domingo, 26 de agosto de 2018

Medo de um sonhador

a querer cidades,
frases soltas de um rio,
o da aldeia escrito no menor resoluto fim de um discurso,
era o sonhador a quem temiamos,
deixar de ter medo parecia agora fácil com o vento assim agrilhoado,...

estava vestido com nuvens até aos pés,
e na cabeça era com os cabelos cor de douro que cobria as ideias,
as mesmas que perdia pelo chão a cada passo conciliador,...

decidiu chamar sonhador aos restos facilitados de mar que lhe sobraram,
sem nunca entender o medo dos conformados pelo que difundia


sábado, 25 de agosto de 2018

Breve estória do fim dos tempos

diziam qualquer coisa à sorte sobre o fim daquele Verão,
foi o mesmo onde as mulheres sentiram os ovários a congelar,
e perceberam que a vida iria começar a acabar gradualmente,
e ser substituída por nascentes de água a brotar em forma de árvores,...

explicavam do acaso o possível em lamentos,
com os velhos a pensar que tinham trazido a si o fim dos tempos,
só por enlearem na lua os fios de ouro que guardavam como alumiar de madrugada,...

com a porta do tempo a reter o passar do inverno,
o frio aconchegou o inevitável,
se tudo o que alguma vez tinha sido explodiu no céu,
o que estava para deixar de ser ia minguar a dor até desaparecer


sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Mudança gradual de costumes

...aos poucos acabavam-se as meias verdades,
de mansinho ficava o ar quente entre as coisas,
ressarcido do pranto,
das velhas hesitações da noite quando indeterminada,...

pareciam sempre por resolver os problemas das famílias sem olhos,
que deixavam por pintar os espaços entre o que fica por dizer,
acabando a amanhecerem-se sem sede,
e com música de silêncio para contar,...

eram novos tempos em que a viuvez dos pecados,
usava roupa branca para complementar a dor,
e deixar a morte nas portas entreabertas da solidão


quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Escrever sempre tambem pare coisas medíocres

se é tão pouca assim a desilusão,
o mundo não deveria doer quando os dias
nascem sem a cor da esperança,...

só mais uma ideia opaca para
 expressar desagravamento pelo
caminho para o fim 

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

A inutilidade da volúpia

ninguém quer a volúpia só para metáfora,
a frase enche-se,
o tesão explica-se com acasos,
e o amor perde-se no banco de trás de um autocarro não sei para onde,...

a volúpia,
ao que me dizem,
provavelmente é qualquer coisa que se compra com lenços perfumados,
e depois usa-se para tirar nódoas de sangue seco e enseminado


terça-feira, 21 de agosto de 2018

A boa ventura do pessimismo

anda cá mas só se souberes fazer mal,
inexpressivos cabrões os que dormem virados para o céu,
quase como se o mundo fosse plano de tão bem resolvido para os anjos que trilham os sons da nudez,...

farto da coisa seca dos que só andam a distribuir palmadinhas nas costas,
e a entrar nas tabernas secas de primor,
com a boa nova de que as pessoas só ganharão se um dia o mundo for todo pintado de azul,...

para os rendidos uma estrela, 
força aos que mostram choro nas asas canoras da felicidade que cheira mal,...

e ao léu o desígnio de ter pena da pena como profissão reconhecida,

ajustem-se a isto porque o mau é todas as esquinas em que batem com os cornos de manhã 

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Poema aos mortos-vivos

não gosto do jeito de fazer poesia destas segundas-feiras,
a falta de mulheres tranquilas,
seguras de que o tempo se lhes molda às pernas,
e não haver filhos sem versos nos olhos,
irrita-me,...

proponho poesias sem dias definidos,
a detestar os poetas,
acusando-os de um belicismo de todas as cores,
e que insulte as pessoas para depois as ressuscitar,...

perceberam?
mortos-vivos


domingo, 19 de agosto de 2018

Sem título (89)

eu não gostava que pusessem
balizas na minha existência,
servia-me do tempo como
os desclassificados de bairro
usam as meninas inocentes,
sem travão nem metáforas daquelas
 que vulgarizam os poemas,...

por isso,
os caminhos sem escapatória
não me diziam muito,
só o suficiente para acordar
 a cada manhã com os
olhos secos de choro,
aliás,
nunca acreditei no choro,
nem nas estrelas como
justificação para caminhos transparentes



sábado, 18 de agosto de 2018

Antever

...e era dizendo o restante dos murmúrios de morte,
que estava escrito naquela rua onde nunca tinha passado,
o som mudo dos ribeiros,...

