sábado, 31 de julho de 2021

Aleijaste-me


 

aleijaste-me,

gostava da palavra,

decomposta, 

insuspeita,

quase como se fosse à loja

roubar uma laranja,

e se escapasse à reprovação,...


aleijaste-me os olhos,

ao passar por entre o que resta

do conforto estragado,

que eu tenho,

aleijaste-me,

possuiste um certificado escrito,

lacrado a azul de sangue,...


e eu fico sem saber se ao aleijar-me,

eu te posso considerar considerável

sexta-feira, 30 de julho de 2021

História com fim abrupto que não chegou a ir a lado nenhum,...mas esteve quase

 Toda a gente dizia que eram irmãos muito diferentes. Afonso gostava de insetos. Vicente nem para um mosquito conseguia olhar. Afonso gostava de amarelo. Vicente era feliz à noite, depois dos pais fecharem a porta do quarto onde ele e o irmão dormiam. Começava a desenhar sopas de estrelas no teto, enquanto do irmão só se via o penacho fora do lençol, com tanto medo que tinha do escuro. Até no vestir os dois não se conseguiam sequer aproximar. Viviam no canto mais frio do país para onde os pais tinham ido viver. Afonso gostava. Era tão feliz, rindo a correr na neve que lhe deixava o cabelo branco, a roupa molhada. Mas não se importava. A sua brincadeira preferida era fazer anjos na neve fofinha. Vicente ficava a ver o irmão correr na rua. Odiava o frio. Andava sempre a sonhar com o verão, e praias a perder de vista, onde pudesse correr, jogar à bola, e divertir-se com o cão da família.

Um dia, quando estavam sozinhos no quarto, antes de o sono os levar aos dois para a terra dos sonhos, resolveram começar a última conversa que ambos pensavam um dia poder vir a ter. Afonso começou:
-Vicente, estás acordado?
Não teve resposta à primeira, e insistiu. 
O irmão respondeu com um resmungo, até que lhe disse:
-o que queres?
Afonso estava a pensar que queria ser mais parecido com o irmão. Enquanto olhava para os números do despertador a passarem, no escuro do quarto, dizia-lhe o que imaginava.
Tinham de os dois pensar numa coisa que deixasse toda a gente impressionada. A acreditar que eles eram os meninos mais criativos do mundo. 
E lembrou-se,...
Porque não se tentavam transformar na mais linda flor que o mundo já tinha visto. 
Vicente adormecera. O barulho do ressonar mostrava que já estava no mundo dos sonhos. Afonso sentiu um pequeno sorriso a esboçar no rosto, e agarrou-se ao urso de peluche, que tinha um botão em vez de nariz, oferecido pela avó Arlete quando ele era pouco mais do que um bebé.
O dia nasceu. Os dois irmãos fizeram o que faziam todas as manhãs, e saíram juntos para a escola. Enquanto esperavam pelo autocarro que os havia de levar para as aulas, Afonso voltou a tocar no assunto. 
"Quero que fiquemos mais juntos. E vamos conseguir"
O autocarro chegou, e os dois irmãos entraram. Não gostavam daquele sítio. A neve caía com flocos grossos, desordenados. Fazia muito frio em todo o lado. O único sítio onde pareciam estar bem era dentro dos lençóis, onde tudo era quente e fazia lembrar casa. Mas tinham-se um ao outro.
Passaram vários dias. Afonso optou por estar calado....

quinta-feira, 29 de julho de 2021

O meu preferido de Tamen.... Na hora da sua partida


Escrito de Memória

Formado em direito e solidão,
às escuras te busco enquanto a chuva brilha.
É verdade que olhas, é verdade que dizes.
Que todos temos medo e água pura.

A que deuses te devo, se te devo,
que espanto é este, se há razão pra ele?
Como te busco, então, se estás aqui,
ou, se não estás, por te quero tida?
Quais olhos e qual noite?
Aquela
em que estiveste por me dizeres o nome.

Pedro Tamen, in “Tábua das Matérias”


Litania

 E tudo o acaso nos tira,

Renova a lição,

Vai-se embora com a música errada de Litania,

Há um momento em que tudo se renova,

Porque ele nos engana,...


Desta janela é o que me oferece dizer,

A loucura renovada sem cor, 

E sem partição de aflitos


quarta-feira, 28 de julho de 2021

A novidade do tempo visto de outra forma



à volta, 

sem som,

resguardavam-se em roupas

anelares,

com uma parcela de chuva por

cada ausência de terra,

rezavam num desnível de

força,

para se apoderarem da sorte,

das resmas de papel encardido,

sepultado pela ignorância,

onde havia flores de amor

rabiscadas pelo ódio,

e ingenuidade,

muita ingenuidade,...


tantos dias depois,

e depois de os rios terem

restabelecido o som do encantamento,

há um botão,

pressionado,

recomeça a história 

terça-feira, 27 de julho de 2021

A gerência do inatingível celebra o aniversário a 6 de maio

 


Depois de tudo dito,

Encostado à parede para evitar mediocridades,

Ficava a impotência de não estar onde preciso seria,

Onde a palavra já tinha perdido a inofensiva razão para o mal,... 


Um papel de anulado,

Estava entregue de fora nas tuas mãos,

 Não mais voltarei a quando conseguia dizer algo importante,

Sem abdicar de uma integridade visível 

segunda-feira, 26 de julho de 2021

Não parecia verde


 Repetiram-nos a inconsistência 

dos meninos que tinham fome,

Não parecia verde,...


