terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Sombra sem nome e idade

Lisbon, 2012.
© Sónia Silva
http://ocorpoestremecedesaudade.tumblr.com/

eles sublinhavam as letras todas sem cores,
no transparente dos que se mandavam
para os ratos dos pais,
e a putridez dos sexos das mães,...

encontrei tal desgosto num livro
de folhas ratadas,
que boiava num esgoto,
em dia que copiosamente
se desfazia em chuva para o fim,...

o teu amor,
assim,
parecia vegetal,
sem que o conseguisse ouvir
sabendo que o mundo,
nem espaço tem para arrumar
o razoável,...

descontinuando assim as pessoas,
deixando-as à beira de si mesmas,
sem espaço para
voltar à luz do dia,...

assinado:
sombra sem nome e idade

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Ti

e é de ti que eu gosto,
das desnecessárias 
revelações de ti,
de ti indefesa,
comigo sobre ti,
com duas respirações 
unidas num átomo,...

nem saberia de mim se de ti
não tivesse do que já me ri,
porque em ti choro 
menos do que quando suspiro,
e se de ti eu escrever o 
suficiente para 
amar tudo o mais
que ontem o fiz,
a ti volto porque sim,
e porque tem de ser


domingo, 9 de dezembro de 2018

As portas da percepção

se couber dentro das 
portas da minha 
percepção,
as manhãs 
vão abrir-se até a 
boca rebentar 
pelas costuras,
e de não sei 
quê que as velhas 
ficarem a dizer,
nascer um 
novo tempo,
as mesmas somas 
de olhares para 
dentro do vazio,...

por isso pai,
eu quero matar-me,
não de deixar os miolos 
espalhados por onde os vejas,
mas para cuspir 
novas coisas pelas paredes, 
saber filosofar até 
onde o meu respirar permitir,...

e quando vierem 
as contas de ar para pagar,
eu já estarei numa 
dimensão diferente,
como o teu mijo 
que todas as noites 
parece querer ganhar vida 



sábado, 8 de dezembro de 2018

Desalmadamente

desalmadamente,
escrevia-te assim porque 
desaprendia,
a cada segundo,
a filosofia inocente 
que me ensinaste 
em todos os momentos,
em todos os 
segundos de só estares ali,
afundada na minha 
espera pela morte da 
comiseração,
pelos horrores indescritíveis 
de não ter nada para dizer 
à música do tempo,...

aprendi-te para te conservar,
como agora te digo,
desalmadamente,
com as reservas postas 
na bolsa de fora do ter 
que dizer,
do falar por falar,
e até de achar que,
sem qualquer suporte 
sociológico,
poderemos aspirar a 
andar por cá mais 
do que alguém,
em algum sítio,
tem escrito num 
papelinho para a nossa vida,...

desalmadamente,
anda agora arredondar-te 
comigo,
sabes o meu sonho?,
explodir um dia e 
desintegrar-me mais rápido que a velocidade do som,
para ir passar o fim de tarde onde as 
tardes consigam resistir melhor à 
loucura homicida dos dias 

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

A importância da cor das flores

Percebia-se pela cor das flores que se adivinhava uma mudança de estação, e com ela as pessoas passariam a ficar mais incompreensíveis, e incompreendidas. As rosas ganhavam um encarnado menos vivo, tísico quase, a mesma cor com que me lembrava dos tuberculosos no asilo que ficava mesmo ao lado de minha casa, e fechou um dia que a polícia percebeu que o diretor tirava a candura as crianças, familiares dos doentes, a troco de pirulitos e moedas de um tostão para silenciar a sinceridade da meninice. Os cravos terminavam o dia brancos. Os malmequeres também. E não me lembro de mais nenhuma flor, porque aprendi a detestá-las, já que me lembravam de tanta coisa junta que prefiro nem enumerar.
Mas era matemático perceber o passar do tempo assim. Aí uma semana depois de se começar a notar o sofrimento dos elementos da natureza, desatavam-se as nuvens nas primeiras chuvas. As ruas pareciam o lago do jardim da cidade, e o lago do jardim da cidade ganhava uma capa multicolor de folhas das árvores, derrotadas das lutas com os ventos crescentes de norte, que normalmente dava lugar a uma mortandade de carpas e outros peixes angustiados pela perda das conversas diárias com o sol que o tempo mais quente trazia.
Eu gostava de me ver a mim mesmo como o doutor mais instruído do bairro nestas coisas. Não havia ninguém que eu conhecesse capaz sequer de perceber todas estas vicissitudes que o tempo traz à natureza. Uns não ligavam. Outros detestavam tudo o que era belo, pois só esperavam a morte e a possibilidade, hipotética, de ver tudo isto a partir do lado de dentro. E outros ainda que pensavam perceber tudo, e não percebiam rigorosamente nada .



