Saiu de casa, e para trás deixou-me com tantas coisas. Uma mala de viagem comprada num daqueles mercados em que, um dia, gostámos de nos perder. Era acastanhada, com um fecho cromado, de fivela. Cabiam lá dentro todas as camisas que ela me comprou, bem dobradas. Não perdiam a goma, e ainda havia espaço para algumas gravatas enroladas, em novelo. As meias ficavam numa bolsa na contracapa da mala, embrulhadas em punho fechado, como todas as mulheres mandam. Ficou para trás o ferro de engomar que tratava das camisas, e ainda vários sapatos já gastos do uso.
Os livros mereciam o meu silêncio, espantado. Estavam concentrados em montes derrubados, quase como aqueles filmes de domingo à tarde, com montanhas arrasadas por caças japoneses que devastavam as ilhas do Pacífico, e depois fugiam em direção ao pôr do sol. Havia uma bíblia, como há em todo o lado. Coisas da escola, com o 'Felizmente há luar', do Sttau, que ambos gostámos de ter sido obrigados a ler, em lugar de destaque.
Havia muito mais. Talvez, escondida, houvesse até uma lista de tudo aquilo com que fiquei.
Não conseguia pensar.
Só me ocorriam os pequenos almoços de fim de semana, na Baixa, tomados em silêncio no meio da estridência dos gritos das famílias com crianças pequenas que nos afogavam, só porque nós sempre deixávamos. E gostávamos.
E os jantares de todos os outros dias, também em silêncio. Uma batata frita de pacote, endurecida porque não havia dinheiro para comprar mais, sabia porventura melhor se os maxilares e a língua só se concentrassem no ato de comer. Nunca no de falar.
Talvez tenha sido esse o silêncio que acelerou aquela saída. E para trás ficaram tantas coisas....
penso em escrita envaidecida,
sem poeiras,
abalada por tremores de
anuências sem rosto,
avales de indolentes de escritório
que até arrastam o
tempo,
só porque o tempo lhes
ensina versos com verve,....
a minha escrita envaidecida,
será minha se nos versos
assinalares os limites
por onde posso ir,
aquelas ruas em que já passámos
há muito tempo,
e onde o tempo ficou refém
de velhos anónimos,
acalmados pelo sorver que
a morte tira dos ossos,
e cospe de volta nas esquinas
que o tempo vai glosando,....
a minha escrita envaidecida,
sinto,
vai acabar quando tu e eu
nos esforçarmos pelo fim
possível para um desejo,
embrutecido
vou escrevendo a minha verdade,
como se isso andasse
perdido pelos redondos da cidade,
não anda,
está escondido nos meus
nos teus,
em todos os bolsos rotos pelo
desespero,....
e ao longe a mediocridade
habitual dos que desenham
na terra
no seu não ser,
dizia,
estava o fechar do porto
da cidade,
para que a pureza pudesse
continuar,
só até ao tique do Tempo,....
diziam de tantas maneiras que
eram aquelas mulheres,
as mesmas que fechando as
frases de rendição,
estranhavam os textos que
a malformada indecisão
trazia,
todas as tardes,...
no seu não ser,
afrancesado,
com a mesma e indefinida
bruma das manhãs,
se calhar não estava nada
foi já há muito tempo mas eu não lamento eu não lamento não lamento o pouco tempo que foi. pois é parece que lamentar esse tempo que se diz pouco fá-lo maior mas já não é o que foi só finge ter sido mas não é.
Alberto Pimenta
ZOMBO, edições do saguão, 1.ª edição, Lisboa, Maio de 2019
maria foi indulgente com manuel,
manuel tentou perceber maria,
os dois assinaram
um documento de razões indissociadas,
maria prometeu fazer manuel feliz,
manuel escolheu partir sozinho,....
à hora em que os lados do
tempo se depreciam,
já ia no vértice
enviesado do mundo,
e nunca mais deu ao mundo
as partes enlutadas do
seu coração,...
maria não mais sorriu,
de manuel não mais se soube
Mesmo a saber que deixara de saber molhar a realidade com a dose certa de palavras disformes. Mesmo sentindo que caminhar nos intervalos que o sol me concede antes de um dia se desfazer em toda a escuridão que alguma vez houve,...
Mesmo a pedir que me deixem ser o bloco sólido de duvidas que sempre fui,...
Indisponível a que de mim façam ligações diretas ao âmago da Terra,...
Mesmo assim, preciso do luar. Não ha razão que sempre dure à ausência da noite,...
Nem os meninos a chorar porque nos menorizam a cada momento em face do fim que é certo...
de um lado a cidade anotada,
lembro-me do escritor que a desenhou em curvas irregulares de mulher transparente,
do outro a frase com que nos habituamos a viver,
o destino do sol era o meio desta indecisão,...
como se nada mais fizesse sentido no hibrido do silêncio,
ajoelhei-me em dez reis de passado,
e o que vi foi suplantado pelo anoitecer sem cor
seremos confundidos com
o amor,
a nós virão os equívocos
dos dias trôpegos,
como que o tempo a envelhecer
sem que o nosso corpo o acompanhe,...
falaremos de temas infelizes,
sem soluções aproximadas
de compromisso,
e em redor da assembleia
dos dias que correm,
o homem ressurgirá na solidão,
avesso ao que de comunitário
nos transpira da pele,...
e para que no alimentar das almas,
se pense de novo que a poesia
cura feridas,
virão os choros de criança,
a adormecer no que de
incerto tem a noite que cai