não foram só as coisas que li,
os determinantes que evitei,
a vulgaridade que escolhi
fintar,
os versos repetidos que
fui forçado a usar,
as pessoas inócuas que
revi,
e refiz toscamente em
situações sem solução,...
não foi tudo que alguma vez
desejei,
e as flores indesejadas nos
raiares dos teus olhos,
talvez de tudo não haja retorno,
nem das frases indecisas,
dos sentimentos sem pátria,
que vagueiam pelo mundo,
invisíveis,...
não foi nada disto que me lembro,
efetivamente,
de ter lido,
talvez a possibilidade de um lado
sem arestas,
naquele livro que te esqueceste,
quando desabitaste o meu peito,
talvez seja isso
quando eu às vezes era curioso,
não esperava que me perguntassem
se era curioso,
dizia só ter expetativas medianas,
e que gostava de arranhar a terra
à espera de cordiais saudações
da vida,....
deixei de ser curioso desde o momento,
em que a curiosidade me surgiu
sem roupa,
cheia de frio,
e a perguntar para que lado era a felicidade,...
escrevi-lhe a direção do hospital
mais próximo,
e hoje acho que sou cauteloso
Naquela tarde, quando já tinha acabado a descarga habitual do camião de bibelots que dia sim dia não tínhamos à porta de casa, degustavas um prato de amêijoas. Depois da sopa de lentilhas que trouxeste do trabalho, sentei-me a ver-te comer. Não havia interrupções para ouvir coisas desnecessárias, nem afagos de mão para atestar sentimentos que talvez nunca existiram. Apenas estar ali. Sem noção de tempo, nem precisas notas de rodapé que prenunciavam fins desejados por uma, ou duas partes.
O cão acordou entretanto, e entrou pachorrento pela sala. Deitou-se aos teus pés, sem mais força do que a suficiente para te contemplar com um amor intermitente. Olhei para ele, e os caracóis da franja sobre os olhos tiravam-me a certeza se estaria a dormitar de novo.
-estranho o teu silêncio. O que me queres dizer?
Lá fora discutiam dois bêbados. Dava para perceber. Um dizia que queria o dinheiro até amanhã à mesma hora,... O outro chorava.
-não te quero dizer nada. Só me apetece estar a olhar para ti enquanto comes.
Terminaste as amêijoas. Pareceu - me ouvir dizer que estavam saborosas. Limpaste a boca com um guardanapo amarelo, e depois a refeição terminou com dois golos de água num copo.
Levantaste-te e resolveste fazer descer mais um pouco o estore. A sala ficou num breu acolhedor, com a luz a desenhar pequenos triângulos dourados na parede branca.
Sentaste-te ao meu lado no sofá, e na televisão o Humphrey bogart tagarelava algo a preto e branco.
Puxaste a tua pasta bem tratada com as coisas do trabalho, e tiraste um dossier com várias folhas. Ordenaste-as o suficiente para me tirares parte da tranquilidade que até aí sentira, e olhaste para mim.
-este é o meu testamento.
Quando me sentia acossado, sem fôlego, com a compreensão adensada por qualquer coisa inexplicável, os meus olhos desviavam-se. Fixei um canto da sala de onde, por vezes, já tinha reparado que saiam formigas em carreiro. Não consegui responder.
-para que não penses que tenho superpoderes, ponho as cartas na mesa.
Só me ocorreu perguntar-te:
-mas que história é essa?
Disseste que me querias provar o teu amor. As nossas coisas, que já tinham existido, não valiam nada. Pensavas no futuro. Porque tinhas pessoas que não gostavam de ti. E achavas que o tempo passa tão depressa, que pode ser traiçoeiro.
Não conseguia responder nada. Lembrei-me de quando nos conhecemos. Todo aquele acidente inusitado. Saias do comboio com duas malas. Eu tropecei e caí a tua frente. Pediste-me mil desculpas. As coisas desenrolaram-se quase como um texto sem narrador. O primeiro beijo, o primeiro, o segundo, o terceiro sexo. As promessas de que o tempo custará menos a passar se o fizéssemos juntos.
-deixo-te umas aplicações que tenho no banco. O meu carro também já está em teu nome. E não tenho muito mais.
O meu silêncio acelerou a tua pressa.
-falamos mais logo.
A um beijo, seguiu-se uma volta de canhão de fechadura.
Resolvi escrever para que tudo ficasse em perspetiva.
Saiu de casa, e para trás deixou-me com tantas coisas. Uma mala de viagem comprada num daqueles mercados em que, um dia, gostámos de nos perder. Era acastanhada, com um fecho cromado, de fivela. Cabiam lá dentro todas as camisas que ela me comprou, bem dobradas. Não perdiam a goma, e ainda havia espaço para algumas gravatas enroladas, em novelo. As meias ficavam numa bolsa na contracapa da mala, embrulhadas em punho fechado, como todas as mulheres mandam. Ficou para trás o ferro de engomar que tratava das camisas, e ainda vários sapatos já gastos do uso.
Os livros mereciam o meu silêncio, espantado. Estavam concentrados em montes derrubados, quase como aqueles filmes de domingo à tarde, com montanhas arrasadas por caças japoneses que devastavam as ilhas do Pacífico, e depois fugiam em direção ao pôr do sol. Havia uma bíblia, como há em todo o lado. Coisas da escola, com o 'Felizmente há luar', do Sttau, que ambos gostámos de ter sido obrigados a ler, em lugar de destaque.
