segunda-feira, 2 de julho de 2018

Estio temperado

já que nem percebo o suor,
a frase da vida que escorre nos pés
quando o idoso caminha,
aposto na reciprocidade do correr
dos segundos,....

e o momento escolhido quando na
esplanada das tardes,
o sol se senta às mesas dos desiludidos
bronzeados pela espera,
faz um minuto parecer retalhado em
cubos de gelo,...

e o arrependido canta pelo frio

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Tirado daqui

domingo, 1 de julho de 2018

Sunday, porque sim


To be continued...

Estava surrealmente desligado de tudo, quando à beira de passar aquela estrada acordou-me o besouro irritante de tal desconcertada traquitana. Tinha rodas da cor do cascalho que banha o cimento acabado de assentar, uma porta, a traseira esquerda, cortada ao meio quase como se fosse uma lata de sardinhas em conserva. Parecia que falava, aos soluços, quando galgava metros à velocidade de um cão rezinga que palmilha restolho em busca de qualquer coisita para lhe atiçar o ladrar. Lá dentro, meio escondido no meio de estofos com molas penduradas, e uma pequena amostra de virgem de Fátima pendurada no retrovisor acastanhado, uma velha, dos seus setenta e quê, media a estrada de cara franzida. Olhos com dois vaga-lumes presos lá dentro, nariz de dúvida ou ponto de interrogação, é a mesma coisa. Parou-me rés ves à biqueira das botas cardadas, que ainda vinham ruçadas de mais um dia na estiva que nem devia vir a ser pago.
Não lhe queria falar. Tinha tanta vontade de o fazer como de ouvir uma algarviada daquelas de baile de paróquia, vomitada por um megafone de tantas cores que, na realidade, já não tem mesmo é cor nenhuma.
Mas a velha desafiou-me. A porta do lado do condutor daquele chavelho desengonçado nem abria, e ela teve de fincar as mãos na napa dos assentos, e sair pelo lado do pendura.
Mal pôs os pés cá fora, começou a cacimbar. Detesto chuva, sobre forma de bátega, de molha parvos, ou seja do que for...

sábado, 30 de junho de 2018

a qualquer mulher

em nenhuma mulher,
a fraca contrição
da rejeição simples,
antes uma página incolor
de desnudadas metáforas,...

as que o escritor transpira
dos bolsos sempre que pede
o inalcançável,...

em todas as mulheres,
a frase sem sentido
dos moribundos,
o que fica por dizer
quando o amor se esbate
no refluxo incontrolável
da vida,...

dissolvidos num suspiro,...

para que a sorte não rejuvenesça
em findos ditados
dos sem esperança,...

a qualquer mulher,
a lição sem fim
do dia que se aninha
aos pés dos esperançosos

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Tirado daqui

Um pé putrefato

um pé putrefato,
desfiado cartilagem a cartilagem,
e paz no caminho irreal de todos os sonhos amarelos,...

um poeta frágil,
doente,
insuficientes são as vezes em que cheira mal,
o real,...

a terminar o regresso da guerra ao prato,
principal de todos nós

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Um dia gostava de saber escrever assim


Depois de tudo fica a lembrança dos lugares


Depois de tudo, fica a lembrança dos lugares e
dos seus nomes; dos quartos virados a poente
onde as imagens do rio nunca se repetem nas janelas
e todos os enredos são consentidos sobre as camas.
.
Ao fundo, havia um armário de madeira com espelho
onde as nossas roupas trocavam de perfume
para que os dias se vestissem sempre melhor.
E, sobre a cómoda, num espelho mais antigo,
a tarde reflectia algumas das alegrias da infância.
.
Não era o quarto de nenhum de nós,
mas a ele regressávamos sempre com a pressa
de quem anseia os cheiros quentes e antigos
da casa conhecida; como quem espera ser aguardado.
.
Pressenti, porém, que não era eu quem aguardavas:
uma noite, pedi-te mais um cobertor em vez de um abraço.

