17.4.18

Mãos

Onde estavas naquela tarde? Procurei-te no jardim das árvores que choram, o sítio que sabia ser o teu preferido para te lamentares da vida. Não te encontrei. Olhei em redor. O entardecer estava como sempre gostaste. Fresco, e com nuvens que passavam na cinematografia do céu como atores em fim de esplendor.
Fiquei sem saber o que pensar, nem onde tentar procurar-te mais. Senti uma quentura estranha no peito, quase como se me dissessem que iria ficar a viver com um estranho tipo de solidão.
Sentei-me por momentos. Arrefeci na minha desorientação, e o único refúgio que encontrei foi olhar para as minhas mãos. Estavam sem luvas, e quase que se desenhavam a si próprias com traços irregulares que surgiam, descontrolados. Perdi ação por causa do frio, e senti-as paralisar. Lembrei-me da admiração que sempre tiveste por elas. Chamavas-me pianista da tua alma.
E se te perder, para que é que elas passarão a servir?


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