tua boca meu declínio,
quando o dia avança-se
e a noite gorjeia súbditos
de sociedades desiguais,...
vejo-te parcimónia de novos intentos,
como que um dia incompleto,
relógio que morre e vive
em azul de mar em eutanásia,....
se fores criação defenestrada,
psicose de novelos de lã,
espero trejeitos invisíveis,
da mão pequena e suja
que embala gritos,
desfaz pesadelos,
e te tira a pele de fado
de que foges....
domingo, 28 de setembro de 2008
Alegoria do Fado
Cidade de mel
O arbusto da mendicidade reflecte dois pedaços daquela cidade injusta. Nasceu de triângulos medianos, que discordam do egoísmo. Gritam até insultos a quem passa, sem olhar para o rio invisível que atravessa a vida dos sem nome. Os que ataviam as personalidades, só para não se desgostarem no exíguo espaço que têm para desenhar projectos. É um arbusto que pede para o observarem, acariciando sentidos que nunca se descobrem nas ardósias das escolas tradicionalistas. Voam pássaros porque as pessoas querem ser deixadas em paz. O arbusto ganha raízes, e pergunta-nos. Pergunta-te: o que queres ser na vida? Respirares, vale a pena quando no ar se desenham principios de armagedão?
Tanto lhe faz que respondas. O magma vai continuar a ceder, as raízes gorjeiam por mais espaço. A cidade desvanece-se, enquanto sobrevaloriza pedaços de optimismo de que ninguém sabe bem o que fazer.
Continuam a desfiar-se passadas despreocupadas. Se o dia agora morresse, o arbusto da mendicidade sobreviveria. Expor-se-iam mesas de iguarias bélicas, com armas de repetição congeladas a pedir só um calor de criança. O zé comum, de dois dias e um segundo de felicidade, responderia com um editorial de boçalidades. Porque viver não é espezinhar pedras da calçada. Viver é fazer mal para fazer bem. Respirar são vaginas de mulher intocada, quando a morte vem e lhe pede companhia. Fazer bem é, porventura, regar o arbusto da mendicidade. Esperar que o sol se materialize na esquina mais sombria desta cidade de putas que são freiras do vício gasto.....
Interjeição quando venta
por ti,
o espaço sideral que de mim vai restando,....
para o que concedesse,
fossem portas de alma,...
nunca falharemos o que de possível tem tudo....
Pigalle
agencia média palavra
ao pedir o copo todo cheio,
sopram dois laivos de
vento na Pigalle,
e Paris está morta,...
são daquelas septicémias
momentâneas que dão
nos grandes
refúgios de quem cria,...
frugaliza o simples acto de beber,
de oscular o copo que
já serviu à puta,
ao general,
ao nazi sorridente de benfazejo,
que fez de anjo antes de
injectar um diabo na alma,....
espera-se o mundo
e dois degraus de
insipiência de mais um
que pensa na Pigalle,
que ousa desfibrar o próprio
ser e desafiar o mundo
à morte,....
mas e o canto da lamechice,
a Pigalle é de nadar em meninas
que querem casar com a virtude,
de pretos mesmo pretos,
que de branco só têm o amor de
mãe,....
anoitece,
Paris continua morta,
e nunca soube tão mal
deixar-se viver em morte
branda.....
sábado, 27 de setembro de 2008
Conjugasom
logo de manhã contusão,
apetite de desleixo,
com migalhas de lavadeira,
em gritos de sedução,
a murro de potência,
levado por decadência,
do que soa mais amor,
por juras de fazer bem,
e troco de arrastar o mal,...
foi à direita da letra,
que o fim ganhou afagos,
mulher arreliada,
fraudulenta de emoções
paradas,
puxou o pipo à vida de quem há anos,
dizia que sim ao dia,
em soluços, falhanços,
sopapos.....
Um homem e a sua bata
Esta é a história menos conseguida com o intuito de produzir uma boa história, mas a certeza de que sairá uma má.
Pudera um homem ser galã, e o filme seria fácil de ver. Pudera a mulher ser bonita, e dois sorrisos de casal amenizavam a noite que custa mais a passar. Mas só posso descrever um homem, que em vez de gastar neurónios a possuir as curvas de um demónio de saias, gostava daquela bata de trabalho. De uma forma comedida, chamou-lhe amante nos dias de desânimo. Até fez amor com aquele símbolo do feminino, concretizado em projectos sempre por consumar. Era companheira, quando chorar soava mais que a fome. Desordeira quando falar mais alto, era um abraço capaz de incentivar o amor-próprio desinflacionado e moribundo.
