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quinta-feira, 2 de julho de 2026

Uma mulher que o entendia,....

 Por cada grito sobre campos afastados dos olhos,

Recebia se em casa um vento de duas vozes,...


Uma mulher que o entendia,

E todos os que ouvindo sem barulhar, 

O percebiam de forma muito própria,....


E era mesmo de todos,

Desenhar um traço que fosse comum,

Por cima da presença do amor

domingo, 21 de junho de 2026

A Luísa,...

 A Luísa,

O nome não existe,

Deixa que permaneça escondido na base da janela da sala,

Por onde a chuva vai entrando em fila,

Nas dobras deste inverno que nao desaparece,....


A Luísa fez costura há muito tempo,

E viveu aqui,

Por entre as roupas que o silêncio desenhou,

E longe da chuva que ficava de fora,

Porque o tempo a julgava improcedente,....


A Luísa amanhã voltará,

Basta que deixes a gaveta aberta,

A segunda a contar do fim 

domingo, 25 de janeiro de 2026

Era só uma mulher,...

 Como se posicionava para os conflitos,

As brechas na rotina,

Achava o pior de discussões fortuitas,

Virulencias gratuitas que mostrassem o pior das pessoas,....


Mas iria sempre haver força no seu âmago que a impulsionasse,

Para a auto defesa,

O escalar da condição humana que não conhecia limites, ...


Era só uma mulher,

Conhecia-se apenas como tal,

A querer sobreviver 

The 400 blows
(1959)
De: François Truffaut

sábado, 18 de outubro de 2025

Sendo ainda anónima,....

 Um ato desproporcionado,

Desregrado,

Na pessoa de uma mãe anónima,

Que trouxe pela mão a sua ingenuidade para a rua,

E propositadamente se esqueceu dela,....


O desapego dos cidadãos anónimos,

E os passos que o tempo calca na terra húmida,

Fizeram com que a ingenuidade se sumisse,

Como uma cor molhada,

E deixasse de existir,....


Falamos hoje de uma mãe que,

Sendo ainda anónima,

Perdeu o presente,

E ficou presa no passado sem cor,

De um ato que em breve será público 

                                                                     Tirado daqui

Trabalho de DIEGO RIVERA (1886-1957)
Pintor e muralista mexicano

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Sentia-se trespassada...

 ...quase como uma continuação da sua personalidade. Por vezes truculenta, outras que se sente desnecessária. Mas uma mulher que se anota em si mesma, porque gosta de fazer pequenos escritos sobre tudo, e que ao mesmo tempo não são nada. Ela conheceu o medo, há muito tempo. Achava que a vida se ia desfazer, como o gelo dos dias mais frios. Foi um período de vida sem cor, sem som, mas que encarou como um teste à sua perseverança. E dela as pessoas puderam começar a esperar qualquer coisa de imprevisível, todos os dias. Vestia-se de amor, como gostava de dizer. Olhando para o espelho, experimentava visuais de cores vivas, alternados com um cabelo que moldava ao rosto aquilino, e aperfeiçoado, à medida que o tempo ia passando. E de cada experiência, ficava sempre o menos doloroso. Até que um dia, ao sair de casa, viu a luz de uma outra forma. Sentia-se trespassada, quase cosida nas entranhas pela violência de uma nova forma de sentir a essência da vida.

Filme: First Reformed (2017)

quinta-feira, 3 de julho de 2025

...o tom feminino

 Não se dava conta de que era uma rainha,

Passos inocentes mas firmes,

Um olhar sobranceiro,

Mas com espessos laivos de caridade,...


Era sempre o tom feminino que habitava as suas narrativas,

E tentava que o sentido fosse do poder,...


Assumir-se como a que tomava decisões,

Aspirava ao paraíso num fim de tarde,

A dois sítios de diferença da ilusão,...


Talvez fosse ficcional,

Fosse a melhor parte de algo que não existe,

Mas não faria diferença,...


