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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

E não escaparei sem me ferir

 quando eu tenho tempo para ver, as coisas não acontecem. As mãos de hoje, de sempre, recolhem-se, e o silêncio emudece os que até aqui enchiam de vocábulos canoros o passar repetitivo de tempo.
 Abro os olhos, e a mesma ladaínha de sempre, dos velhos, dos que sabem e praticam o saber de experiência feito, brilha timidamente nas paredes da viela em que o meu pensamento está preso.
E cá me prendo, atado de mãos e espírito.
Cá me prendo.

E não escaparei sem me ferir

                                                                              Tirado daqui

Marcello Mastroianni no cenário de filmagens de8 ½, de Federico Fellini

sábado, 30 de março de 2024

12:04, Saturday afternoon

 abres a janela. Nada to obriga, sentes só uma necessidade carnal, desejo de o fazeres. A brisa envolvente brinca com o teu espírito inquisitivo, o sol desenrola-se num corpo imperfeito, como a invasão incolor, mas perfeita, que precisavas naquele momento. Um pensamento sozinho, leva a que admires, observes o que tens de observar pelo tempo que a necessidade te obrigar. E depois, fim. Há uma escuridão infinda, de olhos fechados no silêncio de uma sala, para recuperar



sexta-feira, 25 de março de 2022

La muñeca

Um cabelo indistinto de dois tons, tão ralo que merece pena. Um vestido inofensivo, com cores que não despertam o teste da consciência de quem observa. Eu serei assim para sempre,...
a razão pela qual existem dúvidas. Pontos de contacto que entram pelas frestas, e pairam como gás letal no taciturno daquele lugar,...
por esta razão, um barulho incompreensível parece o teste certo para as novidades irregulares que o dealbar da noite traz,...
lá fora, pede-se uma última oportunidade ao amor. Ao mesmo tempo que os pés desculpam a morte. E a fazem pernoitar comigo num canto de duas vozes mudas



terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Poema pouco explicito


 Notava-se a diferença dentro deste ano, 
com meses que demoravam a passar, 
e dias estranhos, 
como duas rosas estremunhadas 
que acordam da noite cega, 
não havia conversa possível 
para as pessoas, 
sentia-me incapaz de 
te explicar a bússola, 
por onde hás-de ir 
quando ao voltares 
percas a vontade de regressar,
 deixava-te assim um lápis 
na mão, 
uma coisa tosca, 
apenas algo com que 
pudesses rabiscar o desejo, 
e vesti-lo de sombrias hesitações, 
e à volta dele depois voltasse 
a haver tempo, 
porque sentia a falta dele, 
dos minutos a espernearem, 
dos segundos que os ouvia a 
conversar como velhas que 
vomitam só escatologias, 
sem o saberem,...

Há margem agora 
para um beijo 

domingo, 4 de outubro de 2020

Martim, rapaz robustecido

 

para martim, rapaz robustecido e anuente com a frequência das coisas boas na terra onde vivia, esta era uma questão de vida ou morte. Vestido de afrologia declarada, com calças de sarja, e uma camisa de ramagens de palmeira, que o declarava fonte de alegria no taciturno dos dias que ali demoravam a passar, acreditava que ela havia de se recordar,...
a menina era equilibrada. Permanecia oculta quando nas redondezas, tudo parecia descender em respaldos de loucura, e quando aparecia, fazia-o com encanto. Pé ante pé, de cabelos soltos, ligeiramente enfeitados com a cacimba das manhãs que desabrochavam em vida aos primeiros desembaraços de sol.
Pelo sim, pelo não, passou junto à entronizada casa de santos onde ela morava, havia pouco tempo. Esperou, esperou, e quando já parecia que nada ia ouvir, uma música insinuante, desordenada, mas que agarrava a pessoa por cada osso do corpo, saiu pelos arrabaldes da casa, até que lhe tocou os tímpanos de forma desempoeirada. Havia ali um descaramento difícil de descrever, mas que sabia bem.
Para Martim, rapaz robustecido e que aguentava bem cada remoque da existência, aquilo pareceu-lhe um convite a qualquer coisa. Deixou de ser uma questão de vida ou de morte, para frutificar um desejo de ali estar. Um dia, dois sóis, o tempo que fosse. Sabia que ia demorar, mas queria ter a certeza de que ela tinha mudado de ideias. Que o iria querer quando as coisas assim o permitissem. Quando o arroz passasse a ser mais barato que a água, e o perfume pudesse caber nos bolsos do povo.
Entretanto, enquanto esperava, lia um pequeno livro de cordel que encontrou escondido, no meio das ervas. Falava sobre um velho que se tinha despedido dos filhos, para ir morar para junto de uma fábrica....

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Atual emoção

Além de não ter impressão,
não tenho opinião,
não acho nada sobre nada,....

nem penso em amor,
em resoluções inconstantes,
só me preocupa a adoração,
resvalar para a assombração,
pensar de todos os deuses,
o mesmo que não me desejo,
nem ignoro


terça-feira, 29 de maio de 2018

Ele e ela, amontoados


os dois juntos faziam um. Respiravam o mesmo ar, capazes de encher os pulmões com a certeza de que efetivamente dependiam um do outro. O dia desabotoava-se da noite à mesma hora para ambos, e invadia-lhes  o quarto com desenhos de luz capazes de depurar o tempo em pequenas frases mudas, e de contornos inodoros.
Escreviam os mesmos medos. Recitavam verbos alegres, com tons semelhantes, e tudo para pensar que a  vida sabe a morango quando quisermos que ela deixe de saber a morte.


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Tirado daqui

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Que se passa...


outros houve que quando aqui passaram,
disseram de nós o que sobre si próprios nem nunca tinham construído. Que seríamos paz.
Infrutíferas tentativas de fazer mal às pequenas coisas de quando o mundo gira.
negamo-lo agarrados ao pó que fica do tempo que passa.
amantizados com o resto do segundo, infrutiferamente em desespero com a respiração que escasseia no tóxico quarto em que queremos chorar,....tranquilos
,....longe do calor da suficiente paz do caminho para o fim da existência.....