Fê-la à medida de um corpo de deformado. Cetim barato, apanhado quando a sorte quis. Levou para casa os maltrapilhos, coseu-os com cordão de sapateiro. Deu um ar propositadamente ofensivo aquele agasalho, e não o larga desde a última vez em que conseguiu perspectivar o mundo. Hoje, matrimoniza, à falta de melhor verbo, em todos os cantos da casa. Beija os recantos faltos de graça daquela peça de vestuário. Almoça restos guardados com desânimo, com ela a envolver-lhe o coração e os sacos de respirar. E, à noite, consome-se numa névoa de felicidade. Imagina o melhor dos mundos por entre os intervalos de doença com que o cubículo onde pernoita se decorou. Autoconvence o próprio convencimento com desenhos de personalidades que nunca teve. Copos de água que afogam o que quis ser, mas nunca teve coragem de expressar em obras de arte.
Desfaz-se a noite, e corporiza a vontade de fazer deste, um atrevimento literário sem sentido. Está calor. Um pedaço de trapo, com formas interessantes, pende da maçaneta de uma janela. O vento traz uma fagulha solta, e o estio encarrega-se do resto. Morta, de crime violento, a história de amor que resumi. Ardeu a bata de trabalho, e com ela o coração já esvaziado de um homem triste.
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
Homem
há homens que
nunca serão homens,...
tudo isto porque
ser homem sempre
será mais do que escrever
a palavra homem,...
ser homem,
é soletrar socorro
por todas as imprecisões de
gerar homens por impulsos
de querer eliminar homens,..
fazer pouco de homens,
é puxar pelo âmago
onírico do homem,
e chamar-lhe mulher,...
dar-lhe pouca acentuação tónica
no desejo de sair da inevitabilidade
de morrer homem, e conseguir
passar à história como deus menor
dos homens,...
a figura que rege os
desejos subreptícios dos
homens, também é homem,..
respira, come,
defeca como os homens,
e jamais conseguirá
reaproveitar a
tristeza de
ser homem....
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
Luxos importados III
no quadro maçónico de querer dias em noites,
ser-me-ia a alegria de família,....
já vi de ti mulheres a apaixonarem-se,
ventos em sucintos desmaios de criação,
e nunca o mar a chorar,...
a pesca a crescer de ti,
seriam cardos de choros por pintar,
peixes-alma a nadar
no céu de fosfatos invisíveis,...
adormeço-me numa cidade
a pensar em ti,
deusa de riquezas com
crianças a sorrir.....
#I, #II
Sem título (31)
Picavam assim como desníveis na consideração humana. Zumbidos explicavam-me sons, picadelas desenhavam chagas, e resumi tudo a murros de força centrífuga. Levei-me, desfiz-me, contemplei-me, para depois cessar de existir. Foi um esvair de possessões inconfirmadas que desenhou o desfazer do meu dia. Ficaram-se no meu rasto. Fizeram-me mal, e eu bati à porta de um sorriso que me restava em agonia....
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
Desconfio da minha sombra

consubstanciei o meu desejo
de perder minutos de ansiedade,
com um chuto na minha sombra
de acetato,...
irritava-me,
empobrecia-me,
até a convidei para
voltas de desnível
desconhecido,
esperando chatos
de carapaça verde,...
o áulico desfazer
do que se seguiu,
escreveu-se com dois
raios de escuridão,...
redijo psicoses com
o que me restou para
a via sacra da vida
aos solavancos....
terça-feira, 23 de setembro de 2008
rimas duplas em sofrimento
de excelente deliberador,
o que resta por favor,
de si como pedra de toque,
ponha-lhe o enfoque,
de dois momentos tristes,
vividos como despistes,
de lamas difusas do contra,
livres se quiser ser lontra,
mas presos ao firmamento,
de quem dorme sem chamamento,
dos rimadores idiotas,
que com ar de hilotas,
tentam fazer sentido,
num desvario sustenido,
para concluir enfim,
que mesmo em latim,
ser burro não pesa,
mas farta.....






