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quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Início do desânimo

 Nunca se sabe se o desejo do dia de hoje,

Será o último,

Ou o primeiro de uma orelha de novos sons,

De outros sonos,

De descansos que pesam tanto no leito de suposições em que nos habituamos,

Ainda a descansar,...


E eu renovo uma anotação infiel para com o ar corrente,

O peso incolor do que nos completa,... 


E tudo porque um grito,

Citando a poesia portuguesa do início do desânimo,

Fica sempre melhor do que um beijo apaixonado de reconhecimento 




domingo, 11 de outubro de 2020

Concha

 Uma porção,

As mãos escavadas pela demora,

Encerradas em concha,

Refletindo a luz de porcelana que a medo se revela,...


Esperava-se nada,

Tudo ao mesmo tempo,

Mas o suficiente para que só fosse possível acumular uma porção,

De lustro,

Amor,

O que fosse,

Mas pouca coisa desde que dita pela boca do silêncio,...


Observava a introspeçao perfeita ao longe,

Refletindo sobre o muro do que se lamenta,

Com a religião inodora do que deixou de se acreditar 



quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Homem a ver a última tentação de Cristo

 Imploro-te que me vejas como sou,

Eles não merecem a formação lateral de um desespero,

Nem tão pouco que se grite aos  ventos, 

pela mudança que nunca vai chegar,... 


Que me sacrifiques pelo que eles nunca serão,

E onde quiseres subirei,

Resvalado no que só eu vejo para eles,...


Não mais a afonia da distância que fica por explicar,

Nem toda esta criação literária sem cheiro,

Leva-me,

Eu sou só a reconsideracao de todos estes defeitos 

domingo, 27 de setembro de 2020

Anotado no barro

 

entrar,
preencher os espaços que
me são permitidos,
por fim uma esquina,
a duração certa do respirar,
para que te ensine
que pintar os lados de 
uma esfera,
é impossível,
o mundo como o conheces não
tem faces,
é plano,
tanto assim que escorreguei até
aqui sem pedir licença,...

e agora sair,
reforçar a inveja que
tenho de que,
como tu,
saber que os outros não valem
nada,
é feérico,
anotado até no barro
dos minutos que já se perderam

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Mitologias

Frutificar noções,
O que se chamava disto,
Daquilo,
De tantos assuntos mal resolvidos,
Questões inconsequentes que estragavam relações,
A tudo chamava Afrodite,
Deus após Deus de todas
As mitologias,
Até acertar com a reencarnação certa da luz do meio do dia,...

E ao acontecer,
Vinha para o meio das coxas de onde tinha saído,
E era a mesma noite de novo,
Chão fraco para tamanho apetite de morte 


domingo, 20 de setembro de 2020

Question mark

Tantas perguntas,
Tantas unhas com perguntas dentro,
Cortadas rente,
Indagando pelo mar,
E as pessoas que gravitam em redor do sujo das manhãs,...

Disponível para a fração de uma lenta memória,
Sem parar de questionar a importância de uma inspiração fora de tempo,
De querer criar sem a lonjura necessária,... 

Tanta pergunta, 
e o poeta sem languidez
 para mais sexo aos quadrados 




quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Ao fim e ao cabo

Há quase um ribeiro,
Pé ante pé onde antes não me escondi,
Quando quase acabei,...

Ressurgi para que me visses insuficiente,
E de nós todos sobrasse só o que foi abraçado,
Anuência impura de tanto respirar,
Das frases ofegantes que nos levassem ao fim,
Porque,
Insisto,...

Não é aqui que temos de espelhar a redonda visão da morte,
Talvez onde a noite nos levar,
Não aqui 


terça-feira, 15 de setembro de 2020

Dúvidas no chegar

Ele está a chegar,
Não gosto do que possa vir a dizer sobre a adorável ruminancia dos dias,
Acho-o trivial,
Inodoro até quando se confronta com as pessoas,
Eu que prezo o cheiro quando Anoto as fraquezas dos meus semelhantes,...

Se realmente chegar,
Tenho pensado recitar-lhe tabuchi,
Afirmar como Pereira que a reencarnação da carne é possível,
Basta só respeitarmos o próximo,
E isso eu sei que ele não fará nunca 


segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Hesitações


Insistia em querer dizer que estava tudo bem,
E podia vir a estar ainda melhor, 
E agora, 
Socorria-se das colunas de névoa que a envolviam quando era obrigada a,
Dançar com o frio insinuante das manhãs de Inverno daquelas bandas, 
Para adorar as coisas sem nome que as pessoas lhe atiravam aos pés,
Quando fosse a maior rainha de jasmim que aquela terra alguma vez tinha visto,... 

