quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

CIDADE ASFIXIA

 


A cidade fala com uma língua desconhecida. As pessoas defendem-se de ofensas, fazem o que podem por si e por aquilo que é seu. Mas a cidade ofende. Há quem jure que a vê caminhar em sapatos de sola gasta, a espezinhar os restos de felicidade que lhe escaparam na última caminhada. E entretanto morrem pessoas na cidade, duas, três por hora. Esperam o momento certo, e simplesmente desistem de se comprometer com o ser e o ter. Inspiram ar poluido, e desenganam-se de exalar. Acontece, e a cidade nada faz. Há um horizonte enegrecido em roda da cidade. Os livros abrem-ae sozinhos, numa dança sem música com o vento que irrompe pelas janelas. E quem observa, como quem aqui escreve, sente-se vazio. Incapaz de resistir. O tempo passa, E A CIDADE ASFIXIA. O MAIS pequeno pormenor representa uma evolução celular. Que, antecipa-se, nada representará nos presentes mortais de futuro que a cidade deixa espalhados pelos seus próprios limites.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

noite da minha vontade

 


vim aqui querer,
não simplesmente pavonear
a razão,...

desprezar artigos,
incentivar a ladroagem
que leve ao silêncio,...

não,
vim aqui fazer-me
notado,
quero amainar desejos,
mexer o café sempre
para o mesmo lado,
e ver as horas,
em relógios de cuco,....

vim querer,
porque já não planeio,
não executo,
espero só
que uma nuvem assente arraiais,
e o resto seja noite,....

noite da minha vontade,
de cores apagadas

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

Homem disforme

 


As ruas,

As ruas poderão abrir-se de par em par ,

E ele,

O dos olhos sem cor e de roupa ataviada,

Virá amedrontado ,...


Comfundido com os dizeres politicos do passado ,

E chegará em silêncio,

Como expectável,...


Era e ainda é o homem disforme,

Sem nada para dizer,

E que por vezes se limita a andar por entre os intervalos do vento,

Anónimo e incompleto 

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Conversa inútil do que deixa os outros com fome

 


Não tenho segredos em mim,
o vidro desembacia-se quando falo,…

a recordar sou o mais falhado dos exequentes,
o que consegue fazer coisas,
abrir buracos sem ser engolido pela terra,…

mas depois,
depois falha sempre o átomo,
as conversas são depauperadas,
enquanto o cerne das questões fica
com fome,
é isso,
deixo os outros com fome quando
se relacionam comigo,….

e assim os segredos não vão querendo
nada comigo,
há a ponte,
e para lá da ponte estarei quando
o conseguir,….

antes disso é melhor que
me sente,
à sombra perfeita do Sol enlameado


domingo, 7 de janeiro de 2024

Janela apodrecida

 


Poderia a ilusão ter vivido mais que um gesto,

Que o desenho desabrido de rostos pelo ar,

Invisivel mas trágico,...


Poderia a questão gritada a vozes frias,

Que perderam o calor e a vontade,

Ter contado como comida,

Enquanto para nós só a água fazia de cama nos dias quentes,...


Poderia tanta coisa quando todas as certezas estavam mortas,

E era dia pelo buraco estreito da janela apodrecida do quarto

sábado, 6 de janeiro de 2024

Encontrei um auto-retrato. É só substituir o espanhol pelo português...

 Roubado daqui

Blas de Otero

 Notícias de todo o mundo



Aos quarenta e sete anos da minha idade
dá medo dizê-lo, sou só um poeta espanhol
(dão medo os anos, isto de poeta, e Espanha)
de meados do século XX. E é tudo.
Dinheiro? Carinho é o que desejo,
diz a copla. Aplausos? Sim, mas não o ensejo.
Saúde? A suficiente. Reputação?
Má. Mas cabelo sem moderação.
Dá medo pensá-lo, no entanto apenas me lêem
os analfabetos, não os trabalhadores, ou
as crianças.
Mas já me leram. Agora ando a aprender
a escrever, mudei de classe,
precisava de uma máquina de fazer versos,
perdão, de uns versos para a máquina
e, sobretudo, paz,
preciso de paz para continuar a lutar
contra o medo,
para brindar no meio da praça
e abrir o porvir de par em par,
para plantar uma árvore
no meio do mundo,
para dizer "bom dia" sem enganar ninguém,
"bom dia, carteiro", e que me entregue uma carta
em branco, de onde voe uma pomba.

Duas nações

 


Duas nações pomposa e cavalheirescamente sentaram-se à mesa,

Havia conflitos por resolver,

Dissidências avaliadas,...


Apesar de as expetativas serem poucas,

Os representantes optaram por desenhar um mundo de traçado irregular,

Com fogo visível nos extremos,

E no centro da mesa estava um livro,...


A louvar um principio de acordo,

Vários homens foram homens,

Admitiram erros,

Içaram um cálice agnóstico,

E despediram-se com gestos subtis de firmeza,

Até à próxima manifestação de insegurança do mundo

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

Poesia opulenta

 Tentei lembrar-me de uns versos que em tempos decorara,

Afloravam-se como luz em prados oniricos,

Falavam de água,

Frases de água em chão de pedra gasto,...


Versos de todas as cores,

Que usei na lapela e na pele,

Versos que foram de sexo e brotaram vivos,

Da despedida arrependida que se seguiu,...


E houve paz anotada tremulamente,

Como retorno de uma memória boa

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Amores irreais de palco

 


Mas podia ser desses amores irreais de palco,

Um desejo indefeso,

Teatral e para sempre um mito,...


Podia ser quem soletrasse o seu nome em voz baixa,

Sem pânico,

Braços distendidos e descomprometidos,

E um corpo que aceitasse a diferença,

Esboroada a relutância de uma aura de desejo,...


Podia ser o final de um ato,

E a calma vontade de fazer melhor,

Para quem assiste

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

Socializar

 Não tremia quando chegava a altura de escolher. Mentalizado estava, desde sempre, que nunca seria bafejado com um daqueles amores de cinema:

Sem medida, sem idade, só com virtudes, despido de roupas e preconceitos.

E por isso ia pelo coração. A pessoa, homem ou mulher, que lhe parecesse mais humana. O cenário era de um autêntico mercado de gado. As possibilidades estavam dispostas irregularmente pelos cantos do pavilhão de educação física. Onde as pessoas se refugiavam toscamente, de peito aberto, à espera de cumprir o designio da raça humana. Socializar. E ele procurava mesmo com o coração. Fê-lo várias vezes ao longo da juventude. E nunca de forma irrefletida. Sempre sentiu que se proporcionava a si próprio noites agradáveis. Era neutro sexualmente, algo que só percebeu muitos anos depois. Naquele tempo era só uma.pessoa em busca de compreensão, alívio fisico, satisfação de sentimentos. Ensinou-se a si próprio a ser adulto, e quando optou por terminar com esta prática, sentia que já era conhecedor da natureza humana...

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Entardecer em Tóquio

 


Os que a desprezavam mediam distâncias,

Aprofundavam ilusões relativas a um corpo perfeito,
A uma vontade inexpressiva,
E a uma medida de proveito sobrehumana,...

Não era deste mundo,
Costumava dizer que abraçava o nascer do sol na galáxia do canto,
Enquanto a sua pele era de entardecer em Tóquio,
E assim continuava,
Zelosa da noite que a acompanhava

segunda-feira, 1 de janeiro de 2024