Iria sê-lo até conseguir impressionar a visão dos outros sobre si,

E se calhar manter-se adormecida nesta ficção 

                                                                         Tirado daqui

Fotografia de Angelika Ejtel

sábado, 14 de junho de 2025

...uma mulher que priorizava o tempo

 Não se sentia plena. Como a mulher que sempre imaginara. O dia parecia passar incompleto, por entre as suas hesitações. Decidira não gostar de finais, por isso os relacionamentos que aceitava ter eram precipitados, deixados pela rama. Nunca aprofundados. Guardava até um registo escrito de todas as desilusões que sabia deixar nas pessoas de quem apenas se aproximava.

 Não é que fosse feliz assim. Mas tinham-na ensinado a adorar a racionalidade. A estender o necessário, por cima do irrelevante. E nunca, mas mesmo em circunstância nenhuma, dar qualquer hipótese ao amor. Era o que, na sua opinião, mais lesava os sentidos, inutilizava o amor próprio das pessoas. E era isso, tudo na vida devia de resumir-se ao essencial, porque não havia tempo para mais. Ela não queria ser distraída de um caminho que podia não ter destino, mas tinha a sua crença. E ela era uma mulher que priorizava o tempo, em detrimento do desnecessário. 

                                                                      Tirado daqui

O Fantasma
Pintura de: Josef Mandl 
1898

sábado, 5 de abril de 2025

...capacidades sociais



Sentia que tinha de acertar a razão.  A virtude que devia exibir em cada passo daquele caminho. Não era uma situação em que pudesse errar. Como mulher com uma experiência de vida tumultuosa, desregrada, aprendera a proteger-se. Cair no erro de deixar-se conhecer não era mais uma opção, já que progressivamente ia perdendo as capacidades sociais. A verdade era agora diferente para si. Tinha deixado de existir o conceito universalista da mesma, e havia um teor progressivo da verdade. O que chamava um resto de princípios de vida, pelos quais se regia em silêncio.  Num silêncio no qual se vestia, banhava, que lhe dava de comer e beber. Um silêncio corpóreo e com existência progressiva e humanizada. Só assim, defendida e afastada do erro fortuito e negativo, conseguia sair de casa, e fazê-lo com o sentido possível. Discreta, com vestes de pele, e não com uma pele que a vestisse. Fixava os olhos no chão, e caminhava sem destino.  Tinha de ser assim, sentia com veemência.

                                                                               Tirado daqui
Paul Lehr - Cosmic Assembly 
Década de 1990

sexta-feira, 7 de março de 2025

As propostas de mulher,....

 Partem todos,

Os infelizes,

As propostas de mulher,

O silêncio inocente nos gestos das crianças,

Até os velhos confiantes em fintar a morte,....


Partem nas páginas de um jornal,

Por entre um anúncio de morte e uma notícia feliz de superação,

E não têm destino conhecido,....


Partem sem os pertences,

E vão para onde a resolução os leve,...


Hão-de voltar,

Quando as luzes do tempo atenuarem,

E se gritarem porventura no centro daquela terra imaginada

                          Tirado daqui

Poema de Mia Couto

quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

Maria e as volatilidades...


                            Tirado daqui

Maria tinha o corpo de agora. O de ontem. O da última vez que fora feliz. E ainda o que sentia ser o seu:aquele de que se apercebeu no dia em que saiu de casa, e começou a rotina a que agora se dedica de palmilhar o maior número possível de aeroportos em busca de odores. Volatilidades, sensações que lhe tomem de assalto os sentidos da forma mais extemporânea possível. A ideia é sentir-se vencida. Entregar-se de corpo e alma ao que não conhece. A pessoas que a observam quando parece entrar em transe, oferece alienação.  Abandono fisico e mental. A si própria, não sabe o que pode dar. Mas sente-se compelida a seguir. Quase como um desafio que não vem nos livros, mas é uma realidade que se nos pega à pele como uma doença...

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

Mulheres de silêncio vestidas,...

 Nem tanto por pedras,

Mais por razão,

Mulheres de silêncio vestidas,

Num largo demonizado pela pobreza,... 


Passos de sonho substituidos pelo mal,

Vitórias de pirro que arrastam o dia pelas orelhas,

Panelas e panelas de sopas de sangue,

Onde tanto mal cabe à justa,....


Não falamos de pedras,

Mas de uma raiz iconoclasta,

Robusta,

Com um profeta invisível que por aqui anda,

À espera dp fim dos princípios,

E de tudo o que o tempo pode temperar,,...


