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quinta-feira, 17 de outubro de 2024

Exatamente o que eu penso e sinto

 Com os anos a morte vai-se tornando familiar.

Quero dizer não a ideia da morte, não o medo da morte: a realidade dela.
As pessoas de quem gostamos e partiram amputam-nos cruelmente de partes vivas nossas, e a sua falta obriga-nos a coxear por dentro.
Parece que sobrevivemos não aos outros mas a nós mesmos, e observamos o nosso passado como uma coisa alheia: os episódios dissolvem-se a pouco e pouco, as memórias esbatem-se, o que fomos não nos diz respeito, o que somos estreita-se.
A amplitude do futuro de outrora resume-se a um presente acanhado.
Se abrirmos a porta da rua o que se encontra é um muro.
No nosso sangue existem mais ausências do que glóbulos.
Tento recordar-me: a casa dos meus avós, a Praia das Maçãs, episódios antigos, as horas gordas do relógio de parede ecoando na sala.
Deve ser tudo normal, certamente é tudo normal e não entendo. Venderam a quinta, o mundo encheu-se de pessoa.
Fomos tão poucos, dantes!
Escondia-me num canteiro a fumar, as nuvens passavam sobre as copas.
As flores nasciam, perfeitas, dos dedos do senhor José. Esqueceste-te das estátuas com o nome das estações, do roseiral?
Do mês de junho em que tudo era verde, nítido, claro?
De trazeres pilhas de livros para o jardim?
Que Antonio eras tu?
Dos versinhos que escrevias?
De ires ser escritor?
Tão fácil ser escritor, não é verdade?
Tão fácil respirar.
António Lobo Antunes

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

E o sentimento de má digestão é...



 terror, 

um sem 

número de versos decepados, 

sem membros 

que nos assustem, 

e mesmo assim a fervença 

de tanto tempo 

deitado fora,...


e de lado escreve-se, 

desinforma-se, 

contribui-se para 

a ruína do mundo, 

e em tons de 

carmim 

o desejo desdobra-se 

em medo, 

e o medo inicia 

a fotossintese da ruína, 

e na ruína nos deitamos,... 


sem que o lugar comum 

de não haver amanhã, 

seja fortuito, 

efetivamente consolidado,... 


mais um anoitecer, 

é esta a minha, 

a nossa memória de 

fruição do fim dos dias, 

assim se queira desenhá-la 

a firme negro

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Cerco ao poema

o cerco ao poema faz-se
pelos lados,
torna-se vulnerável,
dependente de sinopses,
das inocências de quem
se presta a duvidar dele,...

num dia chuvoso,
enquanto dançavas ao redor
de uma mesa vazia,
sem comida,
mas com definições suficientes
de solidão,
percebi que se estendesse
esta toalha de português arcaico,
por sobre esta frase bonita
do que temos,
o poema seria nosso,...

mas vale o que vale
a ânsia de qualquer coisa


terça-feira, 13 de agosto de 2019

Inocência explicada

inocente,
inocentes os dias mal desenhados,
os mesmos com que me oferecendo
verbos por conjugar,
percebias que não sou a tua ilusão,
nem tão pouco as vezes com que
te deitas contigo mesma,
e assim a felicidade te abraça num
desfecho de solidão,...

não sou nem parte mal entendida
deste quadro desbotado,
iludido,
com que apareces ao lume
da minha ausência


terça-feira, 26 de março de 2019

Alto

parecia tudo tão simples,
nos resquícios do frio
do nosso respirar,
sem moribunda lonjura,
na lassidão do afastar do toque,...

que quando nos precisávamos
a nós mesmos,
o tempo parava,
o frio desenhava
o medo no lastro do
caminhar trôpego,...

e tudo pára quando
assim brincam as crianças


quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

a frase partida

envia-me sobre o que leias,
às frases ditas chama
amargos de boca,
e à pontuação
hesitações enroladas em sangue,...

não queria deixar de ser
o mesmo epílogo de som,
o que conheceste
quando era redonda a fome
do teu conhecer,
e sem esferas,
as precisas infidelidades
que balbuciavas
 ao não reconhecer da vida
os lamentos suficientes para
 adormeceres em plano,...

e agora,
talvez a frase partida
me feche a porta à solidão


domingo, 23 de dezembro de 2018

um bem querer que não vai

haveria dias em que cozia o teu
não estar lá com o mar,
pedindo que nem as montanhas
invisíveis das lágrimas,
fossem mais alguma vez o
mês de todos os anos,
os tempos do multiverso em que não
nos conhecendo,
arrastámos para lá do amor,
a simples
necessidade de fazer parte,
do sangue um do outro,...

aprendamos agora a pulsão
de qualquer coisa a sós,
ouvindo ao longe a música
que as pessoas fazem a invejar
um bem querer que não vai,
acabar


domingo, 18 de novembro de 2018

Algo sobre uma foto

adoro esta foto,
é como se da terra
tivesses aprendido a fazer
amor,
como uma metáfora que a luz
te tem trazido pegada à pele,...

e é como te virando do avesso,
de ti brotasse o abandono,
o mesmo que faz das coisas o
absinto delas mesmas,
e torna a nossa existência uma
contumácia de pensamentos sem nome,
sem pai,
e com mãe moribunda,...

talvez dizer-te mais uma vez 
que adoro esta foto,
apareces nela,
desaparecendo à luz 
nauseabunda do dia 

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Hesitando

mas e a vontade de dizer mas,
todas as coisas que
só pela suicida ideia
de gritar basta,
nos saem caras,
difíceis de ridicularizar,
e de assim nos dar vontade de
nos apoucarmos,
perante a derrota do tempo,...

não chegamos para os deslizes
de ter o ensejo de
querermos ser pequenos,
para a insubstituível
vontade de escrever
parvoíces como esta,...

talvez com a lama dos
 dias que findam sem
nos encontrarmos,
ressurja a decisão
insondável do medo