...obrigado repetido por entre pedra solta nas bocas dos operários,
dizendo a fome na boca dos filhos que,
se quisessem ter,
abraçariam para depois abdicar na roupa rota e andrajosa da miséria


sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Fazer o tempo menos que o lugar

Quis dizer-te algo belo, mas ao mesmo tempo que não deixasse marca debaixo da pele. Tentei comparar-te à chuva. Dizendo que te achava o mesmo que a vaporização irregular da respiração naquele momento em que acaba de chover, e o céu se esmaga num cinzento dedicado ao tempo, e que sabe que vai morrer na certeza do sol. Não me ligaste. Fazias qualquer coisa em renda, encostada ao muro de todos os dias, e que do lado de lá guardava o teu mundo de cristal onde ninguém estava autorizado a entrar, sob pena de ruína total de um equilíbrio instável.
As frases pareciam escassear, porque para mim sempre tinhas sido a linguagem. O verbo desfiado em gomos de substantivos, para que só me restassem os sintagmas não verbais quando te quisesse aconchegar em qualquer coisa parecida com um gostar de ti.
Sobrou o entardecer que, sabendo eu te ter sido sempre indiferente, me deixava certo de que poderia tentar analisar uma linguagem corporal que te era característica. Com resquícios de uma solista num Lago dos Cisnes pintado a notas musicais sem cores, mas que mesmo assim servia para frisar o necessário de te querer ter.
Quando a noite chegar, e eu sentir que só sei pensar e escrever de uma forma monotematica sobre o evoluir da criação, deixando o resto para quem foi dotado de um pensar eficazmente aberto ao mundo, talvez me vá embora para nunca mais voltar.
Observava, entretanto, como as flores pareciam querer defender a dissertação do primado da indiferença, sobre o amor, em redor dos teus pés descalços e que lutavam por enraizar-se no cromático da Terra.


quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Arco sem triunfo

anos, tantos anos de meninas
simples,
sem saberem a
taboada ou sequer
ajeitar a cueca por
detrás dos vestidos de
 renda,
o amor de coisas inúteis
dito assim,
de chofre,...

e sem saber expressar
 ódio pelo fim de tarde
cor de merda,
que nao leva a lado
nenhum,
nem sequer à perceção
 de que o poema só serve para dizer que a solidão é melhor que tudo isto


quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Crise de meia idade


poderia este homem terminar
 hoje a vida,
que dele as pessoas sempre
esperariam qualquer
coisa da meia idade,
o conformismo no redondo dos olhos,
com os passos incertos
de não ter vida para desenhar
quando cada sol nascia,...

e ela relativizava as coisas
no refogado do arroz,
armava tudo a cada almoço
com um silêncio de melaço,
para acabar numa teoria difusa
 do sol como escape de um
sítio onde não se quer estar,
e com quem não se quer estar,...

um dia a noite entrou
pela casa dentro,
e deu duas coisas
a escolher,
desonra,
ou a capacidade de reter
 qualidades e transformá-las
em qualquer coisa parecida com felicidade,...

escolheu-se esperar pela próxima
madrugada,
o ser humano consegue o
impossível
 quando prefere desligar-se





terça-feira, 14 de agosto de 2018

Os sonhos não sabem desenhar

Diziam-me dos sonhos que eles não podiam desenhar. Só se sabiam exprimir por gestos limitados, quase como se fossem crianças a aprender a agarrar o mundo quando o mundo ainda nem sequer se apercebeu delas. E escolhi entendê-los, aos sonhos, como sempre percebi as estrelas:
como pequenos picotados que as pessoas que dormem acordadas destacam, e levam para casa para mergulhar em soluções de água com açúcar, fazendo-as florescer em filhos e filhas. Ou por outras palavras, garantes de imortalidade teórica.
Isto já aconteceu há uns anos, esta forma de ver o real. A vida passou por mim quase como se nada disto contasse para nada. Nunca o partilhei com ninguém. Tive filhos a nascer nas cozinhas que fui tendo, quase como botões de rosa que aparecem na primavera já com a educação assegurada, e morrem primeiro que nós sem que nós nos apercebamos de que eles são, na realidade, livros que nós lemos e optamos por deixar a meio para que outros, mais tarde, encontrem a maneira segura de se sentirem felizes com os finais incertos que dali surgem.
Enquanto escrevo isto sinto o meu corpo a definhar. Durmo pouco, como só o pão de todos os dias que sempre conheci. Leio nada mais que as caras das pessoas, todas as manhãs, quando propositadamente deslizo como o vento por entre tudo só para ver que nunca me enganei nas idiossincrasias empacotadas que me convenceram do fim dos tempos ainda antes que se saiba que ele vai chegar.
Mas de uma coisa continuo convencido: os sonhos não sabem desenhar. Refletir, talvez...


segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Um dia gostava de saber escrever assim

konstandinos kavafis / vozes



Vozes ideais e amadas
daqueles que morreram, e daqueles que são
para nós perdidos como os mortos.

Às vezes nos nossos sonhos falam;
às vezes no pensamento as ouve a mente.

E com o seu som por um momento regressam
sons da primeira poesia da nossa vida –
qual música, à noite, longínqua, que se apaga.



konstandinos kavafis
os poemas
adenda, 1.ª  (1897-1904)
trad. joaquim manuel magalhães e
nikos pratsinis
relógio d´água
2005

Anatomia

parecia estranho que o tecido das coisas fosse de água,
tanto que naquela noite não conheci ninguém feito de nervo,
correr de sangue,
e perspetiva de morte,...

só o equívoco da solidão num pudim de versos vulgares,
sem que dos mesmos pudesse alguma vez haver sentido,
e apenas a perfeição talhada em cruz por conta de cada vida que se tirava a um deprimido,...

sei que comi ene estrelas ao aquecer da madrugada,
sem me sentir menos que a qualquer coisa que o big bang ia deixando deste lado,
sem saber ler