segunda-feira, 7 de abril de 2008

God save the queen


Brincava com um ser vivo magnetizado, que boiava na última canja que degustei antes de me tornar asceta. Em voo rasante, um insecto amorfo percorreu metade da minha auto-estrada de pensamentos. À portagem do atrevimento, morreu esmagado pela polícia dos maus costumes.
Terminei a refeição sem sequer perceber a maldade de um mundo que amputa a cromatografia ao menino menos prepotente da existência. Levantei-me, cirurgicamente removi a tampa do caixote do lixo, e entreti-me a assistir à decomposição de escarros. Fluências do divino que me envenenaram.
Talvez morto, provavelmente à espera de lugar na fila para a redenção nobiliárquica. Inspirei, expirei, voltei a inspirar, e soltei um traque. Soube-me bem.

Pronto para mais divagações subliminares em dias de chuva?

Cantiga de mau amigo


Sinfonia de um olho só,
Ferrinhos, senhora de metal,
Sois cinzenta de espírito,
Como se este pintasse,

Se ele fosse de rapé,
Toque com um olho só,
E sorva, senhora,
Ondas de rapé,
Que o mundo esvai-se,
E um minuto são mil vidas....

Luta de classes


Martelo em consciência,
É tortura,..

Fome de luz,...

Petiz que rasga,
Cueiros de lama,...

À foice o sustento,
Que resvala,
Reluz,...

Aos ombros da mulher triste,
Que implora,
Adora,
E chora,...

Homem que se envenena,
À luz de querida perdição....

Mesozóico recomeço


Talvez aos sete,
Setenta vezes um sorriso,
E um afago de alma,
Incentivo ao incentivar,
O respirar de quem fez,
A alma de quem criou,
Para que talvez aos oito,
Se desligue o desligar,
Primeiro que o último choro...

Onze menos um


Fico em nós,
E o que gosto,
Desgosto ao sol duro,...

Nós, és tu,
No eu de bem querer,
E no se, que pulsa,...

Tu, nós por vezes,
Porque o eu,
Esconde o que não é,...

Eu a recortar,
Colar e admirar,

O três que o futuro traz,...

Dia e noite dixit


O dia que envia,
a noite que não se atavia.
Por remorsos de eugenia,....

O dia mal resolvido,
Num armário comprimido,
Com tudo de reprimido,...

Dia que chateia,
Sob as cinzas de Pompeia,
Fácil onomatopeia,...

Noite que descansa,
Feliz quando lança,
Dia em má andança,...

Para quem cansa de dia,
Noite não aprecia,
A pena em supremacia,...

Poeta mau e feliz,
Pensando ser petiz,
Intriga galileica rediz...

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Rato em chamas



Os pulmões encheram-se de confetis,
E encolhi,
Fui até à medula de um rato de esgoto,
Que funga a milisegundos de ti,....

De olhos que cravejam sangue,
E mãos trémulas,
Suei com o lume que te envolvia,...

O mundo expirava saúde forjada,
Como eu abria o estômago a latejar,
Enquanto a alma fraquejava,...

Fogo fátuo de equívocos,
Senti-me a carbonizar,
Desfazer,
Lento domínio de dor,...

E foi a translação de pesar,
O que me descarnei,
Que me trouxe ao tinto tilintar....


Dedos gordos


Há dias em que tens indicadores esquerdo e direito, gordos. Massas disformes, que tremelicam a cabeça ao sabor de incompetência quando martelam o teclado do computador.
A tua incompetência.
O que tu não sabes fazer pelo mundo que te cuspiu de um útero que já começa a ficar velho. Criativo, serás quando as sereias dormem. Na altura em que o mundo deixa de ter coisas interessantes para contar, e tu te agarras aos dedos gordos.
Dignos de confiança, serão. Talvez, controlar a cona purguenta de uma puta de esquina. Aí, não te saias mal. Caso te empenhasses.
Há dias em que tens indicadores esquerdo e direito. Anafados, sem esperança de dieta milagrosa. Incompetência, definida à sombra do rodapé da cama onde te escondes, escreve-se com nuvenzinhas de banda desenhada.
Fluência em poderes fantásticos. Rodar o dedo, gordo, e mandar o prédio do presidente da câmara pelo cu do planeta. E tudo porque ele te aumentou a contribuição autárquica.
Peidares uma rosa florida, e com ela casares com a mulher divina. A gaja que fode com um milhão de homens desiludidos ao mesmo tempo, e ao mesmo tempo come uma mousse de chocolate podre.
Arrebanha o par de pernas que te nasceu em dia de chuva, e anda. Pára só quando perderes esses dedos gordos. Criativo.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

A Setúbal (Manuel Cristal)