Havia muito mais. Talvez, escondida, houvesse até uma lista de tudo aquilo com que fiquei.
Não conseguia pensar.
Só me ocorriam os pequenos almoços de fim de semana, na Baixa, tomados em silêncio no meio da estridência dos gritos das famílias com crianças pequenas que nos afogavam, só porque nós sempre deixávamos. E gostávamos.
E os jantares de todos os outros dias, também em silêncio. Uma batata frita de pacote, endurecida porque não havia dinheiro para comprar mais, sabia porventura melhor se os maxilares e a língua só se concentrassem no ato de comer. Nunca no de falar.
Talvez tenha sido esse o silêncio que acelerou aquela saída. E para trás ficaram tantas coisas....
....ainda me restavam alguns livros. Abri as gavetas do costume, e o primeiro foram as 'Vinhas da Ira' mal cuidadas que, naquele dia de fim de outono, me deste à porta do café do costume. Já se notava um Steinbeck esbatido, esborratado até, pela passagem do tempo. Mas ainda lá estava. Encontrei ainda o 'Ano da Morte do Ricardo Reis', o tal que me aconselhavas como um exemplo mal acabado de genialidade. E os inevitáveis 'Cem anos de Solidão', porque os ideais irrealizaveis nos escritores são uma perspetiva que pode desenhar-se.
Só memórias, tantas memórias. Ideias mal escritas. Passeios que serviram só para dizermos ao tempo que gostávamos de viver com conhecimento de causa. Almoços nos parques todos da cidade, de preferência com o vento a fazer-nos embalar tanto que parecia que degustávamos coisas simples a voar, de olhos fechados. Tantos livros, que agora não valem nada.
Só ficou a solidão.
e eu pensei que não havia Norte
no que dizia,
com as reticências postas sempre
a meio dos lamentos de estar só,
e nunca poderiam ser mais que
algumas, as vezes em que a poesia
deixava de estar escrita desta forma,
e tudo não sobrava para mais que umas
odes sem fim, com princípio, e
que deixavam a vontade de arredondar
as letras com vulgaridade que se bebia
em copos, e se me pedissem para parar com
esta lengalenga, eu talvez já não saberia,
porque ao ar só se pergunta a idade, e quando
os tempos vão acabar
a única coisa que me falta de ti são
os semi-cheiros,
sim, habituei-me a sentir pela metade,
tudo na esguia forma dos teus seres,
que não consigo,
nem consegui,
nunca escrever na minha pele,
quanto mais agarrar e replicar
em sonhos de fruições que,
talvez,
só existam lá no outro
lado do céu sem estrelas,....
ao menos a forma inaudita ficou,
aí,
onde sei que estás mas não consigo
chegar,
giras num caleidoscópio incontável de
momentos replicados em roda
viva,
de vida
por estas horas a solução estava no rasgar
da estrada,
havia minutos que era em silêncio que a rua
se escondia de um suspiro,
de duas catarses,
até de três adeus para nunca mais voltar,...
sobravam indecisões redescobertas
numa fábula sem fim,
para que as recordações dos suspirares felizes,
se tornem nome de rua
para todo o sempre
...aos poucos acabavam-se as meias verdades,
de mansinho ficava o ar quente entre as coisas,
ressarcido do pranto,
das velhas hesitações da noite quando indeterminada,...
pareciam sempre por resolver os problemas das famílias sem olhos,
que deixavam por pintar os espaços entre o que fica por dizer,
acabando a amanhecerem-se sem sede,
e com música de silêncio para contar,...
eram novos tempos em que a viuvez dos pecados,
usava roupa branca para complementar a dor,
e deixar a morte nas portas entreabertas da solidão
durante o tempo em que com ele convivi,
o homem cresceu,
pensava nas raízes,
nas desilusões da vida à porta das cidades,
no frio a que sabem as bicas tomadas sozinhas,...
sempre que com ele convivi,
o homem desusava as pausas que fazia a falar,
até que deixei de recordar como ele era sem nada dizer,
do farto que fiquei de passar o tempo a ouvi-lo falar,...
durante o tempo em que com ele convívi,
o homem dizia não querer viver da política,
porque se um político era a política silenciosa feita polícia da palavra,
não interessava saber qual o melhor verbo que interessasse a tudo isto,...
e quando parei de com ele conviver,
havia uma conta por pagar a uma série de poetas que para ele tinham escrito,
deixaram-lhe versos a fio e o homem sumiu-se,
porque nunca soube sublinhar a importância do sentir na convivência
Às vezes ainda renasço nas vezes em que surgias para lá da porta,
Quando já me decompunha no medo imutável de te perder,
E me levavas ao sonho nos passos lentos do teu sorriso,..
Às vezes sou a partilhar contigo o desejo que era teres desejos para mim,
E para o meu futuro de idílicas felicidades que nunca soube alcançar ,...
Mas às vezes,
Sou-o ainda mais perto de ti o que prefiro ser,
O suspiro ao adormecer na noite que não era sem fim quando cá estavas,...
Agora,
Sou todas as vezes despido de sentido,
Sem ti e sem que te tenha comigo...