Ao longe tudo era sugerido 

em rosa escuro,

Um novo ano que rebolava das montanhas,

E o advento da persistência,

 adivinhava-se em oitavas 

de música muda,

Percebia-se mesmo na necessidade 

de inventar o espetáculo da morte,...


Havia até à tua figura,

O que me sugerias nas noites,

em que assisti a tua madrugada,

Era qualquer coisa parecida 

com anotações frias,

Razões de consciência intuitiva 

domingo, 25 de julho de 2021

Beijo leite

 


Terror de gostar de coisas líquidas,

De te dizer que o dia é uma torneira aberta,

E um beijo leite que cheira mal,

E nunca se deve dar às crianças,...


Terror de me vestir assim tão amarelo,

Porque o que quero é passar despercebido,

E não sou tanto assim a linha infinita da razão,...


A minha barreira do som está aqui,

Onde não os ouço,

Os gritos desordenados da aflição 

sábado, 24 de julho de 2021

Vontade de resignação

 

Quando disse que me recordava de ter partido,

Os pormenores já falham,

Sei que haviam uns primos,

Pouco os conhecia,

E o fumo de tabaco levava-a para dentro e fora da sala,

E a mesa com copos dispostos sem nenhuma ordem,... 


Liam-se escritores desconhecidos,

E uma nota só de música de câmara esgueirava-se pelos beirais das janelas do bairro,

Sentia o medo possível,

E também a raiva possível,

Com a lição estudada de animismos por entre todo aquele ressentimento,...


Seria um texto sem fim o que descrevesse aquele cenário,

Enquanto lá fora a chuva prendia a vontade de resignação 

sexta-feira, 23 de julho de 2021

32 vezes



 Mais 32 vezes,

O mundo gira só o suficiente para que não enlouqueças,

É um número exaustivo,

Arredondado,

Desesperado mesmo,

Lembrei-me dele quando escrevia a parte final de um  sonho,

No rebordo da mesa de todos os dias,

A do café da solidão,...


Sinto que o que sou hoje,

Me desaloja do que fui,

Capaz de escrever,

Desvendar em poemas as fraquezas que assumia,...


Hoje são as tais 32 vezes,

Que o mundo gira sem que isso,

 me tire a maldade de voltar a ser,

 inodoro

quinta-feira, 22 de julho de 2021

.... sobra vulgaridade para respirar estas coisas

...continuo com a obsessão de que sei escrever, quando na realidade o que me move é sublinhar os semi-círculos das letras curvas. Do ‘O’, é num tiro que passo a andar a escorregar nos balouços do ‘C’, com o consolo das ‘cedilhas’ ocasionais. Minto. Sei que dentro do ‘E’ está a reclusão que tanto procuro. Mas é tudo difícil de definir. Às vezes, quando as ideias me pesam menos que a morte de um sentimento, refugio-me no 'X'. Ás vezes, é tudo o que me resta sentir que a existência se resume à interdição de momentos, à verdade da finitude de um respirar.... E tudo permanece na mesma obsessão. A de que sei fazer o que na realidade, é uma prisão

Homem anafado

 


Uma rua perdida,

Algumas moedas,

Se bem me lembro deixaste equivocado um prenúncio de poema,

Eram dois personagens,

O homem anafado,

Resistido no conformismo,

A mulher desvirtuada,

Com uma missanga perdida de beleza nos olhos,

Indivisível e reprovadamente só,...


Tinhas decretada proibida a adulteração,

A ida em transportes desta que seria,

Talvez,

A tua última divergência,...


Nada mais havia a dizer do que a luz apagada,

E um sono que amanhã traria o anoitecer do desconforto,

E o zero criativo 

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Ainda por nascer

havia um dia,

ou houve dois minutos,

mais ou menos, 

em que me pareceu correto começar

a pensar sobre o ladrar do tempo desalmado,

e como sabia mal perder o 

calor prensado das pessoas,

e o bem querer,

sobretudo,

sentir que quem traz tudo isto

debaixo da pele,

se chama morte,...


e então lembrei-me de coisa nenhuma,

de como sabe bem deixar correr os

dedos,

até que se olhe para a rua,

e as pessoas surjam travestidas de

árvores,

esquálidas,

mas confiáveis,...


por isso me fio na revolta

dos desejos que ainda nem vieram




terça-feira, 20 de julho de 2021

Ideologia da solidão

 


O disco virado lentamente no prato,

Recebido assim o silêncio,

Seria como uma música inapelável,

Duas pessoas como as últimas do mundo,

Consideravam um pas de deux inevitável,... 


Um caminho de rochas era o cenário, 

Recordo-me que por ali tínhamos passado, 

E estreitávamos o caminho com medo da queda na profundidade do pensamento, 

Da linhagem pura, 

Da ideologia da solidão,... 


Um som sumido subia nos ares, 

Como rodapé desta análise a um momento 



segunda-feira, 19 de julho de 2021

Dia oco

 Às vezes a sensação oca de ser permissivo,

Outras é Janeiro lá fora,

E chove tanto que os limites da nossa indiscrição sobem um nível,

Até ao desespero,...


Resta-me ser espontâneo,

E soltar a criatividade num sentido do nu gratuito,

Da indecência permitida,

Do homem que se trabalha a si próprio,

Para consumar a solidão indesejada num copo cheio,

De seiva de mulher,...


Começa mais 

este dia oco, 

e de linhas turvas