Autor : Maria do Rosário Pedreira
in Poesia Reunida

Loboantunesar a coisa em redor de um cinzeiro. De forma tosca

Lembro-me de quando o meu pai fumava, usar um cinzeiro de pé alto, metálico, e que durante muito tempo foi maior do que eu. O que segurava aquilo à terra tinha uma base que parecia uma pata de galinha, com as três garras bem distintas, que se cravavam na carpete da sala . Houve uma altura em que a coisa me meteu medo. Imaginava-a a ganhar vida durante a noite, e a andar pela casa a arranhar as paredes, deixando um rasto de cinza preta enquanto caminhava à procura de barrigas para rasgar, com aquela garra medonha e que, com os anos, foi ganhando um tom ferrugento.
Nunca contei ao meu pai o que sentia sobre aquilo. Guardo só a memória de o ver recostado no sofá acastanhado da sala, com a base da cabeça apoiada no tecido. Fizesse chuva, fizessem raios de sol a entrar por entre os losangos pequenos do estore, o cigarro estava sempre preso entre o dedo médio e o anelar. O fumo subia, tipo fogueira de índio num filme do john wayne, e desenhava nuvens no céu branco da sala...

quinta-feira, 28 de junho de 2018

A poesia é f*dida, pá!!!


Homem transparente

tinha aprendido a contornar os obstáculos visíveis e invisíveis do caminho,
para isso preferia os dias de chuva,
aquela sensação de que o peito nos aquece o molhado do tempo,
e serve para parar sempre que é indiferente prosseguir sem rumo,...

e por se aperceber de cada imaculada adoração da rotina,
chegava sempre aos sítios mais cedo,
com a espera de ter que esperar pela própria espera para se fazer anunciar,...

e depois havia os remates sem cor das conversas ditas de encher os momentos sem par,
cheios de por isto se vive desta forma,
e de desculpe se estou a ser intrusivo,...

mas era feliz sentindo que não iria nunca contribuir para a felicidade de ninguém,
seria sempre o homem que achava por bem evitar os obstáculos da rua,
de par em par,
de preferência quando chovesse



quarta-feira, 27 de junho de 2018

Um dia gostava de saber escrever assim

maria gabriela llansol / séculos a fio de chuva




198

_______________ séculos a fio de chuva
Ininterrupta, de pântanos e de frio criavam
No garoto um corpo tiritante dotado de uma
Agudíssima faculdade de observar. Se o coberto
Nunca secava, razão por que na sua língua não
Existia nem frio nem seco, e nada podia ser
Seguido por peugadas, onde pousara o inimigo
Seus sinais de passagem? Se ali vivesse um
Contador de histórias fulgurante, diria que
Ele estava banhado em lágrimas, em lágrimas
Totais. Mas eu _ o dom de escrevente que o
Seguia __ textuava, e textuava, um modo
De trazê-lo seco para um mundo de vida.
Apesar de mundo ser palavra supremamente
Ambígua, por constantemente se esbater
Se apagar.

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Prantos sem idade

sobram-me noites,
pelo menos as que me fazem acordar cedo num passado,
que não consegue parar o relógio das coisas que
travam os impulsos,...

se sobrarem madrugadas é desenhar este medo,
sim,
estou preso naquela gelada manhã do ano que já me esqueci,
em que recordado de um sorriso que já foi meu,
optei por escrever seguidas deformações de gostos subtis,...

despidas dos cheiros lúgubres de prantos sem idade


terça-feira, 26 de junho de 2018

Equívoco

falava a língua de
tempos embalados,
como carne da que
se compra nos supermercados,
comprimida,..

cheia de nervos,
difícil de cortar à
faca

Fraco

hoje não me apetecem ruas do som,
noves fora o contentamento de um silvo,...

pássaros a morrer depois de com o amor,
cruzarem a superioridade de dizer somos melhores,
que a frase pintada do ódio,...

se me apeteceres tu,
não me faças o mal que se cruza na água,
pegadas soltas nos seixos da beira rio,
à procura da inconstância de querer o longe,...

e na madrugada ficar com o nada,
a escorrer ódio nas paredes sujas de um quarto vazio,...

enquanto se dedilha a nós na inconstância irreal da parte imutável,
de todos os todos que alguma vez te quis mostrar


segunda-feira, 25 de junho de 2018

O ovo

ao reentrar na vida,
era um senhor adestrado,
de fácil trato,
riso fácil,
com substrato,...

ia longe pelo que dizia o verbo,
reverberado,
estranha a séria desdita de andar em estradas,
sem marco,...

com tempo ia à escrita,
frases curtas,
de mácula restrita,....

e ao desistir de tudo,
de novo,
a pele como fruto,
sem querer que o todo fosse um ovo