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sábado, 7 de fevereiro de 2026

Medo....

Estava a ouvir a minha mãe. É difícil, porque ela já nem viva está. Mas juro que sim. A voz arranhada, maltratada pela doença. A  carinhosa com que sempre me acompanhou, e nunca me deixava ficar mal. Sentia-a acariciar-me o rosto, com os dedos de pele mediamente áspera que eu sentia como conforto. Falava-me da ingenuidade. Do sol por entre as cortinas da sala, e de como ele recita poemas, se lhe pedirmos educadamente.

Eu sei que ela já cá não está. Mas ainda me agrada. Ainda me conforta. Ainda me acalenta as saudades, como um bichinho normal que até devemos deixar que nos roa.



quarta-feira, 29 de maio de 2024

Enseada

mas eu amei-te,
o ódio seguido do
rádio baixinho,
com aquela música de
olhar para o relógio,
e um gato que nos observa com
uma adoração tamanha,...

eu amei-te,
e disseste que talvez,
na poesia estavas melhor,
 tapada com letras,
e a discutir interrupções,
de vontade,
de silêncio,
de amor,....

amei-te mesmo
com a força que me resta,....

e há lua,
a que nossa foi
até perder,
o teu olhar

                                                                               Tirado daqui

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

....um abraço, iria servir

 


tinha prometido voltar,
não faria mal o amarelo das paredes,
os olhos descolorados pela ausência de esperança,...

até escrever sem alma,
a pior desonra de um ser humano,...

estava de regresso,
ao sítio onde a felicidade tinha tido
mais significado,
onde nela tinham cabido mais pessoas,...

e tudo seria como dantes,
normal,
não excecional porque isso é ficcional,...

e um abraço,
iria servir

segunda-feira, 13 de março de 2023

Mãe


 

Mãe,
Esconde o teu desânimo nos meus,
Encontra refúgio nas guerras de existência que,
A cada segundo,
Escorrem da minha pele,...

Eu faço meus os teus sorrisos distantes,
Sabendo que o ar de incenso que por vezes me envolve,
És tu a afastar a loucura de mim,
E a cravar passos de resistência,
Nas fraquezas que me tomam em cada dia

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

78 anos teus, pai

 Agora não,

Recusem-se a pensar mais em mim,

No desvio de rota que sempre fui,

Nas minhas constantes trocas de pele,

E devaneios como se a avenida dos sonhos não desabasse ao primeiro desânimo,...


Prossigam com o que quer que seja que já se habituaram, 

Porque eu acomodo-me assim,

E ficarei bem



sábado, 19 de novembro de 2022

....sítios onde já não estarei

 Haverá qualquer coisa para mim depois disto,

Julgo que os teus passos serão insuficientes,
E há roupa espalhada à saida de uma casa que já nao reconheço,...

A minha ausência,
Já não consegue preencher os espaços soltos de uma sombra,
E há enlevo na forma como o vento,
Se despede por tudo já estar pouco mais que vazio,...

Sou já pouco mais que o último a poder reentrar aqui,
E formam-se novelos de desejo nos sítios onde já não estarei 



quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Escuridão é uma mulher doente

 Os restos de uma noite de compromisso,

Soltos pelo teu cabelo,
Como vestigios de um Outono que tarda em desvanecer,
A frase mais certa num momento como este,
Repousa do lado de lá da porta,
Enquanto o silêncio se soma aos minutos que antecedem,
O adeus imprevisível,...

Tudo que entretanto se passar,
Correrá por fora numa pista de despojos,
Que a manhã já prepara na rua,...

E que se façam dois anúncios diferentes de luz,
A escuridão é uma mulher doente que não tardará em partir


quarta-feira, 2 de junho de 2021

26 anos de saudade

 


A noção de ter aqui uma sombra recortada,

Passível de me fazer descansar os lábios em ti,

Tudo era um dia diferente do que tinha lido,... 


Chamava-me arrependimento,

Sentia não ter idade,

Nem longe nem perto,

Só a fraca percepção de que era correto forçar-me a esperar,...


Sem saber se ao partires,

Voltarias antes que o sol se destapasse da cama em que dorme 

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Sinto saudades tuas, pai

 eu não escrevo mais,

não vou desejar para os 

outros o que as

reticências fazem comigo,

invasão de espaço,

laqueação de conteúdo

criativo,...


seja o que for,

não escrevo mais,

de hoje em diante serei

uma carrancuda interrupção de personagem

secundária




terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Poema de lágrimas

não me ocorre a memória, a data das lágrimas iniciais deste livro, de somenos só a espera, o que te fiz recordar para que estas recordações, as mesmas sem pintura de água, te fossem reais, capazes de contigo dormir menos só, do que sempre aconteceu,.... talvez só fiquem as propostas para que tudo acabe, não me apetece mais repetir, dizer às minhas mãos que estás longe, atenuada na proposta inconcebível que me choravas



Tirado daqui

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Carreira da madrugada

da noite só a peça motriz do despertador da madrugada,
os contornos dela numa parede sem cor,
e a saudade em socalcos que plantava o vinho da solidão

terça-feira, 15 de maio de 2018

Impressão digital

nunca me lembro de ser a tua
impressão,
o solitário de ver o mundo da ponta suave do dedo que,
sendo o mesmo que muda o mundo na solitude das tuas noites,
foi há muito o que sentia nos meus lábios para parar de chorar,
para dizer o dito de ser o
silêncio por opção,...

a mesma máscara dos dias iguais às noites de meninos tristes,
serve-me agora em ciano oculto,
para saber que não morrerei ainda na ideia oculta dos
teus cabelos,
que me amparam a madrugada sem ar dos choros de esperar por ti