 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Cansaço de escrita improdutiva

cansado de escrever,
cansado de descrever à porta
da transversalidade dos dias,
à espera de um não que se
pinte à laia de argumento,
enquanto encostado à brisa
da rejeição,
sou um dos que se acomoda nem
que seja para velho,
para desfazer as novidades enraivecidas
das deceções que nunca soubemos lamentar,...

cansado mesmo de escrever,
contigo ao longe a afastares-me,
enquanto te desfazes no ácido inclusivo
das manhãs indecisas,....

não prevejo mais nada de bom
neste resvalo para o fim


quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Velho de cor neutra

....um velho de cor neutra,
com a pele encrespada e o cabelo
amarelecido do vento nicotinado,
a sombra da companheira de todas
as horas que,
ao desenbainhar da manhã,
um dia,
expirou o sentido adeus e
abriu as portas da solidão,...

o som ronfenho do fado que o tempo
gasta,
dança com o vento que hipnotiza uma
casa de onde a felicidade se esgueirou,
e ficaram as sombras,
retesadas nos estendais da roupa,
no branco da cama por fazer,...

lá fora o sol uiva o chamamento
pela morte,
e um velho de cor neutra,
encostado ao perfil
de cobre dos dias,
que custam a passar


terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Travis 'Fuckin' Bickle

Poema de quem se esforça por evoluir na escrita

...queria desprender-me daqueles poemas que
nem cheiro deitam,
e depois passar a arrastar-me pelas paragens
de transportes,
com um ar de pessoa doente,
irracional,
que observa as rotinas dos outros.
quase como se masturbasse
 com as mãos nos bolsos,...

no dia em que o tentei
saiu-me um escrito sem
sentido,
com letras díspares,
e com interpretações semelhantes
ao sânscrito,
ou seja sem utilidade,...

tentei obter uma reação
de um frustrado,
e ele,
no alto da sua completa
ausência de expetativa de vida,
respondeu-me que gostava,...

mas que preferia continuar a cozinhar
a comiseração,
em lume brando


segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

O amor cheira mal

porque o amor cheira mal,
todas as coisas fazem parte
do húmus de nada,
e o amor continua a cheirar mal,...

disse-to,
e riste-te quase
como se ambos
estivéssemos
a terminar uma vida bem preenchida,
e eu insisti,
o amor não consegue
virar uma esquina,
espirra só coisas sem cor,
e que infetam as pessoas
de bem deixando-as fracas,
inconsequentes,....

ou seja, o amor cheira mal,
retorquiste com silêncio,
 e começaste a desenhar
círculos no meu palato,
com uma arrepiante
 unha de réptil
retocada pela brisa sufocante
de fim de tarde,
que me entrava pelas vias respiratórias,...

refletido no horizonte,
o teu sorriso contrariava-me,
garantindo que se calhar
o amor não tem cheiro,...

só milhentas formas de adeus









Tirado daqui

domingo, 2 de dezembro de 2018

Só para cumprir a promessa de escrever, escrever sempre (segunda de dezembro)

Chamo-me José Manuel da Silva Hilário, tenho 48 anos, e vivo no topo desta ruela, encravada no bairro de Alfama, desde que me lembro. Nunca levei uma vacina na vida, porque nunca quiseram isso para mim. Também nunca casei , nunca fui å tropa, e não conheço mais ninguém que goste tanto de usar lenços nos bolsos da lapela como eu. Costumo prendê-los com dois alfinetes de ama ferrugentos, um de cada lado. Tenho a mania de que se não o fizer, como moro num alto onde o vento gosta sempre de lutar com as pessoas, ficaria sem eles.
Gosto, em geral, de mim. Acordo sempre com a boa disposição possível. Ajuda deixar sempre o estore por fechar totalmente, e as três filas de orifícios que ficam abertas, são as suficientes para o sol conversar comigo ainda antes de eu acordar. Acho que tenho essa virtude, conseguir comunicar durante o sono. Ouço os pombos que pousam no beiral da minha janela sempre à mesma hora, e sou capaz de jurar que eles já me disseram que eu devia ter vergonha da minha vida ensombrada. Nunca lhes respondi. Não é que pense que ganharia alguma coisa com isso. Mas sinto que não devo. Eles nunca me iriam responder com algo percetível, capaz de mudar a minha vida. Acho que a minha vida não precisa de ser mudada. Acordo sempre da mesma forma. A olhar para uma fotografia de uma paisagem idilica, com cavalos a correrem por um pasto verde, e o sol a pôr-se em fundo. Depois sento-me na cama. Rezo uma algarviada que sei desde miudo, e levanto-me. 
P.s.: foi uma figura sempre abjeta para mim, mas george bush pai que morreu hoje entra neste video

sábado, 1 de dezembro de 2018

Era uma vez todas as vezes

era uma vez, 
gostar tanto de dizer isto 
dói a valer como 
se as rugas,
os engilhamentos 
cá de dentro,
se desfizessem 
à medida que 
vivessemos por entre 
as ruas que os raios de sol 
fazem,
e depois congelamos 
nós porque nem sequer as 
entendemos,...

coitados de nós,
os que assim pesam 
mais que eles mesmos 
sem ossos,
sem espinha,
com o coração redigido
 à mão em letra do 
tempo do Gutenberg,...

era uma vez,
acredito numa 
sociedade com 
aquele poucochinho 
de exploração,
só a mesma desonrada 
sensação de egoísmo 
que nem faz parte do 
mesmo querer,...

termino assim,
com dentes na 
menina triste que 
chora em todas as 
histórias