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quarta-feira, 31 de julho de 2024

...fatalismo de um dia triste

 Ela pediu-me indicações precisas sobre onde encontrar a liberdade. Era um rosto assustado, a ser cadavérico de forma ténue. Dizia estar perdida. 

Sentia frio. 

A pele encardecia, e era ensimesmada. Talvez tivesse de ser, mas tocou-me na mão.  

Reparei que tremia, um misto de susto e vicio que lhe vencia resistências, e a deixava sujeita a toda uma série de variáveis.

 Disse-lhe que ali só havia mesmo intelectuais. Pessoas egoístas, de cariz falsamente universal. Ouviu-me com a atenção possível, enquanto falhava sucessivos pedidos personalizados de conforto, com cigarros fumados a metade que caíam desamparados na calçada. Começou a chover. A princípio o que pareceu ser o ideal para um cenário do qual queria escapar. Depois, como se o céu quisesse precipitar-nos para o desespero.

 Disse-me que já não havia mais espera possivel. 

Queria liberdade, todas as formas possíveis de afirmação como mulher. Acariciou-me o rosto molhado com a mão fria. 

Por essa altura já tinha perdido a razão, a convicção,.... tudo o que pudesse ser apetecível numa situação inesperada. Puxou-me, e senti que o meu âmago ia com ela.

 Rasgado, surpreendido, fosse o que fosse. Mas segui. Dobrámos esquinas, passámos por histórias tristes e afogadas na violência da intempérie. 

Até que juntos percebemos estar a ser a metade de nós mesmos.

Perguntei por coisas dela. Não o nome, mas de onde vinha. Se algures no passado recente tinha sido feliz. Escolheu dar-me sorrisos esparsos. Apenas pequenas miragens de uma vida que talvez nunca me fosse dada a conhecer.

O sol venceu o fatalismo de um dia triste. Não sabia quase nada de quem me arrastava pelas ruas semi nuas da cidade.

Mas se calhar era o que tinha de ser. Nunca tinha pedido mais que o que pudesse alcançar na minha vida 

                                        Tirado daqui

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

...ser andrajoso e sem nome

 


E mesmo por aí. A largueza. Os desafios que um assobio do topo da rua representava. Eram duas e picos,
e como eu gostava de dizer as horas assim!! O dia tinha-se espreguiçado para mim. Ultimamente, punha os pés na rua sempre da mesma forma. À larga. Independente de pressões. Com roupa velha, rasgada. Um par de ténis de Xadrez, que foram de alguém que já não cabe na minha memória. A passada larga, tremida, levava-me a sítios diferentes em cada dia que passava. Era o desnorteado, desorientado, pessoa sem destino, que assustava pelo cheiro, cativava pelas ideias. Um dia inocentei um assassino. Expliquei-lhe que a culpa que sentia, ao chorar desalmadamente junto de um homem a quem o sangue brotava, em golfadas, do peito, era sempre relativa. Se havia uma faca, teria havido uma provocação. Se havia arrependimento, o mesmo cabe sempre no bolso de trás de quaisquer calças. E seguia caminho, inocente para mim mesmo. Culpado aos olhos dos que me viam escapar, impunemente. Sem me querer apresentar, sou fruto das minhas próprias circunstâncias. Fui filho da aventura e do queixume. Nasci presente, e cresci passado. O meu tempo cabe agora nas ruas onde me esconde. Nos becos da náusea, do vómito. E quando regresso ao meu espaço, onde me escondo talvez, de mim próprio, não há nada que caiba na inexistência do meu sorriso. E mais não escrevo. O sol já se põe, esquadrinhado pelos intervalos da prisão de casas que me tem, por enquanto, alma desorientada e sem idade….


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Assomo ao anoitecer

após o dilúvio, a praia torna-se um vai-vem de despojos de todo o tipo. Restos de cascas de árvores apodrecidas, misturados num mosto de cheiro pútrido com algas, pedaços de seres invertebrados, e lixo de toda a ordem, bailam sem coordenação. O vento levanta a areia pela base, e os poucos que se atrevem a enfrentar a tempestade juram, por vezes, ver lindas danças de moças orientais sem forma e sem idade, que enfrentam o rigor dos elementos para provar um conceito próprio de liberdade. Havia a jura de luz feita sombra naquele local assoberbado. Tudo soava a renascer, a verbos gastos pelo tempo e pela indecisão do espaço. Uma mulher submete-se, de cócoras, a uma reza impercetível. Um homem passa por ali sem destino, mas com um cão que se arrasta sem nome nem sentir. A voz do vento dita para a luz metálica do céu, juras de um compromisso sem idade.