,
Amarava no porto seguro de todas
As horas,
Com insegurança,
Em beijos indesejados,
Promessas irrefletidas,...

Para que nos dias que viessem,
O odor fizesse tudo repetir igual

terça-feira, fevereiro 22, 2022

Passeio só

algumas vezes pedem-se satisfações

pelas coisas ditas,

pelas flores que ressaltam da erva alta

da vida,

e nos roçam os artelhos a tempo de

acordar o sujeito para a nefasta,

e insubstituível vontade de fazer bem

à beira de um rio,

com a cabeça entre as nuvens,

seja onde for,...


e como o sentido falta em palavras que,

como estas,

não se substanciam no real,

segue-se inofensivo,

até que a tagarelice de uma pedra no caminho,

nos obrigue ao desvio esperado



segunda-feira, fevereiro 21, 2022

Toque inebriante


O gato meneia o lombo,
Toca ao de leve no copo embaciado e esquecido em cima da mesa, 
O barulho fragmentado abafa o som da chuva, 
Uma mulher em segredo arredonda as vogais a um canto da sala,... 

Aos seus pés um bicho procura abrigo, 
Porque o erro assusta quem respira, 
Há um esforço de luz no meio do breu, 
Enquanto um motor cansado lamuria a subir a rua de pedras gastas

domingo, fevereiro 20, 2022

Medo de morrer em números

 Uma parte de mim,

O senhor sujo e andrajoso,

Que escorraçou o desejo de falar,

Senta-se cansado,

Desiludido,

Ao lado a formação especifica do desejo,

Sob a forma de um jardim,

Um simples jardim,...


Não há muito mais a dizer porque o tempo,

Ladra baixinho o medo de morrer em números 



sábado, fevereiro 19, 2022

Sextas-feiras

Aquela doce sexta feira,

Recordo-me do dia mas por favor,

Já não posso ouvir falar 

daquele enlevo do pescador que nos conhecia,

E dizia que recordava todos os outros dias da semana que,

Para ele,

Valiam a pena,...


Não me posso dizer a mim mesmo que seja uma influência, 

Aquilo que ficou de tantas horas desconexas de discurso direto, 

Deitado fora,... 


E havia uma experiencia anil,

Gosto dessa cor,

O que tinha ficado de bom quando depois me via a comer sozinho,

Nos arremessos sem vida que só a minha Lisboa já sabia fazer,

Em todos os dias da semana que eu quisesse,

Menos as sextas-feiras 




sexta-feira, fevereiro 18, 2022

Yupii, é quase fim-de-semana!!!


depois das palavras,
é um número de rotina
dizer que só te tenho a ti,
a dor,
o contorno irregular
de um sorriso,
nada se aproveita
se tudo se esfuma,
e desaparece no calor
frígido desta cama,...

há uma leitura
imprecisa que me resta,
a de um poema que se arrasta
pelas paredes desta casa iludida,
e depois desaba na saída,
sem que o vento me deixe
a pista do que me disseste,
e eu luto por esquecer

Confidência

Confidência-me o que sabes de luzes,
De rotinas,
Há um todo lunar que vem do conhecimento,
Impuro,
Que me transmites nesses momentos,
E com o qual insisto em não saber lidar,...

Um mapa dos teus beijos ajudaria,
A preparar melhor assim o fim dos tempos 



quinta-feira, fevereiro 17, 2022

Leitura inexata do amor


Pensar,

As mãos sem nome,

Uma Igreja vazia de contornos simples,

Ela perdera a força,

Um pescoço indiferente ao tempo que se esforçava,... 


Passava de oculto em oculto,

Até ferir os olhos com a luz escurecida,

Do dia que já não contava como número,...


E era agora a eleição certa para passar de novo,

A sentir como era antes da leitura inexata do amor

quarta-feira, fevereiro 16, 2022

Partir aos poucos

 


Não trazer as contas certas,

As moedas corretas em cada bolso,

Para que regressar a esta cidade sofra um pouco menos,

Nas pontas desgastadas desta alma que nunca mais descubro,...


Eu já nem me sinto daqui, 

A minha terra não tem nome, 

Nem cheiro,

Só desilusões escritas nas costas de quem partiu,

Como eu,

E agora esconde na mala a liberdade inofensiva,

Que deixou no recanto perdido do último sorriso prestado,

E do último beijo ainda recorrente 

terça-feira, fevereiro 15, 2022

Jantar

o frango estava pronto,
sentou-se à mesa consciente de que
a linhagem da solidão,
estava quebrada,
havia um remanso de sons que
chegavam da rua,
e dançavam com o que restava dele,..

parecia pronto o convite para
uma boa conversa,
enquanto o vinho escorregasse por
onde tinha de o fazer,
e as memórias do que já fora,
anulassem a eminência de 
uma ruína emocional,...

mas por enquanto tudo estava
controlado,
havia um prato,um copo,
e um talher de cada qualidade





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