Tímida, 
Olhava com um calor por explicar os olhos das pessoas, 
Tentando falar sem voz, 
Com as palavras recolhidas nos nós gretados dos dedos gelados, 
E queria dizer a todos como pesava a  vontade de fazer coisas, 
De alumiar com a alegria desmedida apenas um céu que nunca passava daquele cinzento gretado, 
Mas que ela queria todo refletido de histórias felizes,
De enternecer,... 

Noa sítios onde chegava a cada dia, 
A realidade voltaria a ser pesada, 
Anónima até com laivos de remoinho de amargura, 
Mas não iria fazer mal, 
Tudo cheirava bem o possível,
E amanhã tudo poderia recomeçar com novas cores 


domingo, 13 de setembro de 2020

Duas mulheres


são duas mulheres, 
Anónimas, 
não me resta a procissão em que se complementaram, 
anuindo a indecisões, 
Leituras soft-core que formatam as inseguranças,... 

são duas mulheres que palmilham sem sentido, questionam com odores de carmim, 
misturado com a esterilidade, não se legitimam, 
nem com franquia se disponibilizam a orar,... 

são duas mulheres, 
perante o homem que já fui,
 e anuncio ter deixado de ser

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Round table

Vai onde te possa ser útil a precisão,
O traço de cada caminho tirado sem tremuras,
Com cheiro de camomilas, acabadas de esmagar com a raiva de dias de chuva,...

Vemo-nos azulados, 
A perceber que o mundo se arredonda só as vezes, 
Quando não nos queremos perder, 
Fazendo o lustro impossível das poesias inconsequentes,... 

Não sei explicar mais os erros lúcidos, 
Sem fazer sentido, 
E com a inusitada anulação do amor guardada no bolso



segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Respirar como rotina

Fechei as janelas dos meus olhos,
Adoção certa de medo,
Com isto o dia repetia-se sempre que eu desejava,
E a noite indiferente ao preciosismo do respirar,
Encastrava-se na escrita pobre de qualquer rotina,...

Com tudo não havia poema certo para a brisa que me engravidava a solidão,
E deixava de fora os restos da narrativa pobre do ódio


terça-feira, 10 de julho de 2018

Precisar

as frases curtas de uma indecisão,
tinha-as pintadas sem cor na pele,
e todos os momentos do querer morriam,
sempre com a percepção de fechar os olhos ao amanhã



sábado, 21 de outubro de 2017

Salsugem (Al Berto), ou como se escreve bem para xuxu!!!

queria ser marinheiro correr mundo
com as mãos abertas ao rumo das aves costeiras
a boca magoando-se na visão das viagens
levaria na bagagem a sonolenta canção dos ventos
e a infindável espera do país assustado pelas águas

debruçou-se para o outro lado do espelho
onde o corpo se torna aéreo até aos ossos
a noite devolveu-lhe outro corpo vogando
ao abandono dum secreto regresso... depois
guardou a paixão de longínquos dias no saco de lona
e do fundo nostálgico do espelho
surgiram os súbitos olhos do mar

cresceram-lhe búzios nas pálpebras algas finas
moviam-se medusas luminosas ao alcance da fala
e o peito era o extenso areal
onde as lendas e as crónicas tinham esquecido
enigmáticos esqueletos insectos e preciosos metais

um fio de sémen atava o coração devassado pela salsugem
o corpo separava-se da milenar sombra
imobilizava-se no sono antigo da terra
descia ao esquecimento de tudo... navegava
no rumor das águas oxidadas agarrava-se à raiz das espadas
ia de mastro em mastro perscrutando a insónia
abrindo ácidos lumes pelo rosto incerto dalgum mar

terça-feira, 11 de julho de 2017

Feito todos os tempos que conheço...

Enfrento a frase insubstituível dos dias de chuva,
Fazer o mesmo dizendo que o resto são segundos vazios, 
Primeiro eu subtraído de todos os eus desconhecidos, 
Depois a parte descolorida de muitos todos vós,
E depois a parte menos incerta de respirar, 
Suspiro,
Suspiros,
...o tempo a caminhar sozinho como sempre quis ser..


quarta-feira, 20 de maio de 2009

Fado do que tempo que corre

à senhora mais menina da esquina
menos feminina deste mundo que já foi homem,
tornaste são o suspiro entre
o meio do genitivo composto de fim de semana,
tardam meios de te ter,
fábulas para esquecer,
resguardos improvisados e desnortes com sal de morte,
ao final de um dia destes,
parecido com o de anteontem,
e ansioso pelo que vem,
resguardado do pó dos segundos que,
juntos,
fazem muros de horas,
lamento-me de que embora,
tenha assim o minuto perdido,
de ao dizer a mim mesmo,
que sou preciso para terminar o conjunto,
de dois dedos de rima com um de impoluto
desejo.....

