quinta-feira, 13 de dezembro de 2018
Custa tentar escrever bonito...
Hoje acordaste diferente do habitual. Como se a luz te
vestisse de indiferença, e os minutos fossem passando sem que dessemos pelo
passar do tempo, nem sequer pelos espaços que a solidão deixa entre as
palavras, quando elas teimam em não surgir. Trocámos só o essencial, deixando o
imprevisto guardado a sete chaves, entre os cofres invioláveis a que as nossas
mãos dão forma, quando não sabem onde devem estar.
Perdi a vontade, subitamente, de achar que os acasos são
obra de qualquer coisa desenhada, que não conseguimos ver ou sentir. Sentado,
a ver-te desvanecer por entre a passagem entre o nosso mundo idealizado, e a
realidade desconstruída, tentei achar na minha pele mapas que me levassem de
volta a ti. Ao teu aconchego. Ao despir de alma quente que sublinhava nos teus
beijos,…
E no fim de tudo, o silêncio…
quarta-feira, 12 de dezembro de 2018
Sem título (78)
eu tenho até de tentar escrever
enquanto arranho as paredes,
porque já li isto em qualquer lado,
não aguento mais a treta habitual
da caneta na folha branca,
e os versos certinhos,
que tendem para a rima
à esquadria,...
é tudo tão chato,
que só me resta dizer que
tenho a frase certa para
esperar ao sol pelo iluminismo,...
só que me esqueci dela
enquanto arranho as paredes,
porque já li isto em qualquer lado,
não aguento mais a treta habitual
da caneta na folha branca,
e os versos certinhos,
que tendem para a rima
à esquadria,...
é tudo tão chato,
que só me resta dizer que
tenho a frase certa para
esperar ao sol pelo iluminismo,...
só que me esqueci dela
terça-feira, 11 de dezembro de 2018
Sombra sem nome e idade
![]() |
| http://ocorpoestremecedesaudade.tumblr.com/ |
eles sublinhavam as letras todas sem cores,
no transparente dos que se mandavam
para os ratos dos pais,
e a putridez dos sexos das mães,...
encontrei tal desgosto num livro
de folhas ratadas,
que boiava num esgoto,
em dia que copiosamente
se desfazia em chuva para o fim,...
o teu amor,
assim,
parecia vegetal,
sem que o conseguisse ouvir
sabendo que o mundo,
nem espaço tem para arrumar
o razoável,...
descontinuando assim as pessoas,
deixando-as à beira de si mesmas,
sem espaço para
voltar à luz do dia,...
assinado:
sombra sem nome e idade
segunda-feira, 10 de dezembro de 2018
Ti
e é de ti que eu gosto,
das desnecessárias
revelações de ti,
de ti indefesa,
comigo sobre ti,
com duas respirações
unidas num átomo,...
nem saberia de mim se de ti
não tivesse do que já me ri,
porque em ti choro
menos do que quando suspiro,
e se de ti eu escrever o
suficiente para
amar tudo o mais
que ontem o fiz,
a ti volto porque sim,
e porque tem de ser
domingo, 9 de dezembro de 2018
As portas da percepção
se couber dentro das
portas da minha
percepção,
portas da minha
percepção,
as manhãs
vão abrir-se até a
boca rebentar
pelas costuras,
e de não sei
quê que as velhas
ficarem a dizer,
nascer um
novo tempo,
as mesmas somas
de olhares para
dentro do vazio,...
por isso pai,
eu quero matar-me,
não de deixar os miolos
espalhados por onde os vejas,
mas para cuspir
novas coisas pelas paredes,
saber filosofar até
onde o meu respirar permitir,...
e quando vierem
as contas de ar para pagar,
eu já estarei numa
dimensão diferente,
como o teu mijo
que todas as noites
parece querer ganhar vida
sábado, 8 de dezembro de 2018
Desalmadamente
desalmadamente,
escrevia-te assim porque
desaprendia,
a cada segundo,
a filosofia inocente
que me ensinaste
em todos os momentos,
em todos os
segundos de só estares ali,
afundada na minha
espera pela morte da
comiseração,
pelos horrores indescritíveis
de não ter nada para dizer
à música do tempo,...