Sinto a punção de um corpo enrijecido,

E uma palavra só de que posso fugir,

O abandono,

A valorização eterna dos tons da solidão 

                                                                           Tirado daqui

Anselm Kiefer 
Tannhäuser.

sábado, 23 de novembro de 2024

.. .folha gigante de bananeira

 Aquela mulher intrinsecamente desejava que não existissem oprimidos,

Se o mundo escorregasse por uma folha gigante de bananeira,

Com sorrisos de crianças a servir de música,

Para ela seria tão melhor,...


Mas nada disso nunca aconteceu,

Ela está entristecida por sabê-lo,

Cabisbaixa caminha sob uma névoa invisivel,....


Mas não desiste,

Antes de dissolver este pensamento,

Ela faz malabarismos com frutas tropicais,

E espera por uma nova manhã húmida,...


É quando o sol se volta a calçar,

Que as melhores decisões vêm ter com ela

                                                                              Tirado daqui

Sunday Afternoon, 1957, Elaine de Kooning

terça-feira, 24 de setembro de 2024

...o destino violento

 Era tarde, tarde a ponto de a noite ser chaga e o dia ferida purulenta,

A ponto de a dor se espalhar pelas pessoas como peste,

Sem que elas mudassem a aparência ou o som dos respetivos corações,...


Com passos subtis,

A pesarem menos que as nuvens opacas que namoravam a lua,

Uma mulher tentava enganar o destino violento,...


Queixava-se do amor,

Que nunca o tinha tido,

Nem desejado,

Nem sequer lido em madrugadas vazias,...


Com ela a dor parecia contar menos,

Um pouco menos,

A ponto de achar que algo de mau se poderia passar consigo 

                                                                            Tirado daqui

segunda-feira, 9 de setembro de 2024

Alguém confiável..

 Ela era daquelas pessoas para quem valia a pena olhar. Aterrorizava-a perceber isso. Achava que tinha um caminho próprio para seguir, e isso era suficiente para que fosse incapaz de desbravar percursos novos, e sequer de ter a iniciativa para abordar as pessoas quando delas precisava. Escondia-se detrás de um cabelo sedoso, castanho amendoado, que a envolvia a cada passo que tinha a coragem de dar. O corpo, era ocultado por roupas largas, de cores discretas. Tudo menos revelar as formas insinuantes e femininas que sabia ter, mas que se esforçava, de uma forma atroz, por esconder na rotina que a assustava. Conseguia encetar conversas que interessavam. Queria ser alguém, no topo de uma escada que ainda nem sequer sabia onde ficava. Alguém confiável, disponível ao diálogo, compassiva com todos que disso precisassem. Em suma, uma mulher que deixasse marcas por onde passasse. Mas sempre com uma condição. Nunca ser vista como um pedaço de carne, com utilidades, concretas ou dúbias, que a deixassem enojada. E todos os dias anotava mentalmente as formas de evitar que isso acontecesse...

                                                                               Tirado daqui

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

Uma mulher conhece um livro

Era verde. De aspeto simples, despretensioso. A capa só revelava uma mensagem que poderia passar despercebida.

Ela veio para ficar,

Encimada pelo nome do autor.  Era daqueles que prometia dar luta, já que tinha uma dimensão considerável. Ela ficou logo interessada. Aproximou-se do livro, abrindo subtilmente caminho por entre a multidão que afanosamente serpenteava naquele espaço, sóbrio e decano, em busca de bebida para a sede de conhecimento. Quando finalmente conseguiu pegar nele, gostou da encadernação sedutora. Muito suave. Ao toque, parecia despertar a libido. Olhou para todos os lados, receosa de que a estivessem a observar.  Mas permanecia anónima, como era a sua intenção.
Abriu a capa,  depois a página de apresentação.
Rodrigo james
Era o nome do autor. Desconhecia-o, assim sem mais informação.  E depois de uma, duas, páginas em branco, uma dedicatória.
Para ti, a que me ensinou que o mundo se explica a si mesmo, com vontade de nos confundir.
E pronto, estava escolhido. Era aquele que ia consigo para casa. Queria ter uma noite em branco a desvendar aquele mistério de capa verde que agora segurava entre mãos 

                                                                  Tirado daqui

sábado, 13 de abril de 2024

Transmuta-se numa mulher madura


                                                                                    Tirado daqui

Há uma mesa posta,
Com augúrios,
Restos de comida em decomposição,
Conversas e minudências para a troca,...