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Religioso é o querer


Tenta de vez,
quando presos
libertos de cima da fome
de carne podre com que
dormes,
somos nós,
os que de indefinidos
temos tudo menos o
abstracto de te querer mais
que às cortinas do conhecimento,....

Acordada em desconexas formas
escondidas em mãos de oração,
fechas-te em casulo,
orada a reconversão dos desprezíveis,
solta estás de palmares
dos exércitos recitados
que,
subjugada,
deixaste na névoa que
te envolve....

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Rosa e quem a vê


Ontem à noite houve amor, a julgar pelo sorriso transversal. Uma boca assim diametralmente oposta ao pescoço, esforçando-se por assegurar os primeiros raios de uma madrugada preguiçosa. Se calhar é Rosa, porque Margarida é branca.
Sem sal.
Incongruências que não há, quando se observa de perfil.
Salta à vista um golpe.
Não, dois.
Com certeza três.
Estão na coxa translúcidamente morena, pouco acima da rótula.
Rosa é recatada, da porta para fora. Mal o último fio de cabelo cor de noz se escapa à prensa da porta do apartamento, muda. E muda porque sim. Simplesmente, porque o mundo não tem nada a ver com um universo de petulâncias auto-impostas. E Rosa gosta.
E Rosa delirou na noite passada. A tranquilidade da auto-confiança, ajudou a que caísse peixe na rede. Foi trazido para casa, dissecado toscamente.Abusado, mas não violado. Rosa gosta do vento que lhe afaga a boca quando tem na mão o coração de um homem. Por isso deixa a janela do quarto aberta. O ângulo é o suficiente para o néscio olho do mundo ver tudo o que se passa. E depois comentar.A manhã rompeu, não particularmente.
Observatório de emoções, não contundentes.
E quem escreve sobre o que vê, assume que adora o que descreve. Mede a profundidade dos supra-citados golpes de paixão. Admira curvas que não são dizíveis na retórica de um criador.Participa, quanto muito, na acção. Na côncava descrição de factos. Não opina sobre eles. Relata-os, esperando que eles se desfaçam na bruma da aceitação de quem lê.
Rosa é por muitos, aquilo que nunca foi por ninguém. Espera pelo mundo, quando ele já há muito que não espera por ela. Nota-se isso, quando deixa cair um toque sensível nas costas de quantos estranhos lhe passam por casa. Afaga-os, dilata-os, diminui esperanças. E hoje saiu de casa com uma vida invisível pela mão. Um, dois, três golpes para trancar o seu mundo, e dois passos para entrar no outro. Aquele que despreza, e dava tudo para exterminar.
Segura a bolsa dos desejos reprimidos, enquanto passa olhos de amendoa pelas primeiras da manhã. Rosa queria que o mundo estivesse sempre de pijama. Que fizesse amor com ele numa perspectiva de desvario cósmico, talvez porque o homem é um eterno apaixonado pelo contínuo da criação. E a mulher imita, porque sempre imitou tudo, para fazer melhor que o homem.
A história acaba, porque tem de acabar. Quem descreve, não é omnipresente. Quem é descrito, não pode perceber que é dissecado.
E Rosa vai voltar logo à noite.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

God save the queen


Brincava com um ser vivo magnetizado, que boiava na última canja que degustei antes de me tornar asceta. Em voo rasante, um insecto amorfo percorreu metade da minha auto-estrada de pensamentos. À portagem do atrevimento, morreu esmagado pela polícia dos maus costumes.
Terminei a refeição sem sequer perceber a maldade de um mundo que amputa a cromatografia ao menino menos prepotente da existência. Levantei-me, cirurgicamente removi a tampa do caixote do lixo, e entreti-me a assistir à decomposição de escarros. Fluências do divino que me envenenaram.
Talvez morto, provavelmente à espera de lugar na fila para a redenção nobiliárquica. Inspirei, expirei, voltei a inspirar, e soltei um traque. Soube-me bem.

Pronto para mais divagações subliminares em dias de chuva?