aprendi-te para te conservar,
como agora te digo,
desalmadamente,
com as reservas postas
na bolsa de fora do ter
que dizer,
do falar por falar,
e até de achar que,
sem qualquer suporte
sociológico,
poderemos aspirar a
andar por cá mais
do que alguém,
em algum sítio,
tem escrito num
papelinho para a nossa vida,...
desalmadamente,
anda agora arredondar-te
comigo,
sabes o meu sonho?,
explodir um dia e
desintegrar-me mais rápido que a velocidade do som,
para ir passar o fim de tarde onde as
tardes consigam resistir melhor à
loucura homicida dos dias
sexta-feira, 7 de dezembro de 2018
A importância da cor das flores
Percebia-se pela cor das flores que se adivinhava uma mudança de estação, e com ela as pessoas passariam a ficar mais incompreensíveis, e incompreendidas. As rosas ganhavam um encarnado menos vivo, tísico quase, a mesma cor com que me lembrava dos tuberculosos no asilo que ficava mesmo ao lado de minha casa, e fechou um dia que a polícia percebeu que o diretor tirava a candura as crianças, familiares dos doentes, a troco de pirulitos e moedas de um tostão para silenciar a sinceridade da meninice. Os cravos terminavam o dia brancos. Os malmequeres também. E não me lembro de mais nenhuma flor, porque aprendi a detestá-las, já que me lembravam de tanta coisa junta que prefiro nem enumerar.
Mas era matemático perceber o passar do tempo assim. Aí uma semana depois de se começar a notar o sofrimento dos elementos da natureza, desatavam-se as nuvens nas primeiras chuvas. As ruas pareciam o lago do jardim da cidade, e o lago do jardim da cidade ganhava uma capa multicolor de folhas das árvores, derrotadas das lutas com os ventos crescentes de norte, que normalmente dava lugar a uma mortandade de carpas e outros peixes angustiados pela perda das conversas diárias com o sol que o tempo mais quente trazia.
Eu gostava de me ver a mim mesmo como o doutor mais instruído do bairro nestas coisas. Não havia ninguém que eu conhecesse capaz sequer de perceber todas estas vicissitudes que o tempo traz à natureza. Uns não ligavam. Outros detestavam tudo o que era belo, pois só esperavam a morte e a possibilidade, hipotética, de ver tudo isto a partir do lado de dentro. E outros ainda que pensavam perceber tudo, e não percebiam rigorosamente nada .
Mas era matemático perceber o passar do tempo assim. Aí uma semana depois de se começar a notar o sofrimento dos elementos da natureza, desatavam-se as nuvens nas primeiras chuvas. As ruas pareciam o lago do jardim da cidade, e o lago do jardim da cidade ganhava uma capa multicolor de folhas das árvores, derrotadas das lutas com os ventos crescentes de norte, que normalmente dava lugar a uma mortandade de carpas e outros peixes angustiados pela perda das conversas diárias com o sol que o tempo mais quente trazia.
Eu gostava de me ver a mim mesmo como o doutor mais instruído do bairro nestas coisas. Não havia ninguém que eu conhecesse capaz sequer de perceber todas estas vicissitudes que o tempo traz à natureza. Uns não ligavam. Outros detestavam tudo o que era belo, pois só esperavam a morte e a possibilidade, hipotética, de ver tudo isto a partir do lado de dentro. E outros ainda que pensavam perceber tudo, e não percebiam rigorosamente nada .
quinta-feira, 6 de dezembro de 2018
Cansaço de escrita improdutiva
cansado de escrever,
cansado de descrever à porta
da transversalidade dos dias,
à espera de um não que se
pinte à laia de argumento,
enquanto encostado à brisa
da rejeição,
sou um dos que se acomoda nem
que seja para velho,
para desfazer as novidades enraivecidas
das deceções que nunca soubemos lamentar,...
cansado mesmo de escrever,
contigo ao longe a afastares-me,
enquanto te desfazes no ácido inclusivo
das manhãs indecisas,....
não prevejo mais nada de bom
neste resvalo para o fim
cansado de descrever à porta
da transversalidade dos dias,
à espera de um não que se
pinte à laia de argumento,
enquanto encostado à brisa
da rejeição,
sou um dos que se acomoda nem
que seja para velho,
para desfazer as novidades enraivecidas
das deceções que nunca soubemos lamentar,...