Enquanto isso o tempo desliza por entre pés deformados,
Acaricia mãos de contas de rugas,
Amaldiçoadas pela dor e esquecidas pela vontade,...

Transmuta-se numa mulher madura,
E vai ocupar uma cadeira de verga,
Vazia e insuspeita,...

Não faz muita diferença,
Nem sequer atenua o cheiro a ilusão,...

Mas está ali,
E aproveita para ler autores inconformados,
Enquanto acaricia cachos de cabelo alourado 

                                                                                  Foto de: Angelika Ejtel

quinta-feira, 4 de abril de 2024

José e Laura

José gostava de laura. Ensinava-lhe os nomes das árvores, dos animais, das pequenas imperfeições que as pessoas lutavam por esconder. Saía depois na paragem de autocarro. Ela seguia. José sentia-se bem a caminhar. Gostava de sentir que chovia em todos os seres vivos, incluindo em si próprio. E pensava em laura. Nunca fora bom em ciências naturais. Nem no estudo do concreto, através de ideias irracionais que outros tenham tido. Só queria pensar nela. No pouco que faltava para o próximo encontro. Nas formas mais simples e diretas de aglutinar palavras, e assim deixar com que poemas, pequenas esferas poéticas como lhes chamava, fazendo concessão ao irracional, lhe caissem no regaço exatamente antes do momento em que eles se separavam. Era feliz assim, porque não sabia ser feliz de mais nenhuma forma. E antes de adormecer, refugiado no pequeno retalho de mundo que ninguém alguma vez iria saber ser o seu, pensava nas pessoas que eram diferentes de si. Nos tristes, nos opacos, nos falsamente felizes, na sua própria versão do passado que matara no momento em que conhecera laura. E desenhava na boca um sorriso. Falso. O autor não terá nunca coragem de lhe dizer isso...


Young Frankenstein (1974)
Realizador: Mel Brooks

sábado, 3 de fevereiro de 2024

Dissenção sobre uma mulher

 


A mulher que reside nos subrepticios buracos onde a luz entra naquele mundo, nunca sai à rua. Conta o tempo em bagos de arroz, e o espaço com a percepção de cheiro que lhe invade o mundo em cada manhã.

Chama-se qualquer coisa. Depende do tempo que faz lá fora, e dos olhos se adaptarem à escuridão que por vezes lhe vem dizer bom dia.

É uma mulher doce quando a amargura nada custa, azeda na maior parte das vezes, e que sempre quis ser perfume. Não importa ter os dentes desalinhados com o corpo, a roupa alinhada com a moral que ainda traz consigo de quando era menina. E um sexo empedernido. Duro como toda a rocha que namora com o mar com que sempre sonha. Está lá, mas não o sente. Uma mulher de uso longinquo, e ao mesmo tempo renovado. Faz de si o ar que respira, mas mais ninguém ousa transformá-la em água que se beba. Porque ela não deixa...


terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Entardecer em Tóquio

 


Os que a desprezavam mediam distâncias,

Aprofundavam ilusões relativas a um corpo perfeito,
A uma vontade inexpressiva,
E a uma medida de proveito sobrehumana,...

Não era deste mundo,
Costumava dizer que abraçava o nascer do sol na galáxia do canto,
Enquanto a sua pele era de entardecer em Tóquio,
E assim continuava,
Zelosa da noite que a acompanhava

sexta-feira, 20 de outubro de 2023

Finalidade de estar bela

 


Uma mão lava a outra,

Soi bem dizerem-se palavras gastas pelo tempo,

Para ela já não,

Um suspiro lavava a angústia do desespero,

A finalidade de estar bela,

Desejável e desejada,

Naquele recanto de mundo de todos os dias,

Agora escapava-lhe,...


Assim como não entendia o som sincopante do mar,

Que parecia estar a vir pé ante pé,

Para a arrastar ao vazio,

Uma mão parecia só servir para acentuar o medo