domingo, 12 de agosto de 2018

Orgulhosamente sem título

as pessoas mudam,
os verbos perdem a pele e
desfazem as proposições,
restando a pedra solta com a
substância de uma encenação,...

fazíamos falta uns aos outros
 se houvesse água nas
esquinas dos advérbios,
como se mormente o amor,
nos puséssemos em quatro
estações de lamentos,
para perceber a raiva
encaixada no silêncio,...

e de mim não levarão
mais que um morango de favor,
e um copo de água de
português mal entendido


sábado, 11 de agosto de 2018

As férias trazem a falta de sentido

Nefasto o dealbar do que querias sublinhado. Com a razão toldada em dois momentos que te brilhavam nos olhos como coisas por resolver, foi o vento daquele entardecer que sabias ir ser o último que parou tudo. As raízes dos ossos encravados na parte destrutível do ser. O ires com estigmas da crença curva em seres finitos. As pessoas que nunca te souberam ler mais que uma simples nota de rodapé. E as flores. Indiscritíveis artifícios que terminam uma discussão como esta, tal como começam todas: com a certeza de que o belo somos todos nós quando pegamos na ilusão, e a aconchegamos para o frio

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Não olhes para lá do suor do tempo

não olhes pra lá
do suor do tempo,
aqui onde não somamos nada
 como os que sabem esperar,
os minutos ensinam-me
a repisar como o prender à certeza da vida,
se equivale aos grilhões
desenhados da morte que
 vem para jantar,...

e com um não saber dedicar
 amores frios à vontade
 de um beijo,
sugeria o contar das
 pedras da ausência,
a escrita desordenada
de frases às estrelas,
quase como se elas fossem
o fechar de boca dos mortos,
e com isso
trouxessem o descolamento à vontade de pertencer,...

para fim da impaciência
pelo uivar da criação,
o mel de estarmos juntos,
sem que dar um passo seja mais que
atrasar os relógios para lá do zero


quinta-feira, 9 de agosto de 2018

O Inatingível 2018 de novo no blogue ‘Páginas Partilhadas’




O selo e Pessoa

remoendo as dores,
as frases de pedra estavam distribuídas por todos os bolsos,
restando uma carta gizada a escopro,...

com a manhã bem vincada numa metáfora colorida,
que extravasasse o papel em raios diáfanos de luz,...

havia o tudo escrito nas mãos,
as coisas ditas com voz dorida,
como se um desnorte abrisse as gargantas de onde nos ofertaram choros,...

passei pelos livros de mar que lemos,
os mesmos onde a poesia nunca conseguiu dormir,
porque ela é o ser sem descanso que sabemos estar lá,...

arrumadas as mágoas num saco indissociável de letras,
precisava-se de um selo para expedir o destino,
com cara de dizeres de feira,
e olhar de rainha frustrada com falta de amor,...

surgiu-me Pessoa sem egos de renascimento,
apenas um suspiro de tantos mal quereres que ainda hoje esventram a terra de raízes,...

não sei se voltarei a
ver-te acordar com este
amontoado de medidas de sonhos

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Hesitando

mas e a vontade de dizer mas,
todas as coisas que
só pela suicida ideia
de gritar basta,
nos saem caras,
difíceis de ridicularizar,
e de assim nos dar vontade de
nos apoucarmos,
perante a derrota do tempo,...

não chegamos para os deslizes
de ter o ensejo de
querermos ser pequenos,
para a insubstituível
vontade de escrever
parvoíces como esta,...

talvez com a lama dos
 dias que findam sem
nos encontrarmos,
ressurja a decisão
insondável do medo

terça-feira, 7 de agosto de 2018

O Inatingivel 2018 em crossover de novo. Revista 'Hórus Cultuliterarte'


Celacantos

sabes aqueles peixes,
os celacantos,
discutimos longevidade em cima destes medos que não desusam o tempo,
falávamos do oceano que nos separava nas expetativas sobre a morte,
e como procrastinar talvez nos ficasse bem em cima do que restar das peles,
queimadas ao sol,...

pelo sim pelo não veio a noite como acompanhante,
e o mar que lhe batia nos pés,
deixando um rasto de cascalho sem que a sobremesa tivesse chegado,
e os malditos celacantos,
que até estavam nos rostos distendidos,
como se em cada fração de uma ruga de velhice,
coubesse a razoabilidade de não esperar nada da vida,

sem mais nada para dizer a não ser qualquer tempo,
terminou por ali a espera da razão colorida

