domingo, dezembro 30, 2007

Do cotão à meia de leite (em Portugal)

O ser Portugal, a inegável atracção pela essência do umbigo, tem dado origem a um rasto incomensurável de cotão. As alterações genéticas são já evidentes, mas não para todos.Permanecem fechados na redoma do imobilismo, os que preferem ignorar que o Zé, marido da Maria, pai do Bernardo e da Matilde, e cliente do pacote de crédito anunciado ao virar da mais comum das esquinas, já anda de pescoço a 90 graus.
Reflexo das trinta e três vias sacras percorridas desde o renascimento de um projecto falhado pela essência criadora?Acredito piamente que sim. Por isso serei um vendido ao derrotismo? Talvez. Mas não será um caminho inerente a quem bebe do saudosismo, a verve que precisa para simplesmente acordar no dia seguinte? Quando nos sentimos um ingrediente de um preparado culinário que refoga há séculos, sem que ninguém se tenha ainda preocupado em ver se levantou fervura, não há muita hipóteses de fuga.
Por isso olhamos para baixo. Analisamos a idiossincracia de um umbigo que já pede descanso de constantes miradas. Analisamo-lo, botamos esforço na comparação do mesmo com quem nos quer mal, com quem vive no degredo da má falança. A insatisfação é conclusão única e, por isso, debruçamo-nos ainda mais. As vértebras do pescoço pedem tréguas, mas nem assim pára a tarefa sempre inacabada de um onanismo que nos é imposto.Evoluímos, sem que a dúvida faça desta convicção uma verdade a contestar.
O pai de família de há décadas, é um extraterrestre no país das epopeias do 1.º esquerdo. Dos Lusíadas do rés-do-chão frente do condomínio de luxo do Parque das Nações, comprado quando ainda não era mais que um projecto em cima da secretária do arquitecto.O chefe da plebe que caminhava de botas cardadas, para uma jorna de trabalho de 12 horas, transformou-se hoje no homem das meias de leite e da meia torrada. O pai de família que não se deixava vencer pela fome para que a plêiade de meninos e meninas que lhe enchiam a mesa pudessem comer mais uma batata, prefere dar uns trocos por noite para que a prole se vá divertir aos antros de devassidão.
O exemplo acabou o seu reinado como património nacional. A frugalidade reina, no seio de um rebanho que insiste em dar provas de uma única prova de senso do colectivo. Mirar o umbigo, lavar o umbigo, vangloriar o umbigo, e ‘catar’ o cotão. Como a verdade é sempre uma pescadinha de rabo na boca (quem o garantia eram os defensores do exemplo), lá volta a dissertação ao exacto sítio onde começou.Cheira mal! O odor é fétido a cotão...Numa terra seca, onde fincam pé os velhos do Restelo que são caso sério de longevidade graças a cocktails massivos de saudosismo bacoco, nada crescerá.
Que as sugestões de escritores laureados, cansados de décadas de ginástica ‘pescoçal’, comecem a entrar na corrente sanguínea do rebanho do cotão. Quando já nada nos vale, a não ser a voracidade de impulsos revivalistas, ao menos que a gasolina possa finalmente ser mais barata, o IVA baixe, e o dinheirinho sobre quando chega o fim do mês.

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