quarta-feira, 12 de junho de 2019

Tempo e amor

a culpa é de quem acha que a fratura do tempo,
não se cura como um mal de amor,
cura-se,
os corações são os ponteiros da indecisão,
as bocas por beijar fazem as vezes dos choros
das mortes,
e das velhas que morrem de desnutrição
quando lhes falta o apoio de décadas,...

ao tempo não se pode pedir mais tempo
para que deixe de ser tempo,
como ao amor bastam duas vezes o silêncio
para que se perpetue só o tempo
suficiente até desaparecer,
só que o amor renasce,
e flutua pelo etéreo dos tempos,
deixando ao tempo o papel indefinido
do passar dos tempos,
até que no ser só reste o querer,
e o odor do tempo




Tirado daqui

terça-feira, 11 de junho de 2019

Choose several lifes,....much more than one


Solidão de Outono feita

 se me sabes de dia,
nas noites preencho
o teu desconhecer,
sei-me cultura
estranha do teu sorriso,
 imperador morto
 e sem descendência
dos contornos do teu corpo,
a cavalo,
percorro quilómetros
sem cor em estepes
cor de palha,
por entre o teu cabelo
 que arde no imenso
de um leito,
 que jaz como poema incompleto....

 às vezes,
 parte do que aqui
foi feito desfaz-se
em diamante,
sem que entenda
o andrajoso de estar só,
sem a liberdade
outonal de estares presente


segunda-feira, 10 de junho de 2019

Assinas a minha despedida?

a esconderes-te das palavras,
nunca como hoje a face do medo
te tinha assim assoberbado,
frases e frases de silêncio,
sempre com os mesmos argumentos surdos,....

e agora,
percebendo a irrelevância,
assinas a minha despedida?

domingo, 9 de junho de 2019

Prioridades

As suas prioridades nunca estiveram bem definidas. Tanto podia ser o bolo de iogurte, que saía sempre bem feito, queimado nas pontas como os meninos gostavam. Como os três quilos de arroz que, simetricamente guardados na terceira porta dos armários da cozinha, tinham de dar para várias semanas, quase como se a Rainha Santa Isabel não fosse mais do que aquela insegura dona de casa. Eram prioridades comesinhas, é certo, mas as possíveis. As únicas que tinha apreendido na vida. Lembrava-se de ser menina, à porta da cozinha da casa da avó, e ver aquela senhora que envelhecia a olhos vistos a andar, sofregamente mais devagar, mas incapaz de deixar de parar de satisfazer os gostos que não eram os seus. Regendo-se por um tempo que era sempre igual, e que parecia tirar-lhe tempo de cima, da mesma maneira como se podam as árvores.
Aprendeu, por isso, a priorizar as prioridades. Mas era uma tarefa inglória. Um dia percebeu que talvez, se se atrevesse a viver, as coisas começariam a mudar. Comprou um livro de auto-ajuda, que ainda se esforça por perceber.


sábado, 8 de junho de 2019

Tròpego

um é o que esperas,
o outro já passou sem que repares,
ao mesmo tempo que te desligaste do tempo,
eu passei em frente aonde julgas morar,
vestido de nada,
e com sapatos de tudo atacoados e mal feitos,...

reparaste na sombra e em mim só restava
o fugidio dos momentos,
parei para um naco de ar,
e ao seguir esvaziado fui
para onde me querias inteiro,
e longe para que o esquecer
fosse real


sexta-feira, 7 de junho de 2019

Sem título (65)

nem sempre é ao sol,
só com a frase simples de
um encanto,
que as coisas se
lamentam menos
que o impossível,...

digo isto comprado
de tudo o mais
que não a sombra 

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Escrita automática sem fim

e eu pensei que não havia Norte
no que dizia,
com as reticências postas sempre
a meio dos lamentos de estar só,
e nunca poderiam ser mais que
algumas, as vezes em que a poesia
deixava de estar escrita desta forma,
e tudo não sobrava para mais que umas
odes sem fim, com princípio, e
que deixavam a vontade de arredondar
as letras com vulgaridade que se bebia
em copos, e se me pedissem para parar com
esta lengalenga, eu talvez já não saberia,
porque ao ar só se pergunta a idade, e quando
os tempos vão acabar


quarta-feira, 5 de junho de 2019

Deprimindo a forma

aquela coisa revertida em dúvida,
a saída de casa, e o palmilhar errático
pelo meio da chuva,
arriscando o risco de afastar a vida,
e aproximar a bolina da existência sem rumo,...

chegar a um abrigo,
sacudir qualquer coisa sem forma
sem cheiro,
suspirar duas vezes enquanto ao lado,
pares e pares e pares de olhos sem
dono censuram-nos a dor,
medem-nos o próximo,
afastam o longe,....

seguindo com força imediata ao choro,
até que já ali,
onde nada cabe na ausência do querer,
tudo volta ao início,...

não sabendo descrever melhor o vazio,
escreve-se assim a
cabeça sem forma



terça-feira, 4 de junho de 2019

Exegese

corpo,
lembras-te do sol?,
da frase impossível
sem duas letras,
 as mesmas do adeus,...

 eu esqueci-me, e passo a passo,
chamo-me hoje sombra sem corpo

segunda-feira, 3 de junho de 2019

O português, como figura incorpórea mas universal, fica mais pobre

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O perigo

narrando as coisas possíveis,
o sangue oculto nas frases perdidas,
pelo menos as que escolheste nunca acabar,
e o perigo,
ao menos que fosse o perigo de as pessoas deixarem
de nos considerar iguais,
apenas porque passávamos os intervalos do tempo
debitando versos incompreensíveis,...

e que opte agora pelo mais fácil,
mas não sei se posso


domingo, 2 de junho de 2019

24 anos... Tanto tempo:-(

Tenho idade para...

tenho idade para saber que as
linhas do meu sorriso são tortas,
e as montanhas das minhas mãos não
são montanhas,
quanto muito serão refegos estranhos do
corpo de uma criança mimada,
que se alimenta dos dias de ternura
que são para si uma droga,
e lhe enchem a barriga, e as pernas,
fazendo delas o que são as minhas mãos,
disformes,
sem analisar o presente mas consciente
de que o futuro são dois copos de água
meio-cheios,
porque a ansiedade mata sempre tudo,...

e as mãos têm de continuar inocentes,
assim mo diz a minha idade,
e na minha idade também me sento às vezes,
em esporádicos finais de tarde,
com o vento a querer fazer-me companhia
quando o que quero é a solidão,
e não continuar a forma irrefletida das
coisas em que minto,
transformando-as em verdade sem peso,
e sem rasto,....

já terei idade para perceber que me resta
a luz a infiltrar-se pela minha carne adentro,
e esperar qualquer coisa sem tempo assim,...

a não ser que chova


sábado, 1 de junho de 2019

Prisma de saudade

tal e qual,
sem saber dizer,
nem escrever coerente,
acho que poderias ser mais direta,
e este caminho indescritível ser
pintado a pó de sonhos,...

talvez nada faça sentido,
talvez já seja tarde para te descrever de uma forma
sem nexo,
apenas ao ritmo de pulsos cansados,
com um copo cheio de ar ao lado,
e chuva lá fora que massacra a pus do
tempo nas ruas,...

não me fiz analista do momento do nada,
à espera que te desmaterializasses sem sentido,...

não me peças mais lados irregulares
de um prisma de saudade,
não serei capaz sequer de um suspiro