cansado mesmo de escrever,
contigo ao longe a afastares-me,
enquanto te desfazes no ácido inclusivo
das manhãs indecisas,....
não prevejo mais nada de bom
neste resvalo para o fim
quarta-feira, 5 de dezembro de 2018
Velho de cor neutra
....um velho de cor neutra,
com a pele encrespada e o cabelo
amarelecido do vento nicotinado,
a sombra da companheira de todas
as horas que,
ao desenbainhar da manhã,
um dia,
expirou o sentido adeus e
abriu as portas da solidão,...
o som ronfenho do fado que o tempo
gasta,
dança com o vento que hipnotiza uma
casa de onde a felicidade se esgueirou,
e ficaram as sombras,
retesadas nos estendais da roupa,
no branco da cama por fazer,...
lá fora o sol uiva o chamamento
pela morte,
e um velho de cor neutra,
encostado ao perfil
de cobre dos dias,
que custam a passar
com a pele encrespada e o cabelo
amarelecido do vento nicotinado,
a sombra da companheira de todas
as horas que,
ao desenbainhar da manhã,
um dia,
expirou o sentido adeus e
abriu as portas da solidão,...
o som ronfenho do fado que o tempo
gasta,
dança com o vento que hipnotiza uma
casa de onde a felicidade se esgueirou,
e ficaram as sombras,
retesadas nos estendais da roupa,
no branco da cama por fazer,...
lá fora o sol uiva o chamamento
pela morte,
e um velho de cor neutra,
encostado ao perfil
de cobre dos dias,
que custam a passar
terça-feira, 4 de dezembro de 2018
Poema de quem se esforça por evoluir na escrita
...queria desprender-me daqueles poemas que
nem cheiro deitam,
e depois passar a arrastar-me pelas paragens
de transportes,
com um ar de pessoa doente,
irracional,
que observa as rotinas dos outros.
quase como se masturbasse
com as mãos nos bolsos,...
no dia em que o tentei
saiu-me um escrito sem
sentido,
com letras díspares,
e com interpretações semelhantes
ao sânscrito,
ou seja sem utilidade,...
tentei obter uma reação
de um frustrado,
e ele,
no alto da sua completa
ausência de expetativa de vida,
respondeu-me que gostava,...
mas que preferia continuar a cozinhar
a comiseração,
em lume brando
nem cheiro deitam,
e depois passar a arrastar-me pelas paragens
de transportes,
com um ar de pessoa doente,
irracional,
que observa as rotinas dos outros.
quase como se masturbasse
com as mãos nos bolsos,...
no dia em que o tentei
saiu-me um escrito sem
sentido,
com letras díspares,
e com interpretações semelhantes
ao sânscrito,
ou seja sem utilidade,...
tentei obter uma reação
de um frustrado,
e ele,
no alto da sua completa
ausência de expetativa de vida,
respondeu-me que gostava,...
mas que preferia continuar a cozinhar
a comiseração,
em lume brando
segunda-feira, 3 de dezembro de 2018
O amor cheira mal
porque o amor cheira mal,
todas as coisas fazem parte
do húmus de nada,
e o amor continua a cheirar mal,...
disse-to,
e riste-te quase
como se ambos
estivéssemos
a terminar uma vida bem preenchida,
e eu insisti,
o amor não consegue
virar uma esquina,
espirra só coisas sem cor,
e que infetam as pessoas
de bem deixando-as fracas,
inconsequentes,....
ou seja, o amor cheira mal,
retorquiste com silêncio,
e começaste a desenhar
círculos no meu palato,
com uma arrepiante
unha de réptil
retocada pela brisa sufocante
de fim de tarde,
que me entrava pelas vias respiratórias,...
refletido no horizonte,
o teu sorriso contrariava-me,
garantindo que se calhar
o amor não tem cheiro,...
só milhentas formas de adeus






Tirado daqui
todas as coisas fazem parte
do húmus de nada,
e o amor continua a cheirar mal,...