Manuel Cristal sangrava das gengivas. Aliás, boca diminuída, com dentes gastos até ao tutano. Mas nunca, nunca desdenhava um sorriso, de orelha a orelha, mal a manhã rasgava.
O Verão tinha nascido há dias. O sol dava mostras hercúleas disso, levantando-se no horizonte em fios de aço. Coisa dura, levar no coiro com um calor que fazia borbulhar as águas pasmaceiras do Sado. Manel desdenhava os dias em que não conseguia banhar as ideias limitadas nesse fenómeno.
Entre as seis, e mais uns piquitos, desmontava da bicicleta.
Tinha um recanto, na Doca das Fontaínhas, onde guardava a pasteleira. Ficava acorrentada a uma cabine telefónica que se acinzentava de abandono. Velha, mas que mesmo assim fincava pé no chão que gangrenava com raízes de árvores centenárias.
Que se volte ao sorriso de Manuel Cristal. O primeiro que conhecia a luz do dia, saltava por nada. Simplesmente porque viver numa terra em que o ar cheira a arrotos de deuses, tranquilizava-o. O segundo, tinha como receptor o tal sol de aço. Manuel nunca se apercebeu de como quem cria, o que aquece, gosta de quem se conforma como foi criado.
Prova disso:
era uma pasta avermelhada o que lhe gotejava da boca. Ao terceiro, quarto sorriso, quem o conhecesse de novo, virava a cara. Os que andavam com Manel na algibeira, habituaram-se. Gostavam de quem agradecia ao rio pai, e à serra mãe por estar vivo. Sebastião da Gama chamou a pessoas como Manel “os indiferentes da vida”, e amava-os de coração.
O sorriso de Manuel Cristal valeu-lhe até a morte. Um dia estava sentado a olhar o Sado. Nossa Senhora do Bonfim fitava-lhe as costas, e a Arrábida admirava-lhe o sorriso. Manel agradecia à vida, sorrindo. O coração simplesmente parou, e um corpo amolgado das danças embaladas pela voz cansada do Chico da Cana abandonou-se ao descanso eterno.
O Sado engoliu-o, simplesmente porque o escritor assim o quer.
Não faria sentido bajular uma cidade, e esquecer que as coisas que valem a pena, são até para valorizar quando se descreve um fim. Um ponto final.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Homem inquestionável


Perguntar, ...
o inquestionável feito homem.
Nasceu de uma falha no descontínuo
espaço-tempo,
Filho de lapsos temporários de memória,
hemafroditas.

Na terra das certezas,
Era louro,...

Sedutor pedaço de dúvidas,
Flirts com mel, romances de chumbo,
Corações que salivam estrogéneo,
Calibrados em sorrisos de porcelana,
Certezas reféns de ausências de incerteza,...

O inquestionável feito filósofo,
Gostava de caminhar com botas materialistas,
O mundo pede luta,
E as classes pedem falinhas mansas,...

O homem garboso por questões,
Já comungou uma greta suada,
Bebeu com quem pensou o impensável,...

O inquestionável feito homem,
Perguntar,
De quem é a caneta feita arma?

terça-feira, 1 de abril de 2008

Nunca matou o sempre



E o nunca de calças,
Knock, porta batida,...

Belo, sempre, uiva,
Crime, invasão!!!...

Vácuo de luz,
Punho lateja,
Assalto, casa de basalto,
Calças de sangue,....

E o sempre gasta rótulas,
Nunca tilinta,
De cobre já pinta,....

Morte só às vezes,
Insultos suezes,
Vida é polícia,...

Sempre com torrões,
De ouro os botões,
Pá. Já a viu,...

Nunca recomeça,
Samba, é bom à beça,...
Bum, tchakabum...

Ser em caminhada de linhas


De cada livro que folheamos, salta o enredo, e depois a história que nos deixa mudos. Falsas transposições de limites visíveis. E o que é possível, torna-nos inseparáveis, e unos até ao núcleo.
A cada um o que restaria se a partição fosse até à milionésima casa, subtraindo o que escapa ao cálculo exacto. A molécula que faz os noves em prova.
Ler nos placards da vida televisionada. E se caminhássemos,...talvez sem destino? Acredito que já se desfez. No geral.
A diferença está no que já nos tornou iguais, e hoje perde-se no que luta para fazer de nós discriminados. Certeza barata, mas incomportável, por talvez estar errada.
Desenhar uma abstracção viva, que come e peida restos de alma. Somos nós. Falta pegar na bandeira, e andar, ..
Caminhar,..
Rastejar,...
Se já se marchou do nada, como se deixa que o nada hoje seja o que não resta dúvida? Provar o contrário, é cortar as asas de quem nasceu para voar, e ouve:
Morre.
Se ser, é barco para a abstracção,...Que se seja, em doses de adição. Ignorá-lo, é recusar o concreto de um quadro de aspirações.