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terça-feira, 14 de maio de 2024

Conhecer-se pelos olhos

                                                                           Tirado daqui
 Buster Keaton, 1922

-Enfim sós 
Suspirou profundamente depois de o dizer. Não era um compromisso. Nem sequer uma ideia aleatória. Saiu simplesmente. Notava-se que ela se tinha esforçado para que a alegria interior lhe saisse pelos poros. Debruçou-se gentilmente no parapeito da janela, para parecer simples. Chovia muito delicadamente. Ele observava-a. Como se nunca tivessem acontecido estes momentos. Como se tudo nela fosse uma novidade que a qualquer momento pudesse esgotar-se. Olhavam um para o outro com a mesma avidez. Com o mesmo desejo simples de posse. Até que se sentaram no chão frio daquela divisão, ampararam a mão um do outro, e ficaram a conhecer-se pelos olhos. Apenas isso. Não desejavam mais nada naquele momento 

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Auto-análise



 É talvez por isso mesmo,

A parede onde se percebe um coração ao acordar,

O andar mais trôpego que na véspera,

Perceber que não há nada para abraçar lá fora,

E que amanhã será igual,...


Duas vezes esta percepção,

Gravada nas mãos,

No peito,

E a crescer no vento que fecunda as paredes velhas da casa,...


Tudo se amedronta,

Quando o impositivo do tempo,

Mais uma vez vence


sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Insegurança

Humedeceu os lábios,
Do interior avançou como
Que o dia não pesasse,
E dos minutos já mortos viesse a insuflada vontade de prosseguir,...

Amor a postos,
E sem vontade de definir sentimentos em personagens,
Recriou-se como depressiva,
Escrita a dois tempos seria a transparente da sua rua,
Quem nunca iria fazer com que houvessem noites dignas de nota,
E madrugadas que em verso fizessem filhos como quem planta ideias revolucionárias

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Indecisão frásica

Só mais uma vez a luz baixa,
Os dias terminando um ano que ninguém quer descrever em frases por explicar,
No luscofusco as mesmas possibilidades de sucesso,
Um cão moribundo que na noite se arrasta quando a cidade dorme,...

Nada aparenta ser mais o que lemos juntos há tanto tempo,
Hoje as pessoas escrevem-se em capitulares,
Perfazendo datas redondas e sem espírito,
E talvez pare por aqui o que nenhum sentido faz,
Ja não te conheço o suficiente para prosseguir




segunda-feira, 16 de julho de 2018

Poema a meu pai sem corpo

lembro-me dos mais velhos a falarem de quando o conhecimento era um medo,
o tempo em que os livros forçosamente eram segredados,
passados de suspiro em suspiro longe da luz do dia,
podia ser à sombra de uma árvore,
na ilusão de um toque fugidio,...

hoje conhecer é incorpóreo,
não está em lado nenhum,
e a decisão de termos posse de sinapses,
faz-nos raios de luz que chamam a si a liberdade