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Se de ti sobrou o apodrecimento em árvore


Recebendo o sol,
saberei recomeçar a vida

Hábitos de leitura

pensei em ler-te hoje,
à sombra do que deixei
 de entender quando
escrevias o céu,
e aqui,
onde o fogo nos
rodeia em golas de
renda sufocantes,
era a terra a dizer-me
que a escrita mata o
amor às coisas pequenas,...

mas os rebordos de
aço dos teus versos,
onde há mulheres
capazes de terraplanar
os destinos,
sem que a erva
daninha chamada homem
desnorteie a fertilidade,
desse lado não se resiste a
um grito para o futuro,...

por isso fui
ler-te de novo,...

gostei do cheiro
a western com que
fiquei na saudade que ainda
 recordo ter por ti


domingo, 5 de agosto de 2018

Menos sorte para os conformados

indecisões, falsas percepções, sem saber do ar que respiramos,
tudo para dizer que já não mora aqui o princípio de dia sem cor a que nos habituámos,...

sobram só porções sem tamanho de meninas bonitas,
resinas de consensos de que o amor é o que nos move,
e um pequeno livro de páginas rasgadas,
com desenhos de velhinhas de há dez séculos a chorar,
enquanto esperavam pelos filhos mortos na guerra,...

desesperamos por um outro sol menos taxativo,
que não controle as frações indiscriminadas do vento mulher,
e enquanto não surge o renovador,
à espera da morte das árvores nos quedamos à beira rio


sábado, 4 de agosto de 2018

não estiveste aqui quando a noite comeu

não estiveste aqui quando a noite comeu,
fazia frio e as árvores de fruto dançavam descompassadas,
sem que a lua parasse de envelhecer mais do que o habitual,...

lembro-me dos meninos enviados ao céu,
com um vento debaixo da pele,
sobre os mesmos dizia-se do sol que os tinha parido mudos,
e que não interessavam para mais do que letras de poemas,...

não regresses só porque o amanhecer te quer aqui,
agora,
não tenho medo desta madrugada que me ensina a ler uma estrofe de anti solidão

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Trans

o amor ainda
mora aqui,
chama-se José
e trabalha à noite
a fabricar sonhos na rua,
lambuza os deves e
os haveres das pessoas,
e chama-as de todas
as declinações do
verbo querer que lhe
cabem nas dobras
da pele,...

veste o brilho gasto,
escondido nas
caixinhas de madeira
mofa e desnecessária
de que se faz o seu envelhecer,...

e para dormir passa o
lavar de pés da
rotina no rosto,
e imagina-se uma
princesa sem reino,
sem Principe,
até sem a frase
mágica da felicidade,
mas com a ilusão de
todos os améns
perdidos juntos
na redenção,...

o amor ainda
mora aqui,
chama-se José e
há-de morrer mulher


quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Pobreza

Estava trauteada aquela música. Parecia que tinha notas musicais engalfinhadas, quase como o pasodoble desnorteado que a rádio vomitava, de quando em vez, nas tardes de chuva miudinha que convidavam a ficar em casa. Falava sobre um amor recitado. Um amor analfabeto, de dois andrajosos que resolveram apoiar-se na miséria, depois de se terem rendido à animalidade que advém da falta de perspetivas.
Dizia que sentir-se bem com o outro, é quase como despir a pele, e voltar a vesti-la do avesso. Por entre os acordes da guitarra flamenca, parecia ouvir-se um choro igual ao dos velórios. Baixinho, quase impercetivel.


quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Sim, estás no sítio certo

Primeira de agosto

acabo isto amanhã,
talvez se as coisas deixarem de se pintar a si próprias com um contorno amarelecido,
quase como se visse tudo no meio da pútrida evolução do tempo,
com a morte a caminhar de tamancos,
a apascentar as vacas antes de nos bater à porta,...

o que tenho para escrever resume-se com um adjetivo,
intenso,
passos fortes na saída do café,
dizer adeus à rotina indefinida do não ter nada para dizer,
e estar só para completar um círculo inteiro de comiseração,...

sim,
acabo isto amanhã,
hoje vou chorar de cansaço até adormecer