disse-to,
e riste-te quase
como se ambos
estivéssemos
a terminar uma vida bem preenchida,
e eu insisti,
o amor não consegue
virar uma esquina,
espirra só coisas sem cor,
e que infetam as pessoas
de bem deixando-as fracas,
inconsequentes,....
ou seja, o amor cheira mal,
retorquiste com silêncio,
e começaste a desenhar
círculos no meu palato,
com uma arrepiante
unha de réptil
retocada pela brisa sufocante
de fim de tarde,
que me entrava pelas vias respiratórias,...
refletido no horizonte,
o teu sorriso contrariava-me,
garantindo que se calhar
o amor não tem cheiro,...
só milhentas formas de adeus






domingo, 2 de dezembro de 2018
Só para cumprir a promessa de escrever, escrever sempre (segunda de dezembro)
Chamo-me José Manuel da Silva Hilário, tenho 48 anos, e vivo no topo desta ruela, encravada no bairro de Alfama, desde que me lembro. Nunca levei uma vacina na vida, porque nunca quiseram isso para mim. Também nunca casei , nunca fui å tropa, e não conheço mais ninguém que goste tanto de usar lenços nos bolsos da lapela como eu. Costumo prendê-los com dois alfinetes de ama ferrugentos, um de cada lado. Tenho a mania de que se não o fizer, como moro num alto onde o vento gosta sempre de lutar com as pessoas, ficaria sem eles.
Gosto, em geral, de mim. Acordo sempre com a boa disposição possível. Ajuda deixar sempre o estore por fechar totalmente, e as três filas de orifícios que ficam abertas, são as suficientes para o sol conversar comigo ainda antes de eu acordar. Acho que tenho essa virtude, conseguir comunicar durante o sono. Ouço os pombos que pousam no beiral da minha janela sempre à mesma hora, e sou capaz de jurar que eles já me disseram que eu devia ter vergonha da minha vida ensombrada. Nunca lhes respondi. Não é que pense que ganharia alguma coisa com isso. Mas sinto que não devo. Eles nunca me iriam responder com algo percetível, capaz de mudar a minha vida. Acho que a minha vida não precisa de ser mudada. Acordo sempre da mesma forma. A olhar para uma fotografia de uma paisagem idilica, com cavalos a correrem por um pasto verde, e o sol a pôr-se em fundo. Depois sento-me na cama. Rezo uma algarviada que sei desde miudo, e levanto-me.
P.s.: foi uma figura sempre abjeta para mim, mas george bush pai que morreu hoje entra neste video
Gosto, em geral, de mim. Acordo sempre com a boa disposição possível. Ajuda deixar sempre o estore por fechar totalmente, e as três filas de orifícios que ficam abertas, são as suficientes para o sol conversar comigo ainda antes de eu acordar. Acho que tenho essa virtude, conseguir comunicar durante o sono. Ouço os pombos que pousam no beiral da minha janela sempre à mesma hora, e sou capaz de jurar que eles já me disseram que eu devia ter vergonha da minha vida ensombrada. Nunca lhes respondi. Não é que pense que ganharia alguma coisa com isso. Mas sinto que não devo. Eles nunca me iriam responder com algo percetível, capaz de mudar a minha vida. Acho que a minha vida não precisa de ser mudada. Acordo sempre da mesma forma. A olhar para uma fotografia de uma paisagem idilica, com cavalos a correrem por um pasto verde, e o sol a pôr-se em fundo. Depois sento-me na cama. Rezo uma algarviada que sei desde miudo, e levanto-me.
sábado, 1 de dezembro de 2018
Era uma vez todas as vezes
era uma vez,
gostar tanto de dizer isto
dói a valer como
se as rugas,
os engilhamentos
cá de dentro,
se desfizessem
à medida que
vivessemos por entre
as ruas que os raios de sol
fazem,
e depois congelamos
nós porque nem sequer as
entendemos,...
coitados de nós,
os que assim pesam
mais que eles mesmos
sem ossos,
sem espinha,
com o coração redigido
à mão em letra do
tempo do Gutenberg,...
era uma vez,
acredito numa
sociedade com
aquele poucochinho
de exploração,
só a mesma desonrada
sensação de egoísmo
que nem faz parte do
mesmo querer,...
termino assim,
com dentes na
menina triste que
chora em todas as
histórias
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